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Santa Maria, RS, Brazil

Está na hora de pararem com o “Jornalismo Sorriso”

  “Naquele momento havia um único veículo de comunicação, e ele vendia a vitória como certa, o que não existe em futebol.” Esta recente declaração do ex-jogador Sócrates, publicada na Revista Trivela no mês de maio passado, sintetiza muito bem o espírito da cobertura da Rede Globo em relação à Copa do Mundo da Espanha em 1982 . Mas por quê relembrar desta amarga lembrança que foi a derrota do Brasil para a Itália?

         

            Muito bem. Antes de qualquer coisa, alerto que o conteúdo deste não diz respeito a exercícios táticos de futurologia futebolística. Tão pouco busca questionar o “monopólio Rede Globo” ou de dizer que “eles são assim, ou são assado”. Não é isto. O que chamo a atenção é para a cobertura extremamente ufanista e desvairada em cima da Seleção Brasileira, cobertura esta iniciada quando a seleção chegou à Suíça, prosseguiu nas cidades-sedes dos jogos na Alemanha e findou no dia em que perdemos (de forma desonrada, cabe ressaltar…).

            São questões que venho pensando cá com meus botões há muito tempo. Afinal de contas, desde o triste episódio da eliminação pelos italianos naquele cinco de julho de 1982, muita coisa aconteceu com nossa seleção e claro com o país.

          Depois dos fracassos de 1986 e 1990, chegamos ao tetra em 1994, ao vice em 1998 e ao penta de 2002. Não temos mais ditadura e sim uma democracia (embora as mazelas sociais continuem). Mas se existe um ponto que piorou, foi o avanço cada vez mais escancarado do desvario, ufanismo e principalmente, bajulação à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e à nossa seleção, e de forma escandalosa! A isto, chamo de “jornalismo sorriso”.

            Como funciona? Jornalistas transformam-se em animadores de auditórios falando gracinhas no estilo “informal”, ou então proferindo vivas aos jogadores do nosso selecionado, sem qualquer critério de análise crítica… Quando digo crítica, quero dizer, a mesma sendo feita de maneira sensata e equilibrada, sem ranços ou radicalismos. Neste ponto não há escapatória: a Rede Globo é líder absoluta em praticar o “jornalismo sorriso”, com um verdadeiro time de craques tanto dentro do campo.

            Rebobinando a minha fita da memória pessoal em Copas do Mundo (que não é lá grande coisa) fui buscar as origens desta forma exótica de jornalismo. Retomo a declaração do ex-jogador Sócrates, na Copa da Espanha: tivemos dois momentos: uma euforia inicial e depois a tragédia, quando perdermos o jogo para a Itália. A um dos pontos que da sua declaração “havia um único veículo de comunicação” era a Rede Globo (que como hoje) foi a única emissora a transmitir os jogos da seleção brasileira. A diferença é que naquela época não tínhamos tv por assinatura nem Internet, ou seja, formas de comunicação em tempo real… Havia sim o persistente rádio AM que está ai até hoje. E foi ai que vimos surgir o jornalismo sorriso, comandado por Luciano do Valle, e criou-se uma celeuma que já éramos campeões. O Brasil perdeu e Luciano logo em seguida saiu da emissora carioca para nunca mais voltar. Na época, falou-se que esta saída estava ligada ao fracasso do Brasil. 

         Luciano saiu, mas deixou um sucessor: Fernando Vanucci, que na Copa do Mundo seguinte – México 1986 – logo após os jogos do Brasil, aparecia na tela, com cornetas, apitos, eufórico e enlouquecido com as vitórias do Brasil, até chegarmos no fatídico jogo contra a França, quando “Les Bleus”(Os Azuis)  nos mandaram embora mais cedo….Ele ainda ficou lá mais um tempo mas nunca mais apareceu como representante do “jornalismo sorriso”!!!!

            Já para a Copa do Mundo da Itália, em 1990, em razão do nível técnico muito baixo, não somente do Brasil, mas de todas as seleções, não foi possível emplacar um digno sucessor do “jornalismo sorriso”. Isto ficou para 1994, com ele, é claro… Galvão Bueno!!! E desde então, ele vem sendo o grande capitão deste time juntamente com outros colegas jornalistas e apresentadores.

            Finalizo com um questionamento a você, caro internauta: “O jornalismo sorriso é a única forma possível de uma emissora poderosa manter a audiência em coberturas de Copa do Mundo ou ela tem alternativa de sair desta mesmice?” Enfatizo, portanto, a necessidade de iniciarmos uma campanha contra o “Jornalismo Sorriso”. Por outro lado, constato o quanto de medíocre é o nosso jornalismo esportivo com raras exceções. Para mim, a maior delas é do Canal ESPN/Brasil, infelizmente, restrito a televisão paga, portanto, fora do alcance de grande parte dos apreciadores do mundo da bola. Mas quem sabe um dia, poderemos ver o bom jornalismo esportiva sendo regra e não exceção? É esperar, fazer o que????!!!!

Cassiano Scherner é jornalista, mestre em Comunicação Social pela PUC/RS e apreciador do bom futebol e também das coberturas sobre futebol feitas com seriedade e competência.

