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Por dentro da solidão

A sociedade pós-moderna, caracterizada pelas comunicações eletrônicas, parece mais nos afastar do que aproximar das pessoas. O paradoxo contemporâneo é convivermos com tanta gente e ao mesmo tempo nos sentirmos tão solitários. A Internet aparece como um “instrumento” para se fazer amizades e até uniões amorosas, mas na prática, muitos solitários desejam mais do que um relacionamento virtual, querem uma companhia real.

As principais causas geradoras de solidão são separação conjugal, viuvez, ou não ter encontrado um companheiro(a) durante a vida. Segundo a Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílios, está aumentando o número de solitários no Brasil – um aumento de 137% nas últimas duas décadas, chegando a mais de quatro milhões de pessoas vivendo sozinhas.
               
Existem pessoas que se sentem melhor vivendo sozinhas, pois necessitam de liberdade, privacidade e espaço para agir e pensar (elas se isolam por opção). Mas, no universo dos sozinhos também existem aqueles que devido às contingências da vida (morte do parceiro, separação, etc.) foram obrigados a viverem desacompanhados, são os solitários por obrigação.

 

A psicóloga Josiane Lieberknecht* esclarece algumas questões sobre o assunto:
1) Como, no geral, as pessoas reagem à solidão?
A solidão é um sentimento aprendido durante nosso desenvolvimento psicológico e pode ter diferentes significados para cada pessoa. A reação diante desse sentimento precisa ser compreendida, considerando-se a etapa evolutiva em que a pessoa se encontra e o contexto em que surge essa solidão. Existem estudos que mostram que pessoas idosas podem ter melhor capacidade de conviver com a solidão, ao passo que, no início da vida, é necessário ter diferentes vivências sobre esse aspecto para adquirir estratégias para lidar com isso.
 

2) Casos de pessoas que reagiram positivamente são freqüentes?
Precisamos diferenciar “estar só” de “solidão”. Enquanto “estar só”, está relacionado a um momento ou até mesmo a uma conquista de ficar um tempo com si próprio e se conhecer melhor. Solidão, geralmente, está ligada à tristeza e outros sentimentos negativos. Pessoas que relatam sentir solidão por um longo período de tempo, dificilmente percebem esse sentimento como positivo. Em geral, quando prevalecem afetos negativos sobre afetos positivos durante certo período de tempo, pode-se pensar que o humor dessa pessoa está deprimido, o que pode indicar baixa qualidade de vida.

 3) O que leva, em geral, as pessoas ao isolamento? O que as faz querer ou desejar a solidão?
Enquanto a tristeza é um sentimento esperado e adaptativo nos seres humanos frente às situações de perda ou desapontamento, por exemplo, os sintomas de depressão (isolamento, diminuição da atenção e da concentração, perda de confiança em si mesmo, sentimentos de inferioridade e de baixa auto-estima, idéias de culpa e de inutilidade, tendência ao pessimismo, transtornos do sono e da alimentação, entre outros) podem estar relacionados a variados quadros clínicos.
Na visão cognitivista, as pessoas deprimidas interpretam seu futuro, suas experiências e a si mesmas a partir de padrões fora do comum. Assim, tendem a subestimar-se e acreditar que o contexto social é excessivamente exigente para que se cumpram suas metas. Às vezes, a busca pelo isolamento pode estar significando uma necessidade de reorganizar-se internamente. Muitas vezes, esse processo é uma etapa importante antes de surgir uma nova etapa, como num casulo de borboleta. Mas, é necessário estar atento para procurar auxílio profissional quando esse estado passa a prejudicar outros campos da vida da pessoa, como a escola, o convívio familiar, o amor…

4) Existem pessoas que reagem bem à solidão? Gostam disso?  Precisam?
Sim. Algumas pessoas lidam melhor com experiências de solidão e de abandono do que outras. As formas como as pessoas lidam com eventos ruins envolvem vários fatores como: aspectos de personalidade, experiências prévias e até a hereditariedade. Mas, precisar de solidão, quando isso não significa apenas um momento de silêncio e estar só, pode estar mostrando que a pessoa está buscando, por alguma razão, se auto-punir. Seria interessante que essa pessoa buscasse conhecer a serviço de quê está essa necessidade.
 

5) E o que acontece às pessoas que precisam ter um "outro" próximo e acabam na solidão? Por que, em geral, isso acontece?
Provavelmente esse outro está sendo colocado num lugar que não é dele. É como se ele estivesse ocupando o papel de preencher um vazio, ao invés de apenas complementar um campo de nossas vidas. A grande chave da descoberta é perceber que no final das contas, nós mesmos é que somos responsáveis pela sensação de bem-estar  (ou de mal). O outro é só um complemento. Um bom exercício é tentar dar colo a si mesmo ao invés de buscar aconchego no outro e fortalecer-se. Isso desobriga as pessoas à nossa volta de cumprirem o papel de preencher algo que nunca se preenche! E nossa convivência com os outros parece fluir melhor.

(*) Josiane Lieberknecht Wathier é psicóloga, formada pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). Registro junto ao Conselho Regional de Psicologia (CRP) é 07/14653.

