Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

Outras formas de “ver” o mundo

 

   

Um grupo de pessoas especiais reúne-se, semanalmente, no segundo andar da Casa de Cultura, para buscar a inclusão social e a independência da qual são capazes. É a Associação dos Cegos e Deficientes Visuais de Santa Maria (ACDV).

As atividades desenvolvidas na sala 15 buscam aperfeiçoar a capacidade de percepção dos não-videntes. Eles trabalham com artesanato, têm noções da vida diária e movimentação, aulas de Braille, além do estímulo visual para crianças. Está previsto, ainda para este ano, um projeto de apoio psicológico, a ser desenvolvido por professores e alunos de Psicologia da Ulbra.

A sala da associação é um complexo dividido em três peças, cada uma destinada a uma atividade específica. Nas segundas-feiras, há aulas de artesanato, ministradas pelo professor Carlos Alberto Flores, o Kalu, que trabalha com artesanato há mais de 20 anos. Kalu é voluntário na associação desde a sua instalação na Casa de Cultura, no final do ano passado. “É gratificante e extraordinário ver a alegria e a capacidade que eles têm de aprender as técnicas”, diz.

A principal prática de artesanato é a dobradura de papel, confeccionando produtos a partir de pequenas formas. Além disso, trabalha-se também com tapeçaria de retalhos, crochê e pintura.

Kalu também é responsável pelas aulas de culinária nas quartas-feiras. Os participantes já fazem alguns biscoitos, paçoquinha e bolo, além de situarem-se dentro da cozinha, aprendendo a usar o fogão de forma segura. Segundo a professora aposentada e fundadora da associação, Nilza Flores da Silva, a aula de culinária é um projeto que não está bem definido: “Precisamos da ajuda de fora para a compra de material. Até agora pagamos nós mesmos pelas aulas”. Nilza salienta que o apoio de algumas empresas de alimento seria útil para a continuidade das aulas.

Às terças-feiras, a professora municipal – cedida em convênio entre a prefeitura e a associação – Clecimara Vianna, desenvolve um trabalho de estímulo visual essencial em crianças com um resíduo visual. Trata-se de um trabalho tátil e auditivo, buscando ensinar as sensações para adequar as crianças à vida diária. Clecimara ressalta que o espaço está aberto para pessoas que não conheçam e queiram participar. Primeiramente, as crianças,  são avaliadas para que se tenha um diagnóstico. Além disso, há um trabalho de orientação aos pais. “A nossa atividade é muito pouco, precisamos que os familiares estejam preparados para continuar os exercícios em casa”, diz a professora.

 

“Temos que ir atrás dos sonhos”

Marli está trabalhando em um tapete de retalhos que começou na aula de artesanato

A professora, não-vidente de nascença, Marli Terezinha Schimitt, 57 anos, ministra aulas de Braille,  outra atividade importante para os deficientes visuais. Além da turma de quatro alunos na associação, Marli dá aula para mais oito crianças na Escola Antônio Francisco Lisboa e atende em uma sala de recursos, no Colégio Coronel Pillar, alunos já inclusos, traduzindo materiais e dando noções do Soroban – ábaco japonês usado pelos deficientes visuais para fazer cálculo.

Marli, que na foto está trabalhando em um tapete de retalhos que começou na aula de artesanato,  conta que, quando jovem, foi para o internato Santa Luzia, em Porto Alegre. Na época, era a única instituição do estado que trabalhava com a alfabetização de deficientes visuais. “Costumava-se dizer que o Santa Luzia era um mal inevitável, pois achavam que a única forma de educar um cego era afastando ele do convívio com os videntes. Isto é ultrapassado, hoje sabe-se que precisamos nos incluir na sociedade”, lembra a professora, ressaltando que graças a este passo ela conquistou um grande grau de independência.

Formada em Pedagogia pela antiga FIC, atual Unifra, e com curso de Especialização em Deficiência Visual em Cruz Alta, Marli diz que estudou em salas de aula comuns graças ao apoio dos familiares e colegas: “Eu me adaptei porque eu tinha os meus métodos de estudar. Os colegas e a família me ajudavam; como eu tenho um grande domínio na escrita, eles me ditavam e eu fui passando todos os materiais de aula para o Braille.”