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  “Naquele momento havia um único veículo de comunicação, e ele vendia a vitória como certa, o que não existe em futebol.” Esta recente declaração do ex-jogador Sócrates, publicada na Revista Trivela no mês de maio passado, sintetiza muito bem o espírito da cobertura da Rede Globo em relação à Copa do Mundo da Espanha em 1982 . Mas por quê relembrar desta amarga lembrança que foi a derrota do Brasil para a Itália?

         

            Muito bem. Antes de qualquer coisa, alerto que o conteúdo deste não diz respeito a exercícios táticos de futurologia futebolística. Tão pouco busca questionar o “monopólio Rede Globo” ou de dizer que “eles são assim, ou são assado”. Não é isto. O que chamo a atenção é para a cobertura extremamente ufanista e desvairada em cima da Seleção Brasileira, cobertura esta iniciada quando a seleção chegou à Suíça, prosseguiu nas cidades-sedes dos jogos na Alemanha e findou no dia em que perdemos (de forma desonrada, cabe ressaltar…).

            São questões que venho pensando cá com meus botões há muito tempo. Afinal de contas, desde o triste episódio da eliminação pelos italianos naquele cinco de julho de 1982, muita coisa aconteceu com nossa seleção e claro com o país.

          Depois dos fracassos de 1986 e 1990, chegamos ao tetra em 1994, ao vice em 1998 e ao penta de 2002. Não temos mais ditadura e sim uma democracia (embora as mazelas sociais continuem). Mas se existe um ponto que piorou, foi o avanço cada vez mais escancarado do desvario, ufanismo e principalmente, bajulação à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e à nossa seleção, e de forma escandalosa! A isto, chamo de “jornalismo sorriso”.

            Como funciona? Jornalistas transformam-se em animadores de auditórios falando gracinhas no estilo “informal”, ou então proferindo vivas aos jogadores do nosso selecionado, sem qualquer critério de análise crítica… Quando digo crítica, quero dizer, a mesma sendo feita de maneira sensata e equilibrada, sem ranços ou radicalismos. Neste ponto não há escapatória: a Rede Globo é líder absoluta em praticar o “jornalismo sorriso”, com um verdadeiro time de craques tanto dentro do campo.

            Rebobinando a minha fita da memória pessoal em Copas do Mundo (que não é lá grande coisa) fui buscar as origens desta forma exótica de jornalismo. Retomo a declaração do ex-jogador Sócrates, na Copa da Espanha: tivemos dois momentos: uma euforia inicial e depois a tragédia, quando perdermos o jogo para a Itália. A um dos pontos que da sua declaração “havia um único veículo de comunicação” era a Rede Globo (que como hoje) foi a única emissora a transmitir os jogos da seleção brasileira. A diferença é que naquela época não tínhamos tv por assinatura nem Internet, ou seja, formas de comunicação em tempo real… Havia sim o persistente rádio AM que está ai até hoje. E foi ai que vimos surgir o jornalismo sorriso, comandado por Luciano do Valle, e criou-se uma celeuma que já éramos campeões. O Brasil perdeu e Luciano logo em seguida saiu da emissora carioca para nunca mais voltar. Na época, falou-se que esta saída estava ligada ao fracasso do Brasil. 

         Luciano saiu, mas deixou um sucessor: Fernando Vanucci, que na Copa do Mundo seguinte – México 1986 – logo após os jogos do Brasil, aparecia na tela, com cornetas, apitos, eufórico e enlouquecido com as vitórias do Brasil, até chegarmos no fatídico jogo contra a França, quando “Les Bleus”(Os Azuis)  nos mandaram embora mais cedo….Ele ainda ficou lá mais um tempo mas nunca mais apareceu como representante do “jornalismo sorriso”!!!!

            Já para a Copa do Mundo da Itália, em 1990, em razão do nível técnico muito baixo, não somente do Brasil, mas de todas as seleções, não foi possível emplacar um digno sucessor do “jornalismo sorriso”. Isto ficou para 1994, com ele, é claro… Galvão Bueno!!! E desde então, ele vem sendo o grande capitão deste time juntamente com outros colegas jornalistas e apresentadores.

            Finalizo com um questionamento a você, caro internauta: “O jornalismo sorriso é a única forma possível de uma emissora poderosa manter a audiência em coberturas de Copa do Mundo ou ela tem alternativa de sair desta mesmice?” Enfatizo, portanto, a necessidade de iniciarmos uma campanha contra o “Jornalismo Sorriso”. Por outro lado, constato o quanto de medíocre é o nosso jornalismo esportivo com raras exceções. Para mim, a maior delas é do Canal ESPN/Brasil, infelizmente, restrito a televisão paga, portanto, fora do alcance de grande parte dos apreciadores do mundo da bola. Mas quem sabe um dia, poderemos ver o bom jornalismo esportiva sendo regra e não exceção? É esperar, fazer o que????!!!!

Cassiano Scherner é jornalista, mestre em Comunicação Social pela PUC/RS e apreciador do bom futebol e também das coberturas sobre futebol feitas com seriedade e competência.