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A sociedade pós-moderna, caracterizada pelas comunicações eletrônicas, parece mais nos afastar do que aproximar das pessoas. O paradoxo contemporâneo é convivermos com tanta gente e ao mesmo tempo nos sentirmos tão solitários. A Internet aparece como um “instrumento” para se fazer amizades e até uniões amorosas, mas na prática, muitos solitários desejam mais do que um relacionamento virtual, querem uma companhia real.

As principais causas geradoras de solidão são separação conjugal, viuvez, ou não ter encontrado um companheiro(a) durante a vida. Segundo a Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílios, está aumentando o número de solitários no Brasil – um aumento de 137% nas últimas duas décadas, chegando a mais de quatro milhões de pessoas vivendo sozinhas.
               
Existem pessoas que se sentem melhor vivendo sozinhas, pois necessitam de liberdade, privacidade e espaço para agir e pensar (elas se isolam por opção). Mas, no universo dos sozinhos também existem aqueles que devido às contingências da vida (morte do parceiro, separação, etc.) foram obrigados a viverem desacompanhados, são os solitários por obrigação.

 

A psicóloga Josiane Lieberknecht* esclarece algumas questões sobre o assunto:
1) Como, no geral, as pessoas reagem à solidão?
A solidão é um sentimento aprendido durante nosso desenvolvimento psicológico e pode ter diferentes significados para cada pessoa. A reação diante desse sentimento precisa ser compreendida, considerando-se a etapa evolutiva em que a pessoa se encontra e o contexto em que surge essa solidão. Existem estudos que mostram que pessoas idosas podem ter melhor capacidade de conviver com a solidão, ao passo que, no início da vida, é necessário ter diferentes vivências sobre esse aspecto para adquirir estratégias para lidar com isso.
 

2) Casos de pessoas que reagiram positivamente são freqüentes?
Precisamos diferenciar “estar só” de “solidão”. Enquanto “estar só”, está relacionado a um momento ou até mesmo a uma conquista de ficar um tempo com si próprio e se conhecer melhor. Solidão, geralmente, está ligada à tristeza e outros sentimentos negativos. Pessoas que relatam sentir solidão por um longo período de tempo, dificilmente percebem esse sentimento como positivo. Em geral, quando prevalecem afetos negativos sobre afetos positivos durante certo período de tempo, pode-se pensar que o humor dessa pessoa está deprimido, o que pode indicar baixa qualidade de vida.

 3) O que leva, em geral, as pessoas ao isolamento? O que as faz querer ou desejar a solidão?
Enquanto a tristeza é um sentimento esperado e adaptativo nos seres humanos frente às situações de perda ou desapontamento, por exemplo, os sintomas de depressão (isolamento, diminuição da atenção e da concentração, perda de confiança em si mesmo, sentimentos de inferioridade e de baixa auto-estima, idéias de culpa e de inutilidade, tendência ao pessimismo, transtornos do sono e da alimentação, entre outros) podem estar relacionados a variados quadros clínicos.
Na visão cognitivista, as pessoas deprimidas interpretam seu futuro, suas experiências e a si mesmas a partir de padrões fora do comum. Assim, tendem a subestimar-se e acreditar que o contexto social é excessivamente exigente para que se cumpram suas metas. Às vezes, a busca pelo isolamento pode estar significando uma necessidade de reorganizar-se internamente. Muitas vezes, esse processo é uma etapa importante antes de surgir uma nova etapa, como num casulo de borboleta. Mas, é necessário estar atento para procurar auxílio profissional quando esse estado passa a prejudicar outros campos da vida da pessoa, como a escola, o convívio familiar, o amor…

4) Existem pessoas que reagem bem à solidão? Gostam disso?  Precisam?
Sim. Algumas pessoas lidam melhor com experiências de solidão e de abandono do que outras. As formas como as pessoas lidam com eventos ruins envolvem vários fatores como: aspectos de personalidade, experiências prévias e até a hereditariedade. Mas, precisar de solidão, quando isso não significa apenas um momento de silêncio e estar só, pode estar mostrando que a pessoa está buscando, por alguma razão, se auto-punir. Seria interessante que essa pessoa buscasse conhecer a serviço de quê está essa necessidade.
 

5) E o que acontece às pessoas que precisam ter um "outro" próximo e acabam na solidão? Por que, em geral, isso acontece?
Provavelmente esse outro está sendo colocado num lugar que não é dele. É como se ele estivesse ocupando o papel de preencher um vazio, ao invés de apenas complementar um campo de nossas vidas. A grande chave da descoberta é perceber que no final das contas, nós mesmos é que somos responsáveis pela sensação de bem-estar  (ou de mal). O outro é só um complemento. Um bom exercício é tentar dar colo a si mesmo ao invés de buscar aconchego no outro e fortalecer-se. Isso desobriga as pessoas à nossa volta de cumprirem o papel de preencher algo que nunca se preenche! E nossa convivência com os outros parece fluir melhor.

(*) Josiane Lieberknecht Wathier é psicóloga, formada pela UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). Registro junto ao Conselho Regional de Psicologia (CRP) é 07/14653.