Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

O perigo anda ao lado

Investigativo
Proibidos pelo Código Brasileiro de Trânsito, o que para alguns é uma emoção, um lazer, pode ser um trauma para o resto da vida para  outros. Antes, “organizados”, freqüentes durante as noites de sexta-feira e sábado nas rodovias de acesso a Santa Maria. Agora, essa paixão perigosa está em qualquer lugar, não importa o dia, nem a hora. O que resta aos motoristas e pedestres é ter muita atenção ao andar pelas ruas da cidade, elas viraram pistas de corridas para os praticantes de rachas.

Carros possantes, jovens motoristas e atos inconseqüentes. A prática
de rachas existe há anos, das mais variadas formas. O Autódromo de
Tarumã, em Viamão, no Rio Grande do Sul, reúne, semanalmente,
competidores de uma forma legal, organizada e segura. Mas são as
corridas ilegais, realizadas nas ruas, que motivam muitos “rachadores”. É
o caso do jornalista Daniel, 29 anos, corre desde 18, iniciou a prática
em Santa Maria quando veio terminar o curso superior, em 2006. Daniel
conta que apesar de ter vindo de outro estado, não foi difícil
identificar e entrar para a tribo dos rachadores em Santa Maria. Para
fazer parte da turma e deixar o carro competitivo, Daniel fez algumas
modificações na estrutura do veículo.

O primeiro passo foi à
instalação um turbo para aumentar a potencia. “ Com o turbo o carro 
ficou mais forte para correr”. Em seguida Daniel modificou a suspensão.
“Instalei a suspensão a ar, assim posso regular a atura do veiculo com
um simples apertar de botão”. Segundo ele existem várias oficinas na
cidade que fazem esse tipo de alteração.  

investigativo_rachas1.jpg
Depois das
modificações, o carro e o motorista ganharam as ruas em busca de
velocidade, adrenalina e imprudência. “Quem corre reconhece o outro
praticante pelo perfil do carro, que normalmente é rebaixado, tem os
vidros bem escuros e adesivos de clubes automobilísticos”, afirma
Daniel. Ele comenta que não há lugares específicos para a prática e os
rachas são feitos em qualquer lugar, a qualquer hora, independente do
dia. Segundo o motorista, as ruas de maior incidência de rachas em Santa
Maria são a Avenida Nossa Senhora da Medianeira, Avenida Presidente
Vargas, Avenida Osvaldo Cruz e BR-392. “Tudo começa no momento que os
carros se alinham em alguma sinaleira. Os motores roncam, quando o sinal
fica verde é dada a largada, vence quem se distanciar primeiro”,
relata.

Apesar dos rachas acontecerem com freqüência, o
jornalista afirma que a Policia Militar tem conhecimento desta prática.
“A fiscalização é rígida, mas varia de policial para policial. Eu mesmo
já parei em uma blitz em que não fui se quer notificado pelas alterações
do meu carro. Teve outra ocasião em que fui multado pelos mesmos
motivos”, ironizou ele. Daniel respondeu processo por direção perigosa
após fugir da polícia durante uma corrida ilegal dentro da cidade.
Quando questionado sobre a irregularidade da prática e o risco de contra
a vida de outras pessoas, ele fala que faz por pura paixão: “É de
família. Meu pai e meu avô corriam. Quando criança eu corria de kart. Já
corri de Stock Car. Alguns corredores vão pelo exibicionismo, outros
pela vontade de correr, pela curiosidade. Para mim é pelo carinho e pela
paixão pelos carros. É um momento de lazer só meu. É meu brinquedo, se
tirassem isso de mim, não seria o mesmo”, conta o jornalista, que já
entregou aos cofres públicos cerca de R$ 3 mil em multas.

Da
ficção para o real

Atualmente, o racha é uma prática ilegal
considerada crime, como prevê o Art. 174 do Código de Trânsito
Brasileiro: “Promover na via competição esportiva, eventos organizados,
exibição e demonstração de perícia em manobra de veículo, ou deles
participar, como condutor, sem a permissão da autoridade de trânsito com
circunscrição sobre a via é considerada uma infração gravíssima, com
multa e suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo”. No caso
do flagrante, os praticantes podem responder processo judicial e serem
presos.

Com o filme Velozes e Furiosos lançado em 2001 a moda
tuning e as corridas ilegais ganharam as ruas. Mas diferente da ficção
em que jovens disputam rachas nas avenidas de Los Angeles, as
conseqüências dos rachas na vida real , também são reais:

Vítima
da imprudência

A história de Greice de Bem Noro, professora
universitária que até hoje sofre as conseqüências da imprudência de quem
pratica rachas.

