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Santa Maria, RS, Brazil

Em busca da história e da diversidade cultural do RS

Para você, o tradicionalismo corresponde à memória e à história do Rio Grande do Sul ou é um manipulador de hábitos e costumes? Há um ano, um grupo formado por acadêmicos, professores, jornalistas, músicos e outros profissionais, resolveu questionar o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). Através das análises presentes no Manifesto Contra o Tradicionalismo, criticam a cultura tradicionalista e os atos do MTG, considerado um meio que nega e destrói os traços culturais e os direitos dos rio-grandenses.

 De acordo com o criador do Manifesto, o jornalista e doutor em História, Tau Golin, o tradicionalismo não representa as diferenças culturais existentes no Estado, pois só pode ser considerada legítima a manifestação que representar essa pluralidade: “Para nós, historicamente, o Rio Grande é multicultural e multi-étnico. Cultural e simbolicamente é uma região de representação aberta, de recriação constante, como critério indispensável às manifestações de pertencimento, motivadas pelas transformações históricas, sociológicas e culturais, típicas de uma sociedade em movimento, de transformações estruturais e antropológicas, onde ainda se opera, por exemplo, a mestiçagem dos grupos étnicos de origem”.

No manifesto, o tradicionalismo é considerado uma ‘força institucional e popular’ oficial que padronizou a imagem e os trajes do gaúcho. Também é atribuída a esse culto, a influência nos meios de comunicação, no governo e na educação, o que, segundo Golin, convertê-lo-ia em uma marca, isto é, uma mercadoria da indústria.

Para o historiador, a Semana Farroupilha não possui nenhuma conexão com a história, mas é um evento que utiliza aspectos da história para ‘especulações contemporâneas’: “Objetiva sustentar empregos, legitimar entes políticos e mover uma poderosa máquina da indústria cultural. Não podemos também esquecer o conforto que propicia à massa que se aliena nos rituais e nos eventos, atingindo um grau confortável e ilusório da satisfação existencial”. 

O professor acredita na existência de dois elementos que contribuem para a disseminação do tradicionalismo: a mídia e as escolas. A primeira utiliza e o transforma em mercadoria e qualquer fonte é usada para embasar as matérias: “É quando ser patrão do Centro Tradicionalista Gaúcho (CTG) e produtor cultural de algum evento credencia para falar da história, enquanto historiadores e a imensa produção historiográfica acadêmica fica relegada”. Já a segunda, propaga os ensinamentos tradicionalistas e se converte em extensões do CTG. “Escola é um espaço republicano para o saber, para o estudo, para o conhecimento e a reflexão. Não é lugar de culto. É o lugar de resistência da indústria cultural alienante, especialmente da pilchada, pois implica em distorções de identidade”, analisa.

A Ditadura Militar e o Tradicionalismo

Conforme Golin, o tradicionalismo cresceu na década de 1960, durante a ditadura militar. Nesta época foi criada a lei que instituiu a Semana Farroupilha e que determinava a realização das comemorações entre a população e a ordem vigente e o tradicionalismo foi anexado ao projeto cultural do governo: “Desde a ditadura militar, no geral, os oficiais da Brigada Militar detém a hegemonia no interior do próprio tradicionalismo, não sem sérias divergências internas. Vem das medidas de caserna este perfil disciplinado, obediente, cego, do MTG. Esta uniformização, a pilcha também como uniforme, os CTGs padronizados como “soldadinhos celerados”, etc. Galpão crioulo nos quartéis da Brigada e do Exército são emblemas de um tempo em que o latifundiário, o estancieiro, era o poder econômico e militar”,  completa.

Para combater o crescimento desse tradicionalismo, o pesquisador comenta: “A única forma de desamordaçar e desatrelar a cultura rio-grandense dessa hegemonia nefasta para a cidadania é continuar insistindo em uma espécie de neo-iluminismo de afirmações de preceitos republicanos”.
 
A professora de História do Centro Universitário Franciscano, Paula Bolzan, prefere se manter neutra, mas analisa que o movimento tradicionalista não é culturalmente espontâneo, pois precisa de regras que devem ser cumpridas. "Ele não está ligado a uma manifestação que se transforma, mas cristalizado, congelado em uma forma de ser",  explica. Apesar disso, ela acredita que  a participação das pessoas nesses movimentos se deve pela sua identificação. A profissional também considera importante que as pessoas, apoiadoras ou não do movimento, tenham um contato com os documentos e conheçam a história: "História é questionamento".
 
