Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

O inferno de Dante

InvestigativoA tática dos criminosos era a mesma: trabalhar na sombra e à margem da legalidade. Trazê-los para um meio propício ao exercício da Justiça requisitava alguns sacrifícios, e era isso que ele iria fazer.

Um casal cruzou a frente do carro e atravessou a rua a caminho da banca que estava sendo observada. O lugar, que até poucos minutos estava deserto, logo ficou movimentado. Uma segunda mulher chegou ao local depois do casal. Não era possível identificá-la e nem esboçar um retrato. Os óculos escuros ocultavam parte de seu rosto e ela tomava o cuidado de se proteger de observadores casuais. A vendedora olhou rápida e discretamente para os lados. Ninguém, além dela e dos compradores, parecia interessado na negociação que se desenrolava.

A suspeita de que, sobre os toldos dos ambulantes, eram comercializadas algumas drogas pesadas se confirmava: do bolso da vendedora surgiram cartelas suspeitas. Podia ser aquilo que Samuel* procurava, era o momento de arriscar.

O casal pagou pelo que seria um medicamento e saiu às pressas do local, sem perceber o carro que o acompanhava sorrateiramente de longe. Vinte minutos depois, uma residência estava no centro das atenções. Era a hora de agir: Samuel pegou o celular e discou um número com pressa.

A resposta da ligação se refletiu diretamente em sua expressão de desaprovação. Contrariado, Samuel retornou para a delegacia, não havia mais nada que pudesse ser feito no momento. Ao chegar em casa, como de costume, o trabalho ficou do lado de fora de seus pensamentos. “Era uma questão de tempo”, pensou, antes de passar pela soleira da porta.

Na manhã seguinte, ao sair de casa, sacou o telefone num misto de euforia e tensão. Seria tarde demais? Na delegacia estava tudo pronto a sua espera. Samuel trocou de carro e rumou angustiado à residência visitada no dia anterior.

O interfone foi acionado sem parar. Ninguém atendia. A tensão começou a tomar o lugar antes ocupado pela calma e tranquilidade, marcas registradas do delegado. De repente a chamada foi atendida. Do outro lado, a única resposta à aflição de Samuel foi um total e mórbido silêncio.

O portão foi liberado. Sem pestanejar, Samuel e seus companheiros correram rumo à casa. As batidas na porta retumbavam e o eco fazia o delegado imaginar a causa do silêncio que habitava a casa.

A porta foi liberada. O procedimento padrão de identificação foi feito por Samuel. Nenhuma resposta. Alguns segundos se passaram. A escuridão da casa alimentou a esperança de que todos estivessem dormindo. Mas àquela hora? Não, não podia ser. De repente, passos foram ouvidos. Os homens se colocaram de prontidão e avançaram pé por pé. Os sons pareciam vir de uma porta à direita. Gemidos foram ouvidos. Samuel e os outros tentaram correr nessa direção, mas foram impedidos pela silhueta que se revelou diante deles.

Uma criança, ainda de pijama, estava estática e prostrada de pé olhando fixamente para Samuel. Atrás dela o interfone balançava, batendo na parede. As palavras engasgaram na garganta do delegado e, antes que ele as liberasse, o pequeno levantou a mão em outra direção.

O olhar foi guiado de maneira instantânea. Uma mancha de sangue borrava o chão da cozinha. A mulher recostada na parede gemia debilmente.

Era tarde demais.

Mercado de sombras

Largo da Gare, 17h40. Um carro bordô estaciona lentamente. Um homem magro de estatura média e trajando roupas sujas e surradas embarca com pressa. Poucas palavras são trocadas entre ele e a mulher que está ao volante:

– Me dá o dinheiro – diz o homem de forma ríspida.

A mulher entrega o dinheiro em total desconcerto diante do estranho. Ele confere as notas em silêncio, abre a porta e desce do carro rapidamente. Meio atordoada, a mulher pergunta: 

– E o remédio!?

– Segue, que alguém vai te encontrar. – responde o homem, encostado na janela do carro.

– Que garantia eu tenho???

– É o teu risco… Nesse tipo negócio, não tem essa de garantia.