Luiz Otávio Prates: Quando e como aconteceu o
acidente?

Greice Noro: Aconteceu no dia 18 de janeiro de 1998, em
frente ao hospital de caridade, às 5h da manhã. Saímos de uma formatura e
fomos comer um cachorro quente no antigo Tareko. Estávamos escorados no
carro, quando eles começaram a fazer o racha. Um deles se desgovernou e
me pegou em cheio, batendo em mais três carros parados, pra ti vê o
patamar.
Ele só não fugiu como o outro motorista fez porque eu
destruí o carro dele com a cabeça. Ele tinha a recém 18 anos feitos.

O
motorista estava embriagado?

Não tem como comprovar isso porque não é
obrigatório fazer o bafômetro. Testemunhas que o conheciam disseram que
ele estava drogado.

Você sabe a que velocidade ele estava?
Foi comprovado, a partir de uma análise feita pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, que ele estava entre 80 e 120 quilômetros por
hora. Isso num local onde tem um hospital, com uma placa indicando que a
velocidade máxima permitida é de 30 quilômetros por hora.

Que
atitudes foram tomadas logo após o acidente?

Eu não tinha como ter
atitude nenhuma porque fiquei tetraplégica. Na hora do acidente eu
quebrei a C5 (vértebra cervical). A sorte é que o meu ex-namorado fazia
faculdade de Direito na época e ele montou  todo o processo, tirou fotos
do acidente e levantou testemunhas. No local tinham mais de 100
pessoas; todo mundo ia pra lá.

Como foi o processo?
O processo
durou 10 anos. Entramos com o processo logo depois, mas o meu principal
atenuante negativo foi que a Lei que prevê o racha como crime entrou em
vigor no dia 23 de janeiro, cinco dias antes do acidente. Em função
disso, tive que provar penalmente que ele teve a intenção de causar
danos para depois entrar com o processo civil. A justiça não foi só
lenta, como ridícula.

Ele recorreu após as decisões?
Sim.
Recorreu inúmeras vezes depois que a sentença saía. No penúltimo
julgamento eu ganhei em todas as instâncias; normalmente quem entra na
justiça ganha o mínimo de danos morais. Eu ganhei o máximo.

Que
penas foram aplicadas ao condutor?

Depois de anos ele foi penalizado.
Pagou apenas cestas básicas.

Conte-me um pouco sobre a sua
recuperação. Foi muito demorada?

A recuperação foi longa. Fiquei por
três meses na CTI (Centro de Tratamento Intensivo), com muitas pessoas
cuidando de mim. Nesse meio tempo, recuperei os movimentos das pernas
para cima. Já em dezembro daquele ano, consegui dar o meu primeiro
passo.
Tive que fazer inúmeras cirurgias para me recuperar e depois
para corrigir as cicatrizes. Cada vez que fazia uma cirurgia, ficava por
mais dois meses usando muleta. Fiquei mais três ou quatro anos em
recuperação.

Hoje em dia, você sente alguma dificuldade em fazer
algum movimento?

O joelho me prejudica muito. Ele ficou lesionado, e
ficou lesionado feio. Além disso, fiquei com espasmos medulares, ou
seja, toda vez que faço movimentos bruscos, o meu corpo se contraí. Isso
dói. As pessoas não percebem porque eu disfarço.

A visão de quem esta de fora

André morador próximo da RS-158, mais conhecida como Faixa de Rosário, afirma que há algum tempo não s escuta barulhos de carros praticando corrida. “Na época que a Faixa de Rosário não tinha sido concluída, todas as noites existiam corridas na via. O som das arrancadas e dos motores eram freqüentes”, relata.

O morador conta que chegou a presenciar vários carros se preparando para correr. “Em geral os praticantes eram jovens visivelmente sob o efeito de álcool”. O morador ainda lembra que além dos carros que vinham correr, era freqüente ver outros carros com pessoas que assistiam e até torciam pelos corredores, o que aumentava o risco de acidentes.

André lembra também que a maior operação da policia que viu em sua vida foi na  RS-158. “Alguns policiais ficaram escondidos e outros a espera dos corredores, formando uma espécie de armadilha para prender os praticantes de rachas”. Para ele o que mais chamou a atenção naquela noite e na hora até lembrou cenas de filme, foi o fato de a policial utilizar um ônibus para levar presos todos os envolvidos na corrida.

