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Santa Maria, RS, Brazil

Cidade recebe encontros internacionais sobre educação popular

Começa o IX Congresso Internacional de Educação Popular e XVIII Seminário Internacional de Educação Popular, de 27 a 30 de maio, no Clube Recreativo Dores. A temática deste ano aborda a vida dos educadores e a (re)invenção do sentido da escola. No turno da manhã e da noite são oferecidas conferências e, durante a tarde, círculos de debates. Nesta quinta-feira, a palestra foi sobre A educação popular: aprender a ser, viver e conviver com o antropólogo Sebastião Rocha.

O aprendizado social foi explicitado pelo antropólogo, educador popular e folclorista Sebastião Rocha. O fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento define as diferenças entre ser professor (aquele que ensina) e ser educador (aquele que aprende).

Tião, como prefere ser chamado, conta que abandou a carreira de professor universitário para se dedicar a aprender: “Não abro mão de sermos aprendizes permanentes”. Seguindo "as letras" de Guimarães Rosa, viajou pelo interior para conhecer o sertão, mas o mineiro. Lá percebeu que havia muitas crianças fora da escola. Eram tantas, que o número de escolas não suportava o de alunos. Já entre os que estavam matriculados, não havia interesse, nem frequência. Para os políticos da cidade, "a escola era uma lógica de construção de prédios". Propôs, assim, aprender com as crianças sob a copa das árvores, uma educação "sem escola".  Na primeira semana de aulas, Tião conta que as conversas eram em torno do que não gostavam ou do que gostariam de não ter tido nas aulas. Foram estabelecidas normas contrárias, “pequenos nadas” como ele nomeia a lista, de coisas que não devemos fazer. Uma das regras, explica o antropólogo, era "proibido ser atropelado", desde então as crianças começaram a ter mais cuidado para atravessar as ruas. “Uma forma de se policiar para que as coisas que não queremos não aconteçam”, resume. Aos poucos a turma aumentou. O preconceito inicial com as atividades se transformou em aliado. A criatividade era incentivada com a criação de brinquedos, a leitura através de um jogo no qual o leitor deveria contar a historia através de música, desenho, entre outros.  

"Educação é uma palavra do plural", Rocha explica. “É preciso no mínimo de duas pessoas. Educar é trocar informações, sem importar quem é o outro, idade, profissão ou sexo”. Essas pessoas são diferentes e equilibradas, ao mesmo tempo, o que contribui para que se entendam e discutam as opiniões.

A disciplina intelectual, ou "a motivação para aprender", de Paulo Freire, foi apresentada na prática para uma professora da escola. Dessa forma, nasceu o verbo “Paulo Freirar” criado por Tião e definido como: “por em prática o que acreditamos que é participar, respeitar, abraçar, são ensinamentos… verbo que só se conjuga no presente do indicativo, porque o futuro é só intenção”. O educador popular acredita que “a escolarização é um meio, o aprendizado é um fim, onde não há aprendizado, não há conflito, só há confronto”. Para ele, precisamos “ter” saúde, o resto é “ser”. Rocha levantou vários questionamentos: “Por que aprender tem que ser doloroso? Os livros perderam o encantamento ou a escola não os manteve encantados?”. Mas também afirmou eu é possível fazer uma escola alegre: “E tudo pode ser transformado em processo de brincadeira”. 
 
Aprendizado 
 
A professora Lisiane Segala Soares veio pela primeira vez no encontro. Ela destaca a primeira palestra: “Estou adorando participar. A palestra de hoje foi maravilhosa, mas ontem falaram que ser professor é "sã lourura’". Eu concordo porque trabalhamos bastante, cansamos, até pensamos em desistir e no outro dia, fazemos tudo de novo por pura paixão de ensinar. E também aprendemos com os alunos”. Já a professora Ieda Moraes Strunkis conta que participa todo ano das atividades: “É uma oportunidade de formação continuada, sempre tem novidade. Para a carreira é muito importante. Os palestrantes são muito bons e têm conhecimento para compartilhar”. 

O antropólogo educador define os termos que geram o aprendizado. A trilogia cultura, educação e desenvolvimento é interligada, entre si, porque é a matéria prima do processo de educação. Da mesma forma, se interliga com a escola, família e conhecimento, que forma novos grupos, como escola, educação e conhecimento. Mas são termos adaptáveis, menos o sentido de acolhimento que geram o aprendizado.

Contexto social 

O Vale do Jequitinhonha, região de Minas Gerais, onde foi desenvolvido o projeto, Tião revela que é exportadora de trabalho escravo. Essa falta de presença masculina desenvolveu a exploração sexual do local. As crianças não tem incentivo ao estudo: “Eles mesmos têm na cabeça que já têm um futuro, no corte de cana, e que não precisam aprender ou estudar mais”, lamenta o educador. 

Em Moçambique, na África, onde também trabalhou, Tião conta o exemplo de uma aldeia na qual tem uma escola, mas não tinha professores. Eles perceberam que para educar era preciso convocar a aldeia, assim: aprenderam que cada um tem algo a ensinar e para aprender”.

