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Márcia Tiburi: metamorfose ambulante

 “É o corpo que sabe de sua finitude e impotência”, disse a filósofa e escritora Márcia Tiburi, ao comentar seu livro, Mulher de Costas. Apresentadora do programa Saia Justa da GNT, ela esteve, no último sábado, na Feira do Livro de Santa Maria, onde bateu um papo com o público. Discorreu sobre filosofia, literatura e cotidiano. Com um jeito encantador de ser, conquistou o público e deixou os repórteres da ACS querendo mais. Então, fomos trocar algumas idéias com a filósofa. Confira a entrevista a seguir, vale a pena.

 ACS: Sabemos que houve algumas mudanças no seu perfil externo, depois que você entrou para o GNT. Como se deu essa mudança na sua vida?

Márcia Tiburi: Isso é mentira. A minha mudança física tem a ver com depois do meu doutorado, não é depois da televisão. Na televisão, o que acontece é que você tem que colocar aquelas roupas estranhas que não são suas, aquela maquiagem esquisita que também não é sua. E, por mais que você não queira se envolver, as pessoas não te escutam, ainda mais você que não é da televisão. Mesmo que você fale, o maquiador, até achar o seu jeito, demora um tempão. Eu estou na TV há quase dois anos e está começando a ficar meio parecido, sei lá. Quando eu falei daquela história de que acabou meu ego, isso me ajudou acabar com ele, agora não me importa mais, sabe, não estou mais aí. Mas mudei esteticamente depois do doutorado, quando eu fui pensar na vida e veio a questão do que você é, de como você se relaciona consigo mesma. Isso é muito íntimo, muito delicado.

ACS: Há quem acredite que o físico influencie no intelectual. Você concorda com isso?

Márcia: Isso é um clichê maldoso da sociedade machista, que mulheres bonitas são burras e mulheres intelectuais são todas feias. Eu não me preocupo muito com isso, mas depois que eu virei mãe, eu me preocupo em não ser uma mãe acabada, sabe. Quando terminei o meu doutorado, minha filha tinha dois anos e eu fui revisar um pouco a minha estética, fui realmente revisar o meu corpo, porque eu não queria que a minha filha, me olhasse, enquanto ela estava crescendo, como uma figura toda estragada, toda destruída, toda ‘desimportada’ de si. Eu acho que quando você fica muito voltado para o lado do intelecto, você pode esquecer disso, esquecer essa outra coisa, mas isso é muito diferente de você querer entrar no mercado sensual. E tem a ver com o respeito que você tem que ter por você mesmo, na hora em que você constrói o seu modo de se olhar, que é o modo como você vai aparecer para as outras pessoas. Mas eu gosto da sobriedade e acho que é apenas um gosto, uma coisa minha e acho também que as pessoas falam tanto disso, porque, afinal de contas, de repente, eu apareci e antes ninguém tinha me visto.

ACS: Como se deu essa mudança?

Na universidade isso ficou muito claro, depois que eu terminei o doutorado, fui vagarosamente mudando o estilo de roupa que usava. Eu usava umas camisas enormes, um óculos que tapava quase toda a face. Daí eu tirei o óculos, coloquei lentes, arrumei o cabelo, fiz sobrancelhas, passei batom, troquei de roupa. As pessoas percebem que você tinha outra configuração. E aí, nossa, quem é essa pessoa que apareceu, ela estava guardada dentro da outra pessoa que estava escondendo, então, seu corpo esconde seu corpo. Mas para que tanto? Não precisava tanto disso. No mundo que eu vivia precisava um pouco disso, pois eu vivia num mundo de homens, e nunca gostei de ser vista como mulher, queria uma coisa de igual para igual. Eu sou, tanto faz, homem ou mulher, eu sou um ser, não quero ficar aderindo. Eu sou uma metamorfose ambulante até porque os deveres são muito maiores para mim. Eu sou uma mulher que cuida do meu dinheiro, sustento a minha filha, resolvo a minha vida, sou totalmente independente, eu não me reconheço como uma mulher naquele sentido do estereótipo, da psique. Eu não me acho mesmo!

ACS: Quando você entrou para a faculdade de Filosofia, qual era o seu objetivo, seu ideal de vida, e qual é hoje?