Antes que a mulher pudesse pensar em dizer qualquer outra coisa, a porta do carro se fechou, e o estranho voltou para as sombras do anonimato. Ainda agarrada ao volante, e sem saber o que iria acontecer em seguida, a mulher fez o que o carona lhe recomendou: continuou dirigindo naquela mesma direção. Após alguns quarteirões de desorientação e antes que fosse tomada por um fluxo de consciência, a motorista avistou uma mulher que acenava para ela e seguiu em sua direção. Assim que o carro parou, a moça se aproximou e jogou um embrulho no banco do carona dizendo: 

– Aqui está o remédio. Tu vai ingerir dois e inserir dois na vagina. É preciso colocar de maneira que os comprimidos cheguem ao útero. Se tu precisar tenho umas moças que podem te ajudar a fazer, mas cada uma cobra R$40,00.

– Não, não vou precisar. – respondeu a motorista, enquanto olhava meio insegura para o pacote que tinha acabado de comprar.

– Ok.

A moça virou as costas e o carro continuou sua trajetória. Ambos, mulher e automóvel, se misturam na multidão e no tráfego, e logo se tornou impossível distingui-los dos demais. Parada num semáforo, ela guardou o embrulho na bolsa e meio tensa, ligou o rádio na tentativa de se distrair. Entre os ruídos do tráfico e o chiado das caixas de som, sintonizou num informe policial:

– Estou com o delegado Samuel que vai nos dar mais detalhes sobre a operação realizada na manhã de hoje nos camelôs, que apreendeu mais de 200 comprimidos de diferentes medicamentos contrabandeados. Samuel, já havia sido feita alguma apreensão com um volume tão grande de medicamentos contrabandeados? – perguntou o repórter.

– Não como a de hoje. Em situações anteriores apreendemos pequenas quantidades isoladas, mas nunca havíamos encontrado essa diversidade e quantidade em um mesmo local. Esse caso é raro, porque esses vendedores trabalham sob encomenda e não com formação de estoque.

– Tem sido feito algum monitoramento, pra constatar se a venda é contínua?

– O monitoramento normalmente é feito pela Receita e Polícia Federal. A Polícia Civil entra em ação quando existe a prática efetiva do crime, como a venda ilícita e sem autorização do medicamento proibido. A partir daí realizamos a investigação para ver o que está acontecendo, levantar informações e apurar as suspeitas.

– Para concluir, qual a pena para quem utiliza e comercializa medicamentos ilegais?

– A pena para quem vende, entrega ou distribui é de 10 a 15 anos de reclusão. A lei não faz distinção de quantidade e procedência, já que tais medicamentos não são autorizados pela Anvisa. No caso do Citotec, a mulher que o utiliza ou quem o adquire, além de praticar comércio ilegal, acaba sendo indiciado por aborto.

Junto com as palavras finais do delegado, o som do rádio desapareceu. A motorista, confusa com o que ouviu e assustada por ter em sua bolsa um objeto tão comprometedor, decidiu escondê-lo o mais rápido possível até o momento certo de usá-lo. Assim, a vida volta a transcorrer normalmente no paradoxo entre o natural e a intervenção, a legalidade e a ilegalidade.

Encontro Inesperado

– Alô? O quê? Quando aconteceu isso? – perguntou Joana* assustada ao telefone.

Ela continuou falando apressada enquanto levantava da cadeira:

– Segura as pontas por aí que eu já tô indo! – Joana atirou o celular dentro da bolsa e perguntou para as outras clientes do salão se alguém podia lhe dar uma carona. A moça sentada na cadeira ao lado, que conhecia Joana, lhe ofereceu ajuda:

– O que que tu precisa? – perguntou Fabiana* enquanto se dirigia ao caixa e, apressada, procurava a chave do carro dentro da bolsa.

– Eu tenho que levar uma amiga para o pronto-socorro, ela tá passando mal. – Joana falou tão rápido que Fabiana teve dificuldade para entender o que a outra estava dizendo.

Já dentro do carro, Joana lhe disse para onde deveriam ir. Em dez minutos Fabiana estacionou na frente de um casarão antigo que lhe lembrava uma república. Antes mesmo de tirarem os cintos de segurança, as duas ouviram gritos que vinham de dentro da casa. A porta da frente se abriu, e duas moças que deveriam ter em torno de 19 anos saltaram em direção ao carro. Uma delas gritava desesperada:

– Joana, ela tá morrendo! Ela tá morrendo!

Joana correu para socorrer a jovem. Fabiana a seguiu com a intenção de ajudá-la. Ao passar pela porta de um quarto, parou abruptamente diante de uma cena, que para ela, parecia chocante: deitada no chão, uma moça se contorcia, debatendo-se aos gritos em cima de lençóis sujos de sangue e vômito.

– Tira! Tira! – gritava ofegante a jovem.

