Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

Meios de Comunicação – o receituário da burca

O poder voraz da mídia obriga-nos a pensar no papel que os meios de comunicação desempenham na ordem neoliberal hegemônica. Eles funcionam como um véu ou uma burca, filtrando verdades que se exibem à vista. No cruzamento entre o jornalismo e o fato, imposto à população pelos meios de comunicação, o que se oculta não é o rosto de uma mulher, mas a verdade.
Em tempos neoliberais, esta conduta é mais intensa. A imprensa funciona como máquina de propaganda a serviço do mais poderoso, revelando total falta de compromisso com a verdade e com o bem-estar da humanidade.
O receituário liberal é utilizado para fazer dos fatos jornalísticos uma mercadoria. Para isso utilizam-se de técnicas que diversificam as demandas de informações cada vez mais complexas, amplas e especializadas. E a demanda é particularmente maior no que diz respeito à informação do fato político – matéria privilegiada por praticamente todas as redações, que lhe dedicam invariavelmente as primeiras páginas. Mas, mesmo quando é exigido fazer crônica da história do tempo presente, violento e cruel, dificilmente se colocam à altura da responsabilidade histórica, isto é, ao lado da verdade. A tendência é utilizar técnicas sofisticadas de maneira a ampliar o acesso e a atuação dos indivíduos, impondo a lógica do mercado de forma a afastar a população da iniciativa de produzir conteúdos estranhos à lógica-padrão. E isso faz com que o espaço de discussão seja reduzido. Predominam assim as fórmulas rebaixadas de jornalismo e a abordagem superficial da realidade, que banalizam os fatos. Como diria Ramonet, "os jornais não vendem informações aos cidadãos, mas sim cidadãos a anunciantes". E tudo na busca do lucro. Para aumentar o número de leitores, a informação hoje em dia é curta, distorcida, patética e elementar. E como é ruim… O que contribui para a precarização do trabalho jornalístico e, conseqüentemente, para a qualidade da informação.
 

Aceitação sem dor

A mídia, submissa ao centro do sistema capitalista, alinhada diretamente aos valores de mercado, onde tudo deve virar mercadoria, contribui para que estes decantados valores promovam a fome, a miséria, a ignorância e a guerra na periferia. Enquanto isso, na redação, o mote é a necessidade de adequação da linha editorial do jornal à dos anunciantes (e um dos maiores é o governo federal). Assim, esvaem-se nas idéias liberais, no desmonte de culturas, o próprio legado histórico da humanidade e o próprio fato presente. Nesse ponto, a mídia extrapola e passa a funcionar como uma verdadeira fábrica de notícias e propaganda. Além destas práticas, a própria inserção de classe e da "cosmologia" pessoal de certos jornalistas influenciam este processo de mascaramento da verdade, praticado largamente no ofício, e mais ainda em momentos de crise.
[…]
"Queimar livros e erguer fortificações é tarefa comum dos príncipes", escreveu Jorge Luiz Borges. O escritor argentino acrescenta que todo príncipe quer que a história comece a partir dele. Na era da globalização – de "novo tipo" – não se queimam livros (embora ergam-se fortificações). Eles apenas são substituídos. Mais do que suprimir a história, o príncipe de hoje instrui seus jornalistas e intelectuais para que a refaçam de maneira que o presente seja o fim dos tempos. E isto representa o fim do mundo? O juízo final? Não! A idéia é passar para o senso-comum (construído, diga-se de passagem), que a humanidade chegou ao patamar mais desenvolvido, que a sociedade é esta e que devemos conviver entre ricos e pobres, pois esta é a sociedade ideal. Que o modelo de economia é o capitalismo e que as relações inter-humanas têm que ser substituídas pela lei do mercado.
[…]
É preciso ver o quanto é complicada a tarefa em que devemos nos empenhar para conquistar a democratização dos meios de comunicação, pois em primeiro lugar impõe-se o espírito capitalista de estimular o egoísmo, de dilatar ambições de consumo, de ativar energias narcisísticas e tornar-nos competitivos e sedentos de levar vantagens e lucros; de criar pessoas menos solidárias, mais insensíveis às questões sociais, indiferentes à miséria, alheios ao drama de índios e negros, distantes das iniciativas que visam a defender os direitos dos pobres. Aos poucos, o espírito capitalista vem moldando em nós esse estranho ser que aceita, sem dor, a desigualdade social; que assume a glamourização do fútil; que se diverte com entretenimentos que exaltam a violência, que banalizam a pornografia e ridicularizam pobres e mulheres, como são exemplos certos programas de humor na TV.
 

