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Santa Maria, RS, Brazil

Esquecimento, é da idade?

O número de idosos na população brasileira aumentou e, com ele, o número de casos de Alzheimer. A doença é a quarta maior causadora de morte em pessoas acima de 75 anos. Na semana em que se comemorou o Dia do Idoso, vale refletir sobre este problema.   

“Viver como um ser estranho numa terra desconhecida, estar constantemente preocupado com o que deveria estar fazendo, se está ou não cumprindo suas obrigações, se alguém sabe como o encontrar”. Esse trecho, retirado do livro Cuidado com os Portadores de Alzheimer, de Liza P. Gwytcher, tenta nos mostrar a sensação de uma pessoa com Alzheimer.
 
Mesmo que inteligência diminua os riscos, a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thacher, conhecida como a Dama de Ferro, é portadora da doença. Sua filha Carol contou em livro que os primeiros sintomas surgiram em 2000. Hoje, aos 82 anos, Margaret costuma perguntar pelo marido, Denis Thatcher, falecido em 2003.
 

Mas não precisa sair do país para encontrar um ícone com a doença. A célebre Aracy Guimarães Rosa, esposa de Guimarães Rosa, hoje com cem anos, não sabe quem é, nem reconhece ninguém. Aracy ajudou os judeus a conseguirem visto para fugir da Alemanha nazista desobedecendo à diplomacia de Getúlio Vargas. É a única mulher homenageada no Museu Holocausto, em Jerusalém.

   

A doença de Alzheimer é, hoje, a causa mais comum da grave e progressiva perda de memória. Os sintomas começam com dificuldade de memorização, breves distrações e dificuldade de aprender novidades. Aos poucos a execução de tarefas fica pela metade, alterações de comportamento, a linguagem vai degenerando com confusão de palavras e diminuição do vocabulário. Depois inicia uma desorientação, perda do controle da bexiga e do intestino, enrijecimento das articulações, alucinações, transtornos, leito permanente e morte.
 
 

 São as tantas dificuldades enfrentadas pelos pacientes e por quem cuida deles. Um dos criadores do Conselho de Idosos de Santa Maria (CISMA), o professor José Francisco Dias alerta para o cuidado que se deve ter com quem cuida do portador do Alzheimer: “A pessoa encarregada de cuidar, se for um familiar, acaba perdendo sua vida, vivendo em função de cuidar do doente, é isso que tem que ser mudado” diz Juca, como é popularmente conhecido.

 

 Por esse motivo iniciaram os trabalhos da Associação Brasileira dos Cuidadores de Alzheimer, ABRAz. No Rio Grande do Sul, só existia uma filial em Porto Alegre. Assim, Maria Elisabeth Carvalho, ao descobrir que sua mãe era portadora da doença e que ela seria a responsável pelos seus cuidados, ia com freqüência à capital buscar orientação. “São raros os casos em que toda família se envolve, as pessoas precisam de ajuda”, lamenta Maria. Com o tempo conseguiu fundar uma filial sub-regional em Santa Maria. O projeto também foi criado na Unifra, como Programa Integral de Saúde e Qualidade de Vida, da Pró-reitoria de Extensão (PROEX).

 Desde o início desse ano, os dois grupos se uniram por ter os mesmos objetivos e formaram a Associação Multidisciplinar Integrada aos Cuidadores dos Portadores da Doença de Alzheimer, a AMICA. Os cuidadores recebem auxílio de profissionais e acadêmicos da área de saúde, cada um responsável por orientar conforme sua área.

 

“Esses grupos de ajuda ao cuidador vêm para dar um ânimo e para incentivá-los a não largarem seus projetos pessoais. O ideal é que todos freqüentassem e houvesse uma maior especialização”, comenta Juca.

 

A coordenadora do projeto, profª Tereza Christina Blasi, conta que o grupo busca atender as necessidades da população sobre a patologia, a doença: “O trabalho é conforme as necessidades dos cuidadores, porque eles perdem espaço nas suas próprias vidas”. Em geral são familiares que procuram o grupo.

 

 Apesar da doença não ter cura, uma série de medidas podem ser tomadas para melhorar a qualidade de vida de uma pessoa portadora. Além dos medicamentos, a terapia ocupacional adapta o ambiente domiciliar e utensílios do lar para proporcionar mais independência à pessoa. Como explica a professora de Terapia Ocupacional, Vera Barcellos, integrante do projeto: “Colocamos barras nos banheiros, ajustamos tamanhos dos móveis, organizamos o ambiente de moradia, adaptamos e nomeamos objetos para melhorar a memória, utilizamos o visual”. Ela conta que é um processo longo e de trabalho contínuo porque engloba família, os cuidadores e a sociedade. “Um portador tem sentimentos, sofre com o tratamento que recebe, mesmo sem ter consciência ”.   
 
