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O que explica a cobertura da mídia sobre a morte de Isabella?

 

 

Entre vídeos, perícias, depoimentos, relatos, culpados e inocentes, histórias contadas e desmentidas: uma tragédia que mexeu com o Brasil. A história de Isabella – uma menina que foi jogada do 6º andar de um prédio em São Paulo – parece ter indignado grande parte da população e ganhou uma cobertura diferenciada da mídia.

A morte da menina ganhou espaço nas capas das maiores revistas país, três blocos inteiros de um telejornal em horário nobre, cobertura completa em programas de entretenimento e ainda acompanhamento minuto a minuto nas páginas da internet. Por exemplo, o site Terra, que além da seções habituais, como notícias, esportes, criou uma seção “Caso Isabella”, para mostrar as últimas atualizações.

A mídia mostrou, nesse quase um mês de apuração, a indignação das pessoas, entrevista da mãe Ana Carolina de Oliveira, a versão do pai Alexandre Nardoni e da madrasta Anna Carolina Jatobá, todos os passos da investigação foram divulgados. Uma comunidade no site de relacionamentos Orkut já juntou mais de 1 milhão e meio de pessoas, e chama-se “Tudo na vida se supera. Isabella”.

Mas o que explica essa cobertura? Até onde a mídia pode ir nesses casos, até que ponto pode divulgar as investigações?

Para o advogado, professor universitário e especialista em Violência Doméstica contra criança e adolescente pela USP, Vitor Hugo do Amaral Ferreira, esses casos devem ser divulgados pela mídia, mas com o cuidado para que não virem uma espetacularização e, o mais perigoso, para que a mídia não condene os envolvidos. “As manchetes e reportagens sobre o caso "Isabella", não diferente de outros casos de maior ênfase, repassam informações, por vezes, especulações sobre os fatos”, analisa Ferreira.

Segundo o professor, o direito à informação e à liberdade de imprensa está previsto em lei, portanto nada impede a mídia de divulgar o caso e reproduzí-lo em todos seus meandros, mas na medida em que a imprensa tem essa concessão ela agrega responsabilidades. “De um lado estão os cidadãos que anseiam por informações e notícias sobre fatos e pessoas. De outro, está o direito à imagem, à honra, à intimidade e à privacidade das pessoas que foram objeto da notícia”, explica o advogado.

Ferreira ainda afirma que aqueles que, através da mídia impressa ou eletrônica, provocam lesão à honra do outro respondem pelos crimes de imprensa previstos na Lei 5.250/67.

Sobre a cobertura midiática atrapalhar as investigações, Ferreira acredita que as especulações e informações soltas são o que há de mais perigoso no caso Isabella. “A exposição excessiva atrapalha na medida em que a imprensa detém influência exacerbada sobre a conduta social, conduzindo, "formando" opiniões, por vezes, incertas”, acredita o professor.

A professora de televisão do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Unifra, Carla Torres, considera a atuação da mídia excessiva e entende que tudo isso é uma corrida jornalística pela audiência. “Do lado da mídia, o pensamento parece ser o de que ‘se o meu colega está publicando, como eu vou ignorar isso?’ E daí forma-se um círculo vicioso”, explica Carla, que é mestre em Comunicação Midiática pela UFSM.

O professor de Comunicação Social da UFSM, Adair Peruzzolo, pensa de forma diferente. Ele acredita que a mídia não fez um pré julgamento e que a televisão tem o dever de retratar esse tema."É a consciência social do tempo que não mais admite jogar uma menina, de poucos anos, da altura de 20 metros. Se a televisão não fizesse circular o evento, quem não reclamaria?", opina.

“Dizer que a mídia em si tenha realizado julgamento é um tanto premeditado, inclusive, irresponsável. A preocupação, acredito, esteja na formação induzida da opinião pública, por sua vez, na pressão sobre as investigações e o julgamento do caso”, concorda Ferreira.

Mesmo depois da decisão judicial, Carla Torres acredita que nada irá abrandar o julgamento feito pela sociedade ao pai e à madastra de Isabella. Segundo a jornalista, entrevistas como a concedida pelo casal ao Fantástico serviriam para colocar o contraponto, mas a mídia ainda não está madura para tratar esses casos, já que a busca incessante pelo furo faz esquecer a necessidade de esclarecer e não apenas jogar as informações.

Em comparação a outros casos semelhantes a esse e ao espaço dado, a jornalista diz que o caráter dos programas jornalísticos está empobrecendo e, talvez por isso, alguns valores tenham sido esquecidos. Ainda entende que a sujeição da redação ao setor comercial parece ser a grande ditadora das regras, a grande explicação do circo montado em torno do assassinato de mais esta criança no país. “A morte (brutal) de uma criança dói, mas a de milhares delas dói mais ainda, não?!”, indigna-se Carla.

Para Peruzzolo, a mídia não fez um julgamento antecipado, e justifica dizendo que a brutalidade do fato é notícia de qualquer maneira. "Me pergunto, não houvesse meios massivos, o fato teria sido menos brutal?", questiona. Peruzzolo ainda compreende que esse caso é uma boa oportunidade para refletirmos sobre a humanização do homem.

