Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

Quando cuidar de si vira mercadoria: O dilema do bem-estar moderno

A busca por equilíbrio se tornou negócio global e, junto com o lucro, aumentam as distorções, ilusões e impactos na saúde física e mental

Apenas 36% dos brasileiros usam suplementos com recomendação de um profissional de saúde. Imagem: Enzo Martins/Labfem

Em 2002, o economista americano Paul Zane Pilzer lançou o livro The Wellness Revolution. Na época, a ideia de que o bem-estar poderia se tornar o novo motor da economia global parecia ousada, quase utópica. Porém duas décadas depois, suas previsões se confirmam. O Global Wellness Institute (GWI) estima que a economia do bem-estar movimentou US$ 6,3 trilhões em 2023, cerca de 6% do PIB mundial, e pode alcançar US$ 9 trilhões até 2028, consolidando-se como uma das maiores forças econômicas do planeta.

A busca por equilíbrio entre corpo, mente e estilo de vida saudável deixou de ser privilégio de poucos e tornou-se um dos principais motores de consumo no mundo. Mais que uma tendência, trata-se de um novo paradigma, impulsionado por um público cada vez mais informado, exigente e conectado. Estudos da McKinsey & Company mostram que as gerações Y e Z encaram o bem-estar como parte diária da rotina: sono, alimentação, aparência e saúde mental são prioridades tão importantes quanto carreira e renda.

Uma das empresas de bem-estar que gera controversias é a Goop, fundada em 2008 pela atriz americana Gwyneth Paltrow, com dicas de receitas, sugestões de viagem, entre outros conselhos de autocuidado. Rapidamente, a empresa virou uma marca gigantesca de lifestyle, com loja online, podcasts, eventos e até série na plataforma de streaming Netflix. A proposta sempre foi vender uma vida “equilibrada” e cheia de rituais, só que, no caminho, a empresa passou a apostar em terapias consideradas excêntricas e sem base científica, o que renderam muitas críticas de médicos e pesquisadores.

A discusão cresce porque muitos dos produtos e práticas promovidos pela Goop prometem efeitos que não foram comprovados, como enemas de café para “purificar o corpo”, ovos de jade para “regular hormônios” ou vaporização vaginal para “limpeza energética”. Especialistas alertam que essas tendências podem ser ineficazes ou até perigosas, além de reforçar um mercado de bem-estar que lucra com soluções milagrosas. Por isso, apesar de ser um sucesso comercial, a Goop virou símbolo de um bem-estar que parece mais com marketing e misticismo do que com ciência.

Outra empresa desse meio é a Lemme, criada pela influenciadora americana Kourtney Kardashian, com a proposta de tornar o consumo de suplementos mais simples e prazeroso, apostando em gomas coloridas que prometem benefícios como foco, energia, menos estresse e até mesmo, apoio ao metabolismo. A marca foi construída a partir da imagem de Kourtney nas redes sociais, como referência de bem-estar. Ela afirma ter passado anos pesquisando ingredientes e consultando especialistas para formular produtos “limpos”, veganos e pensados para fazer parte da rotina de quem busca uma vida mais equilibrada.

Junto com o sucesso, a Lemme passou a ser questionada por especialistas e consumidores por não deixar claro quanto de cada ingrediente realmente existe nas fórmulas, além de usar compostos em quantidades consideradas insuficientes para entregar os efeitos prometidos. As críticas apontam que as gomas contêm açúcar, um contraste evidente com o estilo de vida natural promovido pela própria Kourtney. A situação se intensificou após o lançamento do suplemento GLP-1 Daily, divulgado como uma alternativa “natural” aos remédios para emagrecimento. Médicos afirmam que os extratos usados pela marca não reproduzem, nem de longe, o mecanismo do Ozempic, levantando dúvidas sobre a eficácia real do produto e alimentando a suspeita de marketing exagerado.