 Márcia: Eu não tinha nenhum ideal e continuo não tendo. Eu vou fazendo o que eu acho que devo fazer. Você vai sendo moldado até quando você não sabe, você é inevitavelmente moldável, por mais que você tente escapar disso, mas a sua tentativa de escapar é que faz com que você se torne livre diante das imposições objetivas da sociedade. Projeto assim, muito organizado de vida, eu não tenho. Quem faz este tipo de plano está morto, o sujeito não sabe que a vida é muito maior que ele, você escolhe isso, um pouco… muito pouco. Agora, a única coisa que você pode fazer é trabalhar para as coisas que você gosta, e isso tem que ser no cotidiano. Eu acho engraçado o cara que fica lá: um dia eu vou parar para estudar, é como eu, eu digo que um dia eu vou parar para fazer pintura. Eu não vou.

ACS: Então você acha que as circunstâncias fazem as pessoas?

Márcia: O encontro da sua contingência com a tua necessidade, da contingência que é você, com a sua liberdade e a conjuntura social, a estrutura dada, que pesa, sobre os seus ombros, você se constrói no confronto entre esses dois universos, sendo que você não tem domínio nem sobre um, nem sobre o outro.

ACS: Como filósofa, qual é a sua visão sobre o caminho que a humanidade está tomando? Estamos indo pro lugar certo?

Márcia: Nesse estágio atual, não existe uma solução para botar o mundo do jeito que a gente quer. Sabe, porque também tem que pensar isso: tem o mundo que a gente quer e agora vamos construí-lo, isso não existe. A única coisa que a gente pode chamar de solução é o caminho para encontrar uma. A tentativa de construir uma ética que leve em conta o ser humano, que leve em conta a árvore, que leve em conta o mar, o planeta, o cosmo e o futuro. Eu estou trabalhando muito, agora, com ética, tentando pôr em cena essa categoria do futuro. Sabe, se a gente fosse hoje discutir o futuro, porque ele nos faz pensar, o futuro é onde a gente está plantando tudo, plantando a história dos nossos filhos, a história daqueles que vão herdar esse mundo todo destruído, tal como nós estamos a conhecê-lo como hoje.

ACS: Como é vir conversar, bater papo, numa feira de Livro no interior do seu estado de origem?

Márcia: Amo vir conversar, pago pra fazer isso. Filosofia é isso. No estágio atual, uns conhecem mais e outros conhecem menos, mas vai chegar um ponto da história da humana, e isso seria o ideal, que todos conheceriam mais e poderiam conversar mais, e os problemas poderiam ser mais bem resolvidos, eu acredito muito nisso. Por enquanto eu vou falando, até que apareça mais que possam falar também. Você vê que bonito, as pessoas perguntam, as pessoas se animam, os que não perguntam, saem pensando, eles ficam comovidos, eles saem afetados, e não precisa eles entenderem tudo, precisa só eles…, brilhem os olhos, para uma outra coisa, não é legal? Isso precisa ser um movimento humano, colocar mais e mais, constante, sabe, é pra isso que a gente existe, pra que? Pra pensar, pra discutir, pra reorganizar, pra inventar, pra criar, isso é, acho isso um momento de experiência vital.

ACS: A respeito do programa Saia Justa, você comentou no bate-papo que vocês, apresentadoras, tentam preservar a sinceridade, mas não conseguem. Você pode explicar isso?

Márcia: Sinceridade, o que eu quis dizer não é essa coisa de falar uma verdade que possa ser ofensiva. Teve até um dia, em que eu falei sobre a sinceridade no programa, citando um livro e tentando trabalhar um conceito mais complexo. Mas a sinceridade como descoberta de si e confissão dessa descoberta, era nesse sentido, então você não tem tempo para isso, tu não pode ir mais fundo naquela conversa, às vezes, você não tem espaço de atenção para você ou mesmo de você para o outro, a ponto que privilegie isso. Então, a Mônica é muito mais bonita do que aparece no programa, a Maitê também, a Betti também, a Soninha, eu conheço pouco. Mas ali, todas aquelas pessoas que eu vejo nos bastidores, elas são mais bonitas. Tem mais gente aí, é que o programa, pelo limite de tempo, pela conversa que rola, pela própria edição, não aparece o que seria. Essa sinceridade ela não tem espaço na vida, é isso que eu acho, não essa coisa de, eu vou ser sincera com você, como se fosse um negócio proibido. Essa revelação da coisa que eu pensei, que eu li, que eu descobri, mas não é nada meu, que vem desse encontro possível por que nessa hora cabe trazer isso para as pessoas, depois eu vou fazer outras descobertas, eu vou andando, nômade, sabe, depois eu penso outra coisa. A Filosofia é muito isso, ela pode ficar boa se ela for assim.

ACS: Quem é Márcia Tiburi pra você?

Márcia: Ahh!!! Ninguém. Pra mim é ninguém e o ‘Outro’.

