Só as proibições são o caminho?


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Greve dos lixeiros em Córdoba, Espanha. Fotos: Carla Rossa. Arquivo ACS

É preciso começar por algum lado: sem canudo, faz favor

Em recente relatório[1], a organização não governamental WWF revelou que o Brasil é o quarto país maior produtor de lixo plástico no mundo. Os baixos índices de reciclagem (1,28% do que é produzido) tornam o plástico hoje um grande inimigo (e não somente os canudos plásticos). Segundo dados do Banco Mundial, produz-se no Brasil, por semana, um quilo de lixo plástico por habitante. A implementação do projeto “Noronha Plástico Zero” é um marco importante na conscientização do impacto que o plástico tem na localidade e para se refletir sobre os tipos de impacto que o turismo e o consumo podem ter.

Reconhecido destino de ecoturismo mundial, a Ilha de Fernando de Noronha, que já cobra taxas turísticas para os visitantes, abriga há mais de trinta anos um Parque Nacional Marinho, agora passou a proibir a entrada, uso e comercialização de plásticos descartáveis e isopor na Ilha. Para se ter uma ideia do impacto do plástico nos oceanos já foi registrada a ingestão de plástico em mais de 240 espécies animais em todo o mundo. Estima-se que mais de 160 milhões de toneladas de plástico tenham sido descartadas nos oceanos.

Notícias sobre a morte de animais em consequência do lixo plástico são frequentes. Em março, por exemplo, nas Filipinas uma baleia foi encontrada morta[2] com 40kg de sacolas plásticas no estômago e, em novembro do ano passado, uma baleia morreu com 1 tonelada de plástico[3] na Indonésia. Mas não é preciso ir longe. Em dezembro de 2018, no litoral de São Paulo um golfinho[4] foi encontrado morto com plástico no sistema digestório e um lacre plástico na boca que o impedia de abri-la.

A questão do plástico vai muito além das sacolas, canudos e garrafas pet. Os microplásticos são outro problema pois, como o nome indica, são pequenas partículas (com menos de 5mm de diâmetro), muitas vezes imperceptíveis a olho nu. Entre os produtos que contêm microplásticos estão as pastas de dentes, diferentes tipos de cosméticos como esfoliantes e um produto bastante utilizado no carnaval: o glitter[5], feito de PET e PVC, e escorre também das torneiras de casa, muitas vezes sem se saber. Segundo estudo publicado na revista científica Nature Geoscience, o número de plástico nos oceanos é ainda maior do que se pensava. Por essas e outras razões, já foram identificados microplásrticos em alimentos e bebidas, como cerveja, mel, água da torneira e água mineral engarrafada e, recentemente, microplásticos em fezes humanas.

O uso de lenços umedecidos não degradáveis também causa grave danos. A maior parte dos lencinhos à venda nos mercados são feitos com partículas plásticas e demoram muito tempo para se decompor. Como se não bastasse isso, principalmente, devido ao descarte incorreto, dentro do vaso sanitário, os lenços têm causado transtornos no tratamento de esgoto dos Estados Unidos, como Charleston[6] e Nova Iorque[7], e ilhas como Ibiza[8]. O Reino Unido já anunciou medidas para proibir os produtos não degradáveis (e contendo plástico) após terem sido encontradas mais de 5 mil lenços umedecidos no rio Tamisa[9].

As proibições no Brasil parecem ter começado com os canudos plásticos, reconhecendo que é necessário haver a mudança por algum lado. A ONG Ocean Conservancy revelou que em 2017, os canudos foram o sétimo item mais coletado nos oceanos. A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira capital a proibir a distribuição dos canudos plásticos (e embalagem plástica) em estabelecimentos alimentícios com multas de até 3 mil reais para os locais que descumprirem a lei. No Rio Grande do Sul, Santa Maria foi a primera cidade a proibir a distribuição de canudos descartáveis em estabelecimentos comerciais, restaurantes e rede hoteleira.

Na cidade de Rio Grande a proibição se restrige a beira da praia, contudo, comerciantes já vem fazendo a substituição por canudos de papel ou biodegradáveis. A Câmara de Porto Alegre já aprovou a lei que proibe a distribuição de canudos plásticos descartáveis, com exceção do atendimento a pessoas com necessidades especiais, e os comerciantes terão um ano para se adaptar. Outras cidades gaúchas como Tramandaí, Pelotas, Canoas, Santa Cruz do Sul também discutem medidas.

Fernando de Noronha é a primeira região do Brasil a proibir os plásticos e esse é um movimento crescente. No Caribe, a ilha de Dominica já baniu plásticos de uso único. A partir de maio, também estarão proibidos plásticos de uso único e não biodegradáveis na ilha de Capri, na Itália. Há Nações que possuem proibições mais amplas, principalmente em zonas costeiras. Nas Filipinas, na ilha de Boracay é proibido fumar, comer e consumir bebidas alcoólicas nas praias. Na Austrália é proibido consumir na praia, há locais específicos para isso, geralmente afastado da areia. A questão do lixo é tão séria que em Cingapura (ou Singapura) é proibido vender e mascar chiclete (e jogar lixo no chão pode custar um mil dólares. A Tailândia que já caminha para a redução[10] do consumo de plástico, precisou tomar medidas ainda mais drásticas proibindo a atividade turística na praia de Maya Bay, na Ilha de Phi Phi Leh e próxima dos recifes de corais, na costa leste de Phuket por tempo indeterminado. E o seu turismo é sustentável? Que tipo de impacto deixa na sua cidade? E quando viaja? Como será que tudo estará nos próximos anos?

[1] https://promo.wwf.org.br/solucionar-a-poluicao-plastica-transparencia-e-responsabilizacao?_ga=2.135194872.836866909.1555274933-802895369.1555274933

[2] https://www.bbc.com/portuguese/geral-47614367

[3] https://www.natgeo.pt/meio-ambiente/2018/11/baleia-morre-com-1000-plasticos-no-estomago

[4] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2018/12/06/interna-brasil,723707/golfinho-e-encontrado-morto-com-lacre-plastico-no-litoral-de-sao-paulo.shtml

[5] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42797763

[6] https://extra.globo.com/noticias/page-not-found/mergulhadores-descem-27-metros-de-esgoto-para-retirar-pilhas-de-lencos-umedecidos-23164894.html

[7] https://exame.abril.com.br/mundo/toalhinhas-umedecidas-desafiam-sistemas-de-esgoto-dos-eua/

[8] https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/23/internacional/1511452440_381067.html

 

[9] https://www.independent.co.uk/environment/wet-wipes-banned-uk-pollution-single-use-rubbish-sea-life-environment-a8340111.html

 

[10] https://www.efe.com/efe/brasil/sociedade/tailandia-enfrenta-dificil-caminho-para-deixar-dependencia-de-plastico/50000246-3900198

 

Alice Dutra Balbé,  doutora em Ciências da Comunicação e mestre em Informação e Jornalismo pela Universidade do Minho, Portugal,  jornalista egressa UFN.

 

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