O bem-estar ganha espaço no país

No Brasil, esse cenário se reforça com a expansão de academias, o avanço de estilos alimentares como vegetarianismo e o crescente interesse por práticas alternativas. Para a personal trainer Kamilla Corrêa Soares, no entanto, essa busca tem se tornado distorcida pela influência das redes sociais, que alteram a percepção de muitas pessoas sobre o próprio corpo. Ela observa que a maioria chega à academia com pressa e expectativas irreais. “As pessoas esquecem que o processo é lento, que existe uma longa caminhada até a construção de massa corporal”. “Não dá para comparar alguém que trabalha com o próprio corpo com uma pessoa que tem uma rotina comum, com filhos, trabalho e estudos”, afirma a personal.

A pressão estética, segundo Kamilla, tem atingido principalmente adolescentes. Até mesmo jovens com boa saúde e condicionamento físico passam a se sentir insuficientes ao se compararem com padrões inalcançáveis. Para a personal, ter um corpo saudável envolve capacidades simples do cotidiano, como subir escadas ou levantar do sofá sem dificuldade, algo que muitos já não conseguem realizar no dia a dia. Ela lembra que saúde não depende de um corpo “definido”, mas de qualidade de vida, embora reconheça que boa parte da população ainda associe bem-estar a uma aparência extremamente tonificada, distante da realidade da maioria.

Kamilla também comenta que muitos evitam a musculação por acreditar que ela não auxilia no emagrecimento. Para ela, isso é um erro, pois quanto mais massa magra uma pessoa possuir, maior é seu gasto calórico, inclusive em repouso. Apesar disso, a personal conta que muitos chegam influenciados por tendências de internet, buscando treinos rápidos e exaustivos, com intervalos mínimos, acreditando que o cansaço extremo garante resultados. Ela alerta que essa lógica pode prejudicar o desempenho. A ausência de descanso reduz a capacidade de aumentar cargas, tornando o treino menos eficiente. Para a personal, uma musculação bem estruturada, com intervalos entre dois e três minutos, tende a gerar resultados mais consistentes, mesmo sem provocar exaustão imediata.

O acompanhamento profissional faz muita diferença na construção de uma rotina de exercícios. Imagem: Arquivo Pessoal

A indústria do bem-estar também é relacionada a nutrição. A área é indicada para além da estética, como: prevenção de doenças, equilíbrio e mais disposição. Contudo, atualmente, são geradas diversas informações sobre alimentação que circulam de forma desproporcional. Pois, nem todas essas informações são corretas ou seguras para a saúde.  

Em 2024, o Conselho Federal de Nutrição criou a campanha “Nutrição é Ciência”, iniciativa que visa informar a população sobre a importância de buscar orientação nutricional e outros conteúdos relacionados à alimentação com base em evidências científicas. Segundo eles, muitas vezes nos deparamos com dicas de alimentação sem base científica, que podem ser prejudiciais. Essas informações falsas circulam amplamente e podem levar a práticas alimentares inadequadas, colocando em risco a saúde de quem segue arriscadamente. A campanha reforça que a alimentação é uma questão séria e deve ser tratada com responsabilidade. Apenas profissionais qualificados possuem o conhecimento necessário para entender a complexidade dos nutrientes, como eles interagem no nosso corpo e como podem ser utilizados para melhorar a saúde e o bem-estar.

A nutricionista Maíra Penna reforça que esse mesmo comportamento ocorre frequentemente na alimentação. “Hoje em dia os influenciadores têm um papel enorme na qualidade de vida e hábitos alimentares da população em geral. Seguir essas dietas de internet pode causar deficiências nutricionais, pois muitas vezes nos espelhamos em realidades diferentes das nossas”, afirma. Ela ressalta que, embora a internet seja uma grande fonte de informações, também abriga desinformações disfarçadas de verdade. “Há perfis sérios, com bases científicas, porém, a maioria são conteúdos sensacionalistas e simplistas”, completa.