Um funcionário que não quis se identificar,  de um dos postos de combustível da cidade onde é comum encontrar nas noites de final de semana motoristas que ingerem bebidas alcoólicas e depois saem dirigindo, afirmou que não costuma presenciar ninguém promovendo nem se organizando para praticar rachas. Mas, segundo ele, é comum ver carros rebaixados passar com o som alto, acelerando e forçando o motor, porém não acredita que esses motoristas pratiquem rachas e sim tem a pretensão de mostrar a potência do carro.

Ele falou ainda sobre a facilidade de motoristas dirigirem em alta velocidade pelas ruas da cidade, uma vez que dificilmente presencia blitz da policia. “É freqüente ver as pessoas ingerirem álcool em grande quantidade e depois saírem para dirigir”, comenta.

A Lei 11.705, que entrou em vigor em junho de 2008, proíbe o consumo de praticamente qualquer quantidade de bebida alcoólica por condutores de veículos. Motoristas flagrados dirigindo após ingerir pagarão multa de 957 reais, perderão a carteira de motorista por um ano e ainda terão o carro apreendido.

O que dizem as autoridades

A Brigada Militar de Santa Maria (BM) revelou que nos últimos dois anos foram constatados poucos casos de direção perigosa (rachas). Tendo em vista que são poucas ocorrências, as blitz não são freqüentes. Segundo a brigada, não é rotineiro também as denuncias de rachas pelos telefones da BM na cidade (190 e 181). As denuncias que são feitas, normalmente não se configuram como infrações, pois quando uma viatura é deslocada ao local, não encontra os praticantes, descaracterizando assim o flagrante de direção perigosa. Isso é prejudicado por não haver um lugar específico para os praticantes correrem.

Em caso de flagrante, a BM aborda e identifica os participantes, logo após os infratores são autuados de acordo com as infrações previstas no Código de Transito Brasileiro e ainda assinam um Termo Circunstanciado, onde se comprometem a comparecer em audiência para responder aos fatos dos quais forem acusados. Após isso são encaminhados À delegacia de polícia para registro de ocorrência.

Os veículos com modificação das características originais são apreendidos e os proprietários são autuados. Em caso de flagrante do racha, os praticantes podem ser presos e responderão processo judicial. 

Também entraram em vigor a partir do dia 01 de maio de 2008 as normas previstas nas Resoluções 261 e 262 do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN), que dispõem sobre as regras para modificação de carros. A principal mudança foi à possibilidade de modificar a altura da suspensão dos veículos, tanto para baixo como para cima o que antes só era permitido para veículos utilitários. A nova regra determina que ao rebaixar um carro a altura mínima deve ser do solo ao ponto mais baixo do farol dianteiro e essa medida não pode ser inferior a 50 centímetros.

Mas de acordo com o Código de Trânsito de Brasileiro (CTB), antes do motorista ou proprietário realizar qualquer alteração nas características do carro é necessário pedir uma autorização prévia do órgão de trânsito competente. Segundo as normas, todas as informações referentes à modificação deverão constar no registro do carro, sendo incluídas no Certificado de Registro de Veículo (CRV) e no Certificado de Registro e Licenciamento de Veículos (CRLV).

As alterações utilizadas pelos corredores

investigativo_rachas2.jpgTodas as modificações permitidas estão previstas no anexo da Resolução 262. Quem descumpre as normas estará cometendo infração grave, cuja penalidade é multa de R$ 127,69, cinco pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e retenção do carro para regularização.

Segundo o funcionário de uma oficina especializada em rebaixar veículos, a suspensão fixa a única autorizada pela resolução 262 custa em média R$ 400,00. Já a suspensão com rosca em que o motorista regula a altura do veiculo com uma chave Allen (chave hexagonal),  tem um custo de R$ 800,00 e a ar não sai por menos de R$ 2500,00 (está é a preferida , a mais instalada). Tanto a suspensão de rosca como a ar são proibidas, o veiculo com esse tipo de suspensão é multado e aprendido ate regularização.

Mas no que depender da Gerência de Transito e Mobilidade Urbana de Santa Maria (GTMU) a lei vai ser cumprida.  Segundo o gerente de transito Jorge Luiz Silveira Ferreira. Os fiscais de trânsito estão atentos para carros que apresentam modificações, mas estão em desconformidade com as normas do CONTRAN. Ferreira salienta também que as principais infrações no que refere a alterações veicular na cidade são: veiculo rebaixado fora das especificações ou sem a regularização no CRV, o uso de películas refletivas ou rodas fora dos padrões.  Nesses casos a orientação dos fiscais de transito é de orientar os motoristas a regularizar a situação no prazo de 24 a 48 horas e apresentar os veículos a GTMU, caso contrario os condutores, na grande maioria homens entre 18 e 30 anos, são notificados.

