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Santa Maria, RS, Brazil

Conscientização a caminho da igualdade


O imaginário social da mulher negra na literatura, a africanidade na escola e o Estatuto da Igualdade Racial marcaram esse 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra.

A professora convidada, Maria Rita Py Dutra, e os alunos do curso de Serviço Social, debateram os temas no salão Azul do conjunto I da Unifra.

 

 

O intervalo do debate contou com a participação do grupo Oca Brasil – ONG que trabalha com a arte e tem como objetivo resgatar cidadania através de projetos junto a escolas públicas da periferia. Os dançarinos reverenciaram os orixás na coreografia Ancestralidade.

Segundo Maria Rita no imaginário social do Brasil há um padrão na forma de pensar nos negros, uma vez que são lembrados na condição de escravos e não de escravizados.

As descrições da sociedade de estrutura escravista foram feitas por historiógrafos ou intelectuais do ainda Brasil colônia. Os textos tinham de refletir os interesses dominantes, isto é, os valores que representavam os senhores de escravos. Dessa forma, sempre buscou-se justificar o escravismo. “A literatura romantizou algo que nunca existiu. As relações de senhor e negra, foram na verdade, relações basicamente de estupro”, comenta a professora.

A representação do negro por traços de animalidade ou portador de comportamentos instáveis é evidente, destaca a palestrante. Autores como Joaquim Manuel de Macedo e Aluísio de Azevedo, trazem uma mulher negra fogosa, sensual desprovida de moralidade. Exemplo disso é a personagem Rita Baiana, no clássico literário O cortiço: “Só aquele demônio tinha o mágico segredo, daqueles movimentos de serpente amaldiçoada. (..) E ela, apesar de volúvel como toda mestiça (…)”.

O escritor infantil Monteiro Lobato, do conhecido Sito do Pica-Pau Amarelo, também expressa preconceito quando, em tom pejorativo, cita a personagem Tia Anastácia como “negra de estimação, com alma de branca”, lembra Maria Rita. Mas foi Castro Alves – O Poeta dos Escravos – que buscou humanizar o negro. Ainda assim, aludia à figura de vítima, resignado e sem movimento de reação.

Militante do Movimento Negro, Maria Rita Py Dutra enfatiza que o alto percentual de negros analfabetos e o número de crianças e mães negras que morrem no parto são alarmantes. “Precisamos de juízes negros. Precisamos de professores negros nos cursos de formação. Mas como, se nossos alunos estão na periferia? “Eu não aceito esse estatuto. Isso é uma vergonha!”. Maria Rita refere-se ao Estatuto da Igualdade Racial*, que propõe assegurar direitos aos negros em segmentos como: educação,  trabalho, esporte, religião, política, internet.

Maria Rita, que também é escritora de livros infantis, como Zéca , o herói negro, também chama a atenção para  a carência de livros com as temáticas negras, fator decorrente de causas financeiras.

A importância de falar do negro e da história da África em sala de aula é fundamental para a professora. Da mesma forma, ela defende os programas que assegurem vagas para a população negra em instituições de nível médio e superior. “Só vamos mudar através do conhecimento. Cotas são uma dívida social”, pontua ela.

Enquete:

Para você o que representa o Dia Nacional da Consciência Negra?

  • Maria Rita Py Dutra, professora e escritora:
    “Momento de reflexão e percepção de nossas capacidades e emoções, ganhando força para continuar a luta. Mas hoje também é um dia triste, pois o Estatuto (ainda não sancionado) foi aprovado com cortes das principais reivindicações. Nossas bandeiras fundamentais foram ignoradas”.

  • Gilberto Orengo, professor de Física
    “Um resgate merecido da história negra. Isso é fundamental, pela contribuição social que deixou”. 

 

  • Namir Ferreira, estudante de Farmácia 
    “A igualdade acima de tudo. É bom lembrar que o povo negro faz parte da nossa cultura”.

  • Winne Colares, monitora de dança
    “Fato importante para os negros, dia da morte de Zumbi dos Palmares. Mas ainda há o preconceito. Falta conscientização.”

  *O Estatuto da Igualdade Racial, que tramita há quase dez anos no Congresso foi enviado ao Palácio do Planalto para a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O acordo parlamentar em torno da proposta, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), só foi possível após a eliminação dos seus aspectos mais polêmicos – como o estabelecimento de cotas para a população negra em universidades públicas e em programas de TV. A intenção era conseguir aprovar o projeto a tempo de permitir que fosse sancionado hoje pelo presidente, durante as comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra, porém não ocorreu.