A professora sente a falta de uma gráfica de livros em Braille em Santa Maria, assim como de livros em bibliotecas.  “O único lugar em que podemos encontrar livros adaptados é na biblioteca do “Francisco Lisboa””

As aulas de Braille na associação são às quintas, mas a professora participa diariamente das atividades. “A gente tem consciência de que está vivendo em um mundo cada vez mais competitivo. Temos que ir atrás dos sonhos”, completa Marli.

Exemplo de superação

Outra participante da associação é Sandra de Freitas, professora aposentada natural de São Sepé. Sandra perdeu a visão há 13 anos e logo em seguida conheceu a professora Marli.

“Parava na casa da professora. Morava em Caçapava e vinha toda a segunda-feira em um ônibus da hemodiálise. Ficava tendo aulas de Braille até quarta. Não leio perfeitamente, demoro, mas já me viro”, conta Sandra.

Em 2001 mudou-se para Santa Maria para morar com as filhas, foi quando conheceu a associação, que funcionava na Igreja Episcopal. Desde então, é freqüentadora assídua das atividades e foi convidada para assumir a presidência da ACDV. “Aceitei ser presidente, mas sem o apoio do pessoal eu não daria conta”, diz.

Sandra considera as atividades da associação fundamentais para que os deficientes visuais comecem a dar os primeiros passos, mas queixa-se do pequeno número de pessoas que buscam o auxílio da associação. Um dos principais fatores é a necessidade de transporte – poucos não-videntes aventuram-se a sair sozinhos pelas ruas e os próprios familiares têm medo de largá-los. “Se tivéssemos uma forma de nos locomover segura, o número de participantes nas atividades seria muito maior”, ressalta a presidente, que vai à associação diariamente de moto-táxi.

Além de trabalhar com as atividades propostas na associação, Sandra dedica-se a uma prática que aprendeu ainda quando enxergava: “Aprendi a fazer crochê com cinco anos e continuo até hoje. Sempre gostei do artesanato”, relata. Ela faz parte de uma cooperativa de artesanato que funciona no terceiro andar do Santa Maria Shopping (“Cantinho do Artesanato”).

E conclui: “Tu não podes te acomodar, porque se tu te acomodas o barco vem e te leva, tu vais ficando pra trás”.

Uma história em andamento

“Vamos nos unir: você com sua forma de ver o mundo e eu com a minha poderemos construir grandes coisas”. Este é o lema da Associação dos Cegos e Deficientes Visuais de Santa Maria.  A idéia de fundar uma associação voltada para o trabalho com deficientes visuais vem de um sonho antigo da ex-professora de Educação Especial da UFSM, Nilza Flores da Silva: “Precisávamos desenvolver a capacidade de interação entre estas pessoas especiais com o mundo que as cerca”. Foi então que, em 1999, Nilza pôs em prática um curso de capacitação para o trabalho com pessoas com a visão subnormal – a atividade com cegos não era possível pela falta de profissionais que dominassem o uso da linguagem em Braille –, formando profissionais aptos a dar auxílio nas escolas da cidade.

O núcleo funcionou até 2003, quando a professora saiu da UFSM. No mesmo ano, junto com o professor Érico Sauer e o funcionário público do INSS Cândido Taschetto (este não-vidente), Nilza fundou a associação. Em princípio, foi cedida uma hora semanal em uma sala no subsolo da Igreja Episcopal, onde os integrantes reuniam-se para estudar o Estatuto dos Deficientes Visuais. Depois de um ano, a associação conseguiu uma tarde por semana para seus trabalhos, passando a desenvolver atividades de artes plásticas, como pintura e artesanato.

Desde dezembro de 2005, a associação passou a funcionar na Casa de Cultura, em uma sala cedida pela Prefeitura Municipal. O espaço, mais amplo e com possibilidade de ocupação em tempo integral, possibilita a implantação de novas atividades de integração.

Os traballhos contam com o apoio de associados que colaboram mensalmente para que as atividades sigam funcionando. Para se associar, basta passar na associação e colaborar com uma quantia a partir de R$ 3,00. “O apoio financeiro é importante, mas a presença e o contato com os não videntes é o que faz a diferença”, ressalta Nilza.

Administração da ACDV:

Presidente: Sandra de Freitas (não-vidente)

Vice-presidente: Clecimara Vianna

1ª Secretária: Liliane de Barros

2º Secretário: Cândido Taschetto (não-vidente)

Tesoureira: Elizete Pigatto

Fotos Núcleo de Fotografia e Memória (Daniel Rangel)

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Uma resposta

  1. Gostei muito deste projeto Candido!Nao sabia da existencia deste tipo de ajuda a pessoas com deficiencia visual ou auditiva.Se continuar este projeto gostaria de participar tambem.E so me avisar o local e horario.Ok!

