Quem são os donos das notícias no Brasil?


Por Sarah Rodrigues Vianna

 

O estudo sobre quem são os proprietários da mídia no Brasil  e denominado Monitoramento da Propriedade da Mídia no Brasil foi publicada pelo Intervozes e pela Repórteres Sem Fronteiras. A pesquisa revela que muitos dos veículos de maior audiência no país são também parte de grupos econômicos. Realizada em 2017 e publicada como série no Le Monde Diplomatique Brasil, o objetivo do MOM-Brasil é deixar visível quem controla a mídia brasileira. Foram analisados 50 veículos de maior audiência da comunicação brasileira, investigando os grupos e pessoas por trás desses meios.

O Media Ownership Monitor (MOM) é um projeto global que, através de uma metodologia padronizada, desenvolveu uma ferramenta de mapeamento que gera um banco de dados disponível publicamente, com informações sobre os proprietários dos maiores veículos e os grupos de mídia detentores desses meios, além de suas relações políticas e interesses econômicos. A informação é publicada em um site, em inglês e na língua local, e constantemente atualizada. O projeto também fornece uma contextualização de cada país, assim como uma análise de seu mercado de mídia e do marco regulatório do setor.

No Brasil, os pesquisadores são Olívia Bandeira, jornalista, doutora em Antropologia e integrante do Intervozes, e André Pasti, mestre em Geografia, professor do Cotuca/Unicamp, também integrante do Conselho Diretor do Intervozes e coordenador da pesquisa MOM-Brasil.

Como dito antes, foram 50 veículos pesquisados que, ao longo do estudo,  verificou-se serem controlados por 26 grupos e empresas. Desses 26 grupos, 21 deles, ou seus principais acionistas, possuem atividades em outros setores econômicos, como educacional, financeiro, imobiliário, agropecuário, energético, de transportes, infraestrutura e saúde.

No primeiro artigo analisado, foi colocado como o exemplo a disputa entre o empresário da mídia Silvio Santos e o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa, foi observado com isso que são dois modos distintos de ver as cidades: seus terrenos devem estar disponíveis a interesses privados, dando ênfase a seu valor de troca, ou o planejamento urbano deve levar em consideração o valor de uso.

Os pesquisadores relataram que as relações entre os grandes grupos de mídia brasileiros e o agronegócio são antigas, como conta a história do Grupo Folha. Essa ligação pode ser observada hoje em outros grupos, como Globo, Objetivo, RBS, Bandeirantes e Conglomerado Alfa. Como exemplo dessa questão agrícola, estão os membros da família Marinho, que são donos de diversas fazendas e empresas de produção agrícola, algo que ajuda a compreender as motivações dos bilionários donos do Grupo Globo quando sua rede de TV lança a campanha “Agro é Pop, Agro é Tech, Agro é Tudo” – informes publicitários que buscam criar uma imagem positiva do agronegócio.

Se pensarmos na questão religiosa, na mídia religiosa, hoje ela não é composta apenas por veículos de nicho. Os conteúdos religiosos circulam cada vez mais nos grandes meios de comunicação, seja naqueles que se definem como religiosos, seja nos veículos de interesse geral. Esses conteúdos muitas vezes são explícitos, outras, nem tanto, é preciso atenção.

Entre os cinquenta veículos de maior audiência no país, considerando os meios impressos, online, rádio e TV, nove deles são de propriedade de lideranças religiosas, todas cristãs, dominantes no Brasil. Entre as onze redes de TV de maior audiência, três são de propriedade de lideranças evangélicas (Record TV, Record News e Gospel TV) e uma de liderança católica (Rede Vida). Entre as doze redes de rádio, duas são evangélicas (Aleluia e Novo Tempo) e uma católica (Rede Católica de Rádio). Isso é chocante, mas para mim, não é surpreendente.

Já entre os dez sites de maior audiência e os dezessete veículos impressos pagos de maior tiragem, aparecem dois de propriedade de lideranças religiosas: o portal R7 e o jornal diário Correio do Povo, ambos do bispo evangélico Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).

Em um dos artigos, li o seguinte: “Ao assumir a presidência da Câmara dos Deputados, em 2015, o deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-membro da igreja Sara Nossa Terra e atual integrante da Assembleia de Deus Ministério Madureira, afirmou que “aborto e regulação da mídia só serão votados passando por cima do meu cadáver”.

A frase diz muito sobre a forma como igrejas cristãs têm atuado no Brasil nas últimas décadas”, esse argumento é a mais pura realidade, as igrejas cristãs, desde sempre manipulam as ideias da sociedade, e hoje em dia, isso não é diferente.

A continuação daquele argumento é de que as lideranças evangélicas e católicas atuam na esfera pública em defesa de valores considerados por elas como cristãos, sob a justificativa de que estariam agindo “em nome de Deus” e do direito de terem seus interesses representados, em uma visão de democracia que a define mais como um governo da maioria do que como um governo de todos.

A programação dessa mídia religiosa é voltada para a defesa de valores considerados como cristãos, e coincidem com grande parte da atuação de igrejas evangélicas e católicas no sistema político brasileiro. A defesa de questões morais, da chamada “família tradicional”, a condenação da homossexualidade e do aborto são algumas pautas que reúnem grande número de evangélicos e católicos de diferentes correntes doutrinárias em sua atuação no Congresso Nacional.

O mais importante de observar nesses artigos é que nada é feito na ingenuidade, na inocência. Tudo que vemos e lemos na mídia tem um grande controle por trás. É um negócio, é movido por interesses financeiros, empresariais, políticos e religiosos. Temos que desconfiar de tudo aquilo que a grande mídia nos impõe diariamente. Como futuros jornalistas e leitores temos que buscar novas fontes, nova informações, diferentes pontos de vista.

Sarah Vianna,acadêmica do curso de Jornalismo da Universidade Franciscana.

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