De tão assustada, Fabiana ainda não tinha notado o que estava entre as duas pernas da mulher. Ao olhar para onde a moça apontava enquanto gritava desesperada, ela viu o que parecia um “montinho” de pele e sangue meio azulado. A visão paralisou Fabiana. Enquanto isso, Joana andava de um lado para o outro, tentando desesperadamente ligar para um amigo médico que prestava auxilio em casos como esse.

Dez minutos depois a campainha tocou. Rapidamente, o médico executou os procedimentos necessários, cortando o cordão umbilical que unia a mãe ao feto já sem vida. Enquanto a jovem chorava amedrontada, o médico ocultou a criança morta.

Em seguida, o médico ordenou que a jovem se limpasse e trocasse suas roupas sujas e suadas por peças limpas. A única saída era levá-la para o hospital, mas a jovem não parava de sangrar por causa da gravidade da hemorragia. Era fundamental apagar todos os indícios do que tinha acontecido, nenhuma daquelas pessoas poderia se comprometer, mas todos, ali estavam envolvidos no crime.

A jovem perdeu mais que o filho, teve removida a possibilidade de ser mãe.

Peso Morto

O sol já se escondia atrás das árvores quando Jenifer* parou de cavar, satisfeita com seu trabalho. Sem titubear, ela pegou um embrulho ao lado do monte de terra e o atirou no buraco. Começou a cobri-lo rapidamente, preocupada com a possibilidade de alguém estar vendo o que ela fazia. Ajoelhada, socou a terra com as mãos, a fim selar a cova. Ao terminar, Jenifer andou em direção à casa, limpando a terra e o sangue que cobriam suas roupas. Esfregou os pés no capacho da porta e notou os pingos de sangue no chão da cozinha. O rastro formado guiou o olhar de Jenifer até sua amiga, que ainda estava atirada no chão, envolta em trapos ensangüentados. 

– Pronto Sabrina*, tá feito. – Falou Jenifer. – Agora vai tomar banho enquanto eu limpo isso aqui – complementou.

Sabrina abriu o registro do chuveiro e enfiou-se embaixo d’água, tentando limpar o sangue seco entre suas pernas. A água que escorria abundantemente misturou-se ao sangue que não parava de escorrer, tingindo os azulejos. De olhos fechados, Sabrina começou a se lembrar das outras duas vezes em que a cena havia se repetido:

– Era a única saída… Não tenho condições… – Sussurrou Sabrina, ainda tentando limpar os vestígios de seu corpo.

Exatamente há um ano atrás, ela havia sido internada no hospital por motivos semelhantes. Sabrina estava com seu peso abaixo do ideal, o que salientava ainda mais a gravidez de sete meses. A sua aparência debilitada acabou por despertar a curiosidade dos plantonistas. Depois de realizar uma bateria de exames e, com os resultados em mãos, o médico responsável quis esclarecer algumas dúvidas: 

– Tu esperaste demais para procurar o hospital e isso pode te trazer complicações. Por que não vieste antes? – questionou o médico.

– Eu achei que fossem só umas dorzinhas a mais. – defendeu-se Sabrina.

– Mas não era só isso. – respondeu o médico, ao lembrar-se do estado em que a criança se encontrava quando foi expelida sem vida por efeito de medicamentos.

– Você estava com sete meses, vamos precisar fazer uma curetagem. 

Algum tempo depois, sozinha no quarto do hospital e deitada no leito, Sabrina baixou a cabeça:

– Eu não ia criar ele sem o pai… – Desabafou.

Jenifer, preocupada com a demora da amiga, foi até o banheiro:

– Tu tá bem? – perguntou.

Sobressaltada, Sabrina abriu os olhos. As marcas de sangue haviam finalmente sumido. Ela murmurou para Jenifer que estava tudo bem, enrolando-se numa toalha.

Jenifer sorriu meio sem jeito para Sabrina e falou:

– Vai descansar, se tu precisar de ajuda, me chama.

– Não vou precisar. – Respondeu a outra.

– Tu é abençoada sabia? Já fez isso três vezes e ainda continua engravidando. Acho que o teu destino é ser mãe.

Depois de se despedir de Jenifer e fechar a porta, Sabrina se recostou na parede. Ao lembrar das palavras da amiga, permaneceu alguns instantes imóvel. Na sua frente, se materializaram três crianças que lhe olhavam fixamente. Sabrina percebeu seus mesmos olhos verdes e profundos em cada uma delas.

