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Arroio Cadena: um problema de todos

Assim como em todo planeta, a situação das águas em Santa Maria também traz preocupações. O Arroio Cadena é o mais importante fluxo de água da cidade, passando por 16 de seus 25 bairros. Mas, devido a poluição, resíduos descartados e esgotos lançados nas margens, o Cadena também representa um dos piores problemas relacionados ao ambiente na região.

Depois de se tornar uma referência universitária no centro do estado, Santa Maria cresceu de maneira muito rápida e desordenada. Grande parte dos esgotos da cidade ainda é lançada no arroio e seus afluentes diariamente.

Lixo acumulado é visível em diversos pontos do Arroio Cadena. Foto: Henrique Orlandi.
Lixo acumulado é visível em diversos pontos do Arroio Cadena. Foto: Henrique Orlandi.

Apesar de o Município contar com rede coletora de esgoto, nem todos os bairros são assistidos. Também, o fato de o Arroio nascer na zona urbana pode agravar o problema do descarte de lixo em diversos pontos de seu curso. São frequentes os alagamentos em dias de chuva, o que dificulta a drenagem.

Há três tipos de poluição que podem ser encontradas no Arroio Cadena: químicas, físicas e biológicas. As químicas são causadas por produtos e resíduos industriais; as físicas, por objetos como sacolas, poltronas e pneus; e as biológicas — as mais graves — é o esgoto.

As políticas públicas ainda colocam o ambiente em segundo plano. Há anos, nenhum governante tem ações efetivas para controlar a ocupação das margens do Cadena e o acúmulo de lixo em seu leito. Ele é usado como barganha em campanhas políticas e como moeda de troca para as promessas que são feitas, porém, nada é realizado de fato.

A administração municipal ainda não tem responsáveis pela limpeza do Arroio. Porém, essa questão vai além da falta de iniciativas. Projetos existem, mas não há recursos suficientes para a implantação. Mais recentemente, a cidade parece ter despertado para a necessidade de fazer modificações que propiciem a recuperação do Arroio e seus afluentes. O Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (CONDEMA) é um órgão que tem por finalidade assegurar a participação dos diversos setores da comunidade na Tutela do Meio Ambiente, na esfera municipal.

Com a questão do esgoto irregular, número de nascentes nas cabeceiras do Arroio e outros, o CONDEMA buscou, junto ao Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recuperação de Áreas Degradadas (NEPRADE)  e curso de Engenharia Florestal da UFSM, um projeto que envolve levantamentos de algumas áreas da cabeceira do Arroio Cadena. O objetivo é conhecer a situação atual das nascentes. Em primeiro momento, o projeto contemplará 3 bairros da cidade.

A comissão é composta por órgãos de importância ambiental para essa questão do arroio, e foi formada para discutir o assunto e unir os órgãos para articulação em conjunto. “As medidas que queremos adotar são de longo prazo, que venham a melhorar realmente a qualidade desse curso d’água tão importante para o município. Não queremos ações momentâneas que interfiram temporariamente na qualidade dessas águas, que com o passar do tempo volta ao estado degradante como está hoje. Estamos buscando ações que tragam benefícios em longo prazo, que melhorem a qualidade da água do Cadena e também a situação atual das suas margens. Para isso, vamos precisar do apoio de órgãos municipais e estaduais, principalmente os que envolvem de planejamento e desenvolvimento urbano, meio ambiente e habitação. A ação adotada até o momento está na busca de parceiros” — afirma o engenheiro florestal, responsável pelo CONDEMA, Gerson Vargas Peixoto.

Quem mais sofre com a poluição são as pessoas que moram e convivem nas margens do Cadena. É inevitável sentir o mau cheiro quando se passa em algum local próximo ao arroio, principalmente no verão.

