A odisseia de ser mulher e motociclista


Por Thayane Rodrigues

 

Gosto de liberdade. Thayane Rodrigues. Foto: arquivo pessoal.

Este é  um relato pessoal e compartilhado. Começa com a reflexão sobre o fato de que quando uma menina completa 15 anos, todos sempre avisam que aquela idade só se faz uma vez. O que eles não dizem, na verdade, é ser assim em todos os anos. E se aos 15 a preocupação é terminar logo o ensino médio e saber que faculdade ou curso escolher, aos 18, se tudo der certo, estas perguntas já terão respostas (não é uma regra. Não existe idade limite para nada) e surgem, então, as responsabilidades.
No meu caso, tudo começou com a necessidade de tirar uma habilitação para dirigir. Pode parecer capricho, mas nunca me vi dirigindo um carro e, em parte, esse sentimento sempre teve muito a ver com a generalização acerca da mulher no trânsito – aquele pensamento coletivo de que todas somos más motoristas. Foi por isso que decidi que minha primeira habilitação me permitiria pilotar uma moto – na época, meados de 2015, uma bis 125 preta, bem cuidada e de única dona antes de mim que, após um acidente, havia deixado a moto parada na garagem.
Para a Dyenifer Batista, que trabalha como gerente de uma boutique de artigos para motociclistas, a paixão veio antes, quando ela ainda era pequena. Tendo a família toda envolvida no mundo das motocicletas, não houve dúvidas sobre a categoria da habilitação. Já para a Carol Moraes foi o incentivo de uma amiga que a fez optar pela letra A, já que ela tinha as duas opções em mãos. E para a Karen Flores, a questão do custo benefício de ter uma moto foi crucial na hora da decisão. Ela, que assim como eu, tem uma bis, também ficou encantada com a possibilidade de poder chegar aos lugares mais rapidamente.
Na classificação dos veículos, a bis é considerada uma motoneta cujos limites de velocidade são um pouco menores do  que os de  uma motocicleta, bem como a forma de dirigir  é um pouco diferente. Mas era confortável e, principalmente, útil para o que eu precisava: me movimentar entre trabalho, faculdade e lazer sem  ser uma eterna escrava do transporte público da cidade e, menos ainda, dos serviços privados – ambos extremamente ruins e caros. Até ali, tudo bem. O aprendizado sobre regras de trânsito, funcionamento da moto e aplicá-los fora do ginásio em que a auto-escola ensina, foi fácil. Ter uma moto pequena em uma cidade grande é tranquilo. Os motoristas não te olham torto, muitas vezes até são educados contigo – o que é raro em Santa Maria.