* Nomes fictícios 

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InvestigativoA tática dos criminosos era a mesma: trabalhar na sombra e à margem da legalidade. Trazê-los para um meio propício ao exercício da Justiça requisitava alguns sacrifícios, e era isso que ele iria fazer.

Um casal cruzou a frente do carro e atravessou a rua a caminho da banca que estava sendo observada. O lugar, que até poucos minutos estava deserto, logo ficou movimentado. Uma segunda mulher chegou ao local depois do casal. Não era possível identificá-la e nem esboçar um retrato. Os óculos escuros ocultavam parte de seu rosto e ela tomava o cuidado de se proteger de observadores casuais. A vendedora olhou rápida e discretamente para os lados. Ninguém, além dela e dos compradores, parecia interessado na negociação que se desenrolava.

A suspeita de que, sobre os toldos dos ambulantes, eram comercializadas algumas drogas pesadas se confirmava: do bolso da vendedora surgiram cartelas suspeitas. Podia ser aquilo que Samuel* procurava, era o momento de arriscar.

O casal pagou pelo que seria um medicamento e saiu às pressas do local, sem perceber o carro que o acompanhava sorrateiramente de longe. Vinte minutos depois, uma residência estava no centro das atenções. Era a hora de agir: Samuel pegou o celular e discou um número com pressa.

A resposta da ligação se refletiu diretamente em sua expressão de desaprovação. Contrariado, Samuel retornou para a delegacia, não havia mais nada que pudesse ser feito no momento. Ao chegar em casa, como de costume, o trabalho ficou do lado de fora de seus pensamentos. “Era uma questão de tempo”, pensou, antes de passar pela soleira da porta.

Na manhã seguinte, ao sair de casa, sacou o telefone num misto de euforia e tensão. Seria tarde demais? Na delegacia estava tudo pronto a sua espera. Samuel trocou de carro e rumou angustiado à residência visitada no dia anterior.

O interfone foi acionado sem parar. Ninguém atendia. A tensão começou a tomar o lugar antes ocupado pela calma e tranquilidade, marcas registradas do delegado. De repente a chamada foi atendida. Do outro lado, a única resposta à aflição de Samuel foi um total e mórbido silêncio.

O portão foi liberado. Sem pestanejar, Samuel e seus companheiros correram rumo à casa. As batidas na porta retumbavam e o eco fazia o delegado imaginar a causa do silêncio que habitava a casa.

A porta foi liberada. O procedimento padrão de identificação foi feito por Samuel. Nenhuma resposta. Alguns segundos se passaram. A escuridão da casa alimentou a esperança de que todos estivessem dormindo. Mas àquela hora? Não, não podia ser. De repente, passos foram ouvidos. Os homens se colocaram de prontidão e avançaram pé por pé. Os sons pareciam vir de uma porta à direita. Gemidos foram ouvidos. Samuel e os outros tentaram correr nessa direção, mas foram impedidos pela silhueta que se revelou diante deles.

Uma criança, ainda de pijama, estava estática e prostrada de pé olhando fixamente para Samuel. Atrás dela o interfone balançava, batendo na parede. As palavras engasgaram na garganta do delegado e, antes que ele as liberasse, o pequeno levantou a mão em outra direção.

O olhar foi guiado de maneira instantânea. Uma mancha de sangue borrava o chão da cozinha. A mulher recostada na parede gemia debilmente.

Era tarde demais.

Mercado de sombras

Largo da Gare, 17h40. Um carro bordô estaciona lentamente. Um homem magro de estatura média e trajando roupas sujas e surradas embarca com pressa. Poucas palavras são trocadas entre ele e a mulher que está ao volante:

– Me dá o dinheiro – diz o homem de forma ríspida.

A mulher entrega o dinheiro em total desconcerto diante do estranho. Ele confere as notas em silêncio, abre a porta e desce do carro rapidamente. Meio atordoada, a mulher pergunta: 

– E o remédio!?

– Segue, que alguém vai te encontrar. – responde o homem, encostado na janela do carro.

– Que garantia eu tenho???

– É o teu risco… Nesse tipo negócio, não tem essa de garantia.

