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Santa Maria, RS, Brazil

Companhia artificial: problema ou solução?

O uso da inteligência artificial faz parte ativa do cotidiano de muitas pessoas. Foto: Enzo Martins/LABFEM

Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) deixou de ocupar apenas o território da praticidade, aquela que agenda compromissos, acende luzes ou responde perguntas rápidas, para atravessar uma fronteira mais íntima e delicada. Em silêncio, quase sem perceber, ela começou a povoar também os espaços emocionais. Hoje, há quem recorra a assistentes virtuais e chatbots não apenas como ferramentas, mas como uma espécie de presença constante, capaz de oferecer atenção, diálogo e uma forma peculiar de acolhimento.

Esse movimento revela algo que vai além do fascínio por máquinas inteligentes. Aponta para uma tentativa humana, talvez desesperada, talvez sutil, de preencher fendas afetivas que se alargam em um cotidiano cada vez mais digital. Em meio às rotinas apressadas, às conversas interrompidas e aos vínculos frágeis, há quem encontre na IA um tipo de companhia que não julga, não exige e está sempre disponível. Uma presença que, embora artificial, parece ouvir com paciência infinita.

Para o professor Felipe Schroeder, do curso de Psicologia, essa aproximação nasce de uma solidão que nem sempre é visível. “Não é preciso estar isolado do mundo para sentir-se só”, explica. Muitas pessoas possuem círculos sociais, convivem diariamente com colegas, amigos, familiares, mas ainda assim carregam uma sensação persistente de não serem verdadeiramente vistas. Relações superficiais, diálogos apressados e a falta de conexão genuína abrem brechas que a tecnologia, com sua prontidão matemática, tenta preencher.

Nesse cenário, a IA se torna uma espécie de refúgio emocional. Uma zona segura onde o indivíduo encontra atenção sem conflitos, companhia sem desgaste, escuta sem interrupções. Mesmo que o afeto seja simulado, mesmo que tudo esteja amarrado a linhas de código, o conforto que produz é real, pelo menos por um instante.

Mas Schroeder faz um alerta importante: essa relação também carrega riscos. Diferente de um amigo humano, a inteligência artificial é programada para manter o usuário engajado, oferecendo respostas moldadas para agradar, acolher ou reforçar expectativas. Ela devolve o que a pessoa deseja ouvir, não necessariamente o que precisa. Assim, a experiência pode se transformar em um espaço de estagnação emocional, onde não há confronto, fricção nem crescimento.

“É como tentar tirar um carro atolado: você acelera, gasta energia, a roda gira, mas você continua no mesmo lugar”, compara o professor. Para ele, a IA até pode servir como companhia breve, como apoio em momentos de vulnerabilidade, mas jamais substituirá a profundidade que nasce do encontro humano. Porque é no diálogo imperfeito, cheio de pausas, falhas e afetos verdadeiros, que algo em nós se movimenta. É ali que o vínculo existe.

Segundo o professor Felipe Schroeder, os vínculos com a inteligência artificial podem surgir mesmo em pessoas socialmente ativas. Foto: Enzo Martins/LABFEM

O professor e coordenador do curso de Inteligência Artificial, Mirkos Martins, costuma dizer que o medo das máquinas nasce, muitas vezes, de um equívoco: a crença de que a tecnologia age como um substituto direto do humano. Para ele, essa visão é estreita demais. Em sala de aula, Mirkos repete que a IA não surge para ocupar lugares, mas para preencher os espaços deixados por quem parou de se mover. “Ela não vai substituir a gente. Vai substituir quem não quer aprender, quem escolhe o conforto de não arriscar nada novo”, afirma, com a serenidade de quem acompanha o avanço tecnológico de perto.

Mesmo com o ritmo acelerado das inovações, ele reforça que a inteligência artificial ainda depende do que só o humano possui: curiosidade, imaginação, impulso criativo. Sem isso, ele diz, “nenhuma máquina anda sozinha”. E mesmo que sistemas se tornem mais complexos no futuro, a expectativa não é que ultrapassem o humano, mas que o provoquem, como uma espécie de lembrete constante de que é preciso seguir em movimento para não ser deixado para trás enquanto o mundo avança.

