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Santa Maria, RS, Brazil

Magreza como exigência

Atualmente, as exigências do mundo da moda vêm sendo alvo de grande polêmica, principalmente as que estão relacionadas ao peso das modelos. O caso da morte da modelo de 21anos vítima de anorexia nervosa Ana Carolina Reston, que pesava apenas 40 quilos com 1,72 de altura, trouxe à tona questões como a presença de distúrbios alimentares entre as manequins e a influência dessa magreza excessiva para as adolescentes.

Para Sandra Ávila, ex-modelo e diretora, proprietária da AGM, agência de modelos da cidade de Santa Maria, a morte da modelo serviu para alertar as agências quanto ao perfil anoréxico. “Isto é conseqüência desta exigência do mercado, que hoje esta sendo reavaliada e proibida nos grandes centros de moda, esta luta contra o perfil anoréxico já havia sendo proposta, mas nunca com tanta seriedade, parece que precisou ter sido divulgado uma morte por anorexia na profissão para que as coisas fossem vistas com mais seriedade e aceitas pelos estilistas e agências de modelos”, afirma.

            Sobre a nova norma imposta em Madri e Milão, onde as modelos muito magras não podem desfilar, Sandra diz que o ponto mais importante é para que não haja o desespero de manter um corpo que não é realidade do mercado e que abala a saúde física e psicológica da modelo devido às pressões. “Acho maravilhoso, pois temos meninas lindas que se encaixam muito bem no mercado e que por alguns quilos a mais não são aprovadas. Temos casos de meninas magérrimas que foram para o exterior e voltaram enormes, aí entra a parte psicológica e a disfunção hormonal devido à mudança, à saúde e a responsabilidade de se manter lá”, analisa.

               Em relação à alimentação das modelos, a diretora da agência afirma que possibilitam o acompanhamento de uma nutricionista para as modelos. “Recentemente, recebemos a orientação e a avaliação de uma nutricionista aqui na AGM, com avaliação e sugestão de cardápio de acordo com a necessidade de cada modelo, isto foi antes do fato de Ana Carolina, então agora mais do que nunca, estamos atentos”, salienta Sandra.

            A modelo Tassiane Alves da Silva, que já sofreu de bulimia e anorexia, fez o tratamento e hoje está curada, diz haver muitas cobranças em relação ao peso das modelos. “Existem muitas cobranças, inclusive eu tenho que emagrecer e para manter o peso ideal faço de tudo,dieta, exercícios físicos, tudo vale”, afirma.

           Para Ming Liao To, diretor da agência de modelos Ming Management de São Paulo, atualmente não existe um critério nem um perfil estipulado para quem pretende seguir a carreira de modelo. “O que existe é você bater o olho em alguém e perceber que é essa pessoa quem você quer postar, e também sentir no olho dessas adolescentes se realmente é aquilo que elas querem, se é o que gostam ou se só estão ali por obrigação ou porque seus pais querem. Hoje em dia, o que a gente vê é que todo mundo quer ser modelo, mas é preciso estar apto para todas as exigências da profissão”, afirma.

        Ming, que esteve recentemente em Santa Maria fazendo uma seleção de modelos da cidade e trabalha nesse ramo há 25 anos, diz que a maioria das agências possui o acompanhamento de nutricionistas, mas que, muitas vezes, as modelos não fazem a sua parte. “A maioria das agências possuem nutricionista, mas o grande problema é que não adianta falar, todas sabem, todas têm uma pessoa lá para procurar, só que elas não fazem”.

           Comentando a norma imposta em Madri e Milão, Ming afirma que não teve nenhum reflexo para sua agência e que o que realmente irá interferir em seu trabalho é a nova lei que está sendo imposta no país, onde as modelos menores de 15 anos não podem viajar. “Isso vai interferir bastante e vai ser bom por um lado e ruim por outro, porque existem meninas de 13, 14 anos com muito potencial e que podem se perder com o tempo. É bom porque fazem essas crianças estudarem, pois o Brasil ainda é o único país do mundo em que não se exige estudo. É o único país em que se as meninas estiverem ganhando dinheiro, pensam que não precisam estudar”, reflete.

       Sobre a morte do modelo, Ming Liao acredita que foi um erro geral. “Existe um erro por parte de todos, tanto do acompanhamento psicológico da agência, tanto o acompanhamento da mãe, do namorado e dos amigos. E, em primeiro lugar dela mesmo, porque ninguém exigiu que ela fosse magra, pois o seu padrão não era o padrão de passarela para ser magra, ela quis ser por um erro de cabeça dela, se ela fosse uma menina de 1.80, tudo bem”, salienta.