Do ponto de vista psicológico, especialistas apontam que rotinas supostamente saudáveis podem se tornar prejudiciais quando geram sofrimento e rígidas restrições, levando a crises de ansiedade e estados depressivos. O ciclo de comparação constante, especialmente com influenciadores, faz com que muitos desenvolvam uma percepção de fracasso, mesmo quando seguem hábitos adequados.

Para compreender melhor essa relação entre saúde, estética e bem-estar, o doutor em Psicologia Félix Guazina comenta os impactos psicológicos dessa busca.

As redes sociais não devem ser seguidas como verdade absoluta

Uma pesquisa realizada pela ONG inglesa Girlguiding, em 2023, revela que mais de mil garotas, entre 11 e 21 anos, possuem uma relação delicada mundo virtual. Uma em cada três jovens relatou que sua maior preocupação era comparar a sua vida com a de outras pessoas por meio das redes sociais. Outro dado levantado pelo estudo é sobre a percepção que os pais têm da pressão que elas sofrem na internet. Cerca de 50% das entrevistadas relataram que os pais reconhecem esse tipo de pressão, porém, apenas 12% afirmaram que seus responsáveis têm alguma preocupação real com esse problema enfrentado por elas.

O personal trainer Jeferson Gonçalves também compartilhou sua visão sobre o impacto das redes sociais. Para ele, as plataformas digitais funcionam como vitrine de trabalho, motivam alunos e ajudam a divulgar informações importantes, mas também alimentam expectativas impossíveis. “As pessoas são expostas a corpos perfeitos e editados, o que gera uma comparação constante e, muitas vezes, leva à desistência”, afirma. Jeferson reforça que o desenvolvimento de um corpo saudável exige tempo, consistência e paciência, elementos que não aparecem nos vídeos curtos de influenciadores. “Não adianta enganar as pessoas com promessas de resultados rápidos. Mudar hábitos de uma vida inteira leva tempo”, conclui.

Para Jeferson Gonçalves, cada aluno possui necessidades e objetivos que devem ser considerados durante o treinamento. Imagem: Arquivo Pessoal

O personal conta que percebe um aumento significativo de alunos que chegam com metas incompatíveis com a realidade, sem considerar que influenciadores têm rotinas de treino e trabalho completamente diferentes. Muitos acreditam que treinos curtos compensam anos de sedentarismo, mas Jeferson esclarece que o corpo precisa de meses de adaptação. Nos primeiros 45 dias, o organismo está apenas reconhecendo força, resistência e capacidade de recuperação. Resultados estéticos reais só começam a aparecer após cerca de seis meses de prática contínua. “As pessoas querem reverter anos de maus hábitos em dois meses. Não existe isso”, reforça.

Ele também alerta para a influência de desafios virais e treinos “milagrosos” que se espalham, principalmente na rede social TikTok. Segundo ele, esse tipo de conteúdo ignora a necessidade de treinos específicos para cada pessoa. “O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. A individualização do treino é fundamental”, destaca.

Quanto ao uso de suplementos e hormônios, Jeferson adota uma postura cautelosa. Embora reconheça benefícios quando utilizados com orientação, critica o uso indiscriminado. “A suplementação deve ser feita de maneira estratégica, de acordo com o objetivo individual. O que funciona para uma pessoa pode não ser a melhor opção para outra.” Ele destaca que muitos consomem substâncias sem saber se são adequadas à idade, saúde ou momento do treinamento. “Às vezes, a suplementação é direcionada ao momento errado. Por exemplo, uma pessoa mais velha poderia se beneficiar mais de creatina ou de um anti-inflamatório natural, ao invés de um pré-treino com cafeína, que pode ter efeitos colaterais”, explica Jeferson.

