O impacto dos agrotóxicos atinge tudo e todos


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Imagem: Shutterstock/Banco de imagens

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que são os agrotóxicos?

Desde a Segunda Guerra Mundial, os agrotóxicos são utilizados como arma química. Depois, passou a ser usado como defensivo agrícola. Hoje esses produtos são conhecidos também como pesticidas, praguicidas, ou produtos fitossanitários. De acordo com a legislação brasileira, o termo utilizado é agrotóxico.

De acordo com a Lei n° 7.802/89, “agrotóxicos são os produtos químicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da fauna ou flora, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos, bem como substâncias e produtos empregados como desfolhantes, dessecantes, estimulantes e inibidores de crescimento”.

Há diversos tipos de agrotóxicos: fungicidas (atinge os fungos); herbicidas (atingem as plantas); inseticidas (atingem insetos); acaricidas (atingem os ácaros); e rodenticidas (atingem os roedores). Ainda, existem vários outros tipos que servem para outras finalidades como controlar as larvas, formigas, bactérias, entre outros. Os agrotóxicos são muito usados no Brasil pois por ser um país tropical  a incidência de pragas e doenças é maior que em outros países

A liberação de novos agrotóxicos no Brasil

Hoje o Brasil é o maior consumidor de defensivos agrícolas no mundo. Desde o início de 2019, foram liberados 239 (até junho de 2019) novos tipos parra uso. De acordo com o Ministério da Agricultura, a grande maioria das substâncias possuem fórmulas que já estão no mercado. Nessa lista, há produtos que foram proibidos na União Européia e há também alguns que são definidos pelo governo como perigosos para o ambiente.

Além dos produtos liberados até o meio deste ano, o governo já recebeu 440 outros pedidos de registro, que ainda precisam passar por etapas burocráticas para a liberação.

Curiosidade: Agrotóxicos pelo mundo

Um dos agrotóxicos mais utilizados foi encontrado em cereais nos Estados Unidos. A pesquisa foi feita pelo Environmental Work Group que analisou diversos tipos e marcas de cereais para identificar se havia agrotóxicos. Alguns níveis do glifosato estavam acima do que é considerado seguro para que crianças possam consumir.

O glifosato é um agrotóxico que tornou-se muito pautado pelo mundo, já que pode causar câncer. Estudos e pesquisas vêm sendo feitas. O fabricante – a empresa Monsanto – diz que é seguro para o uso. Há controvérsias. Uma delas refere-se ao fato de que a empresa teve que pagar mais de 1 milhão à um norte-americano que teve câncer. A organização nega que o glifosato cause câncer. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) manteve liberada a venda do produto no Brasil, argumentando que não há evidências científicas de que a substância cause câncer ou outros problemas graves de saúde.

 Problemas de saúde que podem ser causados por agrotóxicos

Além de causar a morte de várias colmeias. Os agrotóxicos também podem causar níveis graves de poluição ambiental, além de problemas de saúde pública. No ser humano, por exemplo, a intoxicação é uma das reações mais comuns.

A intoxicação por agrotóxicos pode ser aguda ou crônica. A aguda ocorre quando a pessoa é exposta a altas doses do produto. Entre os sintomas, estão náuseas, cãimbras, vômitos, dores de cabeça, dificuldade para respirar e convulsões. A intoxicação aguda é muito perigosa pois pode levar ao coma e até a morte. Na crônica, a causa é a exposição por um longo período de tempo, mas com doses menores. Essa intoxicação pode levar a vários problemas, como paralisia, esterilidade, abortos e câncer.

Outras consequências do contato com o agrotóxico são problemas nos rins, convulsões, redução da fecundidade, problemas no sistema nervoso e envenenamento. Além disso, os agrotóxicos podem também influenciar numa malformação de feto. Em bebês, eles podem ser  afetados o desenvolvimento cognitivo e a formação física.

O que acontece com os alimentos sob o uso de agrotóxicos?

 Muitos alimentos absorvem o agrotóxico. Mas, quando os produtos são lavados, é possível reduzir um pouco da quantidade de resíduos. Uma boa opção é deixar os alimentos de molho no hipoclorito de 15 a 30 minutos, após isso só finalizar a lavagem. Os agrotóxicos podem causar doenças a longo prazo, como cânceres, e problemas neurológicos.

Alimentos com agrotóxicos agem de forma cumulativa no organismo humano. Uma alternativa é aumentar a produção dos produtos orgânicos. No entanto, como eles possuem um custo mais alto, uma dica é fazer uma horta em casa para manter uma alimentação saudável e livre de possíveis venenos.

Meio Ambiente

Os agrotóxicos podem contaminar e poluir o solo, a água e até o ar. O solo pode ser contaminado facilmente, pois a aplicação do produto é direta nas plantas, ou até mesmo o solo poderá ser contaminado através da água que já esteja infectada pelo veneno. A água também pode ser contaminada.

