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A face de Maria Eva

 

Você se considera um “homem de verdade”? Você é o provedor da sua casa? Você chora? Você lava as suas roupas ou faz a sua própria comida? Algumas características marcam o que as pessoas consideram ser homem: bancar a sua casa sozinho, não chorar, proteger a família e se vestir de uma maneira   propriamente masculina. No entanto, segundo os especialistas, o que realmente marca a masculinidade dos dias de hoje são outros fatores: a fragilidade emocional, a incapacidade de participar dos trabalhos da casa e a reação às mudanças dos papéis de gênero.

Ainda hoje, há jovens que não tiveram a abertura para falar com os pais sobre os seus sentimentos. Mathias Chassot, poeta de 21 anos e estudante de letras nunca teve essa experiência e relata sobre como era fechado na sua adolescência. “Eu não gostava de ser como eu era, eu era frio e sentia que conseguia fingir que eu não sentia coisas.” Ele explica que por causa disso frequentemente se sentia sozinho. “Meu pai sempre cresceu distante de mim, assim, a gente se via nas férias,[…] Mas nunca tive esse laço de eu vou me expressar, era sempre essa questão de querer se provar e de competir”, relata. 

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Ao se olhar no espelho, o que vê? Muitos reclamam de alguma imperfeição no nariz, uma ruga ou espinha indesejada. E se na verdade o que o que enxergasse no reflexo não fossem apenas problemas estéticos, mas, na verdade, algo diferente daquilo que você é? Muitas pessoas não se identificam com o sexo que nasce. Maria Eva Bevilaqua Rizzatti, aluna de Design de Moda é uma delas.

Ela é a definição completa da frase de Simone Du Beauvoir: não se nasce mulher, torna-se mulher. Seu desenvolvimento não foi apenas de uma personalidade, como é o caso da maior parte das mulheres. Teve que moldar seu corpo de nascença. Todos passamos por fases em diferentes momentos da vida. Sua transformação ocorreu aos poucos, naturalmente. Aos 12 anos começou a tomar hormônios escondido da família, aos 18, usar roupas femininas. “Passei por várias situações que as mulheres cis também passam”. Teve vergonha quando os seios começaram a crescer e marcar a camiseta. Para ela, o plot de virada do filme que é sua vida não se resume apenas à transformação. “Hoje também está sendo uma fase para mim”.

Após atingir a maioridade, para alcançar seus objetivos, seguiu um caminho maior: decidiu sair de casa e realizar as cirurgias plásticas que completariam sua metamorfose. Adotou o nome composto Maria Eduarda. Depois de um tempo, trocou o segundo por Eva, de origem hebraica e que significa viver. Levou dois anos para conseguir obter os documentos com o nome definitivo. “Já consegui trocar quase tudo. Só falta a carteira de motorista”.

A família sempre a apoiou. Pai, mãe e irmão. Ela conta que sempre se identificou como mulher. “Passei por mudanças, mutilei o meu corpo, para me tornar uma mulher. Mas, desde criança, sempre tive pensamentos de mulher”. O genitor é de quem mais é próxima. Falam-se todos os dias, nem que seja por telefone. Ele afirma que na infância não identificava o lado feminino da filha. “Na adolescência, percebi que ela gostava de usar cabelos longos e roupas femininas. Foi a partir daí que comecei a aceitá-la como uma mulher”. Os parentes próximos sempre a incentivaram a estudar.

Sendo a única acadêmica trans no curso de Design de Moda, uma das poucas na instituição, expressa tristeza ao saber que não são todas que dispõem do mesmo privilégio. “Procuro aproveitar ao máximo. Sempre tento me enfiar onde os outros não imaginam encontrar uma trans. Aos poucos vamos indo. Quero mostrar que não somos o estereótipo marginalizado, que o senso comum tem”. Passou por situações de preconceito no mundo acadêmico. Teve que falar com os Direitos Humanos sobre uma professora que se recusava a tratá-la pelo feminino. “No final, deu tudo certo. Isso aconteceu no primeiro semestre”. Querida pelos colegas, está sempre rodeada de amigos, num clima de alegria e descontração.

Sobre o futuro? Explica que pensa em seguir os estudos, especializar-se e abrir a própria marca. Contudo, não planeja um futuro distante, prefere viver uma fase de cada vez, aproveitar os momentos da vida pois, no ar que respira, sente o prazer de ser o que é, de estar onde está. Agora, só falta o diploma.

Texto produzido no primeiro semestre de 2018, para a disciplina de Jornalismo II, sob a orientação do professor Carlos Alberto Badke.

 

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Ela é a definição completa da frase de Simone Du Beauvoir: não se nasce mulher, torna-se mulher. Seu desenvolvimento não foi apenas de uma personalidade, como é o caso da maior parte das mulheres. Teve que moldar seu corpo de nascença. Todos passamos por fases em diferentes momentos da vida. Sua transformação ocorreu aos poucos, naturalmente. Aos 12 anos começou a tomar hormônios escondido da família, aos 18, usar roupas femininas. “Passei por várias situações que as mulheres cis também passam”. Teve vergonha quando os seios começaram a crescer e marcar a camiseta. Para ela, o plot de virada do filme que é sua vida não se resume apenas à transformação. “Hoje também está sendo uma fase para mim”.

Após atingir a maioridade, para alcançar seus objetivos, seguiu um caminho maior: decidiu sair de casa e realizar as cirurgias plásticas que completariam sua metamorfose. Adotou o nome composto Maria Eduarda. Depois de um tempo, trocou o segundo por Eva, de origem hebraica e que significa viver. Levou dois anos para conseguir obter os documentos com o nome definitivo. “Já consegui trocar quase tudo. Só falta a carteira de motorista”.

A família sempre a apoiou. Pai, mãe e irmão. Ela conta que sempre se identificou como mulher. “Passei por mudanças, mutilei o meu corpo, para me tornar uma mulher. Mas, desde criança, sempre tive pensamentos de mulher”. O genitor é de quem mais é próxima. Falam-se todos os dias, nem que seja por telefone. Ele afirma que na infância não identificava o lado feminino da filha. “Na adolescência, percebi que ela gostava de usar cabelos longos e roupas femininas. Foi a partir daí que comecei a aceitá-la como uma mulher”. Os parentes próximos sempre a incentivaram a estudar.

Sendo a única acadêmica trans no curso de Design de Moda, uma das poucas na instituição, expressa tristeza ao saber que não são todas que dispõem do mesmo privilégio. “Procuro aproveitar ao máximo. Sempre tento me enfiar onde os outros não imaginam encontrar uma trans. Aos poucos vamos indo. Quero mostrar que não somos o estereótipo marginalizado, que o senso comum tem”. Passou por situações de preconceito no mundo acadêmico. Teve que falar com os Direitos Humanos sobre uma professora que se recusava a tratá-la pelo feminino. “No final, deu tudo certo. Isso aconteceu no primeiro semestre”. Querida pelos colegas, está sempre rodeada de amigos, num clima de alegria e descontração.

Sobre o futuro? Explica que pensa em seguir os estudos, especializar-se e abrir a própria marca. Contudo, não planeja um futuro distante, prefere viver uma fase de cada vez, aproveitar os momentos da vida pois, no ar que respira, sente o prazer de ser o que é, de estar onde está. Agora, só falta o diploma.

Texto produzido no primeiro semestre de 2018, para a disciplina de Jornalismo II, sob a orientação do professor Carlos Alberto Badke.