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Em busca dos ghost-writers

Nas edições de final de semana, os jornais A Razão e Diário de Santa Maria costumam trazer em seus classificados anúncios ghost-writers (escritores fantasmas, em inglês, como são conhecidos) que produzem trabalhos acadêmicos. Quem anuncia o serviço costuma minimizar o conteúdo da atividade prestada através de publicidade camuflada.

Eacute; o caso do jornalista Reinaldo Vizcarra, que em um anúncio no Diário de Santa Maria, publicou na edição de 18-19 de março de 2006:

Na época, o jornalista publicou um texto diferente no jornal: “Monografias – Fazemos a sua, qualidade total, fazemos também projetos, artigos, revisão e diagramação de livros. F: 3217-1758 ou 9116-0130 Reinaldo Vizcarra”. Hoje, a estratégia é esconder o ofício em anúncios que oferecem serviços de digitação e formatação de textos.

As propagandas acima foram publicadas em A Razão, na edição de 18-19 de março de 2006.  Nossa equipe entrou em contato, por telefone, com estas pessoas. Tatiana Almeida, que publicou o anúncio intitulado “Monografias/Internet” afirmou realizar apenas os trabalhos anunciados e que não faz monografias.

Já em relação ao outro anúncio (Monografias/ABNT) quem atendeu foi a bacharel em Ciências Matemáticas, formada pela Universidade de Cruz Alta (Unicruz), Iara Barht. Ela diz morar há um ano e meio em Santa Maria e que neste período já conquistou muitos clientes na cidade. Ela cobra de R$ 1.500,00 a R$ 2.000,00 pela “ajuda” e critica quem simplesmente vende uma monografia sem auxiliar o acadêmico:

“Eu trabalho junto com o aluno, quem diz que faz o negócio e entrega a monografia no portão está enganando a pessoa”, afirma Iara. Ela também relata que levou cerca de 15 dias para assessorar um acadêmico de Direito de Santa Maria a concluir seu Trabalho Final de Graduação (TFG).

Em um novo contato, ela foi mais além: “Sete pessoas que se formam no fim do ano estão aqui comigo, todos da mesma turma”. Acreditando que falava com futuros clientes, ela indicou as defesas de dois alunos para os quais trabalhava. Para estes dois, Iara salienta que está terminando de formatar as monografias, mas que se o aluno precisar de ajuda para encontrar o tema, ela “senta” e conversa com o aluno. “Eu posso corrigir o português, eu faço a concordância nominal, eu coloco nas normas, se tem um autor que está meio fraco, eu posso encontrar outro. Eu faço orientação particular, eu não vendo trabalho”, despista.

Iara enfatizou diversas vezes que não vende trabalhos e sim presta assessoria a seus clientes, mas confessa “se você não tem um tema ainda, você vai vir aqui que a gente vai encontrar um tema. Eu faço o que um professor orientador às vezes não consegue fazer, que não dá tempo”.

Se não for comprovado o plágio, redigir uma monografia para alguém não é considerado crime, mas é antiético uma vez que o aluno está sonegando à banca que foi ajudado por alguém ou mesmo que outra pessoa tenha feito o trabalho. Também existe a possibilidade de o autor do texto, no caso o ghost-writers, responder por falsidade ideológica.

A grande questão que cerca a confecção de monografias é referente ao plágio, porque envolve direitos autorais. Documentos da assessoria jurídica da Unifra explicam como lidar com o plágio em sala de aula. Quem comete plágio estaria sujeito às seguintes sanções legais: uma indenização por dano patrimonial, uso indevido da obra; e uma indenização moral pela mesma razão, isso por conta da subdivisão do direito autoral em patrimonial e moral.

No entanto, nem a universidade nem os professores podem entrar com uma ação contra o aluno. Quem pode processar é o dono da obra. Por este motivo, é difícil coibir o plágio e a história fica limitada à instituição. 

O lado de quem já comprou uma monografia

Outro estimulo para os acadêmicos a comprarem monografias e que também é defendido por Iara é a falta de tempo ou insegurança para estruturar uma pesquisa. A compra de monografias é realizada por acadêmicos de diversas áreas de conhecimento. Seja de Direito, Matemática, Pedagogia ou Jornalismo, alguns acadêmicos precisam de seus trabalhos finais de conclusão de curso para alcançarem o tão esperado diploma.

Foi assim com Pablo*, hoje advogado de 27 anos, sócio de um escritório de Advocacia em Cassino. Ele se formou em 2000 em Direito pela Unicruz e confessa ter feito parte do esquema de compra de monografias. Conversamos com ele pelo telefone e descobrimos o que motivou a ação e como foram as negociações.

Onde você comprou a monografia e como ficou sabendo da pessoa? O cara era de Cruz Alta mesmo, já era formado em Direito, e fazia e vendia monografias pra vários acadêmicos, e acabei conhecendo ele por meio de amigos na própria Unicruz.