A  provação
Meu primeiro acidente aconteceu em novembro de 2015, uma sexta feira 13, abafada em final de ano. Um senhor achou que dava tempo de atravessar a avenida antes que eu passasse por ele. O que ele não previu – ou não lembrou- é que uma avenida,  geralmente, é caracterizada por ter duas mãos: uma que vai, outra que vem. E mesmo se houvesse tempo de atravessar a via por onde eu vinha, ele ainda dependia do que ocorria do outro lado para que a manobra desse certo. Não deu, e eu acabei atingindo em cheio a porta do carro dele. Um sujeito educado e muito calmo, cuja fisionomia  nunca vou esquecer. Assim que me dei conta da situação, o desespero veio dividido entre perder a minha carteira de habilitação que ainda era provisória, e minha moto destruída, cujo concerto não saiu barato. O resumo desse acontecimento foi favorável a mim. Eu tinha a preferência, tinha testemunhas e um galo bem grande na testa.
A Dyenifer também teve problemas devido à má sinalização da rodovia. E a Lisley sofreu dois acidentes em menos de seis meses. Em um deles, chegou a ficar de cadeira de rodas por um tempo. O que fica destes sustos são alguns arranhões, cicatrizes e uma sensação ruim toda vez que a cena parece começar a se repetir. No meu caso, durante muito tempo, toda vez que um carro cortava minha frente para atravessar uma avenida, meu coração batia forte e eu acabava, inconscientemente, acionando meus freios mesmo que o carro estivesse bem longe, o que me daria tempo suficiente para desviar.
O que acontece com a nossa forma de ver as coisas depois de uma experiência traumática é diferente para cada um. Algumas pessoas nunca mais repetem os hábitos que levaram ao fato, como a minha mãe que depois de bater o carro, não quis mais dirigir por um bom tempo. Ou, como a primeira dona da minha moto, que não chegou a sofrer nem um arranhão, mas que não conseguiu mais pilotar. A resposta de cada pessoa vai depender muito do que ela acredita e, até mesmo de como ela se comporta diante de uma situação de risco. Eu, depois do segundo acidente, em vez de parar de dirigir, comprei uma moto maior, mais forte, com freios mais inteligentes. Foi quando começaram as perguntas:  “Thayane, para quê uma moto tão grande?” Ou então, “porque tu não tira tua carteira de carro e vende logo essa moto? Bem mais seguro.” Essa última frase ouvi muito da minha mãe,  que não conseguia entender o porquê de, mesmo depois de vários tombos e machucados que demoraram para curar, eu não mudava de ideia.

Letícia Bordin Toescher. Foto: arquivo pessoal.

Lembrando disso agora, eu só consigo pensar em como deve ter sido chato para Letícia quando ela apareceu em cima da sua CRF250, num evento de velocross – esporte predominantemente praticado por homens.

Ainda que inofensivo, receber os olhares de outros caras de moto, incomoda bastante. Já perdi as contas de quantas risadinhas maliciosas, assovios e comentários maldosos eu já recebi enquanto estava em cima da minha moto, na rua. E por mais que todos os manuais de convivência em sociedade digam para evitar confrontos e abstrair tudo aquilo que não nos soma, sempre dá uma vontade de desligar a moto – no meio do trânsito mesmo, ir até o cara que falou alguma coisa malvada e perguntar: – o quê o mundo te fez e te faz pensar que eu não posso estar no mesmo lugar que tu?

Ser mulher e ter uma moto de alta cilindrada, além de todo controle que se precisa ter sobre ela, também exige saber  filtrar esse tipo de atitude o tempo todo.

Desde quando o gênero define alguma coisa?
Carol mesmo sendo bastante envolvida com o mundo das motos e tendo até mesmo participado de um moto grupo, percebeu que, sempre, ao opinar sobre o assunto, os caras não pareciam dar credibilidade para o conhecimento e aexperiência que ela tem. E a ela  ficava impossível não pensar que se fosse homem, isso seria diferente! Conversando com a Letícia, ela me lembrou do famoso clichê: “tinha que ser mulher”. O bordão está sempre lá, mesmo quando, na verdade, o autor da manobra errada e perigosa que causou transtorno na via tenha sido um homem. Se o motorista que está atrás não sabe disso, esse é o pensamento imediato. E se, por infeliz acaso do destino, tiver sido uma mulher na direção, a frase ganha uma falsa sensação de verdade que chega a doer só em escrevê-la.
A Lisley pilota uma Teneré 250, moto que chama a atenção pela aparência – ou talvez por quem a conduz: uma moça de piercing, alargador, sobrancelha marcada, batom escuro e um colete de couro que carrega o nome do moto grupo que ajudou a fundar, o Steel Ladies. Ela já teve que lidar com um ex-companheiro agressivo, para quem ela deveria não estar se envolvendo cada vez mais no mundo das motos. De alguma forma, ele pensou que a violência a faria parar.