Para os estudantes e alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Sérgio Lopes, que fazem divisa com o arroio, alguns problemas são frequentes, mas a busca por conscientizar e melhorar o ambiente onde vivem é constante. “O Cadena é como uma lixeira mesmo, não existe essa cultura ou consciência de cuidar do espaço e isso precisa ser trabalhado”, lamenta Vanessa Medianeira da Silva Flores, diretora da escola.

Divisa entre a EMEF Sérgio Lopes e o Arroio Cadena. Foto: Henrique Orlandi.
Divisa entre a EMEF Sérgio Lopes e o Arroio Cadena. Foto: Henrique Orlandi.

Ela comenta que os alunos da escola são incentivados pelos professores a despertar para os problemas gerados pela poluição do arroio e observou que houve melhorias, mas é um trabalho de “formiguinha”, com um passo de cada vez e não existe uma cultura de cuidar deste espaço, como do próprio ambiente da escola, da casa. A diretora cita algumas das alternativas utilizadas na escola para conscientizar os alunos: “nós temos buscado mostrar quais são as possibilidades, as professoras fazem atividades sobre coleta seletiva do lixo, para onde devem ser destinados corretamente os resíduos que são descartados, e todos na escola tem trabalhado em prol disto”.

Em 2008 foi criado um projeto para revitalização do arroio Cadena, que não foi concluído até hoje. Na tentativa de contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Santa Maria, não conseguimos respostas sobre o projeto desenvolvido pela gestão atual. Sobre o projeto, o engenheiro Gerson Peixoto ressalta que “houve falha de ambos os lados no cumprimento do contrato atual, mas o que queremos — e vamos cobrar — é que sejam cumpridas as questões que envolvem os Arroios, independente de quem assumir”.

O Cadena poderia ser um cartão postal de Santa Maria, não fosse a poluição que toma conta dele nas últimas décadas e o atraso em sua revitalização. O JornalEco vai seguir a acompanhar o andamento deste projeto, bem como de outras possíveis ações em torno do Arroio.

Por Henrique Orlandi e Pedro Henrique Lucca, para a disciplina Jornalismo Especializado III, do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano (1º semestre /2016).

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Assim como em todo planeta, a situação das águas em Santa Maria também traz preocupações. O Arroio Cadena é o mais importante fluxo de água da cidade, passando por 16 de seus 25 bairros. Mas, devido a poluição, resíduos descartados e esgotos lançados nas margens, o Cadena também representa um dos piores problemas relacionados ao ambiente na região.

Depois de se tornar uma referência universitária no centro do estado, Santa Maria cresceu de maneira muito rápida e desordenada. Grande parte dos esgotos da cidade ainda é lançada no arroio e seus afluentes diariamente.

Lixo acumulado é visível em diversos pontos do Arroio Cadena. Foto: Henrique Orlandi.
Lixo acumulado é visível em diversos pontos do Arroio Cadena. Foto: Henrique Orlandi.

Apesar de o Município contar com rede coletora de esgoto, nem todos os bairros são assistidos. Também, o fato de o Arroio nascer na zona urbana pode agravar o problema do descarte de lixo em diversos pontos de seu curso. São frequentes os alagamentos em dias de chuva, o que dificulta a drenagem.

Há três tipos de poluição que podem ser encontradas no Arroio Cadena: químicas, físicas e biológicas. As químicas são causadas por produtos e resíduos industriais; as físicas, por objetos como sacolas, poltronas e pneus; e as biológicas — as mais graves — é o esgoto.

As políticas públicas ainda colocam o ambiente em segundo plano. Há anos, nenhum governante tem ações efetivas para controlar a ocupação das margens do Cadena e o acúmulo de lixo em seu leito. Ele é usado como barganha em campanhas políticas e como moeda de troca para as promessas que são feitas, porém, nada é realizado de fato.

A administração municipal ainda não tem responsáveis pela limpeza do Arroio. Porém, essa questão vai além da falta de iniciativas. Projetos existem, mas não há recursos suficientes para a implantação. Mais recentemente, a cidade parece ter despertado para a necessidade de fazer modificações que propiciem a recuperação do Arroio e seus afluentes. O Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (CONDEMA) é um órgão que tem por finalidade assegurar a participação dos diversos setores da comunidade na Tutela do Meio Ambiente, na esfera municipal.

