Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

Sorrir é o melhor remédio

Por: Ana Rauber, Bruna de Moura, Carolina Oliveira, Eduardo Clave, Renato Peixe

A maquiagem é um dos processos mais importantes da caracterização dos personagens, quando deixam seus nomes verdadeiros para tornarem-se Doutores do riso.

“O clown (ou palhaço) é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. O clown não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é uma personagem, ele é o próprio ator expondo seu ridículo, mostrando sua ingenuidade. Na busca desse estado, o ator, portanto, não busca construir um personagem, mas sim encontrar essas energias próprias, buscando transformá-las em seu corpo. Para tanto, cada ator desenvolve esse estado pessoal, de clown, com características particulares e individuais.”

A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator, de Renato Ferracini

 

 

Não há cortinas que se abrem, nem picadeiro ou uma plateia aflita pelo começo do espetáculo. O cheiro de pipoca não existe. O que se sente entre os corredores gelados é o cheiro de éter e medicação. De repente as paredes brancas dos hospitais se enchem de cor e alegria. São especialistas de uma área específica chegando para visitar seus pacientes: os besteirologistas.

Com o intuito de levar a magia do circo e a alegria do palhaço para locais onde há pessoas enfermas, inúmeras trupes formaram-se no Brasil a partir do início da década de 90. Pouco mais de 20 anos depois, quatro grupos atuam nos hospitais santa-marienses, levando sorrisos sinceros nestes ambientes onde a dor é latente.

 

Doutores da Alegria

A medicina da alegria chega ao Brasil

Os Doutores da Alegria foram a primeira trupe nacional a começar o trabalho em hospitais. A organização sem fins lucrativos surgiu em 1991 e desde lá já realizou mais de 900 mil visitas em ambientes hospitalares, atuando junto às crianças, seus pais e profissionais da saúde, e promovendo a alegria na adversidade, por meio da arte do palhaço.

Atuante nos hospitais públicos de São Paulo e Recife, além de desenvolver um programa para o fomento de plateias hospitalares no Rio de Janeiro e em São Paulo, a ONG Doutores da Alegria já recebeu inúmeros prêmios e possui a certificação de utilidade pública nas esferas federal, estadual e municipal.

Em 2005, a história dos “médicos de nariz vermelho” ganhou as telas do cinema do Brasil e repercussão mundial. Através de um documentário que explora a metodologia batizada de “Besteirologia”, o filme acabou inspirando diversos grupos pelo país, inclusive em Santa Maria.

 

Anjos da Alegria

Domingos de sorrisos


Em novembro de 2007, um grupo de adolescente na faixa de 15 anos se reunia todos os domingos dentro de uma casa espírita em  Santa Maria. Sentindo que poderiam fazer algo mais, resolveram levar alegria àqueles que não tinham muitos motivos para sorrir.

Seguindo a inspiração dos Doutores da Alegria, o grupo ainda não sabia para quem direcionar o trabalho voluntário. Entre as primeiras ideias, surgiu visitar alas psiquiátricas, presídios ou hospitais. Por possuírem uma saúde excelente e terem a consciência de que nem todos podem dispor dela, acabaram optando por dar continuidade ao trabalho em hospitais.

O início foi lento. Primeiro o grupo recebeu instruções de outros palhaços, além de treinamento com estudantes de Artes Cênicas, circenses e profissionais da área de recreação. Depois, era a hora de escolher o hospital. Com a parceria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que liberou a visita deles ao Hospital Universitário (HUSM), o trabalho começou a ser desenvolvido na ala pediátrica (sexto andar), ala cardíaca (quinto andar) e no Centro de Tratamento da Criança e do Adolescente com Câncer do Hospital Universitário de Santa Maria (CTCriaC).

Assim, em todo último domingo do mês, o grupo composto por mais de dez pessoas se une com a missão de “fazer o bem sem olhar a quem”. Por ser um grupo de voluntários, da maquiagem até o transporte ao HUSM, os Anjos da Alegria vivem de doações. Segundo Lucas Amorim, 21 anos, produtor de eventos da Rádio Gaúcha e membro do grupo desde a sua formação, a retribuição de todo esforço vem através do sorriso da criançada.

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Esquadrão da Alegria

A música que embala a cura

Bernardo Varone é músico, produtor musical e ator, mas há três anos assumiu uma segunda identidade. Três dias por semana Bernardo se transforma no Doutor Maestro, e no lugar do estetoscópio utiliza as notas musicais para ajudar na cura dos pequenos, junto com sua trupe Esquadrão da Alegria.

A intenção do grupo sempre foi tornar um ambiente neutro, como é o hospital, em um espaço feliz para a criança, mudando a sua rotina. Segundo Varone, “o palhaço entra com a menor máscara do mundo que é o nariz vermelho e ele tem o poder de transformar qualquer ambiente em que ele entrar”.

