Testes, pesquisas e resultados: como revelar o inimigo invisível


Por Lilian Streb

 

Para saber o verdadeiro cenário do Coronavírus e os números reais de infectados com a doença, especialistas e Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentam uma concordância de ideias: é preciso que a população seja testada o máximo possível, baseados no fato de que países que apresentaram alta capacidade de realizar testes em suas populações também tiveram maior capacidade de controlar a pandemia.

Em contrapartida, no Brasil, por exemplo, existe uma grande insuficiência de testes disponíveis no sistema de saúde. Isso faz com que os profissionais da área priorizem os pacientes com sintomas graves e do grupo de risco, a fim de “economizar” testes para esses casos e ir apenas isolando os possíveis assintomáticos e pessoas que tiveram contato com os infectados. Segundo Eduardo Furtado que atua no setor de virologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e está coordenando os testes diagnósticos da região, a prioridade de testagem é dos pacientes internados nas unidades de hospitais da cidade e profissionais da saúde em contato com os pacientes.

Para interpretar os dados da pandemia corretamente, o ideal seria saber quantos testes há disponíveis e quantos são aplicados em cada município de cada estado. No entanto, a Open Knowledge Brasil (OKBR) divulgou em seus índices de transparência da COVID-19 que somente quatro estados estão divulgando em seus boletins oficiais a quantidade de testes disponíveis, são o Espírito Santo (ES), Goiás (GO), Pernambuco (PE) e Paraná (PR).

Tipos de testes para o Coronavírus

Todos os testes para COVID-19 são totalmente seguros e não causam problemas a quem está sendo testado. Quanto à confiança na conclusão, há pontos que devem ser observados na hora da interpretação do resultado.

Os testes RT-PCT são os que identificam o vírus, ou seja, detectam a presença de seu material genético no corpo. Eles são 100% confiáveis se a coleta for realizada na janela de tempo certa, que é entre o 3º e o 10º dia após o início dos sintomas no paciente suspeito, pois esse é o tempo médio em que o vírus está totalmente ativo. Já se a coleta do material for realizada antes ou depois desse período, fica mais difícil detectar o material genético do vírus e, então, os resultados podem ser falsos. O teste RT-PCR é o único capaz de mostrar que a pessoa tem o vírus no momento da coleta e o único que pode provar que a infecção acabou, que é quando o teste para de detectar o material genético do vírus COVID-19 no paciente, pois ele já está recuperado.

Já os testes sorológicos usados para COVID-19 detectam anticorpos, ou seja, revelam se a pessoa teve contato com o vírus, ficou doente e então se recuperou. Com esse tipo de teste o sangue da pessoa deve ser coletado após o décimo dia desde o início dos sintomas. Se o teste for feito antes do décimo dia, haverá resultados falsos negativos, que é quando a pessoa está infectada, mas recebe um resultado negativo em função do exame ter sido feito no período errado. Já quando o sangue é coletado no período de tempo certo, a sensibilidade do teste sorológico é de 85%, ou seja, os resultados detectados nos anticorpos são corretos em 85% dos casos.

Existe também o teste rápido, que mostra o resultado em apenas alguns minutos e detecta a proteína do vírus no sangue do indivíduo. Em contrapartida, se o teste proporciona rapidez no resultado, sua sensibilidade é baixa. Segundo Laura de Freitas, Mestra e Doutora em Biociências e Biotecnologia Aplicadas à Farmácia, a sensibilidade desse teste é de apenas 25%, ou seja: só acerta 1 a cada 4 testes positivos. Isso pode gerar grande insegurança na população e nos dados da pandemia, além de não ajudar na decisão sobre se determinado paciente deve ou não ficar em isolamento.

Os testes mais utilizados para COVID-19 são o RT-PCR e o teste sorológico, ambos têm resultados em algumas horas. No entanto, esses resultados podem demorar para chegar ao paciente, pois precisam ser feitos em laboratórios autorizados e certificados para isso. Como poucos se encaixam nesse padrão, as análises acabam por sobrecarregá-los.