Antes que a mulher pudesse pensar em dizer qualquer outra coisa, a porta do carro se fechou, e o estranho voltou para as sombras do anonimato. Ainda agarrada ao volante, e sem saber o que iria acontecer em seguida, a mulher fez o que o carona lhe recomendou: continuou dirigindo naquela mesma direção. Após alguns quarteirões de desorientação e antes que fosse tomada por um fluxo de consciência, a motorista avistou uma mulher que acenava para ela e seguiu em sua direção. Assim que o carro parou, a moça se aproximou e jogou um embrulho no banco do carona dizendo: 

– Aqui está o remédio. Tu vai ingerir dois e inserir dois na vagina. É preciso colocar de maneira que os comprimidos cheguem ao útero. Se tu precisar tenho umas moças que podem te ajudar a fazer, mas cada uma cobra R$40,00.

– Não, não vou precisar. – respondeu a motorista, enquanto olhava meio insegura para o pacote que tinha acabado de comprar.

– Ok.

A moça virou as costas e o carro continuou sua trajetória. Ambos, mulher e automóvel, se misturam na multidão e no tráfego, e logo se tornou impossível distingui-los dos demais. Parada num semáforo, ela guardou o embrulho na bolsa e meio tensa, ligou o rádio na tentativa de se distrair. Entre os ruídos do tráfico e o chiado das caixas de som, sintonizou num informe policial:

– Estou com o delegado Samuel que vai nos dar mais detalhes sobre a operação realizada na manhã de hoje nos camelôs, que apreendeu mais de 200 comprimidos de diferentes medicamentos contrabandeados. Samuel, já havia sido feita alguma apreensão com um volume tão grande de medicamentos contrabandeados? – perguntou o repórter.

– Não como a de hoje. Em situações anteriores apreendemos pequenas quantidades isoladas, mas nunca havíamos encontrado essa diversidade e quantidade em um mesmo local. Esse caso é raro, porque esses vendedores trabalham sob encomenda e não com formação de estoque.

– Tem sido feito algum monitoramento, pra constatar se a venda é contínua?

– O monitoramento normalmente é feito pela Receita e Polícia Federal. A Polícia Civil entra em ação quando existe a prática efetiva do crime, como a venda ilícita e sem autorização do medicamento proibido. A partir daí realizamos a investigação para ver o que está acontecendo, levantar informações e apurar as suspeitas.

– Para concluir, qual a pena para quem utiliza e comercializa medicamentos ilegais?

– A pena para quem vende, entrega ou distribui é de 10 a 15 anos de reclusão. A lei não faz distinção de quantidade e procedência, já que tais medicamentos não são autorizados pela Anvisa. No caso do Citotec, a mulher que o utiliza ou quem o adquire, além de praticar comércio ilegal, acaba sendo indiciado por aborto.

Junto com as palavras finais do delegado, o som do rádio desapareceu. A motorista, confusa com o que ouviu e assustada por ter em sua bolsa um objeto tão comprometedor, decidiu escondê-lo o mais rápido possível até o momento certo de usá-lo. Assim, a vida volta a transcorrer normalmente no paradoxo entre o natural e a intervenção, a legalidade e a ilegalidade.

Encontro Inesperado

– Alô? O quê? Quando aconteceu isso? – perguntou Joana* assustada ao telefone.

Ela continuou falando apressada enquanto levantava da cadeira:

– Segura as pontas por aí que eu já tô indo! – Joana atirou o celular dentro da bolsa e perguntou para as outras clientes do salão se alguém podia lhe dar uma carona. A moça sentada na cadeira ao lado, que conhecia Joana, lhe ofereceu ajuda:

– O que que tu precisa? – perguntou Fabiana* enquanto se dirigia ao caixa e, apressada, procurava a chave do carro dentro da bolsa.

– Eu tenho que levar uma amiga para o pronto-socorro, ela tá passando mal. – Joana falou tão rápido que Fabiana teve dificuldade para entender o que a outra estava dizendo.

Já dentro do carro, Joana lhe disse para onde deveriam ir. Em dez minutos Fabiana estacionou na frente de um casarão antigo que lhe lembrava uma república. Antes mesmo de tirarem os cintos de segurança, as duas ouviram gritos que vinham de dentro da casa. A porta da frente se abriu, e duas moças que deveriam ter em torno de 19 anos saltaram em direção ao carro. Uma delas gritava desesperada:

– Joana, ela tá morrendo! Ela tá morrendo!

Joana correu para socorrer a jovem. Fabiana a seguiu com a intenção de ajudá-la. Ao passar pela porta de um quarto, parou abruptamente diante de uma cena, que para ela, parecia chocante: deitada no chão, uma moça se contorcia, debatendo-se aos gritos em cima de lençóis sujos de sangue e vômito.

– Tira! Tira! – gritava ofegante a jovem.