E este processo de transformação também ocorre com Bernardo, quando, aos poucos, deixa de lado a identidade pela qual é conhecido pela família e amigos para se tornar o ‘doutor palhaço’ das crianças. O processo de maquiagem é tão íntimo que nem a noiva de Bernardo pode acompanhar o passo-a-passo da caracterização.

No ano passado, Varone concluiu um curso com os Doutores da Alegria, promovido pelo Grupo Circense Tholl, em Pelotas. Para ele, foi a realização de um sonho, visto que foram selecionados apenas quinze palhaços e outros trinta convidados para participar. Doutor Maestro foge do estereótipo de um palhaço. Ele é triste, calmo e discreto. O nariz vermelho serve como uma armadura contra emoções para Varone, que precisa despertar os sentimentos alheios ao invés de deixar transparecer os seus.

 

Acordes Para a Saúde

A música que transforma

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“Deveria ser levado a todos os corações”. As palavras são de Lígia, paciente da ala psiquiátrica do Hospital São Francisco, que dançou e cantou junto na primeira intervenção do grupo Acordes Para a Saúde no lugar. O grupo surgiu a partir de um projeto universitário do curso de Enfermagem da Unifra. Segundo Liana Lourega, da ideia de levar alegria e modificar o ambiente hospitalar eles acabaram descobrindo uma forma de ajudar na evolução dos pacientes. Uma ou duas vezes por semana eles contribuem com os procedimentos de enfermagem e distribuem afeto através de brincadeiras e músicas.

Para o enfermeiro Saul Ferraz, que trabalha no Hospital São Francisco há um mês, as visitas amenizam o sofrimento dos pacientes, visto que suas atividades são bem restritas dentro da unidade. O também enfermeiro do hospital Marlon Lennon acrescenta “esta musicoterapia que eles aplicam aqui é muito benéfica, porque é o tempo que eles ocupam e traz muita alegria pra eles”.

O projeto Acordes para a Saúde é desenvolvido por acadêmicos do curso de Enfermagem do Centro Universitário Franciscano, Unifra, de diferentes semestres através da disciplina Teorias da Enfermagem. A coordenação do grupo é da professora Irmã Dirce Stein Backes. O trabalho do grupo rendeu um artigo na 3ª Jornada Internacional de Enfermagem Unifra.

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Por: Ana Rauber, Bruna de Moura, Carolina Oliveira, Eduardo Clave, Renato Peixe

A maquiagem é um dos processos mais importantes da caracterização dos personagens, quando deixam seus nomes verdadeiros para tornarem-se Doutores do riso.

“O clown (ou palhaço) é lírico, inocente, ingênuo, angelical e frágil. O clown não interpreta, ele simplesmente é. Ele não é uma personagem, ele é o próprio ator expondo seu ridículo, mostrando sua ingenuidade. Na busca desse estado, o ator, portanto, não busca construir um personagem, mas sim encontrar essas energias próprias, buscando transformá-las em seu corpo. Para tanto, cada ator desenvolve esse estado pessoal, de clown, com características particulares e individuais.”

A arte de não interpretar como poesia corpórea do ator, de Renato Ferracini

 

 

Não há cortinas que se abrem, nem picadeiro ou uma plateia aflita pelo começo do espetáculo. O cheiro de pipoca não existe. O que se sente entre os corredores gelados é o cheiro de éter e medicação. De repente as paredes brancas dos hospitais se enchem de cor e alegria. São especialistas de uma área específica chegando para visitar seus pacientes: os besteirologistas.

Com o intuito de levar a magia do circo e a alegria do palhaço para locais onde há pessoas enfermas, inúmeras trupes formaram-se no Brasil a partir do início da década de 90. Pouco mais de 20 anos depois, quatro grupos atuam nos hospitais santa-marienses, levando sorrisos sinceros nestes ambientes onde a dor é latente.

 

Doutores da Alegria

A medicina da alegria chega ao Brasil

Os Doutores da Alegria foram a primeira trupe nacional a começar o trabalho em hospitais. A organização sem fins lucrativos surgiu em 1991 e desde lá já realizou mais de 900 mil visitas em ambientes hospitalares, atuando junto às crianças, seus pais e profissionais da saúde, e promovendo a alegria na adversidade, por meio da arte do palhaço.

Atuante nos hospitais públicos de São Paulo e Recife, além de desenvolver um programa para o fomento de plateias hospitalares no Rio de Janeiro e em São Paulo, a ONG Doutores da Alegria já recebeu inúmeros prêmios e possui a certificação de utilidade pública nas esferas federal, estadual e municipal.

Em 2005, a história dos “médicos de nariz vermelho” ganhou as telas do cinema do Brasil e repercussão mundial. Através de um documentário que explora a metodologia batizada de “Besteirologia”, o filme acabou inspirando diversos grupos pelo país, inclusive em Santa Maria.