 

Fotos: Camilla Guterres (Laboratório de Fotografia e Memória)

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O imaginário social da mulher negra na literatura, a africanidade na escola e o Estatuto da Igualdade Racial marcaram esse 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra.

A professora convidada, Maria Rita Py Dutra, e os alunos do curso de Serviço Social, debateram os temas no salão Azul do conjunto I da Unifra.

 

 

O intervalo do debate contou com a participação do grupo Oca Brasil – ONG que trabalha com a arte e tem como objetivo resgatar cidadania através de projetos junto a escolas públicas da periferia. Os dançarinos reverenciaram os orixás na coreografia Ancestralidade.

Segundo Maria Rita no imaginário social do Brasil há um padrão na forma de pensar nos negros, uma vez que são lembrados na condição de escravos e não de escravizados.

As descrições da sociedade de estrutura escravista foram feitas por historiógrafos ou intelectuais do ainda Brasil colônia. Os textos tinham de refletir os interesses dominantes, isto é, os valores que representavam os senhores de escravos. Dessa forma, sempre buscou-se justificar o escravismo. “A literatura romantizou algo que nunca existiu. As relações de senhor e negra, foram na verdade, relações basicamente de estupro”, comenta a professora.

A representação do negro por traços de animalidade ou portador de comportamentos instáveis é evidente, destaca a palestrante. Autores como Joaquim Manuel de Macedo e Aluísio de Azevedo, trazem uma mulher negra fogosa, sensual desprovida de moralidade. Exemplo disso é a personagem Rita Baiana, no clássico literário O cortiço: “Só aquele demônio tinha o mágico segredo, daqueles movimentos de serpente amaldiçoada. (..) E ela, apesar de volúvel como toda mestiça (…)”.

O escritor infantil Monteiro Lobato, do conhecido Sito do Pica-Pau Amarelo, também expressa preconceito quando, em tom pejorativo, cita a personagem Tia Anastácia como “negra de estimação, com alma de branca”, lembra Maria Rita. Mas foi Castro Alves – O Poeta dos Escravos – que buscou humanizar o negro. Ainda assim, aludia à figura de vítima, resignado e sem movimento de reação.

Militante do Movimento Negro, Maria Rita Py Dutra enfatiza que o alto percentual de negros analfabetos e o número de crianças e mães negras que morrem no parto são alarmantes. “Precisamos de juízes negros. Precisamos de professores negros nos cursos de formação. Mas como, se nossos alunos estão na periferia? “Eu não aceito esse estatuto. Isso é uma vergonha!”. Maria Rita refere-se ao Estatuto da Igualdade Racial*, que propõe assegurar direitos aos negros em segmentos como: educação,  trabalho, esporte, religião, política, internet.

Maria Rita, que também é escritora de livros infantis, como Zéca , o herói negro, também chama a atenção para  a carência de livros com as temáticas negras, fator decorrente de causas financeiras.

A importância de falar do negro e da história da África em sala de aula é fundamental para a professora. Da mesma forma, ela defende os programas que assegurem vagas para a população negra em instituições de nível médio e superior. “Só vamos mudar através do conhecimento. Cotas são uma dívida social”, pontua ela.

Enquete:

Para você o que representa o Dia Nacional da Consciência Negra?

  • Maria Rita Py Dutra, professora e escritora:
    “Momento de reflexão e percepção de nossas capacidades e emoções, ganhando força para continuar a luta. Mas hoje também é um dia triste, pois o Estatuto (ainda não sancionado) foi aprovado com cortes das principais reivindicações. Nossas bandeiras fundamentais foram ignoradas”.

  • Gilberto Orengo, professor de Física
    “Um resgate merecido da história negra. Isso é fundamental, pela contribuição social que deixou”. 

 

  • Namir Ferreira, estudante de Farmácia 
    “A igualdade acima de tudo. É bom lembrar que o povo negro faz parte da nossa cultura”.

  • Winne Colares, monitora de dança
    “Fato importante para os negros, dia da morte de Zumbi dos Palmares. Mas ainda há o preconceito. Falta conscientização.”

  *O Estatuto da Igualdade Racial, que tramita há quase dez anos no Congresso foi enviado ao Palácio do Planalto para a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O acordo parlamentar em torno da proposta, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), só foi possível após a eliminação dos seus aspectos mais polêmicos – como o estabelecimento de cotas para a população negra em universidades públicas e em programas de TV. A intenção era conseguir aprovar o projeto a tempo de permitir que fosse sancionado hoje pelo presidente, durante as comemorações do Dia Nacional da Consciência Negra, porém não ocorreu.

 

Fotos: Camilla Guterres (Laboratório de Fotografia e Memória)