De tão assustada, Fabiana ainda não tinha notado o que estava entre as duas pernas da mulher. Ao olhar para onde a moça apontava enquanto gritava desesperada, ela viu o que parecia um “montinho” de pele e sangue meio azulado. A visão paralisou Fabiana. Enquanto isso, Joana andava de um lado para o outro, tentando desesperadamente ligar para um amigo médico que prestava auxilio em casos como esse.

Dez minutos depois a campainha tocou. Rapidamente, o médico executou os procedimentos necessários, cortando o cordão umbilical que unia a mãe ao feto já sem vida. Enquanto a jovem chorava amedrontada, o médico ocultou a criança morta.

Em seguida, o médico ordenou que a jovem se limpasse e trocasse suas roupas sujas e suadas por peças limpas. A única saída era levá-la para o hospital, mas a jovem não parava de sangrar por causa da gravidade da hemorragia. Era fundamental apagar todos os indícios do que tinha acontecido, nenhuma daquelas pessoas poderia se comprometer, mas todos, ali estavam envolvidos no crime.

A jovem perdeu mais que o filho, teve removida a possibilidade de ser mãe.

Peso Morto

O sol já se escondia atrás das árvores quando Jenifer* parou de cavar, satisfeita com seu trabalho. Sem titubear, ela pegou um embrulho ao lado do monte de terra e o atirou no buraco. Começou a cobri-lo rapidamente, preocupada com a possibilidade de alguém estar vendo o que ela fazia. Ajoelhada, socou a terra com as mãos, a fim selar a cova. Ao terminar, Jenifer andou em direção à casa, limpando a terra e o sangue que cobriam suas roupas. Esfregou os pés no capacho da porta e notou os pingos de sangue no chão da cozinha. O rastro formado guiou o olhar de Jenifer até sua amiga, que ainda estava atirada no chão, envolta em trapos ensangüentados. 

– Pronto Sabrina*, tá feito. – Falou Jenifer. – Agora vai tomar banho enquanto eu limpo isso aqui – complementou.

Sabrina abriu o registro do chuveiro e enfiou-se embaixo d’água, tentando limpar o sangue seco entre suas pernas. A água que escorria abundantemente misturou-se ao sangue que não parava de escorrer, tingindo os azulejos. De olhos fechados, Sabrina começou a se lembrar das outras duas vezes em que a cena havia se repetido:

– Era a única saída… Não tenho condições… – Sussurrou Sabrina, ainda tentando limpar os vestígios de seu corpo.

Exatamente há um ano atrás, ela havia sido internada no hospital por motivos semelhantes. Sabrina estava com seu peso abaixo do ideal, o que salientava ainda mais a gravidez de sete meses. A sua aparência debilitada acabou por despertar a curiosidade dos plantonistas. Depois de realizar uma bateria de exames e, com os resultados em mãos, o médico responsável quis esclarecer algumas dúvidas: 

– Tu esperaste demais para procurar o hospital e isso pode te trazer complicações. Por que não vieste antes? – questionou o médico.

– Eu achei que fossem só umas dorzinhas a mais. – defendeu-se Sabrina.

– Mas não era só isso. – respondeu o médico, ao lembrar-se do estado em que a criança se encontrava quando foi expelida sem vida por efeito de medicamentos.

– Você estava com sete meses, vamos precisar fazer uma curetagem. 

Algum tempo depois, sozinha no quarto do hospital e deitada no leito, Sabrina baixou a cabeça:

– Eu não ia criar ele sem o pai… – Desabafou.

Jenifer, preocupada com a demora da amiga, foi até o banheiro:

– Tu tá bem? – perguntou.

Sobressaltada, Sabrina abriu os olhos. As marcas de sangue haviam finalmente sumido. Ela murmurou para Jenifer que estava tudo bem, enrolando-se numa toalha.

Jenifer sorriu meio sem jeito para Sabrina e falou:

– Vai descansar, se tu precisar de ajuda, me chama.

– Não vou precisar. – Respondeu a outra.

– Tu é abençoada sabia? Já fez isso três vezes e ainda continua engravidando. Acho que o teu destino é ser mãe.

Depois de se despedir de Jenifer e fechar a porta, Sabrina se recostou na parede. Ao lembrar das palavras da amiga, permaneceu alguns instantes imóvel. Na sua frente, se materializaram três crianças que lhe olhavam fixamente. Sabrina percebeu seus mesmos olhos verdes e profundos em cada uma delas.

* Nomes fictícios