           Robson da Costa, proprietário e diretor da agência Vida Arte de Santa Maria, explica que as exigências de sua agência são diferentes das de São Paulo. “Nós trabalhamos aqui em SM com outra realidade de mercado, trabalhamos com as modelos comerciais, não temos um padrão pré-estipulado com existe em São Paulo. Primeiro, que eles trabalham com tendências e nós trabalhamos com o produto pronto, por isso eu não procuro um perfil, eu trabalho com uma pessoa comercial”,diz.                                                                                                                                                                                                                                                            

         A respeito das modelos que vêm a sofrer algum distúrbio alimentar, Robson afirma que por ser um campo de trabalho diferente, eles nuca tiveram um caso de meninas com bulimia ou anorexia, mas que mesmo assim possuem o acompanhamento nutricional. “Tivemos o acompanhamento de uma nutricionista, que orientou as modelos durante todo o ano para que elas baixassem o peso, se preparando assim para os desfiles de verão”, explica.

       Muitas vezes, meninas que não são modelos, que não possuem nenhuma exigência quanto a seu peso e nem têm qualquer vínculo com o mundo da moda podem vir a sofrer de bulimia ou anorexia nervosa. É o caso de *Ana Paula, 24 anos, que apresenta os sintomas de bulimia. A jovem afirma que tudo começou depois que perdeu alguns quilos e com medo de adquiri-los novamente, começou a induzir o vômito após se alimentar. “Eu nunca fui satisfeita com o meu peso, e quando finalmente consegui emagrecer não queria engordar de novo, foi aí que comecei a vomitar, se eu comia demais ficava com um peso na consciência”, lembra. Ela pesava 69 quilos e hoje atinge cerca de 52 quilos.

            *Ana Paula diz que após a morte da modelo Ana Carolina Reston sua família passou a se preocupar mais ainda com sua saúde. “Lá em casa está todo mundo apavorado, agora até deu aquelas reportagens de anorexia da modelo que morreu e eles sabiam que eu vomitava. Então, ficam me mostrando as reportagens e querem que eu coma”, finaliza a jovem.

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Atualmente, as exigências do mundo da moda vêm sendo alvo de grande polêmica, principalmente as que estão relacionadas ao peso das modelos. O caso da morte da modelo de 21anos vítima de anorexia nervosa Ana Carolina Reston, que pesava apenas 40 quilos com 1,72 de altura, trouxe à tona questões como a presença de distúrbios alimentares entre as manequins e a influência dessa magreza excessiva para as adolescentes.

Para Sandra Ávila, ex-modelo e diretora, proprietária da AGM, agência de modelos da cidade de Santa Maria, a morte da modelo serviu para alertar as agências quanto ao perfil anoréxico. “Isto é conseqüência desta exigência do mercado, que hoje esta sendo reavaliada e proibida nos grandes centros de moda, esta luta contra o perfil anoréxico já havia sendo proposta, mas nunca com tanta seriedade, parece que precisou ter sido divulgado uma morte por anorexia na profissão para que as coisas fossem vistas com mais seriedade e aceitas pelos estilistas e agências de modelos”, afirma.

            Sobre a nova norma imposta em Madri e Milão, onde as modelos muito magras não podem desfilar, Sandra diz que o ponto mais importante é para que não haja o desespero de manter um corpo que não é realidade do mercado e que abala a saúde física e psicológica da modelo devido às pressões. “Acho maravilhoso, pois temos meninas lindas que se encaixam muito bem no mercado e que por alguns quilos a mais não são aprovadas. Temos casos de meninas magérrimas que foram para o exterior e voltaram enormes, aí entra a parte psicológica e a disfunção hormonal devido à mudança, à saúde e a responsabilidade de se manter lá”, analisa.

               Em relação à alimentação das modelos, a diretora da agência afirma que possibilitam o acompanhamento de uma nutricionista para as modelos. “Recentemente, recebemos a orientação e a avaliação de uma nutricionista aqui na AGM, com avaliação e sugestão de cardápio de acordo com a necessidade de cada modelo, isto foi antes do fato de Ana Carolina, então agora mais do que nunca, estamos atentos”, salienta Sandra.