No entanto Ferreira alerta para a deficiência de pessoal para a fiscalização do  transito em Santa Maria. “Hoje seria necessário colocar 100 agentes nas ruas distribuídos em três turnos de trabalho, mas só contamos com 17 pessoas”. afirma ele. Devido essa deficiência de pessoal as blitz também foram reduzidas para apenas dois dias por semana, nas sextas-feiras e domingos a noite. Os locais mais escolhidos são a Praça Saturnino de Brito e a Avenida Fernando Ferrai e a Paulo Lauda.


Motor potente, carro veloz e velocidade baixa

“Tuning está fora de moda”, essa é a opinião do proprietário de uma empresa especializada em personalização de veículos, “a moda no meio automotivo agora é o estilo DUB”. Diferente do tuning em que tudo no veiculo é personalizado para deixar      impresso no carro um pouco da personalidade do seu dono, os amantes do estilo DUB preferem colocar rodas maiores, ter um motor potente e conjunto de som capaz de acordar a vizinhança, mas uma questão importante é manter a discrição do carro.

Para dar mais potência ao veículo,  a maioria dos clientes do empresário prefere fazer a preparação aspirada, na qual alguns componentes do motor são modificados aumentando assim a sua força e rendimento. “O que diferencia no estilo  DUB, é que o motorista  apesar de ter um carro veloz ele não corre, anda até mais devagar”complementa.   Essa nova mania entre os amantes de carros pode ser considerada uma injeção de adrenalina para o ego. Segundo o empresário é “uma competição para ver quem gasta mais dinheiro”, esses motoristas, que hoje se destacam por ser 100% homens entre 18 e 60 anos, precisam ter um requisito importante para participar desse meio,  é preciso ter dinheiro, muito dinheiro.  André conta que o custo para inicial para fazer uma simples modificação no motor é de 4 mil reais,  um jogo de rodas importadas, as preferidas, e pneus  18 ou  19 polegadas ,não sai por menos de  5 mil reais.  A paixão pelo estilo DUB é tão grande que dois clientes da loja, juntos  investiram 35 mil reais em seus carros,
ou seja, 25% do valor de cada carro em personalização.“ Meus clientes pagam para ter exclusividade” complementa ele.

 


Leis previstas no código de trânsito brasileiro:

Art. 170 – Dirigir ameaçando os pedestres que estejam atravessando a via pública, ou demais veículos.
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa e suspensão do direito de dirigir
CONSEQUÊNCIAS – Retenção do veículo e recolhimento do documento de habilitação.

Art. 137 – Disputar corrida por espírito de emulação
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa, suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo
CONSEQUÊNCIAS – Recolhimento do documento de habilitação e remoção do veículo

Art. 174 – Promover, na via, competição esportiva, eventos organizados, exibição e demonstração de perícia em manobra de veículo, ou deles participar, como condutor, sem permissão da autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa, suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo
CONSEQUÊNCIAS – Recolhimento do documento de habilitação e remoção do veículo.

Art. 175 – Utilizar-se de veículo para, em via pública, demonstrar ou exibir manobra perigosa, arrancada brusca, derrapagem ou frenagem com deslizamento ou arrastamento de pneus
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa, suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo.
CONSEQUÊNCIAS – Recolhimento do documento de habilitação e suspensão do veículo.

Art. 218 – Transitar em velocidade superior à máxima permitida para o local, medida por instrumento ou equipamento hábil
INFRAÇÃO – Grave
PUNIÇÃO – Multa
CONSEQUÊNCIAS – retenção do veículo para regularização

Art. 237 – Transitar com o veículo em desacordo com as especificações, e com falta de inscrição e simbologias necessárias à sua identificação quando exigidas pela legislação.
INFRAÇÃO – Grave
PUNIÇÃO – Multa
CONSEQUÊNCIAS – Retenção do veículo para regularização.

Em rodovias de trânsito rápido e vias arteriais:

Quando a velocidade for superior à máxima em até 20%:
INFRAÇÃO – Grave
PUNIÇÃO – Multa

Quando a velocidade for superior à máxima de 20%:
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa e suspensão do direito de dirigir.

Demais vias:

Quando a velocidade for superior à máxima permitida em até 50%:
INFRAÇÃO – Grave
PUNIÇÃO – Multa

Quando a velocidade for superior à máxima permitida em mais de 50%:
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa e suspensão do direito de dirigir
CONSEQUÊNCIAS – recolhimento do documento de habilitação.