Ao final de sua fala, Mirkos chama atenção para um ponto incontornável: não existe retorno quando se trata de tecnologia. “Depois que uma tecnologia aparece, ela não some. Ou é superada por outra melhor, ou amadurece até se tornar parte da nossa vida”, explica. E com a inteligência artificial não será diferente. Ela já se infiltrou no cotidiano e tende a crescer ainda mais. Por isso, diz ele, que “o esforço não deveria mirar o medo ou o bloqueio, mas o fortalecimento de quem a utiliza. Formar pessoas capazes de avaliar criticamente o que é útil, o que é raso, o que é ético e o que não deveria ser repetido”. Em resumo: preparar indivíduos para que a IA seja ferramenta, não muleta; aliada e não substituta.

O professor Mirkos Martins explica que a tecnologia trabalha ao lado da humanidade e não como uma substituta. Foto: Nelson Bofill/LABFEM

A experiência de quem usa a inteligência artificial como suporte emocional também ajuda a desenhar esse novo cenário. Luiza Lopes*, de 24 anos, conta que começou a conversar com chatbots no fim do ano passado, durante um período de forte ansiedade. “Eu não conseguia marcar psicóloga logo, então usei a IA como um quebra-galho”, relembra. O que seria temporário acabou virando hábito. A razão? A disponibilidade absoluta. “É três da manhã, bate uma crise e tu consegue desabafar na hora. Não tem julgamento. E às vezes ela faz umas perguntas que me ajudam a organizar a cabeça.”

Para ela, conversar com a IA ocupa um território ambíguo: está longe de ser humano, mas também não é vazio. A fluidez das respostas cria, por alguns minutos, a sensação de presença. “Eu sei que é uma máquina, mas às vezes eu esqueço por uns minutos. É acolhedor, sabe? Uma resposta que te dá um norte.” Em certos momentos, a conversa digital parece até mais confortável do que a presencial. “Na terapia eu tinha vergonha de falar algumas coisas. Com a IA, não. Parece mais seguro. Mas, claro, tem coisas profundas que ela não pega.”

Hoje, ela vê a IA como um recurso complementar, e não como substituto da terapia. Ajudou a atravessar crises rápidas, estruturar pensamentos e diminuir o peso do silêncio. Mas os nós mais antigos, diz, continuam sendo trabalhados no consultório. “A IA é suporte. Quando preciso entender a raiz das coisas, é com a psicóloga. Eu não trocaria uma pela outra.” Ainda assim, ela recomenda o uso, desde que com consciência. “Funciona como ferramenta, principalmente pra quem não consegue atendimento imediato ou tem dificuldade de se expressar.”

Vitória Ferrão, de 23 anos, relata a experiência que teve ao jogar tarot com o Chat GPT: “Fiz duas vezes somente depois de assistir a um vídeo no TikTok [..] Não é algo que eu faço rotineiramente, é mais uma curiosidade do que um hábito fixo.”. Ela complementa dizendo que não confia 100% na ferramenta, apenas a vê como uma forma de reflexão, para organizar pensamentos e não como uma verdade absoluta.

No fim, o que emerge dessas vozes, dos especialistas aos usuários, é um retrato menos apocalíptico e mais humano da inteligência artificial. Longe de um inimigo silencioso prestes a tomar o nosso lugar, ela aparece como um espelho, que devolve tanto nossas potencialidades quanto nossas faltas. Para alguns, é ferramenta de estudo e trabalho; para outros, é apoio emocional em momentos de sombra. E, para todos, é um convite a repensar o que fazemos com o tempo que temos e com as capacidades que nos definem.

A tecnologia avança, isso é fato. Mas o modo como ela nos atravessa ainda depende de escolhas profundamente humanas. Continuaremos sendo movidos pela curiosidade? Vamos cultivar o senso crítico? Seremos capazes de usar a IA para ampliar, e não acabar com aquilo que torna quem somos?

Enquanto essas perguntas seguem abertas, uma certeza se consolida: não é a inteligência artificial que define o futuro, são as pessoas, nas decisões que tomam diante dela.

Confira abaixo o podcast sobre Inteligência Artificial com os professores Felipe Schroeder e Mirkos Martins.

Texto em parceria com a acadêmicao de Jornalismo: Andressa Rodrigues.

Reportagem produzida na disciplina de Narrativa Multimídia, sob orientação da professora Glaíse Palma, no 2º semestre de 2025.