O universitário Eduardo Gomes usa suplementação há um ano e diz que a mudança foi nítida, principalmente na recuperação pós-treino. Segundo ele, a creatina teve um impacto direto no físico e no desempenho. Eduardo também treina com apoio de um personal trainer, que monta rotinas específicas para suas necessidades. Com isso, afirma que deixou de sentir dores no corpo e passou a render muito mais nas atividades físicas. “Ter acompanhamento foi a melhor escolha da minha vida. Recomendo para todo mundo”, destaca.

Para o personal trainer e gerente de academia, em Itaqui (RS), Fabiano Gomes, é fundamental que o profissional seja transparente e nunca engane o cliente.

Fabiano é personal trainer e afirma que as pessoas focam tanto nos resultados visuais que ignoram sinais de dor e exaustão.  Imagem: Arquivo Pessoal

Entre a busca por equilíbrio e a pressão do cotidiano

Segundo o Law Society Journal, existem quatro pilares que sustentam a saúde mental e o bem-estar integral: a mente e o equilíbrio emocional, o corpo e a saúde física, o espírito e a sensação de propósito e felicidade, além dos relacionamentos e da participação na comunidade. Juntos, esses elementos abrangem as principais dimensões da experiência humana e reconhecem o indivíduo como um “ser completo”, formado por múltiplas camadas que se influenciam mutuamente.

Cada um desses pilares levanta questões essenciais que pedem reflexão e, sobretudo, ação concreta em nosso cotidiano. Mesmo que não tenhamos respostas definitivas para todas elas, é possível afirmar que buscamos, como seres humanos, uma vida com menos dor e sofrimento, na qual possamos aproveitar plenamente a complexidade e a beleza da existência. A sociedade deseja usar o tempo da forma mais significativa possível, cultivando bem-estar e construindo uma vida que faça sentido. Apesar de especialistas apontarem que o bem-estar depende desses quatro pilares, o resultado é um cenário preocupante: muitas pessoas reconhecem a importância desses pontos, mas têm dificuldade em incorporá-los na rotina.

O ritmo acelerado da vida impede que a maioria das pessoas consiga dedicar tempo e atenção aos próprios fundamentos de bem-estar. As rotinas cada vez mais cheias, a pressão por produtividade e a constante sensação de urgência fazem com que até necessidades básicas, como descanso adequado, alimentação consciente ou momentos de conexão social, sejam deixadas em segundo plano.

Nesse cenário, mesmo quem compreende a importância de cuidar da mente, do corpo, do espírito e das relações encontra dificuldades reais para transformar esse conhecimento em hábito. A vida corrida cria um ambiente em que o autocuidado se torna mais uma tarefa a cumprir, e não um componente natural do dia a dia. Assim, o ideal de viver de forma plena e equilibrada acaba se chocando com as exigências de um cotidiano que não oferece tempo, espaço ou energia para que esse equilíbrio aconteça de fato.

A indústria do bem-estar virou um gigante que se alimenta das inseguranças e do cansaço coletivo. Entre aplicativos de meditação, treinos milagrosos e suplementos coloridos esse mercado se vende como resposta para praticamente tudo, estresse, foco, sono, humor, produtividade. Porém, por trás dessa estética de vida perfeita, existe uma lógica comercial poderosa, que transforma autocuidado em mercadoria e faz parecer que saúde é algo que você compra em frascos, não algo que se constrói com tempo, acesso e acompanhamento real.

Ao mesmo tempo, é um setor que cresce porque acerta na necessidade de sentir algum controle. Em meio à rotina acelerada, redes sociais e pressões estéticas, muita gente encontra nessas marcas uma sensação de pertencimento e promessa de mudança rápida. O problema é que esse discurso muitas vezes ignora ciência, exagera resultados e reforça padrões inalcançáveis. No fim, o desafio é distinguir quando estamos cuidando de nós mesmos, e quando só estamos alimentando uma máquina que lucra justamente com o nosso desejo de melhorar.

Reportagem produzida por Isadora Rodrigues e Thine Feistauer em Narrativa Multimídia, no 2º semestre de 2025, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Adicione o texto do seu título aqui

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.