Obs.: os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Fotos: Evandro Sturm

LEIA TAMBÉM

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Investigativo
Proibidos pelo Código Brasileiro de Trânsito, o que para alguns é uma emoção, um lazer, pode ser um trauma para o resto da vida para  outros. Antes, “organizados”, freqüentes durante as noites de sexta-feira e sábado nas rodovias de acesso a Santa Maria. Agora, essa paixão perigosa está em qualquer lugar, não importa o dia, nem a hora. O que resta aos motoristas e pedestres é ter muita atenção ao andar pelas ruas da cidade, elas viraram pistas de corridas para os praticantes de rachas.

Carros possantes, jovens motoristas e atos inconseqüentes. A prática
de rachas existe há anos, das mais variadas formas. O Autódromo de
Tarumã, em Viamão, no Rio Grande do Sul, reúne, semanalmente,
competidores de uma forma legal, organizada e segura. Mas são as
corridas ilegais, realizadas nas ruas, que motivam muitos “rachadores”. É
o caso do jornalista Daniel, 29 anos, corre desde 18, iniciou a prática
em Santa Maria quando veio terminar o curso superior, em 2006. Daniel
conta que apesar de ter vindo de outro estado, não foi difícil
identificar e entrar para a tribo dos rachadores em Santa Maria. Para
fazer parte da turma e deixar o carro competitivo, Daniel fez algumas
modificações na estrutura do veículo.

O primeiro passo foi à
instalação um turbo para aumentar a potencia. “ Com o turbo o carro 
ficou mais forte para correr”. Em seguida Daniel modificou a suspensão.
“Instalei a suspensão a ar, assim posso regular a atura do veiculo com
um simples apertar de botão”. Segundo ele existem várias oficinas na
cidade que fazem esse tipo de alteração.  

investigativo_rachas1.jpg
Depois das
modificações, o carro e o motorista ganharam as ruas em busca de
velocidade, adrenalina e imprudência. “Quem corre reconhece o outro
praticante pelo perfil do carro, que normalmente é rebaixado, tem os
vidros bem escuros e adesivos de clubes automobilísticos”, afirma
Daniel. Ele comenta que não há lugares específicos para a prática e os
rachas são feitos em qualquer lugar, a qualquer hora, independente do
dia. Segundo o motorista, as ruas de maior incidência de rachas em Santa
Maria são a Avenida Nossa Senhora da Medianeira, Avenida Presidente
Vargas, Avenida Osvaldo Cruz e BR-392. “Tudo começa no momento que os
carros se alinham em alguma sinaleira. Os motores roncam, quando o sinal
fica verde é dada a largada, vence quem se distanciar primeiro”,
relata.

Apesar dos rachas acontecerem com freqüência, o
jornalista afirma que a Policia Militar tem conhecimento desta prática.
“A fiscalização é rígida, mas varia de policial para policial. Eu mesmo
já parei em uma blitz em que não fui se quer notificado pelas alterações
do meu carro. Teve outra ocasião em que fui multado pelos mesmos
motivos”, ironizou ele. Daniel respondeu processo por direção perigosa
após fugir da polícia durante uma corrida ilegal dentro da cidade.
Quando questionado sobre a irregularidade da prática e o risco de contra
a vida de outras pessoas, ele fala que faz por pura paixão: “É de
família. Meu pai e meu avô corriam. Quando criança eu corria de kart. Já
corri de Stock Car. Alguns corredores vão pelo exibicionismo, outros
pela vontade de correr, pela curiosidade. Para mim é pelo carinho e pela
paixão pelos carros. É um momento de lazer só meu. É meu brinquedo, se
tirassem isso de mim, não seria o mesmo”, conta o jornalista, que já
entregou aos cofres públicos cerca de R$ 3 mil em multas.

Da
ficção para o real

Atualmente, o racha é uma prática ilegal
considerada crime, como prevê o Art. 174 do Código de Trânsito
Brasileiro: “Promover na via competição esportiva, eventos organizados,
exibição e demonstração de perícia em manobra de veículo, ou deles
participar, como condutor, sem a permissão da autoridade de trânsito com
circunscrição sobre a via é considerada uma infração gravíssima, com
multa e suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo”. No caso
do flagrante, os praticantes podem responder processo judicial e serem
presos.

Com o filme Velozes e Furiosos lançado em 2001 a moda
tuning e as corridas ilegais ganharam as ruas. Mas diferente da ficção
em que jovens disputam rachas nas avenidas de Los Angeles, as
conseqüências dos rachas na vida real , também são reais:

Vítima
da imprudência

A história de Greice de Bem Noro, professora
universitária que até hoje sofre as conseqüências da imprudência de quem
pratica rachas.

Luiz Otávio Prates: Quando e como aconteceu o
acidente?