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O uso da inteligência artificial faz parte ativa do cotidiano de muitas pessoas. Foto: Enzo Martins/LABFEM

Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) deixou de ocupar apenas o território da praticidade, aquela que agenda compromissos, acende luzes ou responde perguntas rápidas, para atravessar uma fronteira mais íntima e delicada. Em silêncio, quase sem perceber, ela começou a povoar também os espaços emocionais. Hoje, há quem recorra a assistentes virtuais e chatbots não apenas como ferramentas, mas como uma espécie de presença constante, capaz de oferecer atenção, diálogo e uma forma peculiar de acolhimento.

Esse movimento revela algo que vai além do fascínio por máquinas inteligentes. Aponta para uma tentativa humana, talvez desesperada, talvez sutil, de preencher fendas afetivas que se alargam em um cotidiano cada vez mais digital. Em meio às rotinas apressadas, às conversas interrompidas e aos vínculos frágeis, há quem encontre na IA um tipo de companhia que não julga, não exige e está sempre disponível. Uma presença que, embora artificial, parece ouvir com paciência infinita.

Para o professor Felipe Schroeder, do curso de Psicologia, essa aproximação nasce de uma solidão que nem sempre é visível. “Não é preciso estar isolado do mundo para sentir-se só”, explica. Muitas pessoas possuem círculos sociais, convivem diariamente com colegas, amigos, familiares, mas ainda assim carregam uma sensação persistente de não serem verdadeiramente vistas. Relações superficiais, diálogos apressados e a falta de conexão genuína abrem brechas que a tecnologia, com sua prontidão matemática, tenta preencher.

Nesse cenário, a IA se torna uma espécie de refúgio emocional. Uma zona segura onde o indivíduo encontra atenção sem conflitos, companhia sem desgaste, escuta sem interrupções. Mesmo que o afeto seja simulado, mesmo que tudo esteja amarrado a linhas de código, o conforto que produz é real, pelo menos por um instante.

Mas Schroeder faz um alerta importante: essa relação também carrega riscos. Diferente de um amigo humano, a inteligência artificial é programada para manter o usuário engajado, oferecendo respostas moldadas para agradar, acolher ou reforçar expectativas. Ela devolve o que a pessoa deseja ouvir, não necessariamente o que precisa. Assim, a experiência pode se transformar em um espaço de estagnação emocional, onde não há confronto, fricção nem crescimento.

“É como tentar tirar um carro atolado: você acelera, gasta energia, a roda gira, mas você continua no mesmo lugar”, compara o professor. Para ele, a IA até pode servir como companhia breve, como apoio em momentos de vulnerabilidade, mas jamais substituirá a profundidade que nasce do encontro humano. Porque é no diálogo imperfeito, cheio de pausas, falhas e afetos verdadeiros, que algo em nós se movimenta. É ali que o vínculo existe.

Segundo o professor Felipe Schroeder, os vínculos com a inteligência artificial podem surgir mesmo em pessoas socialmente ativas. Foto: Enzo Martins/LABFEM

O professor e coordenador do curso de Inteligência Artificial, Mirkos Martins, costuma dizer que o medo das máquinas nasce, muitas vezes, de um equívoco: a crença de que a tecnologia age como um substituto direto do humano. Para ele, essa visão é estreita demais. Em sala de aula, Mirkos repete que a IA não surge para ocupar lugares, mas para preencher os espaços deixados por quem parou de se mover. “Ela não vai substituir a gente. Vai substituir quem não quer aprender, quem escolhe o conforto de não arriscar nada novo”, afirma, com a serenidade de quem acompanha o avanço tecnológico de perto.

Mesmo com o ritmo acelerado das inovações, ele reforça que a inteligência artificial ainda depende do que só o humano possui: curiosidade, imaginação, impulso criativo. Sem isso, ele diz, “nenhuma máquina anda sozinha”. E mesmo que sistemas se tornem mais complexos no futuro, a expectativa não é que ultrapassem o humano, mas que o provoquem, como uma espécie de lembrete constante de que é preciso seguir em movimento para não ser deixado para trás enquanto o mundo avança.