* Colaboração de Camila Porto Nascimento (da Redação)

Fotos: Sione Gomes (Especial para a ACS)

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 “É o corpo que sabe de sua finitude e impotência”, disse a filósofa e escritora Márcia Tiburi, ao comentar seu livro, Mulher de Costas. Apresentadora do programa Saia Justa da GNT, ela esteve, no último sábado, na Feira do Livro de Santa Maria, onde bateu um papo com o público. Discorreu sobre filosofia, literatura e cotidiano. Com um jeito encantador de ser, conquistou o público e deixou os repórteres da ACS querendo mais. Então, fomos trocar algumas idéias com a filósofa. Confira a entrevista a seguir, vale a pena.

 ACS: Sabemos que houve algumas mudanças no seu perfil externo, depois que você entrou para o GNT. Como se deu essa mudança na sua vida?

Márcia Tiburi: Isso é mentira. A minha mudança física tem a ver com depois do meu doutorado, não é depois da televisão. Na televisão, o que acontece é que você tem que colocar aquelas roupas estranhas que não são suas, aquela maquiagem esquisita que também não é sua. E, por mais que você não queira se envolver, as pessoas não te escutam, ainda mais você que não é da televisão. Mesmo que você fale, o maquiador, até achar o seu jeito, demora um tempão. Eu estou na TV há quase dois anos e está começando a ficar meio parecido, sei lá. Quando eu falei daquela história de que acabou meu ego, isso me ajudou acabar com ele, agora não me importa mais, sabe, não estou mais aí. Mas mudei esteticamente depois do doutorado, quando eu fui pensar na vida e veio a questão do que você é, de como você se relaciona consigo mesma. Isso é muito íntimo, muito delicado.

ACS: Há quem acredite que o físico influencie no intelectual. Você concorda com isso?

Márcia: Isso é um clichê maldoso da sociedade machista, que mulheres bonitas são burras e mulheres intelectuais são todas feias. Eu não me preocupo muito com isso, mas depois que eu virei mãe, eu me preocupo em não ser uma mãe acabada, sabe. Quando terminei o meu doutorado, minha filha tinha dois anos e eu fui revisar um pouco a minha estética, fui realmente revisar o meu corpo, porque eu não queria que a minha filha, me olhasse, enquanto ela estava crescendo, como uma figura toda estragada, toda destruída, toda ‘desimportada’ de si. Eu acho que quando você fica muito voltado para o lado do intelecto, você pode esquecer disso, esquecer essa outra coisa, mas isso é muito diferente de você querer entrar no mercado sensual. E tem a ver com o respeito que você tem que ter por você mesmo, na hora em que você constrói o seu modo de se olhar, que é o modo como você vai aparecer para as outras pessoas. Mas eu gosto da sobriedade e acho que é apenas um gosto, uma coisa minha e acho também que as pessoas falam tanto disso, porque, afinal de contas, de repente, eu apareci e antes ninguém tinha me visto.

ACS: Como se deu essa mudança?

Na universidade isso ficou muito claro, depois que eu terminei o doutorado, fui vagarosamente mudando o estilo de roupa que usava. Eu usava umas camisas enormes, um óculos que tapava quase toda a face. Daí eu tirei o óculos, coloquei lentes, arrumei o cabelo, fiz sobrancelhas, passei batom, troquei de roupa. As pessoas percebem que você tinha outra configuração. E aí, nossa, quem é essa pessoa que apareceu, ela estava guardada dentro da outra pessoa que estava escondendo, então, seu corpo esconde seu corpo. Mas para que tanto? Não precisava tanto disso. No mundo que eu vivia precisava um pouco disso, pois eu vivia num mundo de homens, e nunca gostei de ser vista como mulher, queria uma coisa de igual para igual. Eu sou, tanto faz, homem ou mulher, eu sou um ser, não quero ficar aderindo. Eu sou uma metamorfose ambulante até porque os deveres são muito maiores para mim. Eu sou uma mulher que cuida do meu dinheiro, sustento a minha filha, resolvo a minha vida, sou totalmente independente, eu não me reconheço como uma mulher naquele sentido do estereótipo, da psique. Eu não me acho mesmo!

ACS: Quando você entrou para a faculdade de Filosofia, qual era o seu objetivo, seu ideal de vida, e qual é hoje?

 Márcia: Eu não tinha nenhum ideal e continuo não tendo. Eu vou fazendo o que eu acho que devo fazer. Você vai sendo moldado até quando você não sabe, você é inevitavelmente moldável, por mais que você tente escapar disso, mas a sua tentativa de escapar é que faz com que você se torne livre diante das imposições objetivas da sociedade. Projeto assim, muito organizado de vida, eu não tenho. Quem faz este tipo de plano está morto, o sujeito não sabe que a vida é muito maior que ele, você escolhe isso, um pouco… muito pouco. Agora, a única coisa que você pode fazer é trabalhar para as coisas que você gosta, e isso tem que ser no cotidiano. Eu acho engraçado o cara que fica lá: um dia eu vou parar para estudar, é como eu, eu digo que um dia eu vou parar para fazer pintura. Eu não vou.