A busca por equilíbrio se tornou negócio global e, junto com o lucro, aumentam as distorções, ilusões e impactos na saúde física e mental

Apenas 36% dos brasileiros usam suplementos com recomendação de um profissional de saúde. Imagem: Enzo Martins/Labfem

Em 2002, o economista americano Paul Zane Pilzer lançou o livro The Wellness Revolution. Na época, a ideia de que o bem-estar poderia se tornar o novo motor da economia global parecia ousada, quase utópica. Porém duas décadas depois, suas previsões se confirmam. O Global Wellness Institute (GWI) estima que a economia do bem-estar movimentou US$ 6,3 trilhões em 2023, cerca de 6% do PIB mundial, e pode alcançar US$ 9 trilhões até 2028, consolidando-se como uma das maiores forças econômicas do planeta.

A busca por equilíbrio entre corpo, mente e estilo de vida saudável deixou de ser privilégio de poucos e tornou-se um dos principais motores de consumo no mundo. Mais que uma tendência, trata-se de um novo paradigma, impulsionado por um público cada vez mais informado, exigente e conectado. Estudos da McKinsey & Company mostram que as gerações Y e Z encaram o bem-estar como parte diária da rotina: sono, alimentação, aparência e saúde mental são prioridades tão importantes quanto carreira e renda.

Uma das empresas de bem-estar que gera controversias é a Goop, fundada em 2008 pela atriz americana Gwyneth Paltrow, com dicas de receitas, sugestões de viagem, entre outros conselhos de autocuidado. Rapidamente, a empresa virou uma marca gigantesca de lifestyle, com loja online, podcasts, eventos e até série na plataforma de streaming Netflix. A proposta sempre foi vender uma vida “equilibrada” e cheia de rituais, só que, no caminho, a empresa passou a apostar em terapias consideradas excêntricas e sem base científica, o que renderam muitas críticas de médicos e pesquisadores.

A discusão cresce porque muitos dos produtos e práticas promovidos pela Goop prometem efeitos que não foram comprovados, como enemas de café para “purificar o corpo”, ovos de jade para “regular hormônios” ou vaporização vaginal para “limpeza energética”. Especialistas alertam que essas tendências podem ser ineficazes ou até perigosas, além de reforçar um mercado de bem-estar que lucra com soluções milagrosas. Por isso, apesar de ser um sucesso comercial, a Goop virou símbolo de um bem-estar que parece mais com marketing e misticismo do que com ciência.

Outra empresa desse meio é a Lemme, criada pela influenciadora americana Kourtney Kardashian, com a proposta de tornar o consumo de suplementos mais simples e prazeroso, apostando em gomas coloridas que prometem benefícios como foco, energia, menos estresse e até mesmo, apoio ao metabolismo. A marca foi construída a partir da imagem de Kourtney nas redes sociais, como referência de bem-estar. Ela afirma ter passado anos pesquisando ingredientes e consultando especialistas para formular produtos “limpos”, veganos e pensados para fazer parte da rotina de quem busca uma vida mais equilibrada.

Junto com o sucesso, a Lemme passou a ser questionada por especialistas e consumidores por não deixar claro quanto de cada ingrediente realmente existe nas fórmulas, além de usar compostos em quantidades consideradas insuficientes para entregar os efeitos prometidos. As críticas apontam que as gomas contêm açúcar, um contraste evidente com o estilo de vida natural promovido pela própria Kourtney. A situação se intensificou após o lançamento do suplemento GLP-1 Daily, divulgado como uma alternativa “natural” aos remédios para emagrecimento. Médicos afirmam que os extratos usados pela marca não reproduzem, nem de longe, o mecanismo do Ozempic, levantando dúvidas sobre a eficácia real do produto e alimentando a suspeita de marketing exagerado.