Com a questão do esgoto irregular, número de nascentes nas cabeceiras do Arroio e outros, o CONDEMA buscou, junto ao Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recuperação de Áreas Degradadas (NEPRADE)  e curso de Engenharia Florestal da UFSM, um projeto que envolve levantamentos de algumas áreas da cabeceira do Arroio Cadena. O objetivo é conhecer a situação atual das nascentes. Em primeiro momento, o projeto contemplará 3 bairros da cidade.

A comissão é composta por órgãos de importância ambiental para essa questão do arroio, e foi formada para discutir o assunto e unir os órgãos para articulação em conjunto. “As medidas que queremos adotar são de longo prazo, que venham a melhorar realmente a qualidade desse curso d’água tão importante para o município. Não queremos ações momentâneas que interfiram temporariamente na qualidade dessas águas, que com o passar do tempo volta ao estado degradante como está hoje. Estamos buscando ações que tragam benefícios em longo prazo, que melhorem a qualidade da água do Cadena e também a situação atual das suas margens. Para isso, vamos precisar do apoio de órgãos municipais e estaduais, principalmente os que envolvem de planejamento e desenvolvimento urbano, meio ambiente e habitação. A ação adotada até o momento está na busca de parceiros” — afirma o engenheiro florestal, responsável pelo CONDEMA, Gerson Vargas Peixoto.

Quem mais sofre com a poluição são as pessoas que moram e convivem nas margens do Cadena. É inevitável sentir o mau cheiro quando se passa em algum local próximo ao arroio, principalmente no verão.

Para os estudantes e alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Sérgio Lopes, que fazem divisa com o arroio, alguns problemas são frequentes, mas a busca por conscientizar e melhorar o ambiente onde vivem é constante. “O Cadena é como uma lixeira mesmo, não existe essa cultura ou consciência de cuidar do espaço e isso precisa ser trabalhado”, lamenta Vanessa Medianeira da Silva Flores, diretora da escola.

Divisa entre a EMEF Sérgio Lopes e o Arroio Cadena. Foto: Henrique Orlandi.
Divisa entre a EMEF Sérgio Lopes e o Arroio Cadena. Foto: Henrique Orlandi.

Ela comenta que os alunos da escola são incentivados pelos professores a despertar para os problemas gerados pela poluição do arroio e observou que houve melhorias, mas é um trabalho de “formiguinha”, com um passo de cada vez e não existe uma cultura de cuidar deste espaço, como do próprio ambiente da escola, da casa. A diretora cita algumas das alternativas utilizadas na escola para conscientizar os alunos: “nós temos buscado mostrar quais são as possibilidades, as professoras fazem atividades sobre coleta seletiva do lixo, para onde devem ser destinados corretamente os resíduos que são descartados, e todos na escola tem trabalhado em prol disto”.

Em 2008 foi criado um projeto para revitalização do arroio Cadena, que não foi concluído até hoje. Na tentativa de contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Santa Maria, não conseguimos respostas sobre o projeto desenvolvido pela gestão atual. Sobre o projeto, o engenheiro Gerson Peixoto ressalta que “houve falha de ambos os lados no cumprimento do contrato atual, mas o que queremos — e vamos cobrar — é que sejam cumpridas as questões que envolvem os Arroios, independente de quem assumir”.

O Cadena poderia ser um cartão postal de Santa Maria, não fosse a poluição que toma conta dele nas últimas décadas e o atraso em sua revitalização. O JornalEco vai seguir a acompanhar o andamento deste projeto, bem como de outras possíveis ações em torno do Arroio.

Por Henrique Orlandi e Pedro Henrique Lucca, para a disciplina Jornalismo Especializado III, do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano (1º semestre /2016).