Greice Noro: Aconteceu no dia 18 de janeiro de 1998, em
frente ao hospital de caridade, às 5h da manhã. Saímos de uma formatura e
fomos comer um cachorro quente no antigo Tareko. Estávamos escorados no
carro, quando eles começaram a fazer o racha. Um deles se desgovernou e
me pegou em cheio, batendo em mais três carros parados, pra ti vê o
patamar.
Ele só não fugiu como o outro motorista fez porque eu
destruí o carro dele com a cabeça. Ele tinha a recém 18 anos feitos.

O
motorista estava embriagado?

Não tem como comprovar isso porque não é
obrigatório fazer o bafômetro. Testemunhas que o conheciam disseram que
ele estava drogado.

Você sabe a que velocidade ele estava?
Foi comprovado, a partir de uma análise feita pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, que ele estava entre 80 e 120 quilômetros por
hora. Isso num local onde tem um hospital, com uma placa indicando que a
velocidade máxima permitida é de 30 quilômetros por hora.

Que
atitudes foram tomadas logo após o acidente?

Eu não tinha como ter
atitude nenhuma porque fiquei tetraplégica. Na hora do acidente eu
quebrei a C5 (vértebra cervical). A sorte é que o meu ex-namorado fazia
faculdade de Direito na época e ele montou  todo o processo, tirou fotos
do acidente e levantou testemunhas. No local tinham mais de 100
pessoas; todo mundo ia pra lá.

Como foi o processo?
O processo
durou 10 anos. Entramos com o processo logo depois, mas o meu principal
atenuante negativo foi que a Lei que prevê o racha como crime entrou em
vigor no dia 23 de janeiro, cinco dias antes do acidente. Em função
disso, tive que provar penalmente que ele teve a intenção de causar
danos para depois entrar com o processo civil. A justiça não foi só
lenta, como ridícula.

Ele recorreu após as decisões?
Sim.
Recorreu inúmeras vezes depois que a sentença saía. No penúltimo
julgamento eu ganhei em todas as instâncias; normalmente quem entra na
justiça ganha o mínimo de danos morais. Eu ganhei o máximo.

Que
penas foram aplicadas ao condutor?

Depois de anos ele foi penalizado.
Pagou apenas cestas básicas.

Conte-me um pouco sobre a sua
recuperação. Foi muito demorada?

A recuperação foi longa. Fiquei por
três meses na CTI (Centro de Tratamento Intensivo), com muitas pessoas
cuidando de mim. Nesse meio tempo, recuperei os movimentos das pernas
para cima. Já em dezembro daquele ano, consegui dar o meu primeiro
passo.
Tive que fazer inúmeras cirurgias para me recuperar e depois
para corrigir as cicatrizes. Cada vez que fazia uma cirurgia, ficava por
mais dois meses usando muleta. Fiquei mais três ou quatro anos em
recuperação.

Hoje em dia, você sente alguma dificuldade em fazer
algum movimento?

O joelho me prejudica muito. Ele ficou lesionado, e
ficou lesionado feio. Além disso, fiquei com espasmos medulares, ou
seja, toda vez que faço movimentos bruscos, o meu corpo se contraí. Isso
dói. As pessoas não percebem porque eu disfarço.

A visão de quem esta de fora

André morador próximo da RS-158, mais conhecida como Faixa de Rosário, afirma que há algum tempo não s escuta barulhos de carros praticando corrida. “Na época que a Faixa de Rosário não tinha sido concluída, todas as noites existiam corridas na via. O som das arrancadas e dos motores eram freqüentes”, relata.

O morador conta que chegou a presenciar vários carros se preparando para correr. “Em geral os praticantes eram jovens visivelmente sob o efeito de álcool”. O morador ainda lembra que além dos carros que vinham correr, era freqüente ver outros carros com pessoas que assistiam e até torciam pelos corredores, o que aumentava o risco de acidentes.

André lembra também que a maior operação da policia que viu em sua vida foi na  RS-158. “Alguns policiais ficaram escondidos e outros a espera dos corredores, formando uma espécie de armadilha para prender os praticantes de rachas”. Para ele o que mais chamou a atenção naquela noite e na hora até lembrou cenas de filme, foi o fato de a policial utilizar um ônibus para levar presos todos os envolvidos na corrida.

Um funcionário que não quis se identificar,  de um dos postos de combustível da cidade onde é comum encontrar nas noites de final de semana motoristas que ingerem bebidas alcoólicas e depois saem dirigindo, afirmou que não costuma presenciar ninguém promovendo nem se organizando para praticar rachas. Mas, segundo ele, é comum ver carros rebaixados passar com o som alto, acelerando e forçando o motor, porém não acredita que esses motoristas pratiquem rachas e sim tem a pretensão de mostrar a potência do carro.