Os testes disponíveis no HUSM são o RT-PCR, já em laboratórios particulares o RT-PCR e teste rápido e em farmácias, o teste rápido. Segundo Flores, o tempo de espera para obter os resultados de testes da COVID-19 leva em torno de 6 a 8 horas desde o recebimento das amostras até o resultado, mas em virtude da logística o HUSM está liberando entre 24h até 48h. Quanto ao custeio e número de testes disponíveis, Flores revela que “os testes disponibilizados pelo HUSM foram custeados pelo Ministério Público do Trabalho, ou seja, seis mil testes que devem durar até agosto/setembro, depois teremos que buscar mais recursos”.

Testes no mercado

 Para que haja liberação dos testes para COVID-19, há um processo com várias etapas. Uma delas é o registro junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) com apresentação de documentos, ensaios clínicos e dados que indiquem sua segurança e eficácia, para que assim o produto seja avaliado, já que só é liberado se for capaz de dar o resultado correto para o qual foi desenvolvido. Segundo a ANVISA, entre os dias 18 de março e 16 de abril houve 157 solicitações, das quais apenas 39 foram aprovadas. Dos 39 aprovados, 21 eram testes rápidos.

Conforme a resolução nº 337 publicada no Diário Oficial da União, as farmácias também podem realizar testes rápidos de anticorpos e antígenos – substâncias estranhas no organismo que provocam a produção de anticorpos –  para o novo Coronavírus, porém a medida tem caráter temporário e excepcional. Mas mesmo que seja permitido, as farmácias devem atender aos requisitos técnicos de segurança para a testagem constantes nas diretrizes e o teste só pode ser realizado por um farmacêutico.

Com isso, a proposta ajuda a ampliar a testagem e acaba por reduzir a sobrecarga dos serviços públicos durante a pandemia, evitando que muitas pessoas vão até hospitais sem necessidade. Os resultados dos testes realizados pelas farmácias devem ser informados às autoridades de saúde, mesmo que sejam negativos.

O que dizem os pesquisadores?

 A Agência Bori divulgou o Webinar “Testes do Coronavírus: Possibilidades e Limites” realizado através do canal Cidacs Fiocruz em que o imunologista Manoel Barral Neto explica que um teste não substitui o outro. Segundo Barral, os testes são necessários e devem ser usados para se complementar e para que se entenda a presença, a eliminação do vírus e o desenvolvimento da resposta imune para uma eventual proteção. Outra medida, segundo ele, é fazer o teste em grupos populacionais.

A necessidade de testagem em massa mostrou a dificuldade que o Brasil tem na produção de testes, pois são poucas empresas que produzem o equipamento aqui no país e muitos componentes ainda são importados. A imunologista e pesquisadora do Laboratório de  Parasitologia Médica, Ester Sabino, é uma das líderes do sequenciamento genético do COVID-19 e esclarece como pode ser possível frear a disseminação do vírus: “É preciso aumentar a oferta de testes e achar formas se seguir rapidamente todos os compactantes das pessoas infectadas, essa é a questão chave para achar os locais de alta transmissão e bloquear populações de forma mais efetiva. Isso vai depender de sistemas de informação”.

A pesquisadora e cientista Jaqueline de Jesus, mestre em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa pelo Instituto de Pesquisas Gonçalo Moniz – Fundação Oswaldo Cruz (IGM-FIOCRUZ), também explica que outro fator importante é fazer a vigilância desse vírus, pois não se sabe como ele está se adaptando ao ambiente e à população brasileira. “A gente recebe amostras de diversos locais do país, mas tudo é subnotificado, por isso a importância da testagem até pra prever novos surtos. Há cidades do Brasil que ainda não foram atingidas pelo COVID-19, mas acreditamos que pelo fato da população não ter a imunidade para o vírus, ainda vão ter casos sim”, declara.

Dados e pesquisa

 Os dados da pandemia divulgados pelos canais oficiais não refletem a real situação do alcance do vírus, pois há vários empecilhos no caminho como a falta de testes e a circulação de pessoas, visto que mesmo que todos fossem testados agora, se a pessoa A está negativa hoje, pode se infectar daqui a dois dias e testar positiva, o que resulta em alteração de dados.