O bem-estar ganha espaço no país

No Brasil, esse cenário se reforça com a expansão de academias, o avanço de estilos alimentares como vegetarianismo e o crescente interesse por práticas alternativas. Para a personal trainer Kamilla Corrêa Soares, no entanto, essa busca tem se tornado distorcida pela influência das redes sociais, que alteram a percepção de muitas pessoas sobre o próprio corpo. Ela observa que a maioria chega à academia com pressa e expectativas irreais. “As pessoas esquecem que o processo é lento, que existe uma longa caminhada até a construção de massa corporal”. “Não dá para comparar alguém que trabalha com o próprio corpo com uma pessoa que tem uma rotina comum, com filhos, trabalho e estudos”, afirma a personal.

A pressão estética, segundo Kamilla, tem atingido principalmente adolescentes. Até mesmo jovens com boa saúde e condicionamento físico passam a se sentir insuficientes ao se compararem com padrões inalcançáveis. Para a personal, ter um corpo saudável envolve capacidades simples do cotidiano, como subir escadas ou levantar do sofá sem dificuldade, algo que muitos já não conseguem realizar no dia a dia. Ela lembra que saúde não depende de um corpo “definido”, mas de qualidade de vida, embora reconheça que boa parte da população ainda associe bem-estar a uma aparência extremamente tonificada, distante da realidade da maioria.

Kamilla também comenta que muitos evitam a musculação por acreditar que ela não auxilia no emagrecimento. Para ela, isso é um erro, pois quanto mais massa magra uma pessoa possuir, maior é seu gasto calórico, inclusive em repouso. Apesar disso, a personal conta que muitos chegam influenciados por tendências de internet, buscando treinos rápidos e exaustivos, com intervalos mínimos, acreditando que o cansaço extremo garante resultados. Ela alerta que essa lógica pode prejudicar o desempenho. A ausência de descanso reduz a capacidade de aumentar cargas, tornando o treino menos eficiente. Para a personal, uma musculação bem estruturada, com intervalos entre dois e três minutos, tende a gerar resultados mais consistentes, mesmo sem provocar exaustão imediata.

O acompanhamento profissional faz muita diferença na construção de uma rotina de exercícios. Imagem: Arquivo Pessoal

A indústria do bem-estar também é relacionada a nutrição. A área é indicada para além da estética, como: prevenção de doenças, equilíbrio e mais disposição. Contudo, atualmente, são geradas diversas informações sobre alimentação que circulam de forma desproporcional. Pois, nem todas essas informações são corretas ou seguras para a saúde.  

Em 2024, o Conselho Federal de Nutrição criou a campanha “Nutrição é Ciência”, iniciativa que visa informar a população sobre a importância de buscar orientação nutricional e outros conteúdos relacionados à alimentação com base em evidências científicas. Segundo eles, muitas vezes nos deparamos com dicas de alimentação sem base científica, que podem ser prejudiciais. Essas informações falsas circulam amplamente e podem levar a práticas alimentares inadequadas, colocando em risco a saúde de quem segue arriscadamente. A campanha reforça que a alimentação é uma questão séria e deve ser tratada com responsabilidade. Apenas profissionais qualificados possuem o conhecimento necessário para entender a complexidade dos nutrientes, como eles interagem no nosso corpo e como podem ser utilizados para melhorar a saúde e o bem-estar.

A nutricionista Maíra Penna reforça que esse mesmo comportamento ocorre frequentemente na alimentação. “Hoje em dia os influenciadores têm um papel enorme na qualidade de vida e hábitos alimentares da população em geral. Seguir essas dietas de internet pode causar deficiências nutricionais, pois muitas vezes nos espelhamos em realidades diferentes das nossas”, afirma. Ela ressalta que, embora a internet seja uma grande fonte de informações, também abriga desinformações disfarçadas de verdade. “Há perfis sérios, com bases científicas, porém, a maioria são conteúdos sensacionalistas e simplistas”, completa.

