A senhora das mãos calejadas


Por Caroline da Costa

 

Parei para observar Dona Zenaide… uma senhora de uns 60 e poucos anos que mais parecia uma menina. Cabelos por fazer, fios loiros já esbranquiçados, presos por um nó de sabedoria. Face tímida e enrugada. Olhos semicerrados acompanhados da sinuosidade de um sorriso tímido que, por pouco, disfarçavam a exaustão da rotina da dona de casa na terceira idade. Na boca, exibe vestígios de um batom vermelho desbotado que revelava o pouco que sobrava da sua vaidade. Mas, o que mais me chamava a atenção eram suas mãos. Mãos grossas e calejadas, com infinitas linhas. Mãos estas de quem já fez muito por muito pouco, uma vez que não tinha nada, mas que não deixavam de ser delicadas e formosas.

Admirava ali, sem timidez, a simplicidade da senhora. Me pego a sorrir por tê-la em minha vida mas, confesso o medo de um dia vê-la partir. Minha avó, dona de mãos formosas que fazem o melhor café com leite e o melhor “pão de casa” do mundo. Meu sonho é que um dia meus filhos tenham a fortuna de viver uma vida com uma avó assim. Que saudade já sinto de ti. Que saudade já sinto de ter aqui. Dessa pessoa que não tem riqueza nenhuma, mas possui as maiores riquezas que podem-se ter: a humildade e a compaixão.

Tu és a senhora que leva a vida do jeito que dá. Que não se intimida com a tristeza da rotina e os problemas da vida e, mesmo que, por vezes ou sempre, sinta vontade de se abster, não deixa transparecer. Não sabes do mundo e não deixa que o mundo saiba nada de ti. Esconde seus anseios, desejos e pesadelos. Guarda para si a lamentação do jamais realizado.

Queria eu, eternizá-la, resolver teus problemas, fazer da tua vida diferente… curar tuas feridas da alma e enxugar tuas lágrimas secretas para que tu dormisse sossegada sem cismar com o amanhã. Queria eu, ter te ligado nas noites de chuva e ter te avisado que estava bem ao chegar em casa depois da aula. Ter aproveitado mais as manhãs em tua companhia, sentindo o cheirinho do teu café ao admirar teu pão sendo amassado. E mesmo que eu não possa, queria te jurar que tudo vai ficar bem.

Mas, ainda te tenho, a Senhora das Mãos Calejadas, de sonhos recatados, que não se intimida com os problemas da vida. Que ainda está aqui e por sorte minha ainda posso parar para te admirar, pegar na tua mão e sentir-te para tentar contar tuas infinitas linhas, mesmo que elas sejam in-con-tá-veis…

À minha avó Zenaide,

à todas as avós deste mundo,

à todos os netos para que aproveitem-nas, enquanto elas ainda estão aqui.

 

 

 

 

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