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Um grupo de pessoas especiais reúne-se, semanalmente, no segundo andar da Casa de Cultura, para buscar a inclusão social e a independência da qual são capazes. É a Associação dos Cegos e Deficientes Visuais de Santa Maria (ACDV).

As atividades desenvolvidas na sala 15 buscam aperfeiçoar a capacidade de percepção dos não-videntes. Eles trabalham com artesanato, têm noções da vida diária e movimentação, aulas de Braille, além do estímulo visual para crianças. Está previsto, ainda para este ano, um projeto de apoio psicológico, a ser desenvolvido por professores e alunos de Psicologia da Ulbra.

A sala da associação é um complexo dividido em três peças, cada uma destinada a uma atividade específica. Nas segundas-feiras, há aulas de artesanato, ministradas pelo professor Carlos Alberto Flores, o Kalu, que trabalha com artesanato há mais de 20 anos. Kalu é voluntário na associação desde a sua instalação na Casa de Cultura, no final do ano passado. “É gratificante e extraordinário ver a alegria e a capacidade que eles têm de aprender as técnicas”, diz.

A principal prática de artesanato é a dobradura de papel, confeccionando produtos a partir de pequenas formas. Além disso, trabalha-se também com tapeçaria de retalhos, crochê e pintura.

Kalu também é responsável pelas aulas de culinária nas quartas-feiras. Os participantes já fazem alguns biscoitos, paçoquinha e bolo, além de situarem-se dentro da cozinha, aprendendo a usar o fogão de forma segura. Segundo a professora aposentada e fundadora da associação, Nilza Flores da Silva, a aula de culinária é um projeto que não está bem definido: “Precisamos da ajuda de fora para a compra de material. Até agora pagamos nós mesmos pelas aulas”. Nilza salienta que o apoio de algumas empresas de alimento seria útil para a continuidade das aulas.

Às terças-feiras, a professora municipal – cedida em convênio entre a prefeitura e a associação – Clecimara Vianna, desenvolve um trabalho de estímulo visual essencial em crianças com um resíduo visual. Trata-se de um trabalho tátil e auditivo, buscando ensinar as sensações para adequar as crianças à vida diária. Clecimara ressalta que o espaço está aberto para pessoas que não conheçam e queiram participar. Primeiramente, as crianças,  são avaliadas para que se tenha um diagnóstico. Além disso, há um trabalho de orientação aos pais. “A nossa atividade é muito pouco, precisamos que os familiares estejam preparados para continuar os exercícios em casa”, diz a professora.

 

“Temos que ir atrás dos sonhos”

Marli está trabalhando em um tapete de retalhos que começou na aula de artesanato

A professora, não-vidente de nascença, Marli Terezinha Schimitt, 57 anos, ministra aulas de Braille,  outra atividade importante para os deficientes visuais. Além da turma de quatro alunos na associação, Marli dá aula para mais oito crianças na Escola Antônio Francisco Lisboa e atende em uma sala de recursos, no Colégio Coronel Pillar, alunos já inclusos, traduzindo materiais e dando noções do Soroban – ábaco japonês usado pelos deficientes visuais para fazer cálculo.

Marli, que na foto está trabalhando em um tapete de retalhos que começou na aula de artesanato,  conta que, quando jovem, foi para o internato Santa Luzia, em Porto Alegre. Na época, era a única instituição do estado que trabalhava com a alfabetização de deficientes visuais. “Costumava-se dizer que o Santa Luzia era um mal inevitável, pois achavam que a única forma de educar um cego era afastando ele do convívio com os videntes. Isto é ultrapassado, hoje sabe-se que precisamos nos incluir na sociedade”, lembra a professora, ressaltando que graças a este passo ela conquistou um grande grau de independência.

Formada em Pedagogia pela antiga FIC, atual Unifra, e com curso de Especialização em Deficiência Visual em Cruz Alta, Marli diz que estudou em salas de aula comuns graças ao apoio dos familiares e colegas: “Eu me adaptei porque eu tinha os meus métodos de estudar. Os colegas e a família me ajudavam; como eu tenho um grande domínio na escrita, eles me ditavam e eu fui passando todos os materiais de aula para o Braille.”