 
 O interesse em trabalhar com idosos fez a estudante de Terapia Ocupacional, Deise Marin, 28 anos, procurar o projeto. Deise, que também é técnica em enfermagem, cuida de uma senhora com Alzheimer.  “O importante é que os cuidadores venham aos encontros, pois nem sempre permanecem”, lamenta a estudante.
 
 
O projeto AMICA faz dois tipos de encontros:

– encontros quinzenais, com profissionais da área da saúde, “a troca de experiência”, com as professoras: Adriana Carpes (Farmácia), Analu Rodrigues (Fisioterapia), Carolina Baures (Psicologia), Marta Alves (Enfermagem), Patrícia Dotto (Odontologia), Vera Barcellos (Terapia Ocupacional), Viviane Ruffo e Tereza Christina Blasi (Nutrição) e a cuidadora Maria Elisabeth Carvalho.

– e os encontros semanais com os cuidadores, a “hora do desabafo”, como eles chamam.

As reuniões são nas quintas-feiras, às 17h, na Unifra, rua dos Andradas, 1614, no 7º andar, sala 710.

Informações pelo telefone (55) 3025 9070.

 

Curiosidades sobre manifestação da doença

A chance de desenvolver a doença aumenta após os 70 anos.

Também aumenta a chance para quem está acima do peso e com gordura abdominal, barriga saliente;

Os riscos são maiores quando existe histórico de doença na família;

Em mulheres, o percentual é maior, mesmo que pouca diferença, 12% a 19% contra 6% a 10% dos homens;

Pessoas com Síndrome de Down podem desenvolver a doença mais cedo;

Existem indícios que pessoas com trauma craniano e boxeadores estão sujeitos à enfermidade.

Atividade física e escolaridade: a aquisição de conhecimento cria novas conexões entre os neurônios e aumenta a reserva intelectual, dificultando as manifestações da doença;

Estudo feito nos Estados Unidos, pela Universidade Northwestern, descobriu que o Diabetes tipo 2 aumenta a probabilidade de ter Alzheimer;

Filhos de mães com mais de 40 anos, podem ter maior tendência a problemas demenciais na terceira idade;

Fotos: Vinícius Freitas (Laboratório de Fotografia e Memória) e Jair Alan (arquivo/UFSM)

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O número de idosos na população brasileira aumentou e, com ele, o número de casos de Alzheimer. A doença é a quarta maior causadora de morte em pessoas acima de 75 anos. Na semana em que se comemorou o Dia do Idoso, vale refletir sobre este problema.   

“Viver como um ser estranho numa terra desconhecida, estar constantemente preocupado com o que deveria estar fazendo, se está ou não cumprindo suas obrigações, se alguém sabe como o encontrar”. Esse trecho, retirado do livro Cuidado com os Portadores de Alzheimer, de Liza P. Gwytcher, tenta nos mostrar a sensação de uma pessoa com Alzheimer.
 
Mesmo que inteligência diminua os riscos, a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thacher, conhecida como a Dama de Ferro, é portadora da doença. Sua filha Carol contou em livro que os primeiros sintomas surgiram em 2000. Hoje, aos 82 anos, Margaret costuma perguntar pelo marido, Denis Thatcher, falecido em 2003.
 

Mas não precisa sair do país para encontrar um ícone com a doença. A célebre Aracy Guimarães Rosa, esposa de Guimarães Rosa, hoje com cem anos, não sabe quem é, nem reconhece ninguém. Aracy ajudou os judeus a conseguirem visto para fugir da Alemanha nazista desobedecendo à diplomacia de Getúlio Vargas. É a única mulher homenageada no Museu Holocausto, em Jerusalém.

   

A doença de Alzheimer é, hoje, a causa mais comum da grave e progressiva perda de memória. Os sintomas começam com dificuldade de memorização, breves distrações e dificuldade de aprender novidades. Aos poucos a execução de tarefas fica pela metade, alterações de comportamento, a linguagem vai degenerando com confusão de palavras e diminuição do vocabulário. Depois inicia uma desorientação, perda do controle da bexiga e do intestino, enrijecimento das articulações, alucinações, transtornos, leito permanente e morte.
 
 

 São as tantas dificuldades enfrentadas pelos pacientes e por quem cuida deles. Um dos criadores do Conselho de Idosos de Santa Maria (CISMA), o professor José Francisco Dias alerta para o cuidado que se deve ter com quem cuida do portador do Alzheimer: “A pessoa encarregada de cuidar, se for um familiar, acaba perdendo sua vida, vivendo em função de cuidar do doente, é isso que tem que ser mudado” diz Juca, como é popularmente conhecido.

