
O medo de estar sempre atrasado: como Lando Norris representa nossa geração atual
Uma análise sobre expectativas e sucesso na juventude.

Uma análise sobre expectativas e sucesso na juventude.

O podcast é um trabalho conjunto do Núcleo de Apoio a Diversidade Humana com a Rádio Web UFN.
A Agência CentralSul de Notícias faz parte do Laboratório de Jornalismo Impresso e Online do curso de Jornalismo da Universidade Franciscana (UFN) em Santa Maria/RS (Brasil).

Quem acompanha minimamente a Fórmula 1, com certeza já ouviu falar de Lando Norris, o jovem piloto da McLaren que se tornou campeão mundial em 2025. Lando entrou na F1 aos 19 anos, sendo um dos pilotos mais jovem do grid naquela época. Norris sempre teve um estilo autêntico que ia além das roupas modernas. Sempre chamou atenção por sua personalidade espontânea e cheia de humor, conhecido por ser o mais “baladeiro” entre todos.
Na Fórmula 1, tudo acontece muito rápido e a pressão é extrema. Os pilotos têm desde cedo suas vidas expostas, os erros que cometem são capturados por câmeras e vistos por todo o mundo. Não é só um esporte comum. As equipes têm contratos milionários e muita expectativa em quem vai pilotar. Além disso, as comparações entre colegas de equipe acontecem o tempo todo.
Lando demonstrava vulnerabilidade de forma humana. O “problema” é que essa forma de ser contrasta muito com o jeito sério e frio que muitos pilotos aprenderam a ter, tanto dentro quanto fora das pistas. Ele fugia do esperado. O atleta sempre comentava publicamente sobre a pressão que sentia, e demorou até conquistar seu lugar e seus títulos. Mas esse é um esporte de resultados, se você não traz bons resultados não pode continuar.
Lando via seus adversários e companheiros vencendo, pontuando, subindo ao pódio… e ele? Sendo esmagado por críticas e cobranças. Ele não era um piloto ruim, mas tinha seu próprio tempo. Só que o ambiente do automobilismo é altamente competitivo, cheio de questionamentos por parte da mídia e dos fãs. Norris se viu submerso em estresse constante, medo e ansiedade.
Soa familiar?

Essa situação aconteceu com Norris, mas não está tão longe quanto a gente imagina. Esse cenário conversa com a realidade de muitos jovens brasileiros de 17 a 30 anos, que sofrem com a famosa sensação de estarem sempre atrasados. O receio de não ser bom o suficiente, de ter que entregar resultados perfeitos de forma constante, de não poder errar em hipótese alguma, e ao mesmo tempo, ser o que todos esperam que você seja.
Esse tema virou assunto nas redes sociais, por tantos jovens descreverem o mesmo sentimento recorrente. As pesquisas feitas por uma empresa bancária canadense mostram que 53% da geração Z se sentem atrasados em suas próprias vidas.
Para Lando, assim como para muitas pessoas, a pressão passou a não vir apenas do adversário, mas de si mesmo. Podemos não ser pilotos de Fórmula 1, mas temos responsabilidades que para nós podem ser pesadas. Escola, vestibular, faculdade, estágio, trabalho, família, vida social… tudo pesa, tudo nos faz sentir atrasados. Como se a vida tivesse um timing exato para cada coisa: aos 19 começar a faculdade – aos 24 se formar – aos 25 ter um bom emprego – comprar uma casa e um carro – se casar aos 26 – ter filhos aos 28 e aos 30 estar com tudo estável, resolvido e perfeito.
Quando isso não sai exatamente como planejamos, a sensação de fracasso chega imediatamente. Lando via seus colegas conquistando títulos enquanto ele se dedicava e falhava. Em comparação, no cotidiano, vemos nosso primo da mesma idade se formando, outro amigo próximo se casando, a nossa amiga de infância tendo um filho… enquanto sentimos que estamos ficando para trás.
Mas…ficando para trás do que? Como podemos estar atrasados em nossa própria trajetória? Nosso jovem astro da McLaren nos mostra que vida não é linear e não segue um padrão. Assim como a carreira de Lando não foi perfeita. Houve derrotas, incertezas, erros… O desenvolvimento leva tempo.
No fim, depois de tantos altos e baixos, quem foi o Campeão Mundial da Fórmula 1 de 2025? Isso mesmo, Lando Norris! Mostrando a todos que a vitória não chega quando nós queremos, mas sim quando estamos prontos. A vitória vem no nosso próprio tempo, vem com dedicação. Não desistir já garante 50% das nossas chances.