– Somos 14 mulheres envolvidas com o Moto Grupo, sendo que dessas, nove são motociclistas e possuem colete fechado, e o restante são representantes, assim sendo não possuem o escudo do MG nas costas. Desde pequena sempre tive vontade de ter uma moto, viajar e participar de um moto grupo só de mulheres. Apesar disso, quando comecei a pilotar, fiz parte de um clube misto (homens e mulheres), mas depois de um tempo, resolvi que estava na hora de começar algo novo, que mostrasse a força da mulher. Então saí do clube, fiquei oito meses andando sozinha – respeitando o luto como a gente chama. E nesse tempo fui conversando com amigas e conhecendo outras mulheres que tinham o mesmo desejo. Por fim, decidimos fundar o Moto Grupo Steel Ladies (damas de aço), que começou com 10 mulheres de várias cidades do oeste catarinense, noroeste gaúcho e sudoeste do Paraná. Poder fazer parte do Grupo é a realização de um sonho, uma sensação que poucas pessoas têm na vida. É ter uma segunda família que divide contigo o mesmo amor pelo motociclismo e pela liberdade que as duas rodas nos proporciona. Hoje estamos com uma sub-sede em Porto Alegre, uma sede no oeste catarinense e membros e representantes no sudoeste do Paraná e com muitos planos para o futuro.

Lisley Secchi. Foto: Arquivo pessoal.

O motociclismo não é diferente no restante do mundo, sempre há quem pense que ele não pertence a nós, mulheres. Grande parte do preconceito que acontece no trânsito, pelo menos da forma como eu vejo e vivo, só acontece porque os homens são muito competitivos. É desafiador ver uma moto parar do teu lado da faixa e ter à frente, um caminho livre para acelerar – isso eu preciso admitir que acontece comigo também. Não é uma característica inteiramente masculina, gostar de velocidade. Mas nem sempre a cena se pinta dessa forma. Em um mundo ideal, o cara do carro ou da moto do lado acelera, te provoca, o sinal fica verde, vocês correm um pouco, e seguem seus caminhos mais animados, porque dirigir é muito bom. Só que na realidade, em várias vezes, eu levei sustos de caras me ultrapassando e cortando o meu caminho de maneiras bem perigosas – tanto para eles, quanto para mim. E é impossível não pensar sobre a real necessidade dessa situação.

Não é sobre vitimismo, é sobre respeito
Houve uma vez que em um sinal vermelho, uma outra moto guiada por um homem, parou do meu lado, acelerando, e com uma risada cheia de segundas intenções. Ele perguntou: “Tá sozinha? Quer companhia?”. E eis que toda aquela sensação de segurança que eu achei que ter uma moto me daria quando fiz a habilitação, por vezes, não existe. É tentador demais para um cara ver uma menina de shorts em cima de uma moto bonita. E eu preciso lembrar – por mais que seja óbvio, do quanto isso é constrangedor e desagradável! Eu adoro e acho muito legal quando estaciono em frente à faculdade e percebo que alguém ficou olhando para minha moto, porque ela é bonita, e merece ser admirada, sim. Mas porque existe esse respeito todo com ela, que é puramente mais de 100 quilos de motor e peças que fazem dela um veículo, mas não existe com(igo) quem a pilota?

A Dyenifer tem uma Mt03, uma moto linda por fora e poderosa por dentro. São 300 cilindradas sob o controle de uma moça baixinha e apaixonada por esse mundo, como eu. Quando a cidade foi palco do maior evento de motos do Sul do país, o Mercocycle, que em sua 21º edição, foi a minha primeira como habilitada, nos encontramos lá algumas vezes. E com essa temática de pauta em mente – a qual escrevo agora -, fiquei tentando buscar e identificar mulheres que estavam pilotando. Confesso que encontrei e conversei com poucas, mas vi muitas delas sorridentes, conversando entre si, e me senti alegre por estar ali. Em um ambiente considerado masculino, as mulheres davam cor e charme ao preto dos coletes de couro que vestiam.