ACS: Então você acha que as circunstâncias fazem as pessoas?

Márcia: O encontro da sua contingência com a tua necessidade, da contingência que é você, com a sua liberdade e a conjuntura social, a estrutura dada, que pesa, sobre os seus ombros, você se constrói no confronto entre esses dois universos, sendo que você não tem domínio nem sobre um, nem sobre o outro.

ACS: Como filósofa, qual é a sua visão sobre o caminho que a humanidade está tomando? Estamos indo pro lugar certo?

Márcia: Nesse estágio atual, não existe uma solução para botar o mundo do jeito que a gente quer. Sabe, porque também tem que pensar isso: tem o mundo que a gente quer e agora vamos construí-lo, isso não existe. A única coisa que a gente pode chamar de solução é o caminho para encontrar uma. A tentativa de construir uma ética que leve em conta o ser humano, que leve em conta a árvore, que leve em conta o mar, o planeta, o cosmo e o futuro. Eu estou trabalhando muito, agora, com ética, tentando pôr em cena essa categoria do futuro. Sabe, se a gente fosse hoje discutir o futuro, porque ele nos faz pensar, o futuro é onde a gente está plantando tudo, plantando a história dos nossos filhos, a história daqueles que vão herdar esse mundo todo destruído, tal como nós estamos a conhecê-lo como hoje.

ACS: Como é vir conversar, bater papo, numa feira de Livro no interior do seu estado de origem?

Márcia: Amo vir conversar, pago pra fazer isso. Filosofia é isso. No estágio atual, uns conhecem mais e outros conhecem menos, mas vai chegar um ponto da história da humana, e isso seria o ideal, que todos conheceriam mais e poderiam conversar mais, e os problemas poderiam ser mais bem resolvidos, eu acredito muito nisso. Por enquanto eu vou falando, até que apareça mais que possam falar também. Você vê que bonito, as pessoas perguntam, as pessoas se animam, os que não perguntam, saem pensando, eles ficam comovidos, eles saem afetados, e não precisa eles entenderem tudo, precisa só eles…, brilhem os olhos, para uma outra coisa, não é legal? Isso precisa ser um movimento humano, colocar mais e mais, constante, sabe, é pra isso que a gente existe, pra que? Pra pensar, pra discutir, pra reorganizar, pra inventar, pra criar, isso é, acho isso um momento de experiência vital.

ACS: A respeito do programa Saia Justa, você comentou no bate-papo que vocês, apresentadoras, tentam preservar a sinceridade, mas não conseguem. Você pode explicar isso?

Márcia: Sinceridade, o que eu quis dizer não é essa coisa de falar uma verdade que possa ser ofensiva. Teve até um dia, em que eu falei sobre a sinceridade no programa, citando um livro e tentando trabalhar um conceito mais complexo. Mas a sinceridade como descoberta de si e confissão dessa descoberta, era nesse sentido, então você não tem tempo para isso, tu não pode ir mais fundo naquela conversa, às vezes, você não tem espaço de atenção para você ou mesmo de você para o outro, a ponto que privilegie isso. Então, a Mônica é muito mais bonita do que aparece no programa, a Maitê também, a Betti também, a Soninha, eu conheço pouco. Mas ali, todas aquelas pessoas que eu vejo nos bastidores, elas são mais bonitas. Tem mais gente aí, é que o programa, pelo limite de tempo, pela conversa que rola, pela própria edição, não aparece o que seria. Essa sinceridade ela não tem espaço na vida, é isso que eu acho, não essa coisa de, eu vou ser sincera com você, como se fosse um negócio proibido. Essa revelação da coisa que eu pensei, que eu li, que eu descobri, mas não é nada meu, que vem desse encontro possível por que nessa hora cabe trazer isso para as pessoas, depois eu vou fazer outras descobertas, eu vou andando, nômade, sabe, depois eu penso outra coisa. A Filosofia é muito isso, ela pode ficar boa se ela for assim.

ACS: Quem é Márcia Tiburi pra você?

Márcia: Ahh!!! Ninguém. Pra mim é ninguém e o ‘Outro’.

* Colaboração de Camila Porto Nascimento (da Redação)

Fotos: Sione Gomes (Especial para a ACS)