Segundo uma pesquisa do IBGE, a contaminação dos rios por esses produtos só perde para a contaminação por esgoto. Além do solo e da água, o ar também pode infectar-se com o veneno e levar à intoxicação de pessoas e de organismos vivos.  “Se fossem diminuídos os processos de desmatamento com certeza não precisaria se utilizar de tantos agroquímicos. Pois os seres vivos – as pragas, como chamam –  não encontram um local adequado para se alimentarem e reproduzirem, então eles buscam as lavouras. Eles buscam a sobrevivência”, explica a bióloga e estudante do curso Técnico em Meio Ambiente da UFSM, Mariana Torri.

 A morte das colmeias

Hoje o Brasil abriga cerca de 300 espécies de abelhas nativas, entretanto, cada vez mais tem aumentado a incidência de morte de colmeias. O principal motivo disso é o uso de agrotóxicos.

De acordo com um levantamento feito pela Associação dos Apicultores Gaúchos, mais de 6 mil colmeias foram perdidas nos últimos meses. Portanto cerca de 150 toneladas de mel deixaram de ser produzidas.

Dados: Agência Pública e Repórter Brasil | Gráfico: Valéria Auzani.

Outro levantamento – feito pela Agência Pública e Repórter Brasil – revela que desde dezembro cerca 500 milhões de abelhas morreram.  Segue abaixo o gráfico com as maiores incidências:

O estado em que mais morreram abelhas foi o Rio Grande do Sul, com 400 milhões de abelhas mortas. As principais cidades atingidas são Jaguari, Santiago, Mata, Santana do Livramento, Cruz Alta, Boa Vista do Cadeado. Atrás do Rio Grande do Sul, temos Santa Catarina, com 50 milhões de abelhas mortas, 45 milhões em Mato Grosso do Sul (MS)  e  7 milhões em São Paulo (SP).

A morte das abelhas é um problema grave não só pela mortandade dos animais em si, mas pelas consequências que isso traz aos seres humanos. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

Dados: Aldo Machado, Cooperativa Apícola do Pampa Gaúcho | Imagem:: Valéria Auzani

“Então cada abelha contaminada contamina até 700 abelhas na colmeia. Em torno de 6 mil colmeias mortas. Isso implica em, mais ou menos, um prejuízo de 150 toneladas de mel. Mas essas 150 toneladas não são nada perto do prejuízo ambiental” – destaca Aldo Machado dos Santos, presidente da Cooperativa Apícola do Pampa Gaúcho. “Nós temos a aplicação incorreta de inseticidas e principalmente os que são usados junto com o secante. No caso aqui (no Rio Grande do Sul) o que mais está causando problemas mesmo é o Fipronil. Então, em mais de 80% dos casos que analisamos e acompanhamos, o princípio ativo que foi detectado nas abelhas foi o fipronil”, relata Aldo..

O Fipronil, no entanto, é proibido por normativas conjuntas do Ministério da Agricultura e do Ibama. A suspeita é a de que esse inseticida esteja causando a morte das abelhas. Fipronil é bastante utilizado nas lavouras de soja porque ele consegue controlar várias pragas ao mesmo tempo.

Aldo explica que, na preparação das lavouras, na primavera e no verão, alguns produtores rurais (a minoria) acabam usando esse produto de modo incorreto, pois colocam o Fipronil junto ao dessecante para esterilizar a lavoura, matar formigas, enfim, todos insetos que prejudicam o cultivo.  “Como é época de florada na lavoura, as abelhas acabam se contaminando por contato e ingestão, assim, terminam indo pra colmeia e atingindo as outras” explica Aldo.

Muitas vezes, o uso incorreto desses produtos se dá pela falta de orientação, ou até mesmo pela inexperiência do produtor. “Falta um treinamento por parte das empresas que vendem ou até mesmo das cooperativas […] deveria ter mais incentivo de um treinamento para esses agricultores terem uma boa base de como usar. Falta também uma visão das grandes empresas auxiliar o produtor nesse quesito”, comenta Mariana Torri.

Em setembro de 2018, foi publicado no  Proceedings of National Academy of Sciences (PNAS) o artigo Glyphosate perturbs the gut microbiota of honey bees, que procura explicar e conscientizar que, assim como  saúde dos seres humanos, a da abelha depende também de um ecossistema de bactérias que vive em seu trato digestivo. O Glifosato – agrotóxico mais usado no Brasil e no mundo – mata diversas  dessas bactérias. Ele causa um desequilíbrio que diminui a capacidade do organismo da abelha de combater infecções.

Para não causar danos à natureza e aos seres vivos, é necessário que esses produtos sejam usados com consciência. Como futura técnica em Meio Ambiente, Mariana Torri explica que “a maneira correta de utilizar os agroquímicos é seguir as orientações de um profissional da área. Um engenheiro agrônomo, ou alguém que seja formado em técnico agrícola, por exemplo. Para seguir corretamente com as orientações do fabricante do agroquímico e para ter certeza de que não é o agroquímico que está causando isso e sim a sobredose ou então a mistura com outros compostos como no caso o agrotóxico com o dessecante”.

Para mais informações:

Ministério da Agricultura

Ecycle

Texto de Valéria Auzani, para a disciplina de Jornalismo Investigativo, do Curso de Jornalismo da Universidade Franciscana. Produção do 1º semestre de 2019, sob orientação da professora Carla Torres.

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