A professora sente a falta de uma gráfica de livros em Braille em Santa Maria, assim como de livros em bibliotecas.  “O único lugar em que podemos encontrar livros adaptados é na biblioteca do “Francisco Lisboa””

As aulas de Braille na associação são às quintas, mas a professora participa diariamente das atividades. “A gente tem consciência de que está vivendo em um mundo cada vez mais competitivo. Temos que ir atrás dos sonhos”, completa Marli.

Exemplo de superação

Outra participante da associação é Sandra de Freitas, professora aposentada natural de São Sepé. Sandra perdeu a visão há 13 anos e logo em seguida conheceu a professora Marli.

“Parava na casa da professora. Morava em Caçapava e vinha toda a segunda-feira em um ônibus da hemodiálise. Ficava tendo aulas de Braille até quarta. Não leio perfeitamente, demoro, mas já me viro”, conta Sandra.

Em 2001 mudou-se para Santa Maria para morar com as filhas, foi quando conheceu a associação, que funcionava na Igreja Episcopal. Desde então, é freqüentadora assídua das atividades e foi convidada para assumir a presidência da ACDV. “Aceitei ser presidente, mas sem o apoio do pessoal eu não daria conta”, diz.

Sandra considera as atividades da associação fundamentais para que os deficientes visuais comecem a dar os primeiros passos, mas queixa-se do pequeno número de pessoas que buscam o auxílio da associação. Um dos principais fatores é a necessidade de transporte – poucos não-videntes aventuram-se a sair sozinhos pelas ruas e os próprios familiares têm medo de largá-los. “Se tivéssemos uma forma de nos locomover segura, o número de participantes nas atividades seria muito maior”, ressalta a presidente, que vai à associação diariamente de moto-táxi.

Além de trabalhar com as atividades propostas na associação, Sandra dedica-se a uma prática que aprendeu ainda quando enxergava: “Aprendi a fazer crochê com cinco anos e continuo até hoje. Sempre gostei do artesanato”, relata. Ela faz parte de uma cooperativa de artesanato que funciona no terceiro andar do Santa Maria Shopping (“Cantinho do Artesanato”).

E conclui: “Tu não podes te acomodar, porque se tu te acomodas o barco vem e te leva, tu vais ficando pra trás”.

Uma história em andamento

“Vamos nos unir: você com sua forma de ver o mundo e eu com a minha poderemos construir grandes coisas”. Este é o lema da Associação dos Cegos e Deficientes Visuais de Santa Maria.  A idéia de fundar uma associação voltada para o trabalho com deficientes visuais vem de um sonho antigo da ex-professora de Educação Especial da UFSM, Nilza Flores da Silva: “Precisávamos desenvolver a capacidade de interação entre estas pessoas especiais com o mundo que as cerca”. Foi então que, em 1999, Nilza pôs em prática um curso de capacitação para o trabalho com pessoas com a visão subnormal – a atividade com cegos não era possível pela falta de profissionais que dominassem o uso da linguagem em Braille –, formando profissionais aptos a dar auxílio nas escolas da cidade.

O núcleo funcionou até 2003, quando a professora saiu da UFSM. No mesmo ano, junto com o professor Érico Sauer e o funcionário público do INSS Cândido Taschetto (este não-vidente), Nilza fundou a associação. Em princípio, foi cedida uma hora semanal em uma sala no subsolo da Igreja Episcopal, onde os integrantes reuniam-se para estudar o Estatuto dos Deficientes Visuais. Depois de um ano, a associação conseguiu uma tarde por semana para seus trabalhos, passando a desenvolver atividades de artes plásticas, como pintura e artesanato.

Desde dezembro de 2005, a associação passou a funcionar na Casa de Cultura, em uma sala cedida pela Prefeitura Municipal. O espaço, mais amplo e com possibilidade de ocupação em tempo integral, possibilita a implantação de novas atividades de integração.

Os traballhos contam com o apoio de associados que colaboram mensalmente para que as atividades sigam funcionando. Para se associar, basta passar na associação e colaborar com uma quantia a partir de R$ 3,00. “O apoio financeiro é importante, mas a presença e o contato com os não videntes é o que faz a diferença”, ressalta Nilza.

Administração da ACDV:

Presidente: Sandra de Freitas (não-vidente)

Vice-presidente: Clecimara Vianna

1ª Secretária: Liliane de Barros

2º Secretário: Cândido Taschetto (não-vidente)

Tesoureira: Elizete Pigatto

Fotos Núcleo de Fotografia e Memória (Daniel Rangel)