Do ponto de vista psicológico, especialistas apontam que rotinas supostamente saudáveis podem se tornar prejudiciais quando geram sofrimento e rígidas restrições, levando a crises de ansiedade e estados depressivos. O ciclo de comparação constante, especialmente com influenciadores, faz com que muitos desenvolvam uma percepção de fracasso, mesmo quando seguem hábitos adequados.

Para compreender melhor essa relação entre saúde, estética e bem-estar, o doutor em Psicologia Félix Guazina comenta os impactos psicológicos dessa busca.

As redes sociais não devem ser seguidas como verdade absoluta

Uma pesquisa realizada pela ONG inglesa Girlguiding, em 2023, revela que mais de mil garotas, entre 11 e 21 anos, possuem uma relação delicada mundo virtual. Uma em cada três jovens relatou que sua maior preocupação era comparar a sua vida com a de outras pessoas por meio das redes sociais. Outro dado levantado pelo estudo é sobre a percepção que os pais têm da pressão que elas sofrem na internet. Cerca de 50% das entrevistadas relataram que os pais reconhecem esse tipo de pressão, porém, apenas 12% afirmaram que seus responsáveis têm alguma preocupação real com esse problema enfrentado por elas.

O personal trainer Jeferson Gonçalves também compartilhou sua visão sobre o impacto das redes sociais. Para ele, as plataformas digitais funcionam como vitrine de trabalho, motivam alunos e ajudam a divulgar informações importantes, mas também alimentam expectativas impossíveis. “As pessoas são expostas a corpos perfeitos e editados, o que gera uma comparação constante e, muitas vezes, leva à desistência”, afirma. Jeferson reforça que o desenvolvimento de um corpo saudável exige tempo, consistência e paciência, elementos que não aparecem nos vídeos curtos de influenciadores. “Não adianta enganar as pessoas com promessas de resultados rápidos. Mudar hábitos de uma vida inteira leva tempo”, conclui.

Para Jeferson Gonçalves, cada aluno possui necessidades e objetivos que devem ser considerados durante o treinamento. Imagem: Arquivo Pessoal

O personal conta que percebe um aumento significativo de alunos que chegam com metas incompatíveis com a realidade, sem considerar que influenciadores têm rotinas de treino e trabalho completamente diferentes. Muitos acreditam que treinos curtos compensam anos de sedentarismo, mas Jeferson esclarece que o corpo precisa de meses de adaptação. Nos primeiros 45 dias, o organismo está apenas reconhecendo força, resistência e capacidade de recuperação. Resultados estéticos reais só começam a aparecer após cerca de seis meses de prática contínua. “As pessoas querem reverter anos de maus hábitos em dois meses. Não existe isso”, reforça.

Ele também alerta para a influência de desafios virais e treinos “milagrosos” que se espalham, principalmente na rede social TikTok. Segundo ele, esse tipo de conteúdo ignora a necessidade de treinos específicos para cada pessoa. “O que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. A individualização do treino é fundamental”, destaca.

Quanto ao uso de suplementos e hormônios, Jeferson adota uma postura cautelosa. Embora reconheça benefícios quando utilizados com orientação, critica o uso indiscriminado. “A suplementação deve ser feita de maneira estratégica, de acordo com o objetivo individual. O que funciona para uma pessoa pode não ser a melhor opção para outra.” Ele destaca que muitos consomem substâncias sem saber se são adequadas à idade, saúde ou momento do treinamento. “Às vezes, a suplementação é direcionada ao momento errado. Por exemplo, uma pessoa mais velha poderia se beneficiar mais de creatina ou de um anti-inflamatório natural, ao invés de um pré-treino com cafeína, que pode ter efeitos colaterais”, explica Jeferson.