Porque você optou pela compra e não pela pesquisa, como a maioria dos acadêmicos?   É que naquela época não era obrigatório defender a monografia perante a banca, era opcional, daí como eu estava com estágios e tive medo de não conseguir fazer bem o trabalho, pensei em comprar. Pelo menos teria a garantia de um bom trabalho.

Como foi a tua negociação com ele? Bom, ele fazia em partes a monografia. Fazia um capítulo e eu levava para o orientador corrigir, daí devolvia para o cara e o cara fazia as correções. E assim foi até a finalização da monografia.

Quanto tempo ele levou para fazer o trabalho? Olha mais ou menos uns 4 meses de função, entre levar, o orientador corrigir e devolver para ele. Acho que é o tempo que os alunos normais levam, não é?

E quanto foi o valor total pago? Foram feitos em torno de 4 ou 5 depósitos na conta dele, o depósito era feito por mês. Ele me cobrou em torno de R$600 a R$800 pra fazer a monografia. Mas o pagamento em parcelas me garantia de que ele ia me entregar a monografia pronta e com tudo que precisava, sabe.

E você nunca sentiu medo de ser descoberto? Não senti medo algum, mas sabe por quê? Porque naquela época que me formei, não era obrigatório defender a monografia para uma banca, como é hoje. Era só elaborar, levar para o orientador corrigir, entregar e pronto. Era muito barbada.

Mas assim como você ficou sabendo do ‘vendedor de monografias’ dentro da faculdade, lá mesmo podia surgir que você também havia comprado… Claro. Isso podia até. Mas seria boato, assim como todos os outros que dizem que compraram. Porque quem me vendeu jamais forneceria as provas, ele era formado, tinha carteira da OAB, e pedia sigilo total, senão a carteira dele poderia ser caçada e ele processado pela OAB. Por isso eu nem tinha medo! (risos)

E a nota? Como foi a satisfação de ver a nota de uma pesquisa que não foi sua? A nota eu não lembro, porque na época eles reuniam uma banca e avaliavam o projeto, sabe, metodologia, essas coisas. Mas sei que foi suficiente para eu passar. E pra falar a verdade, eu queria mesmo era me formar. Eu sabia que não seria um advogado pior por isso.

Valeu a pena? Com certeza!! A sensação quando entreguei a monografia foi de satisfação e de dever cumprido.

*Pablo é um nome fictício para preservar a identidade do entrevistado.

 

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Nas edições de final de semana, os jornais A Razão e Diário de Santa Maria costumam trazer em seus classificados anúncios ghost-writers (escritores fantasmas, em inglês, como são conhecidos) que produzem trabalhos acadêmicos. Quem anuncia o serviço costuma minimizar o conteúdo da atividade prestada através de publicidade camuflada.

Eacute; o caso do jornalista Reinaldo Vizcarra, que em um anúncio no Diário de Santa Maria, publicou na edição de 18-19 de março de 2006:

Na época, o jornalista publicou um texto diferente no jornal: “Monografias – Fazemos a sua, qualidade total, fazemos também projetos, artigos, revisão e diagramação de livros. F: 3217-1758 ou 9116-0130 Reinaldo Vizcarra”. Hoje, a estratégia é esconder o ofício em anúncios que oferecem serviços de digitação e formatação de textos.

As propagandas acima foram publicadas em A Razão, na edição de 18-19 de março de 2006.  Nossa equipe entrou em contato, por telefone, com estas pessoas. Tatiana Almeida, que publicou o anúncio intitulado “Monografias/Internet” afirmou realizar apenas os trabalhos anunciados e que não faz monografias.

Já em relação ao outro anúncio (Monografias/ABNT) quem atendeu foi a bacharel em Ciências Matemáticas, formada pela Universidade de Cruz Alta (Unicruz), Iara Barht. Ela diz morar há um ano e meio em Santa Maria e que neste período já conquistou muitos clientes na cidade. Ela cobra de R$ 1.500,00 a R$ 2.000,00 pela “ajuda” e critica quem simplesmente vende uma monografia sem auxiliar o acadêmico:

“Eu trabalho junto com o aluno, quem diz que faz o negócio e entrega a monografia no portão está enganando a pessoa”, afirma Iara. Ela também relata que levou cerca de 15 dias para assessorar um acadêmico de Direito de Santa Maria a concluir seu Trabalho Final de Graduação (TFG).

Em um novo contato, ela foi mais além: “Sete pessoas que se formam no fim do ano estão aqui comigo, todos da mesma turma”. Acreditando que falava com futuros clientes, ela indicou as defesas de dois alunos para os quais trabalhava. Para estes dois, Iara salienta que está terminando de formatar as monografias, mas que se o aluno precisar de ajuda para encontrar o tema, ela “senta” e conversa com o aluno. “Eu posso corrigir o português, eu faço a concordância nominal, eu coloco nas normas, se tem um autor que está meio fraco, eu posso encontrar outro. Eu faço orientação particular, eu não vendo trabalho”, despista.

