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Santa Maria, RS, Brazil

A prática do aborto em Santa Maria

 Hoje a ACS publica uma série de reportagens sobre a prática do aborto em Santa Maria e região. As matérias foram produzidas pelas alunas da disciplina de Jornalismo Especializado III – Investigativo do curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano (Unifra) durante o primeiro semestre este ano. O objetivo da equipe foi identificar a Rota do Aborto, quando descobriu-se que uma clínica clandestina funcionou por quatro décadas no bairro Carolina. Também flagramos a venda do medicamento abortivo – Citotec – no Camelódromo da avenida Rio Branco e mostramos como ocorre a comercialização do produto na internet. Para finalizar a série de reportagens, publicamos depoimentos de mulheres que praticaram o aborto. 

Clínica Clandestina funcionou por mais de 40 anos

As clínicas clandestinas são uma opção para realização de aborto num país onde a prática é proibida. Nesses lugares, o desespero pela gravidez indesejada faz com que os riscos dos procedimentos ilegais sejam deixados de lado.

Em Santa Maria, recebemos algumas informações da existência de uma dessas clínicas, localizada no bairro Carolina, onde uma enfermeira realizava o procedimento por muito tempo. Porém, ficamos sabendo que ela havia falecido, mas que sua filha continuava o esquema. Para averiguar, fomos ao local e uma de nossas repórteres passou-se por grávida.

Chegamos à casa suspeita. Batemos palmas. Minutos depois, uma menina nos atendeu no portão. Perguntamos por Dona Maria*, a enfermeira. No mesmo momento recebemos a resposta de que era sua avó e que havia falecido. Sem ser questionada sobre a razão da visita, ela disse que ninguém mais “fazia isso” naquela casa. Não precisamos nem ao menos falar o que procurávamos. Logo depois, soubemos que mesmo com o falecimento da enfermeira, há quatro anos, muitas meninas ainda vão até o local em busca da prática ilegal.

Demonstramos desespero. Imploramos por alguma pista de onde conseguiríamos novo local. Preocupada e prestativa, a menina, de aproximadamente 16 anos, perguntou se algum tipo de abortivo havia sido usado. Falamos sobre o uso do citotec. Ela explicou que os comprimidos vendidos de forma ilegal são feitos de farinha e de nada adiantam. Comovida com a causa, ela se colocou à disposição para ajudar. Disse saber a receita de um chá abortivo à base de arruda e canela. Pedimos que anotasse e prontamente ela o fez.

Quando ela se afastou do portão para anotar a “receita”, uma mulher se aproximou e disse que era filha de Dona Maria, nos convidando para entrar. Sentamos na sala e fomos recepcionadas de forma muito solícita. Mãe e filha estavam dispostas a ajudar de todas as formas. Contaram que naquela casa existiu uma clínica por mais de 40 anos. Muitas vezes, a prática foi denunciada. Mas sempre continuou a existir, atendendo diversas meninas e mulheres desesperadas.

Perguntamos se ninguém tinha continuado o procedimento após a morte da enfermeira. Ela nos contou que sua irmã assumiu o lugar de Dona Maria por algum tempo. Mas como cometeu inúmeras falhas no método, parou. E agora nem tinha mais o equipamento necessário. O que nos surpreendeu foi que nem mesmo elas a indicariam.  “Tu és muito novinha e a tia não é a avó. Ela não fazia direito. É um perigo”, enfatizou a menina.

As duas nos contaram que muitas meninas ainda procuram por Dona Maria, mas que elas até gostariam de saber fazer o procedimento para poder ajudar. Perguntamos como era feita a prática. Relataram que era parecido com um exame ginecológico, onde é feita uma raspagem do útero. E explicaram como Dona Maria realizava o método: “a mãe fazia uma raspagem nas meninas. Depois de pronto, colocávamos o feto no vaso sanitário e dávamos a descarga”, detalhou.

Ainda mostrando desespero, conseguimos mais algumas indicações para abortar. A menina que anotou a receita do chá (com várias ervas), disse que deveria tomar, colocar os pés em uma água morna e repetir a prática três vezes ao dia. A menina assegurou que “várias moças que vieram aqui atrás da avó, eu receitei isso. E desceu tudo”. Outro chá foi prescrito pela mãe que assegurou ser também abortivo, o de folha de pariparoba, mas que seria difícil de conseguí-la.

Falamos que o uso do citotec comprado ilegalmente tinha sido inútil para o aborto. Entretanto, elas garantiram que se conseguíssemos comprar com receita médica em uma farmácia, funcionaria. A menina, na mesma hora se colocou à disposição para falar com um ginecologista, o José*, para pegar uma receita falsa. Acrescentou que ele é conhecido da família. “Digo que o remédio é para mim e pego a receita, amanhã mesm
o vou lá e tu me liga no final do dia para ver se consegui”, disse. A mãe reforçou que ao telefone não deveríamos falar em nome de remédio e nem de aborto. Era apenas para perguntar se estava com a receita.

Perguntamos se o médico não faria o aborto. Elas informaram que José apenas conseguiria a receita para a compra do medicamento e que, com o uso adequado, não deveríamos nos preocupar. Não haveria erros.

Na despedida, com um forte abraço, a filha de Dona Maria disse que tudo daria certo no aborto que a repórter faria. Para isso, bastava acreditar em Deus.