 

Anjos da Alegria

Domingos de sorrisos


Em novembro de 2007, um grupo de adolescente na faixa de 15 anos se reunia todos os domingos dentro de uma casa espírita em  Santa Maria. Sentindo que poderiam fazer algo mais, resolveram levar alegria àqueles que não tinham muitos motivos para sorrir.

Seguindo a inspiração dos Doutores da Alegria, o grupo ainda não sabia para quem direcionar o trabalho voluntário. Entre as primeiras ideias, surgiu visitar alas psiquiátricas, presídios ou hospitais. Por possuírem uma saúde excelente e terem a consciência de que nem todos podem dispor dela, acabaram optando por dar continuidade ao trabalho em hospitais.

O início foi lento. Primeiro o grupo recebeu instruções de outros palhaços, além de treinamento com estudantes de Artes Cênicas, circenses e profissionais da área de recreação. Depois, era a hora de escolher o hospital. Com a parceria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que liberou a visita deles ao Hospital Universitário (HUSM), o trabalho começou a ser desenvolvido na ala pediátrica (sexto andar), ala cardíaca (quinto andar) e no Centro de Tratamento da Criança e do Adolescente com Câncer do Hospital Universitário de Santa Maria (CTCriaC).

Assim, em todo último domingo do mês, o grupo composto por mais de dez pessoas se une com a missão de “fazer o bem sem olhar a quem”. Por ser um grupo de voluntários, da maquiagem até o transporte ao HUSM, os Anjos da Alegria vivem de doações. Segundo Lucas Amorim, 21 anos, produtor de eventos da Rádio Gaúcha e membro do grupo desde a sua formação, a retribuição de todo esforço vem através do sorriso da criançada.

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Esquadrão da Alegria

A música que embala a cura

Bernardo Varone é músico, produtor musical e ator, mas há três anos assumiu uma segunda identidade. Três dias por semana Bernardo se transforma no Doutor Maestro, e no lugar do estetoscópio utiliza as notas musicais para ajudar na cura dos pequenos, junto com sua trupe Esquadrão da Alegria.

A intenção do grupo sempre foi tornar um ambiente neutro, como é o hospital, em um espaço feliz para a criança, mudando a sua rotina. Segundo Varone, “o palhaço entra com a menor máscara do mundo que é o nariz vermelho e ele tem o poder de transformar qualquer ambiente em que ele entrar”.

E este processo de transformação também ocorre com Bernardo, quando, aos poucos, deixa de lado a identidade pela qual é conhecido pela família e amigos para se tornar o ‘doutor palhaço’ das crianças. O processo de maquiagem é tão íntimo que nem a noiva de Bernardo pode acompanhar o passo-a-passo da caracterização.

No ano passado, Varone concluiu um curso com os Doutores da Alegria, promovido pelo Grupo Circense Tholl, em Pelotas. Para ele, foi a realização de um sonho, visto que foram selecionados apenas quinze palhaços e outros trinta convidados para participar. Doutor Maestro foge do estereótipo de um palhaço. Ele é triste, calmo e discreto. O nariz vermelho serve como uma armadura contra emoções para Varone, que precisa despertar os sentimentos alheios ao invés de deixar transparecer os seus.

 

Acordes Para a Saúde

A música que transforma

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“Deveria ser levado a todos os corações”. As palavras são de Lígia, paciente da ala psiquiátrica do Hospital São Francisco, que dançou e cantou junto na primeira intervenção do grupo Acordes Para a Saúde no lugar. O grupo surgiu a partir de um projeto universitário do curso de Enfermagem da Unifra. Segundo Liana Lourega, da ideia de levar alegria e modificar o ambiente hospitalar eles acabaram descobrindo uma forma de ajudar na evolução dos pacientes. Uma ou duas vezes por semana eles contribuem com os procedimentos de enfermagem e distribuem afeto através de brincadeiras e músicas.

Para o enfermeiro Saul Ferraz, que trabalha no Hospital São Francisco há um mês, as visitas amenizam o sofrimento dos pacientes, visto que suas atividades são bem restritas dentro da unidade. O também enfermeiro do hospital Marlon Lennon acrescenta “esta musicoterapia que eles aplicam aqui é muito benéfica, porque é o tempo que eles ocupam e traz muita alegria pra eles”.

O projeto Acordes para a Saúde é desenvolvido por acadêmicos do curso de Enfermagem do Centro Universitário Franciscano, Unifra, de diferentes semestres através da disciplina Teorias da Enfermagem. A coordenação do grupo é da professora Irmã Dirce Stein Backes. O trabalho do grupo rendeu um artigo na 3ª Jornada Internacional de Enfermagem Unifra.