Lando comentou diversas vezes sobre como lidou com a pressão, ansiedade e medo de que o afligiam: “Entrando na Fórmula 1 aos 19 anos há muitos olhos voltados para você. Lidar com todo esse tipo de coisa me afetou bastante: ‘Se isso der errado, se eu sair na próxima sessão e não tiver um bom desempenho, o que vai acontecer? Qual será o resultado de tudo isso? Estarei na Fórmula 1 no ano que vem? O que farei, já que não sou muito bom em muitas outras coisas na vida?'”
Segundo uma pesquisa feita pelo Estadão, 90% dos jovens da geração Z se sentem inseguros e ansiosos em relação ao seu futuro profissional. Aqui vemos que o que sentimos e pensamos não são experiências individuais, mas sim coletivas, e que ninguém está a frente ou atrás em sua própria vida. Sobre o assunto, Lando ainda complementou dizendo: “Além disso, me sentia deprimido a maior parte do tempo achando que, se tivesse um fim de semana ruim, não era bom o suficiente”.
No final das contas, seja um piloto na maior categoria do mundo, um estudante de medicina, um lojista, um vestibulando… todos enfrentamos desafios emocionais em nossa carreira e vida pessoal. Mas assim como Lando nos ensinou, não há nada errado em ser vulnerável, isso só nos torna humanos. Aliás, buscar ajuda psicológica auxilia nessa jornada e ajuda a carregar o peso invisível de nos sentirmos sempre atrasados.

A Universidade Franciscana também é um espaço dedicado à reflexão sobre saúde mental, especialmente no contexto da comunicação. Atendendo ao pedido do Núcleo de Apoio à Diversidade Humana (NAHD), foi criado o podcast Respiros, com o objetivo de promover o debate sobre saúde mental. A iniciativa busca oferecer informações, reflexões e sugestões práticas para que as pessoas possam entender melhor o tema e encontrar maneiras de cuidar de sua saúde mental. O programa é apresentado pela professora do curso de Jornalismo Glaíse Bohrer Palma, com participação fixa do professor do curso de Psicologia Félix Guazina.
O NADH oferece apoio psicológico e orientação psicopedagógica, além de desenvolver um trabalho integrado com alunos inclusos na instituição, em colaboração com as famílias, coordenação e professores. A Coordenadora do NAHD, Cristiane Bottoli, explica que a ideia ocorreu depois de terem surgido demandas relacionadas a saúde emocional: “Nada melhor do que utilizar a rádio para poder falar sobre assuntos do dia a dia das pessoas, e que nós reconhecemos como relevantes, para poder levar informação e conhecimento.” Cristiane ressalta que o podcast é importante para desmistificar as ideias que as pessoas tem sobre o tema, não só na Universidade mas de uma forma geral.
Para o psicólogo e participante fixo do programa, prof. Félix Guazina, é de extrema importância que a Universidade disponibilize um espaço para discutir saúde mental. Segundo ele: “As questões que envolvem saúde mental têm sido uma preocupação mundial. Podemos dizer que, nos últimos cinco anos, aumentou muito o número de alunos, docentes e técnico-administrativos demandando cuidados e atendimentos. Então, ter um canal vinculado ao NADH que possa pensar e trazer temas contemporâneos, que dialoguem com as demandas da Universidade, é muito importante para a prevenção da saúde mental.”
Félix também destaca o impacto da divulgação do podcast Respiros: “As temáticas que trabalhamos no podcast levam a comunidade acadêmica a pensar que a saúde mental não é apenas para quem tem algum transtorno, mas que também possam entender que o cuidado tem que ser para todos.”

Félix comenta sobre a importância do cuidado contínuo com a saúde mental: “É um desafio para todos nós, mas é preciso ter esse cuidado no cotidiano no meio da correria para respirar e ter momentos de lazer, porque vivemos em uma sociedade muita barulhenta que acaba não deixando a gente se escutar. Precisamos nos olhar de uma forma mais honesta e ter um cuidado integral com as nossas vidas.”
Acompanhe os episódios no Youtube da Rádio Web UFN e no Spotify. A cada 15 dias, um episódio novo trata sobre alguma tema relativo à saúde mental.