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Começa o IX Congresso Internacional de Educação Popular e XVIII Seminário Internacional de Educação Popular, de 27 a 30 de maio, no Clube Recreativo Dores. A temática deste ano aborda a vida dos educadores e a (re)invenção do sentido da escola. No turno da manhã e da noite são oferecidas conferências e, durante a tarde, círculos de debates. Nesta quinta-feira, a palestra foi sobre A educação popular: aprender a ser, viver e conviver com o antropólogo Sebastião Rocha.

O aprendizado social foi explicitado pelo antropólogo, educador popular e folclorista Sebastião Rocha. O fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento define as diferenças entre ser professor (aquele que ensina) e ser educador (aquele que aprende).

Tião, como prefere ser chamado, conta que abandou a carreira de professor universitário para se dedicar a aprender: “Não abro mão de sermos aprendizes permanentes”. Seguindo "as letras" de Guimarães Rosa, viajou pelo interior para conhecer o sertão, mas o mineiro. Lá percebeu que havia muitas crianças fora da escola. Eram tantas, que o número de escolas não suportava o de alunos. Já entre os que estavam matriculados, não havia interesse, nem frequência. Para os políticos da cidade, "a escola era uma lógica de construção de prédios". Propôs, assim, aprender com as crianças sob a copa das árvores, uma educação "sem escola".  Na primeira semana de aulas, Tião conta que as conversas eram em torno do que não gostavam ou do que gostariam de não ter tido nas aulas. Foram estabelecidas normas contrárias, “pequenos nadas” como ele nomeia a lista, de coisas que não devemos fazer. Uma das regras, explica o antropólogo, era "proibido ser atropelado", desde então as crianças começaram a ter mais cuidado para atravessar as ruas. “Uma forma de se policiar para que as coisas que não queremos não aconteçam”, resume. Aos poucos a turma aumentou. O preconceito inicial com as atividades se transformou em aliado. A criatividade era incentivada com a criação de brinquedos, a leitura através de um jogo no qual o leitor deveria contar a historia através de música, desenho, entre outros.  

"Educação é uma palavra do plural", Rocha explica. “É preciso no mínimo de duas pessoas. Educar é trocar informações, sem importar quem é o outro, idade, profissão ou sexo”. Essas pessoas são diferentes e equilibradas, ao mesmo tempo, o que contribui para que se entendam e discutam as opiniões.

A disciplina intelectual, ou "a motivação para aprender", de Paulo Freire, foi apresentada na prática para uma professora da escola. Dessa forma, nasceu o verbo “Paulo Freirar” criado por Tião e definido como: “por em prática o que acreditamos que é participar, respeitar, abraçar, são ensinamentos… verbo que só se conjuga no presente do indicativo, porque o futuro é só intenção”. O educador popular acredita que “a escolarização é um meio, o aprendizado é um fim, onde não há aprendizado, não há conflito, só há confronto”. Para ele, precisamos “ter” saúde, o resto é “ser”. Rocha levantou vários questionamentos: “Por que aprender tem que ser doloroso? Os livros perderam o encantamento ou a escola não os manteve encantados?”. Mas também afirmou eu é possível fazer uma escola alegre: “E tudo pode ser transformado em processo de brincadeira”. 
 
Aprendizado 
 
A professora Lisiane Segala Soares veio pela primeira vez no encontro. Ela destaca a primeira palestra: “Estou adorando participar. A palestra de hoje foi maravilhosa, mas ontem falaram que ser professor é "sã lourura’". Eu concordo porque trabalhamos bastante, cansamos, até pensamos em desistir e no outro dia, fazemos tudo de novo por pura paixão de ensinar. E também aprendemos com os alunos”. Já a professora Ieda Moraes Strunkis conta que participa todo ano das atividades: “É uma oportunidade de formação continuada, sempre tem novidade. Para a carreira é muito importante. Os palestrantes são muito bons e têm conhecimento para compartilhar”. 

O antropólogo educador define os termos que geram o aprendizado. A trilogia cultura, educação e desenvolvimento é interligada, entre si, porque é a matéria prima do processo de educação. Da mesma forma, se interliga com a escola, família e conhecimento, que forma novos grupos, como escola, educação e conhecimento. Mas são termos adaptáveis, menos o sentido de acolhimento que geram o aprendizado.

Contexto social 

O Vale do Jequitinhonha, região de Minas Gerais, onde foi desenvolvido o projeto, Tião revela que é exportadora de trabalho escravo. Essa falta de presença masculina desenvolveu a exploração sexual do local. As crianças não tem incentivo ao estudo: “Eles mesmos têm na cabeça que já têm um futuro, no corte de cana, e que não precisam aprender ou estudar mais”, lamenta o educador. 

Em Moçambique, na África, onde também trabalhou, Tião conta o exemplo de uma aldeia na qual tem uma escola, mas não tinha professores. Eles perceberam que para educar era preciso convocar a aldeia, assim: aprenderam que cada um tem algo a ensinar e para aprender”.