A primeira pesquisa brasileira que busca realizar um levantamento do número de infectados é uma iniciativa do Rio Grande do Sul (RS) que foi ampliada para o país. No estado, o estudo está sendo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e é realizado em nove cidades, sendo elas Porto Alegre, Canoas, Pelotas, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Passo Fundo, Ijuí e Uruguaiana. Com uma amostra representativa da população, o estudo é o único no mundo que tem quatro pontos de dados em uma mesma população, que são estimar o percentual de pessoas com anticorpos para o vírus, a velocidade, o número de infecções assintomáticas e a letalidade.

No dia 27 de maio, o governador do Estado do RS, Eduardo Leite, divulgou em videoconferência conjunta com  o Reitor da UFPel, Pedro Hallal, dados da quarta fase desta pesquisa, na qual foram realizados mais 4.500 testes rápidos, sendo 500 em cada cidade onde o estudo está sendo feito. Dos 4.500 testes, 8 apresentaram resultado positivo (4 deles em Passo Fundo), o que representa um infectado a cada 562 habitantes e uma estimativa de 20.226 pessoas com anticorpos no Rio Grande do Sul. O estudo mostra que não há um crescimento descontrolado do Coronavírus no estado gaúcho, mas, sim, uma estabilidade no crescimento do número de casos. Estima-se, portanto, que há três vezes mais casos confirmados do que os números notificados, mas o Estado é um dos que mais tem apresentado resultados favoráveis em relação ao enfrentamento da COVID-19. Segundo Leite, houve também uma estabilidade nas internações em hospitais do estado.

Das quatro fases já realizadas pelo estudo, esses são os melhores resultados até agora. Conforme anunciado pelo reitor da UFPel, a pesquisa terá ainda mais quatro fases e a previsão é de que ao total 36 mil pessoas sejam entrevistadas e testadas.

A pandemia no município de São Pedro do Sul

 O primeiro caso de Coronavírus em São Pedro do Sul foi confirmado nesta semana, no entanto, as ações solidárias para ajudar aqueles que já sentem os impactos da pandemia já acontecem desde muito antes. A Banda Marcial Independente de São Pedro do Sul (BMISPS) tem pouco menos de um ano de existência e – em decorrência do Coronavírus – as atividades tiveram que ser suspensas. Por conta disso, a BMISPS decidiu realizar uma campanha para contribuir com a sociedade, como a arrecadação de alimentos e materiais de higiene pessoal.

Segundo Emanoel Santos da Rocha, Presidente da Associação da Banda, a campanha possui pontos de coleta no Guincho do Tunicão, próximo à rodoviária, e na Igreja Pentecostal Mistérios da Fé, próximo ao cemitério municipal. “Toda doação é bem vinda e pedimos a colaboração de todos para que ajudem as campanhas que aparecerem. A música serve para unir e integrar as pessoas, e o objetivo da BMISPS é ajudar o máximo de pessoas que mais precisam nesse momento”, ressalta o Presidente. As doações farão parte de cestas básicas que vão ser confeccionadas e distribuídas. A arrecadação irá até o dia 13 de junho. Para mais informações, interessados em colaborar podem entrar em contato pelo telefone (55) 99905-2941, falar com Emanoel.

A Secretaria Municipal de Educação (SMEC) investiu em tecnologia para os professores da rede municipal utilizar para fins de pesquisas, controle, registro de aulas e da vida escolar dos alunos. A medida empregou em torno de 150 mil reais em tablets e capas protetoras. Desde o dia 01 de junho a reportagem tentou contato com a Secretaria para obter mais informações, mas até o fechamento desta reportagem não obteve retorno.

 

Esta  reportagem integra o Projeto Experimental em Jornalismo que busca aproximar a informação científica da comunidade de São Pedro do Sul, a fim de combater a desinformação e as Fake News por meio da produção de conteúdo com base científica, produzido pela acadêmica Lilian Streb sob orientação da professora Carla Torres.

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