Ao final de sua fala, Mirkos chama atenção para um ponto incontornável: não existe retorno quando se trata de tecnologia. “Depois que uma tecnologia aparece, ela não some. Ou é superada por outra melhor, ou amadurece até se tornar parte da nossa vida”, explica. E com a inteligência artificial não será diferente. Ela já se infiltrou no cotidiano e tende a crescer ainda mais. Por isso, diz ele, que “o esforço não deveria mirar o medo ou o bloqueio, mas o fortalecimento de quem a utiliza. Formar pessoas capazes de avaliar criticamente o que é útil, o que é raso, o que é ético e o que não deveria ser repetido”. Em resumo: preparar indivíduos para que a IA seja ferramenta, não muleta; aliada e não substituta.

O professor Mirkos Martins explica que a tecnologia trabalha ao lado da humanidade e não como uma substituta. Foto: Nelson Bofill/LABFEM

A experiência de quem usa a inteligência artificial como suporte emocional também ajuda a desenhar esse novo cenário. Luiza Lopes*, de 24 anos, conta que começou a conversar com chatbots no fim do ano passado, durante um período de forte ansiedade. “Eu não conseguia marcar psicóloga logo, então usei a IA como um quebra-galho”, relembra. O que seria temporário acabou virando hábito. A razão? A disponibilidade absoluta. “É três da manhã, bate uma crise e tu consegue desabafar na hora. Não tem julgamento. E às vezes ela faz umas perguntas que me ajudam a organizar a cabeça.”

Para ela, conversar com a IA ocupa um território ambíguo: está longe de ser humano, mas também não é vazio. A fluidez das respostas cria, por alguns minutos, a sensação de presença. “Eu sei que é uma máquina, mas às vezes eu esqueço por uns minutos. É acolhedor, sabe? Uma resposta que te dá um norte.” Em certos momentos, a conversa digital parece até mais confortável do que a presencial. “Na terapia eu tinha vergonha de falar algumas coisas. Com a IA, não. Parece mais seguro. Mas, claro, tem coisas profundas que ela não pega.”

Hoje, ela vê a IA como um recurso complementar, e não como substituto da terapia. Ajudou a atravessar crises rápidas, estruturar pensamentos e diminuir o peso do silêncio. Mas os nós mais antigos, diz, continuam sendo trabalhados no consultório. “A IA é suporte. Quando preciso entender a raiz das coisas, é com a psicóloga. Eu não trocaria uma pela outra.” Ainda assim, ela recomenda o uso, desde que com consciência. “Funciona como ferramenta, principalmente pra quem não consegue atendimento imediato ou tem dificuldade de se expressar.”

Vitória Ferrão, de 23 anos, relata a experiência que teve ao jogar tarot com o Chat GPT: “Fiz duas vezes somente depois de assistir a um vídeo no TikTok [..] Não é algo que eu faço rotineiramente, é mais uma curiosidade do que um hábito fixo.”. Ela complementa dizendo que não confia 100% na ferramenta, apenas a vê como uma forma de reflexão, para organizar pensamentos e não como uma verdade absoluta.

No fim, o que emerge dessas vozes, dos especialistas aos usuários, é um retrato menos apocalíptico e mais humano da inteligência artificial. Longe de um inimigo silencioso prestes a tomar o nosso lugar, ela aparece como um espelho, que devolve tanto nossas potencialidades quanto nossas faltas. Para alguns, é ferramenta de estudo e trabalho; para outros, é apoio emocional em momentos de sombra. E, para todos, é um convite a repensar o que fazemos com o tempo que temos e com as capacidades que nos definem.

A tecnologia avança, isso é fato. Mas o modo como ela nos atravessa ainda depende de escolhas profundamente humanas. Continuaremos sendo movidos pela curiosidade? Vamos cultivar o senso crítico? Seremos capazes de usar a IA para ampliar, e não acabar com aquilo que torna quem somos?

Enquanto essas perguntas seguem abertas, uma certeza se consolida: não é a inteligência artificial que define o futuro, são as pessoas, nas decisões que tomam diante dela.

Confira abaixo o podcast sobre Inteligência Artificial com os professores Felipe Schroeder e Mirkos Martins.

Texto em parceria com a acadêmicao de Jornalismo: Andressa Rodrigues.

Reportagem produzida na disciplina de Narrativa Multimídia, sob orientação da professora Glaíse Palma, no 2º semestre de 2025.