Ele falou ainda sobre a facilidade de motoristas dirigirem em alta velocidade pelas ruas da cidade, uma vez que dificilmente presencia blitz da policia. “É freqüente ver as pessoas ingerirem álcool em grande quantidade e depois saírem para dirigir”, comenta.

A Lei 11.705, que entrou em vigor em junho de 2008, proíbe o consumo de praticamente qualquer quantidade de bebida alcoólica por condutores de veículos. Motoristas flagrados dirigindo após ingerir pagarão multa de 957 reais, perderão a carteira de motorista por um ano e ainda terão o carro apreendido.

O que dizem as autoridades

A Brigada Militar de Santa Maria (BM) revelou que nos últimos dois anos foram constatados poucos casos de direção perigosa (rachas). Tendo em vista que são poucas ocorrências, as blitz não são freqüentes. Segundo a brigada, não é rotineiro também as denuncias de rachas pelos telefones da BM na cidade (190 e 181). As denuncias que são feitas, normalmente não se configuram como infrações, pois quando uma viatura é deslocada ao local, não encontra os praticantes, descaracterizando assim o flagrante de direção perigosa. Isso é prejudicado por não haver um lugar específico para os praticantes correrem.

Em caso de flagrante, a BM aborda e identifica os participantes, logo após os infratores são autuados de acordo com as infrações previstas no Código de Transito Brasileiro e ainda assinam um Termo Circunstanciado, onde se comprometem a comparecer em audiência para responder aos fatos dos quais forem acusados. Após isso são encaminhados À delegacia de polícia para registro de ocorrência.

Os veículos com modificação das características originais são apreendidos e os proprietários são autuados. Em caso de flagrante do racha, os praticantes podem ser presos e responderão processo judicial. 

Também entraram em vigor a partir do dia 01 de maio de 2008 as normas previstas nas Resoluções 261 e 262 do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN), que dispõem sobre as regras para modificação de carros. A principal mudança foi à possibilidade de modificar a altura da suspensão dos veículos, tanto para baixo como para cima o que antes só era permitido para veículos utilitários. A nova regra determina que ao rebaixar um carro a altura mínima deve ser do solo ao ponto mais baixo do farol dianteiro e essa medida não pode ser inferior a 50 centímetros.

Mas de acordo com o Código de Trânsito de Brasileiro (CTB), antes do motorista ou proprietário realizar qualquer alteração nas características do carro é necessário pedir uma autorização prévia do órgão de trânsito competente. Segundo as normas, todas as informações referentes à modificação deverão constar no registro do carro, sendo incluídas no Certificado de Registro de Veículo (CRV) e no Certificado de Registro e Licenciamento de Veículos (CRLV).

As alterações utilizadas pelos corredores

investigativo_rachas2.jpgTodas as modificações permitidas estão previstas no anexo da Resolução 262. Quem descumpre as normas estará cometendo infração grave, cuja penalidade é multa de R$ 127,69, cinco pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e retenção do carro para regularização.

Segundo o funcionário de uma oficina especializada em rebaixar veículos, a suspensão fixa a única autorizada pela resolução 262 custa em média R$ 400,00. Já a suspensão com rosca em que o motorista regula a altura do veiculo com uma chave Allen (chave hexagonal),  tem um custo de R$ 800,00 e a ar não sai por menos de R$ 2500,00 (está é a preferida , a mais instalada). Tanto a suspensão de rosca como a ar são proibidas, o veiculo com esse tipo de suspensão é multado e aprendido ate regularização.

Mas no que depender da Gerência de Transito e Mobilidade Urbana de Santa Maria (GTMU) a lei vai ser cumprida.  Segundo o gerente de transito Jorge Luiz Silveira Ferreira. Os fiscais de trânsito estão atentos para carros que apresentam modificações, mas estão em desconformidade com as normas do CONTRAN. Ferreira salienta também que as principais infrações no que refere a alterações veicular na cidade são: veiculo rebaixado fora das especificações ou sem a regularização no CRV, o uso de películas refletivas ou rodas fora dos padrões.  Nesses casos a orientação dos fiscais de transito é de orientar os motoristas a regularizar a situação no prazo de 24 a 48 horas e apresentar os veículos a GTMU, caso contrario os condutores, na grande maioria homens entre 18 e 30 anos, são notificados.

