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Santa Maria, RS, Brazil

Nos nossos olhares, o outro. Fotografia de minorias ou da riqueza das misérias

Mesmo vivenciando o século 21 e uma sociedade dita pós-moderna, com avanços em diversos setores e dos mais variados tipos e abrangências – científicos, sociais, tecnológicos, políticos, humanísticos – contraditoriamente também vivemos os antagonismos que permeiam a contemporaneidade e todo o progresso que já alcançamos. Se por um lado os avanços nos tornam cada vez mais sociedades “civilizadas”, igualmente nos tornam, cada vez mais, sujeitos desatentos com o outro.

A grande contradição de uma sociedade “evoluída”, no sentido mais amplo que esse conceito possa significar, está justamente no processo de inclusão que essa evolução não alcança ou, ainda, insiste em não abarcar. São as maiorias lançando esse outro a um lugar ou a uma condição de “miséria”; e de lá, desse lugar ou condição, o outro não é ouvido e nem enxergado, tornando o progresso evolutivo das sociedades mais desigual.

Mas esse outro tem nome. Ele existe e caminha lado a lado em nossos cotidianos… o outro, aquele que muitas vezes negligenciamos, ignoramos ou mesmo excluímos no processo de nos tornarmos uma sociedade evoluída, pode ser chamado de minoria; e são muitas, as minorias: os negros, as mulheres, os homossexuais, os deficientes físicos, os sujeitos com necessidades especiais, os índios, as pessoas da terceira idade e tudo e todos que ousarem ser diferentes… que ousarem, como se fosse deles a culpa, não “evoluir” e não igualar-se à maioria que compõe a sociedade contemporânea. Condição agravada pela quantidade de grupos que formam a minoria, se tornando, então, MINORIAS.

As minorias podem ser reconhecidas não por uma razão numérica e quantitativa, mas por uma relação qualitativa; relação essa que, mesmo insistindo em não reconhecermos, inaugura nos marcos dos avanços da sociedade as contradições desses próprios progressos. E isso nos faz questionar: para quem são todos os avanços sociais? A quem atingem todas as mudanças, aquelas que deveriam nos tornar mais humanos? Aquelas que deveriam nos fazer olhar e incluir nessa trajetória evolutiva todos os sujeitos e seres?

Dessa forma, ao olharmos para o lugar dado às minorias, nos deparamos bruscamente com uma das principais discrepâncias que a sociedade pós-moderna vivencia: a própria condição daquelas que nominamos como MINORIAS. E elas estão lá, ali e aqui… estão nas ruas em que passamos, nos lugares que não olhamos, no lado escuro e ensolarado do mundo, nas frestas, nas lacunas e na vida que insistentemente ousamos não ver, não ouvir. Também, nos pedidos, nas súplicas e nos olhares que tentam nos alcançar…

Nesse contexto, mas ampliando a nossa visão sobre o que é determinado como minorias, não se pode deixar de lado a questão e a causa dos animais de rua. Embora não sejam considerados sujeitos e pertencentes aos grupos minoritários, eles são igualmente parte de uma cultura de descaso e de negligência com o outro, com aquele que nos é diferente, com aquele que nos é indiferente.

Da evidente necessidade de visibilidade desses grupos, nos colocamos no lugar de “miséria” destinado às minorias – “os sem voz”. E a partir da circulação por esse lugar “desconhecido”, os alunos voluntários do Laboratório de Fotografia e Memória e os alunos da disciplina de Fotojornalismo II (ambos discentes dos Cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário Franciscano), registraram as imagens que compõem a exposição que se apresenta.

O trabalho é o resultado de um projeto temático e de documentação fotográfica em queas minorias, conceitualmente estabelecidas ou reconhecidas como tal, foram fotografadas como condição de lhes oferecer a possibilidade de terem “voz”, de serem vistos e de se projetarem na existência da nossa sociedade. Também por isso, como uma forma de “provocação” aos que não “enxergam” as minorias, o local destinado à exposição das fotografias foge ao convencional plano normal[1], obrigando as maiorias a deslocarem sua visão e incluírem o outro na sua vivência.

Ainda, como modo de entendimento da metodologia que guiou o trabalho fotográfico que se apresenta, é importante ressaltar a relação da temática das imagens com o contexto da letra fragmentada da música Miséria, do grupo Titãs. A analogia com a palavra miséria não está no conceito literal de desventura, mas na triste constatação de uma indignante condição de “invisibilidade” social dos grupos minoritários… até mesmo daqueles que elegemos como negligenciados, ignorados e excluídos, caso do olhar posto sobre os animais abandonados à própria sorte, nas ruas de Santa Maria.

Assim, nos nossos olhares, o outro… esse que nem sempre vemos, mas que é e que existe.

Por Laura Elise de O. Fabricio, professora e coordenadora do Lab. de Fotografia e Memória da Unifra

[1] O olhar do ser humano, em pé, em relação à linha do horizonte.