*Nomes fictícios

 

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 Hoje a ACS publica uma série de reportagens sobre a prática do aborto em Santa Maria e região. As matérias foram produzidas pelas alunas da disciplina de Jornalismo Especializado III – Investigativo do curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano (Unifra) durante o primeiro semestre este ano. O objetivo da equipe foi identificar a Rota do Aborto, quando descobriu-se que uma clínica clandestina funcionou por quatro décadas no bairro Carolina. Também flagramos a venda do medicamento abortivo – Citotec – no Camelódromo da avenida Rio Branco e mostramos como ocorre a comercialização do produto na internet. Para finalizar a série de reportagens, publicamos depoimentos de mulheres que praticaram o aborto. 

Clínica Clandestina funcionou por mais de 40 anos

As clínicas clandestinas são uma opção para realização de aborto num país onde a prática é proibida. Nesses lugares, o desespero pela gravidez indesejada faz com que os riscos dos procedimentos ilegais sejam deixados de lado.

Em Santa Maria, recebemos algumas informações da existência de uma dessas clínicas, localizada no bairro Carolina, onde uma enfermeira realizava o procedimento por muito tempo. Porém, ficamos sabendo que ela havia falecido, mas que sua filha continuava o esquema. Para averiguar, fomos ao local e uma de nossas repórteres passou-se por grávida.

Chegamos à casa suspeita. Batemos palmas. Minutos depois, uma menina nos atendeu no portão. Perguntamos por Dona Maria*, a enfermeira. No mesmo momento recebemos a resposta de que era sua avó e que havia falecido. Sem ser questionada sobre a razão da visita, ela disse que ninguém mais “fazia isso” naquela casa. Não precisamos nem ao menos falar o que procurávamos. Logo depois, soubemos que mesmo com o falecimento da enfermeira, há quatro anos, muitas meninas ainda vão até o local em busca da prática ilegal.

Demonstramos desespero. Imploramos por alguma pista de onde conseguiríamos novo local. Preocupada e prestativa, a menina, de aproximadamente 16 anos, perguntou se algum tipo de abortivo havia sido usado. Falamos sobre o uso do citotec. Ela explicou que os comprimidos vendidos de forma ilegal são feitos de farinha e de nada adiantam. Comovida com a causa, ela se colocou à disposição para ajudar. Disse saber a receita de um chá abortivo à base de arruda e canela. Pedimos que anotasse e prontamente ela o fez.

Quando ela se afastou do portão para anotar a “receita”, uma mulher se aproximou e disse que era filha de Dona Maria, nos convidando para entrar. Sentamos na sala e fomos recepcionadas de forma muito solícita. Mãe e filha estavam dispostas a ajudar de todas as formas. Contaram que naquela casa existiu uma clínica por mais de 40 anos. Muitas vezes, a prática foi denunciada. Mas sempre continuou a existir, atendendo diversas meninas e mulheres desesperadas.

Perguntamos se ninguém tinha continuado o procedimento após a morte da enfermeira. Ela nos contou que sua irmã assumiu o lugar de Dona Maria por algum tempo. Mas como cometeu inúmeras falhas no método, parou. E agora nem tinha mais o equipamento necessário. O que nos surpreendeu foi que nem mesmo elas a indicariam.  “Tu és muito novinha e a tia não é a avó. Ela não fazia direito. É um perigo”, enfatizou a menina.

As duas nos contaram que muitas meninas ainda procuram por Dona Maria, mas que elas até gostariam de saber fazer o procedimento para poder ajudar. Perguntamos como era feita a prática. Relataram que era parecido com um exame ginecológico, onde é feita uma raspagem do útero. E explicaram como Dona Maria realizava o método: “a mãe fazia uma raspagem nas meninas. Depois de pronto, colocávamos o feto no vaso sanitário e dávamos a descarga”, detalhou.

Ainda mostrando desespero, conseguimos mais algumas indicações para abortar. A menina que anotou a receita do chá (com várias ervas), disse que deveria tomar, colocar os pés em uma água morna e repetir a prática três vezes ao dia. A menina assegurou que “várias moças que vieram aqui atrás da avó, eu receitei isso. E desceu tudo”. Outro chá foi prescrito pela mãe que assegurou ser também abortivo, o de folha de pariparoba, mas que seria difícil de conseguí-la.

Falamos que o uso do citotec comprado ilegalmente tinha sido inútil para o aborto. Entretanto, elas garantiram que se conseguíssemos comprar com receita médica em uma farmácia, funcionaria. A menina, na mesma hora se colocou à disposição para falar com um ginecologista, o José*, para pegar uma receita falsa. Acrescentou que ele é conhecido da família. “Digo que o remédio é para mim e pego a receita, amanhã mesm
o vou lá e tu me liga no final do dia para ver se consegui”, disse. A mãe reforçou que ao telefone não deveríamos falar em nome de remédio e nem de aborto. Era apenas para perguntar se estava com a receita.

Perguntamos se o médico não faria o aborto. Elas informaram que José apenas conseguiria a receita para a compra do medicamento e que, com o uso adequado, não deveríamos nos preocupar. Não haveria erros.

Na despedida, com um forte abraço, a filha de Dona Maria disse que tudo daria certo no aborto que a repórter faria. Para isso, bastava acreditar em Deus.

*Nomes fictícios