Futebol santa-mariense: a derrota fora das quatro linhas


Por Multijor

 

Uma bola furada, uma chuteira surrada resumem a situação atual  Crédito: Lorenzo Seixas

Uma bola furada, uma chuteira surrada resumem a situação atual.
Foto: Lorenzo Seixas

Pelotas. Estádio Boca do Lobo. Quando o árbitro pelotense Geovane Luis da Silva, por volta das 16h45min apita para encerrar a partida, ele não somente decreta o final da fase classificatória da Divisão de Acesso do Campeonato Gaúcho 2016, mas também o rebaixamento do Riograndense à terceira divisão do futebol estadual. Um pesadelo para um clube que entrou na competição com orçamento limitado esperando justamente evitar o rebaixamento. Foi um golpe duríssimo para a história do futebol santa-mariense.

Por volta do mesmo horário em Santa Maria, no Estádio Presidente Vargas, o Esporte Clube Internacional consegue na última partida a oportunidade de se salvar do mesmo destino do coirmão, cravando a ponta dos pés na Segundona Gaúcha e lá permanecendo, uma “redenção” cruel se comparada ao cenário futebolístico de 8 anos atrás na cidade coração do estado.

Um dos templos do futebol da cidade, hoje a Baixa Melancólica carrega apenas melancolias. Crédito: Lorenzo Seixas

Um dos templos do futebol da cidade, hoje a Baixada Melancólica carrega apenas melancolias.
Crédito: Lorenzo Seixas

Dois meses mais tarde, o Inter SM estreava na Copa FGF Sub-19, esperando conseguir alguma conquista ainda este ano, com um time montado às pressas e financiado pelas famílias dos jovens atletas. Mas os gols não vieram. O time oscilou muito ao longo da competição, apesar de ter no elenco jogadores talentosos, e terminou como vice-lanterna. Uma fonte ligada ao clube afirmou “estávamos muito confiantes e focados no nosso objetivo. Erramos muito mais que acertamos e em um campeonato de base de nível alto como esse. Não era uma opção errar”.

Thiago Rizzatti, 20 anos, jogador que atuou no profissional do Riograndense e depois foi um dos destaques do Inter SM na Copa FGF Sub-19, ponderou “Santa Maria nunca foi um centro do futebol. Existem pessoas muito boas por trás do esporte aqui, mas continuam sendo preciso mais investimentos fortes”.

motivo do momento atual

 

Uma pesquisa online realizada para esta reportagem, que ouvidas 109 pessoas, mostra que o torcedor santa-mariense concorda com Thiaguinho. Na enquete, a opção “a falta de investimento no esporte” foi selecionada 67 vezes, evidenciando assim a grave situação do desporto de Santa Maria.

acompanha futebol a nivel nacional internacional acompanha o futebol santamariense

De qualquer forma, a popularidade do esporte local já foi maior. Dos entrevistados, 67% acompanham futebol em nível nacional/internacional. Quando a pergunta é sobre os times de Santa Maria, o percentual cai para 33%, mostrando o desinteresse de uma porção dos apreciadores do esporte pelo futebol local.

Em 2008, contando com o constante apoio de sua torcida, o Esporte Clube Internacional de Santa Maria foi o 3º colocado no Campeonato Gaúcho Série A, e teve o direito de disputar o Campeonato Brasileiro Série C, em que foi eliminado na 1ª fase em um grupo com quatro times, estando a 1 ponto de distância do segundo colocado, o Marcílio Dias, de Santa Catarina. Foi o ápice do futebol da Cidade Coração do Rio Grande nos últimos anos, culminando com o rebaixamento do colorado a Divisão de Acesso em 2011, quando permaneceu de 2012 em diante brigando campeonato a campeonato com o Riograndense, que em 2010 havia encantado Santa Maria na mesma série B do Gauchão, fazendo bons dois primeiros turnos e sendo eliminado no terceiro após uma decaída drástica.

O professor e jornalista Gilson Piber fez sua análise dos últimos anos dos clubes. “O Inter-SM passa por uma recuperação financeira. Então, o investimento no futebol não é o ideal, ao menos por enquanto. O ano de 2016 foi ruim, mas ao menos o clube se manteve na Divisão de Acesso. Para o futuro, a tendência é pagar todas as dívidas e ter uma equipe de futebol competitiva, lutando por vaga para a Série A”. A respeito do Riograndense, Piber acrescentou: “O Riograndense teve um ano de 2016 péssimo. Foi rebaixado para a Terceirona e vai precisar lutar muito, em 2017, para voltar à Divisão de Acesso. O clube necessita, efetivamente, fazer as correções administrativas necessárias, alavancar recursos financeiros e ter um time competitivo para subir outra vez”.

Muito graças ao retrospecto recente dos clubes, existem muitas visões pessimistas sobre o futuro, mas Thiaguinho garante “Internacional e Riograndense são clubes muito conhecidos, acho que por chance não estão na elite do futebol gaúcho”. O meia, que passou junto com seu companheiro de Inter, Júlio Araújo, por um período de testes na base do Internacional de Porto Alegre em outubro frisa “Os clubes tem a tendência a crescer bastante, basta ter investidores. A falta de dinheiro nos clubes de Santa Maria é o principal agravante do desempenho”.

O time da cidade mais do que nunca precisa daqueles que o guardam no coração. Crédito: Lorenzo Seixas

Um dos times da cidade que mais do que nunca precisa daqueles que o guardam no coração / Foto: Lorenzo Seixas

Quando a nova temporada para os maiores de Santa Maria recomeçar em 2017, crescerão também os sonhos de milhares de torcedores e dezenas de atletas que irão fazer parte da campanha das equipes, e voltarão determinados, após anos e anos no ostracismo, a fazer renascer um único sentimento: o orgulho do santa-mariense.

Por Leonardo Machado e Lorenzo Seixas para o Jornal Abra

Sobre o autor:

Multijor

Multijor é o Laboratório de Jornalismo Multimídia do Curso de Jornalismo da Unifra. O laboratório é responsável pela produção de conteúdos digitais e pela gestão de mídias sociais.

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