 

 Por esse motivo iniciaram os trabalhos da Associação Brasileira dos Cuidadores de Alzheimer, ABRAz. No Rio Grande do Sul, só existia uma filial em Porto Alegre. Assim, Maria Elisabeth Carvalho, ao descobrir que sua mãe era portadora da doença e que ela seria a responsável pelos seus cuidados, ia com freqüência à capital buscar orientação. “São raros os casos em que toda família se envolve, as pessoas precisam de ajuda”, lamenta Maria. Com o tempo conseguiu fundar uma filial sub-regional em Santa Maria. O projeto também foi criado na Unifra, como Programa Integral de Saúde e Qualidade de Vida, da Pró-reitoria de Extensão (PROEX).

 Desde o início desse ano, os dois grupos se uniram por ter os mesmos objetivos e formaram a Associação Multidisciplinar Integrada aos Cuidadores dos Portadores da Doença de Alzheimer, a AMICA. Os cuidadores recebem auxílio de profissionais e acadêmicos da área de saúde, cada um responsável por orientar conforme sua área.

 

“Esses grupos de ajuda ao cuidador vêm para dar um ânimo e para incentivá-los a não largarem seus projetos pessoais. O ideal é que todos freqüentassem e houvesse uma maior especialização”, comenta Juca.

 

A coordenadora do projeto, profª Tereza Christina Blasi, conta que o grupo busca atender as necessidades da população sobre a patologia, a doença: “O trabalho é conforme as necessidades dos cuidadores, porque eles perdem espaço nas suas próprias vidas”. Em geral são familiares que procuram o grupo.

 

 Apesar da doença não ter cura, uma série de medidas podem ser tomadas para melhorar a qualidade de vida de uma pessoa portadora. Além dos medicamentos, a terapia ocupacional adapta o ambiente domiciliar e utensílios do lar para proporcionar mais independência à pessoa. Como explica a professora de Terapia Ocupacional, Vera Barcellos, integrante do projeto: “Colocamos barras nos banheiros, ajustamos tamanhos dos móveis, organizamos o ambiente de moradia, adaptamos e nomeamos objetos para melhorar a memória, utilizamos o visual”. Ela conta que é um processo longo e de trabalho contínuo porque engloba família, os cuidadores e a sociedade. “Um portador tem sentimentos, sofre com o tratamento que recebe, mesmo sem ter consciência ”.   
 
 
 O interesse em trabalhar com idosos fez a estudante de Terapia Ocupacional, Deise Marin, 28 anos, procurar o projeto. Deise, que também é técnica em enfermagem, cuida de uma senhora com Alzheimer.  “O importante é que os cuidadores venham aos encontros, pois nem sempre permanecem”, lamenta a estudante.
 
 
O projeto AMICA faz dois tipos de encontros:

– encontros quinzenais, com profissionais da área da saúde, “a troca de experiência”, com as professoras: Adriana Carpes (Farmácia), Analu Rodrigues (Fisioterapia), Carolina Baures (Psicologia), Marta Alves (Enfermagem), Patrícia Dotto (Odontologia), Vera Barcellos (Terapia Ocupacional), Viviane Ruffo e Tereza Christina Blasi (Nutrição) e a cuidadora Maria Elisabeth Carvalho.

– e os encontros semanais com os cuidadores, a “hora do desabafo”, como eles chamam.

As reuniões são nas quintas-feiras, às 17h, na Unifra, rua dos Andradas, 1614, no 7º andar, sala 710.

Informações pelo telefone (55) 3025 9070.

 

Curiosidades sobre manifestação da doença

A chance de desenvolver a doença aumenta após os 70 anos.

Também aumenta a chance para quem está acima do peso e com gordura abdominal, barriga saliente;

Os riscos são maiores quando existe histórico de doença na família;

Em mulheres, o percentual é maior, mesmo que pouca diferença, 12% a 19% contra 6% a 10% dos homens;

Pessoas com Síndrome de Down podem desenvolver a doença mais cedo;

Existem indícios que pessoas com trauma craniano e boxeadores estão sujeitos à enfermidade.

Atividade física e escolaridade: a aquisição de conhecimento cria novas conexões entre os neurônios e aumenta a reserva intelectual, dificultando as manifestações da doença;

Estudo feito nos Estados Unidos, pela Universidade Northwestern, descobriu que o Diabetes tipo 2 aumenta a probabilidade de ter Alzheimer;

Filhos de mães com mais de 40 anos, podem ter maior tendência a problemas demenciais na terceira idade;

Fotos: Vinícius Freitas (Laboratório de Fotografia e Memória) e Jair Alan (arquivo/UFSM)