Em busca de poder de alcance

O capitalismo promove tamanha inversão de valores em nossa consciência que defeitos qualificados pelo cristianismo de "pecados capitais" são tidos como virtudes: a avareza, o orgulho, a luxúria, a inveja e a cobiça.
A necessidade de construir alternativas ao jornalismo de mercado nunca foi tão dramática quanto agora. Visto ao longo de gerações como um instrumento para aprofundar a democracia, informar a sociedade e contribuir para a emancipação dos cidadãos, verificamos hoje que nos iludimos através dos tempos: a imprensa transformou-se em arma de alienação manejada pelo poder do capital.
[…]
 
Diante deste quadro, a necessidade da construção de uma imprensa popular passa pela compreensão de que devemos ter claro que existe uma imprensa a serviço da burguesia (ricos), que pulveriza e desagrega os movimentos sociais, que em nada contribui para aumentar o nível de consciência do povo; que a alternativa é construir centros democráticos, onde os trabalhadores, os jornalistas, os publicitários possam ter um espaço de organização e união do povo. Em seguida, é preciso utilizar escrupulosamente as técnicas de jornalismo, criar meios de comunicação independentes e populares como jornais, rádios e TVs comunitárias para fazer com que esta imprensa chegue e tenha o poder de alcance de que ela precisa.
[…]
 
(Runildo Pinto é militante e estudioso de causas sociais. Trabalha na Companhia de Processamento de Dados do RS (PROCERGS), em Porto Alegre) 
 
 

LEIA TAMBÉM

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O poder voraz da mídia obriga-nos a pensar no papel que os meios de comunicação desempenham na ordem neoliberal hegemônica. Eles funcionam como um véu ou uma burca, filtrando verdades que se exibem à vista. No cruzamento entre o jornalismo e o fato, imposto à população pelos meios de comunicação, o que se oculta não é o rosto de uma mulher, mas a verdade.
Em tempos neoliberais, esta conduta é mais intensa. A imprensa funciona como máquina de propaganda a serviço do mais poderoso, revelando total falta de compromisso com a verdade e com o bem-estar da humanidade.
O receituário liberal é utilizado para fazer dos fatos jornalísticos uma mercadoria. Para isso utilizam-se de técnicas que diversificam as demandas de informações cada vez mais complexas, amplas e especializadas. E a demanda é particularmente maior no que diz respeito à informação do fato político – matéria privilegiada por praticamente todas as redações, que lhe dedicam invariavelmente as primeiras páginas. Mas, mesmo quando é exigido fazer crônica da história do tempo presente, violento e cruel, dificilmente se colocam à altura da responsabilidade histórica, isto é, ao lado da verdade. A tendência é utilizar técnicas sofisticadas de maneira a ampliar o acesso e a atuação dos indivíduos, impondo a lógica do mercado de forma a afastar a população da iniciativa de produzir conteúdos estranhos à lógica-padrão. E isso faz com que o espaço de discussão seja reduzido. Predominam assim as fórmulas rebaixadas de jornalismo e a abordagem superficial da realidade, que banalizam os fatos. Como diria Ramonet, "os jornais não vendem informações aos cidadãos, mas sim cidadãos a anunciantes". E tudo na busca do lucro. Para aumentar o número de leitores, a informação hoje em dia é curta, distorcida, patética e elementar. E como é ruim… O que contribui para a precarização do trabalho jornalístico e, conseqüentemente, para a qualidade da informação.
 