Foto: internet

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Para você, o tradicionalismo corresponde à memória e à história do Rio Grande do Sul ou é um manipulador de hábitos e costumes? Há um ano, um grupo formado por acadêmicos, professores, jornalistas, músicos e outros profissionais, resolveu questionar o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). Através das análises presentes no Manifesto Contra o Tradicionalismo, criticam a cultura tradicionalista e os atos do MTG, considerado um meio que nega e destrói os traços culturais e os direitos dos rio-grandenses.

 De acordo com o criador do Manifesto, o jornalista e doutor em História, Tau Golin, o tradicionalismo não representa as diferenças culturais existentes no Estado, pois só pode ser considerada legítima a manifestação que representar essa pluralidade: “Para nós, historicamente, o Rio Grande é multicultural e multi-étnico. Cultural e simbolicamente é uma região de representação aberta, de recriação constante, como critério indispensável às manifestações de pertencimento, motivadas pelas transformações históricas, sociológicas e culturais, típicas de uma sociedade em movimento, de transformações estruturais e antropológicas, onde ainda se opera, por exemplo, a mestiçagem dos grupos étnicos de origem”.

No manifesto, o tradicionalismo é considerado uma ‘força institucional e popular’ oficial que padronizou a imagem e os trajes do gaúcho. Também é atribuída a esse culto, a influência nos meios de comunicação, no governo e na educação, o que, segundo Golin, convertê-lo-ia em uma marca, isto é, uma mercadoria da indústria.

Para o historiador, a Semana Farroupilha não possui nenhuma conexão com a história, mas é um evento que utiliza aspectos da história para ‘especulações contemporâneas’: “Objetiva sustentar empregos, legitimar entes políticos e mover uma poderosa máquina da indústria cultural. Não podemos também esquecer o conforto que propicia à massa que se aliena nos rituais e nos eventos, atingindo um grau confortável e ilusório da satisfação existencial”. 

O professor acredita na existência de dois elementos que contribuem para a disseminação do tradicionalismo: a mídia e as escolas. A primeira utiliza e o transforma em mercadoria e qualquer fonte é usada para embasar as matérias: “É quando ser patrão do Centro Tradicionalista Gaúcho (CTG) e produtor cultural de algum evento credencia para falar da história, enquanto historiadores e a imensa produção historiográfica acadêmica fica relegada”. Já a segunda, propaga os ensinamentos tradicionalistas e se converte em extensões do CTG. “Escola é um espaço republicano para o saber, para o estudo, para o conhecimento e a reflexão. Não é lugar de culto. É o lugar de resistência da indústria cultural alienante, especialmente da pilchada, pois implica em distorções de identidade”, analisa.

A Ditadura Militar e o Tradicionalismo

Conforme Golin, o tradicionalismo cresceu na década de 1960, durante a ditadura militar. Nesta época foi criada a lei que instituiu a Semana Farroupilha e que determinava a realização das comemorações entre a população e a ordem vigente e o tradicionalismo foi anexado ao projeto cultural do governo: “Desde a ditadura militar, no geral, os oficiais da Brigada Militar detém a hegemonia no interior do próprio tradicionalismo, não sem sérias divergências internas. Vem das medidas de caserna este perfil disciplinado, obediente, cego, do MTG. Esta uniformização, a pilcha também como uniforme, os CTGs padronizados como “soldadinhos celerados”, etc. Galpão crioulo nos quartéis da Brigada e do Exército são emblemas de um tempo em que o latifundiário, o estancieiro, era o poder econômico e militar”,  completa.

Para combater o crescimento desse tradicionalismo, o pesquisador comenta: “A única forma de desamordaçar e desatrelar a cultura rio-grandense dessa hegemonia nefasta para a cidadania é continuar insistindo em uma espécie de neo-iluminismo de afirmações de preceitos republicanos”.
 
A professora de História do Centro Universitário Franciscano, Paula Bolzan, prefere se manter neutra, mas analisa que o movimento tradicionalista não é culturalmente espontâneo, pois precisa de regras que devem ser cumpridas. "Ele não está ligado a uma manifestação que se transforma, mas cristalizado, congelado em uma forma de ser",  explica. Apesar disso, ela acredita que  a participação das pessoas nesses movimentos se deve pela sua identificação. A profissional também considera importante que as pessoas, apoiadoras ou não do movimento, tenham um contato com os documentos e conheçam a história: "História é questionamento".
 
Foto: internet