O universitário Eduardo Gomes usa suplementação há um ano e diz que a mudança foi nítida, principalmente na recuperação pós-treino. Segundo ele, a creatina teve um impacto direto no físico e no desempenho. Eduardo também treina com apoio de um personal trainer, que monta rotinas específicas para suas necessidades. Com isso, afirma que deixou de sentir dores no corpo e passou a render muito mais nas atividades físicas. “Ter acompanhamento foi a melhor escolha da minha vida. Recomendo para todo mundo”, destaca.

Para o personal trainer e gerente de academia, em Itaqui (RS), Fabiano Gomes, é fundamental que o profissional seja transparente e nunca engane o cliente.

Fabiano é personal trainer e afirma que as pessoas focam tanto nos resultados visuais que ignoram sinais de dor e exaustão.  Imagem: Arquivo Pessoal

Entre a busca por equilíbrio e a pressão do cotidiano

Segundo o Law Society Journal, existem quatro pilares que sustentam a saúde mental e o bem-estar integral: a mente e o equilíbrio emocional, o corpo e a saúde física, o espírito e a sensação de propósito e felicidade, além dos relacionamentos e da participação na comunidade. Juntos, esses elementos abrangem as principais dimensões da experiência humana e reconhecem o indivíduo como um “ser completo”, formado por múltiplas camadas que se influenciam mutuamente.

Cada um desses pilares levanta questões essenciais que pedem reflexão e, sobretudo, ação concreta em nosso cotidiano. Mesmo que não tenhamos respostas definitivas para todas elas, é possível afirmar que buscamos, como seres humanos, uma vida com menos dor e sofrimento, na qual possamos aproveitar plenamente a complexidade e a beleza da existência. A sociedade deseja usar o tempo da forma mais significativa possível, cultivando bem-estar e construindo uma vida que faça sentido. Apesar de especialistas apontarem que o bem-estar depende desses quatro pilares, o resultado é um cenário preocupante: muitas pessoas reconhecem a importância desses pontos, mas têm dificuldade em incorporá-los na rotina.

O ritmo acelerado da vida impede que a maioria das pessoas consiga dedicar tempo e atenção aos próprios fundamentos de bem-estar. As rotinas cada vez mais cheias, a pressão por produtividade e a constante sensação de urgência fazem com que até necessidades básicas, como descanso adequado, alimentação consciente ou momentos de conexão social, sejam deixadas em segundo plano.

Nesse cenário, mesmo quem compreende a importância de cuidar da mente, do corpo, do espírito e das relações encontra dificuldades reais para transformar esse conhecimento em hábito. A vida corrida cria um ambiente em que o autocuidado se torna mais uma tarefa a cumprir, e não um componente natural do dia a dia. Assim, o ideal de viver de forma plena e equilibrada acaba se chocando com as exigências de um cotidiano que não oferece tempo, espaço ou energia para que esse equilíbrio aconteça de fato.

A indústria do bem-estar virou um gigante que se alimenta das inseguranças e do cansaço coletivo. Entre aplicativos de meditação, treinos milagrosos e suplementos coloridos esse mercado se vende como resposta para praticamente tudo, estresse, foco, sono, humor, produtividade. Porém, por trás dessa estética de vida perfeita, existe uma lógica comercial poderosa, que transforma autocuidado em mercadoria e faz parecer que saúde é algo que você compra em frascos, não algo que se constrói com tempo, acesso e acompanhamento real.

Ao mesmo tempo, é um setor que cresce porque acerta na necessidade de sentir algum controle. Em meio à rotina acelerada, redes sociais e pressões estéticas, muita gente encontra nessas marcas uma sensação de pertencimento e promessa de mudança rápida. O problema é que esse discurso muitas vezes ignora ciência, exagera resultados e reforça padrões inalcançáveis. No fim, o desafio é distinguir quando estamos cuidando de nós mesmos, e quando só estamos alimentando uma máquina que lucra justamente com o nosso desejo de melhorar.

Reportagem produzida por Isadora Rodrigues e Thine Feistauer em Narrativa Multimídia, no 2º semestre de 2025, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.