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Mesmo vivenciando o século 21 e uma sociedade dita pós-moderna, com avanços em diversos setores e dos mais variados tipos e abrangências – científicos, sociais, tecnológicos, políticos, humanísticos – contraditoriamente também vivemos os antagonismos que permeiam a contemporaneidade e todo o progresso que já alcançamos. Se por um lado os avanços nos tornam cada vez mais sociedades “civilizadas”, igualmente nos tornam, cada vez mais, sujeitos desatentos com o outro.

A grande contradição de uma sociedade “evoluída”, no sentido mais amplo que esse conceito possa significar, está justamente no processo de inclusão que essa evolução não alcança ou, ainda, insiste em não abarcar. São as maiorias lançando esse outro a um lugar ou a uma condição de “miséria”; e de lá, desse lugar ou condição, o outro não é ouvido e nem enxergado, tornando o progresso evolutivo das sociedades mais desigual.

Mas esse outro tem nome. Ele existe e caminha lado a lado em nossos cotidianos… o outro, aquele que muitas vezes negligenciamos, ignoramos ou mesmo excluímos no processo de nos tornarmos uma sociedade evoluída, pode ser chamado de minoria; e são muitas, as minorias: os negros, as mulheres, os homossexuais, os deficientes físicos, os sujeitos com necessidades especiais, os índios, as pessoas da terceira idade e tudo e todos que ousarem ser diferentes… que ousarem, como se fosse deles a culpa, não “evoluir” e não igualar-se à maioria que compõe a sociedade contemporânea. Condição agravada pela quantidade de grupos que formam a minoria, se tornando, então, MINORIAS.

As minorias podem ser reconhecidas não por uma razão numérica e quantitativa, mas por uma relação qualitativa; relação essa que, mesmo insistindo em não reconhecermos, inaugura nos marcos dos avanços da sociedade as contradições desses próprios progressos. E isso nos faz questionar: para quem são todos os avanços sociais? A quem atingem todas as mudanças, aquelas que deveriam nos tornar mais humanos? Aquelas que deveriam nos fazer olhar e incluir nessa trajetória evolutiva todos os sujeitos e seres?

Dessa forma, ao olharmos para o lugar dado às minorias, nos deparamos bruscamente com uma das principais discrepâncias que a sociedade pós-moderna vivencia: a própria condição daquelas que nominamos como MINORIAS. E elas estão lá, ali e aqui… estão nas ruas em que passamos, nos lugares que não olhamos, no lado escuro e ensolarado do mundo, nas frestas, nas lacunas e na vida que insistentemente ousamos não ver, não ouvir. Também, nos pedidos, nas súplicas e nos olhares que tentam nos alcançar…

Nesse contexto, mas ampliando a nossa visão sobre o que é determinado como minorias, não se pode deixar de lado a questão e a causa dos animais de rua. Embora não sejam considerados sujeitos e pertencentes aos grupos minoritários, eles são igualmente parte de uma cultura de descaso e de negligência com o outro, com aquele que nos é diferente, com aquele que nos é indiferente.

Da evidente necessidade de visibilidade desses grupos, nos colocamos no lugar de “miséria” destinado às minorias – “os sem voz”. E a partir da circulação por esse lugar “desconhecido”, os alunos voluntários do Laboratório de Fotografia e Memória e os alunos da disciplina de Fotojornalismo II (ambos discentes dos Cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário Franciscano), registraram as imagens que compõem a exposição que se apresenta.

O trabalho é o resultado de um projeto temático e de documentação fotográfica em queas minorias, conceitualmente estabelecidas ou reconhecidas como tal, foram fotografadas como condição de lhes oferecer a possibilidade de terem “voz”, de serem vistos e de se projetarem na existência da nossa sociedade. Também por isso, como uma forma de “provocação” aos que não “enxergam” as minorias, o local destinado à exposição das fotografias foge ao convencional plano normal[1], obrigando as maiorias a deslocarem sua visão e incluírem o outro na sua vivência.

Ainda, como modo de entendimento da metodologia que guiou o trabalho fotográfico que se apresenta, é importante ressaltar a relação da temática das imagens com o contexto da letra fragmentada da música Miséria, do grupo Titãs. A analogia com a palavra miséria não está no conceito literal de desventura, mas na triste constatação de uma indignante condição de “invisibilidade” social dos grupos minoritários… até mesmo daqueles que elegemos como negligenciados, ignorados e excluídos, caso do olhar posto sobre os animais abandonados à própria sorte, nas ruas de Santa Maria.

Assim, nos nossos olhares, o outro… esse que nem sempre vemos, mas que é e que existe.

Por Laura Elise de O. Fabricio, professora e coordenadora do Lab. de Fotografia e Memória da Unifra

[1] O olhar do ser humano, em pé, em relação à linha do horizonte.