Iara enfatizou diversas vezes que não vende trabalhos e sim presta assessoria a seus clientes, mas confessa “se você não tem um tema ainda, você vai vir aqui que a gente vai encontrar um tema. Eu faço o que um professor orientador às vezes não consegue fazer, que não dá tempo”.

Se não for comprovado o plágio, redigir uma monografia para alguém não é considerado crime, mas é antiético uma vez que o aluno está sonegando à banca que foi ajudado por alguém ou mesmo que outra pessoa tenha feito o trabalho. Também existe a possibilidade de o autor do texto, no caso o ghost-writers, responder por falsidade ideológica.

A grande questão que cerca a confecção de monografias é referente ao plágio, porque envolve direitos autorais. Documentos da assessoria jurídica da Unifra explicam como lidar com o plágio em sala de aula. Quem comete plágio estaria sujeito às seguintes sanções legais: uma indenização por dano patrimonial, uso indevido da obra; e uma indenização moral pela mesma razão, isso por conta da subdivisão do direito autoral em patrimonial e moral.

No entanto, nem a universidade nem os professores podem entrar com uma ação contra o aluno. Quem pode processar é o dono da obra. Por este motivo, é difícil coibir o plágio e a história fica limitada à instituição. 

O lado de quem já comprou uma monografia

Outro estimulo para os acadêmicos a comprarem monografias e que também é defendido por Iara é a falta de tempo ou insegurança para estruturar uma pesquisa. A compra de monografias é realizada por acadêmicos de diversas áreas de conhecimento. Seja de Direito, Matemática, Pedagogia ou Jornalismo, alguns acadêmicos precisam de seus trabalhos finais de conclusão de curso para alcançarem o tão esperado diploma.

Foi assim com Pablo*, hoje advogado de 27 anos, sócio de um escritório de Advocacia em Cassino. Ele se formou em 2000 em Direito pela Unicruz e confessa ter feito parte do esquema de compra de monografias. Conversamos com ele pelo telefone e descobrimos o que motivou a ação e como foram as negociações.

Onde você comprou a monografia e como ficou sabendo da pessoa? O cara era de Cruz Alta mesmo, já era formado em Direito, e fazia e vendia monografias pra vários acadêmicos, e acabei conhecendo ele por meio de amigos na própria Unicruz.

Porque você optou pela compra e não pela pesquisa, como a maioria dos acadêmicos?   É que naquela época não era obrigatório defender a monografia perante a banca, era opcional, daí como eu estava com estágios e tive medo de não conseguir fazer bem o trabalho, pensei em comprar. Pelo menos teria a garantia de um bom trabalho.

Como foi a tua negociação com ele? Bom, ele fazia em partes a monografia. Fazia um capítulo e eu levava para o orientador corrigir, daí devolvia para o cara e o cara fazia as correções. E assim foi até a finalização da monografia.

Quanto tempo ele levou para fazer o trabalho? Olha mais ou menos uns 4 meses de função, entre levar, o orientador corrigir e devolver para ele. Acho que é o tempo que os alunos normais levam, não é?

E quanto foi o valor total pago? Foram feitos em torno de 4 ou 5 depósitos na conta dele, o depósito era feito por mês. Ele me cobrou em torno de R$600 a R$800 pra fazer a monografia. Mas o pagamento em parcelas me garantia de que ele ia me entregar a monografia pronta e com tudo que precisava, sabe.

E você nunca sentiu medo de ser descoberto? Não senti medo algum, mas sabe por quê? Porque naquela época que me formei, não era obrigatório defender a monografia para uma banca, como é hoje. Era só elaborar, levar para o orientador corrigir, entregar e pronto. Era muito barbada.

Mas assim como você ficou sabendo do ‘vendedor de monografias’ dentro da faculdade, lá mesmo podia surgir que você também havia comprado… Claro. Isso podia até. Mas seria boato, assim como todos os outros que dizem que compraram. Porque quem me vendeu jamais forneceria as provas, ele era formado, tinha carteira da OAB, e pedia sigilo total, senão a carteira dele poderia ser caçada e ele processado pela OAB. Por isso eu nem tinha medo! (risos)

E a nota? Como foi a satisfação de ver a nota de uma pesquisa que não foi sua? A nota eu não lembro, porque na época eles reuniam uma banca e avaliavam o projeto, sabe, metodologia, essas coisas. Mas sei que foi suficiente para eu passar. E pra falar a verdade, eu queria mesmo era me formar. Eu sabia que não seria um advogado pior por isso.

Valeu a pena? Com certeza!! A sensação quando entreguei a monografia foi de satisfação e de dever cumprido.

*Pablo é um nome fictício para preservar a identidade do entrevistado.