Veja mais sobre a cobertura no caso Isabella

Portal Terra

Diário do Nordeste

G1 – Vídeos do Programa Fantástico

Perícia do Caso – G1

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Entre vídeos, perícias, depoimentos, relatos, culpados e inocentes, histórias contadas e desmentidas: uma tragédia que mexeu com o Brasil. A história de Isabella – uma menina que foi jogada do 6º andar de um prédio em São Paulo – parece ter indignado grande parte da população e ganhou uma cobertura diferenciada da mídia.

A morte da menina ganhou espaço nas capas das maiores revistas país, três blocos inteiros de um telejornal em horário nobre, cobertura completa em programas de entretenimento e ainda acompanhamento minuto a minuto nas páginas da internet. Por exemplo, o site Terra, que além da seções habituais, como notícias, esportes, criou uma seção “Caso Isabella”, para mostrar as últimas atualizações.

A mídia mostrou, nesse quase um mês de apuração, a indignação das pessoas, entrevista da mãe Ana Carolina de Oliveira, a versão do pai Alexandre Nardoni e da madrasta Anna Carolina Jatobá, todos os passos da investigação foram divulgados. Uma comunidade no site de relacionamentos Orkut já juntou mais de 1 milhão e meio de pessoas, e chama-se “Tudo na vida se supera. Isabella”.

Mas o que explica essa cobertura? Até onde a mídia pode ir nesses casos, até que ponto pode divulgar as investigações?

Para o advogado, professor universitário e especialista em Violência Doméstica contra criança e adolescente pela USP, Vitor Hugo do Amaral Ferreira, esses casos devem ser divulgados pela mídia, mas com o cuidado para que não virem uma espetacularização e, o mais perigoso, para que a mídia não condene os envolvidos. “As manchetes e reportagens sobre o caso "Isabella", não diferente de outros casos de maior ênfase, repassam informações, por vezes, especulações sobre os fatos”, analisa Ferreira.

Segundo o professor, o direito à informação e à liberdade de imprensa está previsto em lei, portanto nada impede a mídia de divulgar o caso e reproduzí-lo em todos seus meandros, mas na medida em que a imprensa tem essa concessão ela agrega responsabilidades. “De um lado estão os cidadãos que anseiam por informações e notícias sobre fatos e pessoas. De outro, está o direito à imagem, à honra, à intimidade e à privacidade das pessoas que foram objeto da notícia”, explica o advogado.

Ferreira ainda afirma que aqueles que, através da mídia impressa ou eletrônica, provocam lesão à honra do outro respondem pelos crimes de imprensa previstos na Lei 5.250/67.

Sobre a cobertura midiática atrapalhar as investigações, Ferreira acredita que as especulações e informações soltas são o que há de mais perigoso no caso Isabella. “A exposição excessiva atrapalha na medida em que a imprensa detém influência exacerbada sobre a conduta social, conduzindo, "formando" opiniões, por vezes, incertas”, acredita o professor.

A professora de televisão do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Unifra, Carla Torres, considera a atuação da mídia excessiva e entende que tudo isso é uma corrida jornalística pela audiência. “Do lado da mídia, o pensamento parece ser o de que ‘se o meu colega está publicando, como eu vou ignorar isso?’ E daí forma-se um círculo vicioso”, explica Carla, que é mestre em Comunicação Midiática pela UFSM.

O professor de Comunicação Social da UFSM, Adair Peruzzolo, pensa de forma diferente. Ele acredita que a mídia não fez um pré julgamento e que a televisão tem o dever de retratar esse tema."É a consciência social do tempo que não mais admite jogar uma menina, de poucos anos, da altura de 20 metros. Se a televisão não fizesse circular o evento, quem não reclamaria?", opina.

“Dizer que a mídia em si tenha realizado julgamento é um tanto premeditado, inclusive, irresponsável. A preocupação, acredito, esteja na formação induzida da opinião pública, por sua vez, na pressão sobre as investigações e o julgamento do caso”, concorda Ferreira.

Mesmo depois da decisão judicial, Carla Torres acredita que nada irá abrandar o julgamento feito pela sociedade ao pai e à madastra de Isabella. Segundo a jornalista, entrevistas como a concedida pelo casal ao Fantástico serviriam para colocar o contraponto, mas a mídia ainda não está madura para tratar esses casos, já que a busca incessante pelo furo faz esquecer a necessidade de esclarecer e não apenas jogar as informações.

Em comparação a outros casos semelhantes a esse e ao espaço dado, a jornalista diz que o caráter dos programas jornalísticos está empobrecendo e, talvez por isso, alguns valores tenham sido esquecidos. Ainda entende que a sujeição da redação ao setor comercial parece ser a grande ditadora das regras, a grande explicação do circo montado em torno do assassinato de mais esta criança no país. “A morte (brutal) de uma criança dói, mas a de milhares delas dói mais ainda, não?!”, indigna-se Carla.

Para Peruzzolo, a mídia não fez um julgamento antecipado, e justifica dizendo que a brutalidade do fato é notícia de qualquer maneira. "Me pergunto, não houvesse meios massivos, o fato teria sido menos brutal?", questiona. Peruzzolo ainda compreende que esse caso é uma boa oportunidade para refletirmos sobre a humanização do homem.

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