No entanto Ferreira alerta para a deficiência de pessoal para a fiscalização do  transito em Santa Maria. “Hoje seria necessário colocar 100 agentes nas ruas distribuídos em três turnos de trabalho, mas só contamos com 17 pessoas”. afirma ele. Devido essa deficiência de pessoal as blitz também foram reduzidas para apenas dois dias por semana, nas sextas-feiras e domingos a noite. Os locais mais escolhidos são a Praça Saturnino de Brito e a Avenida Fernando Ferrai e a Paulo Lauda.


Motor potente, carro veloz e velocidade baixa

“Tuning está fora de moda”, essa é a opinião do proprietário de uma empresa especializada em personalização de veículos, “a moda no meio automotivo agora é o estilo DUB”. Diferente do tuning em que tudo no veiculo é personalizado para deixar      impresso no carro um pouco da personalidade do seu dono, os amantes do estilo DUB preferem colocar rodas maiores, ter um motor potente e conjunto de som capaz de acordar a vizinhança, mas uma questão importante é manter a discrição do carro.

Para dar mais potência ao veículo,  a maioria dos clientes do empresário prefere fazer a preparação aspirada, na qual alguns componentes do motor são modificados aumentando assim a sua força e rendimento. “O que diferencia no estilo  DUB, é que o motorista  apesar de ter um carro veloz ele não corre, anda até mais devagar”complementa.   Essa nova mania entre os amantes de carros pode ser considerada uma injeção de adrenalina para o ego. Segundo o empresário é “uma competição para ver quem gasta mais dinheiro”, esses motoristas, que hoje se destacam por ser 100% homens entre 18 e 60 anos, precisam ter um requisito importante para participar desse meio,  é preciso ter dinheiro, muito dinheiro.  André conta que o custo para inicial para fazer uma simples modificação no motor é de 4 mil reais,  um jogo de rodas importadas, as preferidas, e pneus  18 ou  19 polegadas ,não sai por menos de  5 mil reais.  A paixão pelo estilo DUB é tão grande que dois clientes da loja, juntos  investiram 35 mil reais em seus carros,
ou seja, 25% do valor de cada carro em personalização.“ Meus clientes pagam para ter exclusividade” complementa ele.

 


Leis previstas no código de trânsito brasileiro:

Art. 170 – Dirigir ameaçando os pedestres que estejam atravessando a via pública, ou demais veículos.
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa e suspensão do direito de dirigir
CONSEQUÊNCIAS – Retenção do veículo e recolhimento do documento de habilitação.

Art. 137 – Disputar corrida por espírito de emulação
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa, suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo
CONSEQUÊNCIAS – Recolhimento do documento de habilitação e remoção do veículo

Art. 174 – Promover, na via, competição esportiva, eventos organizados, exibição e demonstração de perícia em manobra de veículo, ou deles participar, como condutor, sem permissão da autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa, suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo
CONSEQUÊNCIAS – Recolhimento do documento de habilitação e remoção do veículo.

Art. 175 – Utilizar-se de veículo para, em via pública, demonstrar ou exibir manobra perigosa, arrancada brusca, derrapagem ou frenagem com deslizamento ou arrastamento de pneus
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa, suspensão do direito de dirigir e apreensão do veículo.
CONSEQUÊNCIAS – Recolhimento do documento de habilitação e suspensão do veículo.

Art. 218 – Transitar em velocidade superior à máxima permitida para o local, medida por instrumento ou equipamento hábil
INFRAÇÃO – Grave
PUNIÇÃO – Multa
CONSEQUÊNCIAS – retenção do veículo para regularização

Art. 237 – Transitar com o veículo em desacordo com as especificações, e com falta de inscrição e simbologias necessárias à sua identificação quando exigidas pela legislação.
INFRAÇÃO – Grave
PUNIÇÃO – Multa
CONSEQUÊNCIAS – Retenção do veículo para regularização.

Em rodovias de trânsito rápido e vias arteriais:

Quando a velocidade for superior à máxima em até 20%:
INFRAÇÃO – Grave
PUNIÇÃO – Multa

Quando a velocidade for superior à máxima de 20%:
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa e suspensão do direito de dirigir.

Demais vias:

Quando a velocidade for superior à máxima permitida em até 50%:
INFRAÇÃO – Grave
PUNIÇÃO – Multa

Quando a velocidade for superior à máxima permitida em mais de 50%:
INFRAÇÃO – Gravíssima
PUNIÇÃO – Multa e suspensão do direito de dirigir
CONSEQUÊNCIAS – recolhimento do documento de habilitação.

Obs.: os nomes foram trocados para preservar a identidade dos entrevistados.

Fotos: Evandro Sturm