– Como trabalho em uma revenda e participo de uma confraria de mulheres apaixonadas por moto, creio que não existe mais isso de preconceito, pois o mundo motociclista está cada vez mais diversificado, fazendo com que esse estereótipo de que só o homem pode pilotar – ainda mais se for uma moto de alta cilindrada, esteja perdendo cada vez mais a sua força. A mulher está tomando esse espaço, e só em aqui em Santa Maria, já temos um grupo de motociclistas de mais de 200 mulheres que viajam pelo mundo à fora, sozinhas. Sempre vai haver os indivíduos que não podem ver uma mulher pilotando, e vão reproduzir comentários maldosos, mas se você agir corretamente, não vai ter ninguém para julgar.

Estar em cima de uma moto de 250 cilindradas nesse último ano foi algo para o qual precisei criar motivos socialmente aceitáveis, quase o tempo todo. “Eu gosto, e ela é muito mais leve e segura do que aparenta”, e “sim, eu sei que ela é pesada e que preciso ter cuidado, mas não é linda?”.  O fato é que durante toda a história da mulher, a gente foi obrigada a calar nossas vontades e opiniões, quando a feminilidade era considerada uma desvantagem. Hoje – na maior parte do mundo, as coisas são diferentes. Tiramos carteira de habilitação, votamos, trabalhamos e somos independentes para escolher o que for melhor para o nosso futuro. E, às vezes, tudo do que não precisamos é da lembrança de que o machismo ainda tem força e sempre encontra maneiras cruéis de se manifestar.
Quando eu era pequena, minha bicicleta não era rosa, como a da maioria das outras meninas era. Atualmente, o dinheiro que eu ganho quase nunca vai para vestidos e festas, como a maioria das meninas da minha idade faz. Grande parte dele eu gasto na oficina, ajeitando minha moto. E até nesse lugar, ele ainda dá um jeito de aparecer!  Quando, depois de muito tempo, comecei a perceber que a minha moto sempre dava algum problema (o que me fazia ter que voltar para oficina logo em seguida),  vi que o mecânico – que sorria toda vez que me via-, só  o fazia porque era engraçado entre os outros mecânicos mexer em coisas que eu não entendia> Só para me fazer voltar lá,  para pedir ajuda. E esse tipo de atitude me fez trocar de uma oficina, que fica a um minuto da minha casa, para outra, que fica à dez,  mas que vale cada centavo de gasolina que gasto pra chegar lá!
Tomo as palavras de Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, Vol. 2, “uma mulher que despende suas energias, que tem responsabilidades, que conhece a dureza da luta contra as resistências do mundo, tem necessidade – como o homem – não somente de satisfazer seus desejos físicos como ainda de conhecer o relaxamento, a diversão (…)”.

Diversão essa que, para algumas meninas, como Letícia, Carol, Lisley, Karen, Dyenifer e Thayane, é ajeitar o cabelo, colocar o capacete, girar a chave da moto e acelerar. E esse texto tem a finalidade de demonstrar que, mesmo ficando na ponta do pé para segurar a moto, não poderíamos ser mais felizes. Algumas pessoas precisam de muito dinheiro, curtidas e seguidores. Outras só precisam de um tanque cheio e uma estrada para explorar.  Por fim, não cabe a ninguém julgar o próximo por suas escolhas e gostos. E muito menos interferir na liberdade de ir e vir. E eu sei que, por muito tempo ainda, vou precisar ter um cuidado triplicado no trânsito, porque além de egoísta e apressado, ele também é machista ao defender que o tanque de uma moto não é exatamente o tipo de tanque para o qual a mulher foi feita. Mas sabe de uma coisa? Já faz um bom tempo que o nosso lugar é onde a gente quiser que ele seja. E não tem buzina, piada maldosa ou comentário agressivo, nada que mude isso.

Esse texto só foi possível graças à Letícia Bordin Toescher, Dyenifer Martins Batista, Karen Flores, Lisley Secchi, e Caroline Moraes!

 

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