            A modelo Tassiane Alves da Silva, que já sofreu de bulimia e anorexia, fez o tratamento e hoje está curada, diz haver muitas cobranças em relação ao peso das modelos. “Existem muitas cobranças, inclusive eu tenho que emagrecer e para manter o peso ideal faço de tudo,dieta, exercícios físicos, tudo vale”, afirma.

           Para Ming Liao To, diretor da agência de modelos Ming Management de São Paulo, atualmente não existe um critério nem um perfil estipulado para quem pretende seguir a carreira de modelo. “O que existe é você bater o olho em alguém e perceber que é essa pessoa quem você quer postar, e também sentir no olho dessas adolescentes se realmente é aquilo que elas querem, se é o que gostam ou se só estão ali por obrigação ou porque seus pais querem. Hoje em dia, o que a gente vê é que todo mundo quer ser modelo, mas é preciso estar apto para todas as exigências da profissão”, afirma.

        Ming, que esteve recentemente em Santa Maria fazendo uma seleção de modelos da cidade e trabalha nesse ramo há 25 anos, diz que a maioria das agências possui o acompanhamento de nutricionistas, mas que, muitas vezes, as modelos não fazem a sua parte. “A maioria das agências possuem nutricionista, mas o grande problema é que não adianta falar, todas sabem, todas têm uma pessoa lá para procurar, só que elas não fazem”.

           Comentando a norma imposta em Madri e Milão, Ming afirma que não teve nenhum reflexo para sua agência e que o que realmente irá interferir em seu trabalho é a nova lei que está sendo imposta no país, onde as modelos menores de 15 anos não podem viajar. “Isso vai interferir bastante e vai ser bom por um lado e ruim por outro, porque existem meninas de 13, 14 anos com muito potencial e que podem se perder com o tempo. É bom porque fazem essas crianças estudarem, pois o Brasil ainda é o único país do mundo em que não se exige estudo. É o único país em que se as meninas estiverem ganhando dinheiro, pensam que não precisam estudar”, reflete.

       Sobre a morte do modelo, Ming Liao acredita que foi um erro geral. “Existe um erro por parte de todos, tanto do acompanhamento psicológico da agência, tanto o acompanhamento da mãe, do namorado e dos amigos. E, em primeiro lugar dela mesmo, porque ninguém exigiu que ela fosse magra, pois o seu padrão não era o padrão de passarela para ser magra, ela quis ser por um erro de cabeça dela, se ela fosse uma menina de 1.80, tudo bem”, salienta.

           Robson da Costa, proprietário e diretor da agência Vida Arte de Santa Maria, explica que as exigências de sua agência são diferentes das de São Paulo. “Nós trabalhamos aqui em SM com outra realidade de mercado, trabalhamos com as modelos comerciais, não temos um padrão pré-estipulado com existe em São Paulo. Primeiro, que eles trabalham com tendências e nós trabalhamos com o produto pronto, por isso eu não procuro um perfil, eu trabalho com uma pessoa comercial”,diz.                                                                                                                                                                                                                                                            

         A respeito das modelos que vêm a sofrer algum distúrbio alimentar, Robson afirma que por ser um campo de trabalho diferente, eles nuca tiveram um caso de meninas com bulimia ou anorexia, mas que mesmo assim possuem o acompanhamento nutricional. “Tivemos o acompanhamento de uma nutricionista, que orientou as modelos durante todo o ano para que elas baixassem o peso, se preparando assim para os desfiles de verão”, explica.

       Muitas vezes, meninas que não são modelos, que não possuem nenhuma exigência quanto a seu peso e nem têm qualquer vínculo com o mundo da moda podem vir a sofrer de bulimia ou anorexia nervosa. É o caso de *Ana Paula, 24 anos, que apresenta os sintomas de bulimia. A jovem afirma que tudo começou depois que perdeu alguns quilos e com medo de adquiri-los novamente, começou a induzir o vômito após se alimentar. “Eu nunca fui satisfeita com o meu peso, e quando finalmente consegui emagrecer não queria engordar de novo, foi aí que comecei a vomitar, se eu comia demais ficava com um peso na consciência”, lembra. Ela pesava 69 quilos e hoje atinge cerca de 52 quilos.

            *Ana Paula diz que após a morte da modelo Ana Carolina Reston sua família passou a se preocupar mais ainda com sua saúde. “Lá em casa está todo mundo apavorado, agora até deu aquelas reportagens de anorexia da modelo que morreu e eles sabiam que eu vomitava. Então, ficam me mostrando as reportagens e querem que eu coma”, finaliza a jovem.