Aceitação sem dor

A mídia, submissa ao centro do sistema capitalista, alinhada diretamente aos valores de mercado, onde tudo deve virar mercadoria, contribui para que estes decantados valores promovam a fome, a miséria, a ignorância e a guerra na periferia. Enquanto isso, na redação, o mote é a necessidade de adequação da linha editorial do jornal à dos anunciantes (e um dos maiores é o governo federal). Assim, esvaem-se nas idéias liberais, no desmonte de culturas, o próprio legado histórico da humanidade e o próprio fato presente. Nesse ponto, a mídia extrapola e passa a funcionar como uma verdadeira fábrica de notícias e propaganda. Além destas práticas, a própria inserção de classe e da "cosmologia" pessoal de certos jornalistas influenciam este processo de mascaramento da verdade, praticado largamente no ofício, e mais ainda em momentos de crise.
[…]
"Queimar livros e erguer fortificações é tarefa comum dos príncipes", escreveu Jorge Luiz Borges. O escritor argentino acrescenta que todo príncipe quer que a história comece a partir dele. Na era da globalização – de "novo tipo" – não se queimam livros (embora ergam-se fortificações). Eles apenas são substituídos. Mais do que suprimir a história, o príncipe de hoje instrui seus jornalistas e intelectuais para que a refaçam de maneira que o presente seja o fim dos tempos. E isto representa o fim do mundo? O juízo final? Não! A idéia é passar para o senso-comum (construído, diga-se de passagem), que a humanidade chegou ao patamar mais desenvolvido, que a sociedade é esta e que devemos conviver entre ricos e pobres, pois esta é a sociedade ideal. Que o modelo de economia é o capitalismo e que as relações inter-humanas têm que ser substituídas pela lei do mercado.
[…]
É preciso ver o quanto é complicada a tarefa em que devemos nos empenhar para conquistar a democratização dos meios de comunicação, pois em primeiro lugar impõe-se o espírito capitalista de estimular o egoísmo, de dilatar ambições de consumo, de ativar energias narcisísticas e tornar-nos competitivos e sedentos de levar vantagens e lucros; de criar pessoas menos solidárias, mais insensíveis às questões sociais, indiferentes à miséria, alheios ao drama de índios e negros, distantes das iniciativas que visam a defender os direitos dos pobres. Aos poucos, o espírito capitalista vem moldando em nós esse estranho ser que aceita, sem dor, a desigualdade social; que assume a glamourização do fútil; que se diverte com entretenimentos que exaltam a violência, que banalizam a pornografia e ridicularizam pobres e mulheres, como são exemplos certos programas de humor na TV.
 

Em busca de poder de alcance

O capitalismo promove tamanha inversão de valores em nossa consciência que defeitos qualificados pelo cristianismo de "pecados capitais" são tidos como virtudes: a avareza, o orgulho, a luxúria, a inveja e a cobiça.
A necessidade de construir alternativas ao jornalismo de mercado nunca foi tão dramática quanto agora. Visto ao longo de gerações como um instrumento para aprofundar a democracia, informar a sociedade e contribuir para a emancipação dos cidadãos, verificamos hoje que nos iludimos através dos tempos: a imprensa transformou-se em arma de alienação manejada pelo poder do capital.
[…]
 
Diante deste quadro, a necessidade da construção de uma imprensa popular passa pela compreensão de que devemos ter claro que existe uma imprensa a serviço da burguesia (ricos), que pulveriza e desagrega os movimentos sociais, que em nada contribui para aumentar o nível de consciência do povo; que a alternativa é construir centros democráticos, onde os trabalhadores, os jornalistas, os publicitários possam ter um espaço de organização e união do povo. Em seguida, é preciso utilizar escrupulosamente as técnicas de jornalismo, criar meios de comunicação independentes e populares como jornais, rádios e TVs comunitárias para fazer com que esta imprensa chegue e tenha o poder de alcance de que ela precisa.
[…]
 
(Runildo Pinto é militante e estudioso de causas sociais. Trabalha na Companhia de Processamento de Dados do RS (PROCERGS), em Porto Alegre)