“Mãe, como eu sei como são essas casas por dentro?” digo para minha mãe. Ela responde que provavelmente era coisa da minha vó, porque ela era amiga de toda a vizinhança e vivia visitando as amigas. Como eu fui criada com ela, acabava indo junto. Minha vó Mariza faleceu dia 24 de maio de 2025, mas isso com certeza não é a primeira coisa que eu lembro quando penso nela.

Primeiro eu lembro do seu sorriso, ela sempre estava sorrindo, mesmo quando estava apavorada com alguma situação. Sim, ela era bem dramática, então qualquer situação mais diferente já era motivo para um “Ai, minha Nossa Senhora Aparecida” bem alto. A vó sempre foi muito católica e sempre acabava rezando para os seus santos.
Quando eu era pequena, morávamos todos no bairro Capelinha, na casa da minha avó Mariza e do meu avô Hamilton. O bairro tinha esse nome por conta de uma capela pequena que tinha lá, onde todos os vizinhos ajudavam a manter e faziam ações sociais. É claro que a Mariza sempre estava em todos os eventos e me levava junto). A vó sempre amou ajudar as pessoas e abrir suas portas para todos que fossem.
Com o tempo ela virou a dona Mariza, todos chamavam ela assim. Ela com certeza foi a pessoa mais bondosa que conheci, sempre alegre, risonha e a fim de ajudar os outros. Lembro de uma vez que uma amiga da casa ao lado pediu para ela um certo produto de limpeza emprestado, ela disse que iria emprestar sem problemas, então ela foi até o mercado, comprou e depois emprestou para a amiga. Esse era o tipo de coisa que ela fazia para agradar quem fosse.
Quando se fala em Dona Mariza uma coisa que é indispensável era sua comida, e nossa que comida boa! Por um tempo ela vendia comidas caseiras que ela fazia. O estrogonofe, na minha opinião, é o melhor. Por conta de ter mãos de ouro para a cozinha, acabava que a casa sempre cheirava a tempero, ela também, porém seu cheiro de creme da natura ressaltava, ela sempre foi muito vaidosa. Sempre usava roupas confortáveis e ao mesmo tempo elegantes. Ela tinha cabelos loiros, que pintava mensalmente, olhos castanhos que acolhiam e um sorriso largo que mostrava todos os dentes. Quando ela ria muito, a dentadura dela caia, o que virava motivo de mais riso. A vó amava se maquiar e ia sempre na manicure pintar tanto as unhas da mão quanto do pé, mesmo no frio.
Mariza se casou com Hamilton com 16 anos, em uma bela cerimônia. Desse amor nasceram dois filhos, James Iure, meu tio, e Oraides Acris, minha mãe. Depois de um tempo, eu nasci, e foi aí que ela encontrou um dos papéis que mais gostava de desempenhar, o de vó. Ela fazia questão de manter a família sempre por perto, reunida ao redor da mesa, com muita conversa, comida boa e risadas.
Se tem uma característica muito forte da Dona Mariza é o quanto ela gostava de limpeza. A casa estava sempre impecável, o chão brilhava, tudo tinha o seu lugar e o cheiro de limpeza fazia parte da casa tanto quanto o cheiro da comida. Ela limpava cantinhos que ninguém nem lembrava que existiam e dizia que casa limpa trazia paz. Acho que foi convivendo com ela que eu aprendi a gostar de organizar tudo. Hoje, quando me pego limpando a casa ou incomodada com alguma bagunça, percebo que puxei exatamente esse lado dela.
Como meus pais precisavam trabalhar, foi a vó quem me criou durante boa parte da minha infância. Eu passava praticamente todos os dias com ela. Era ela quem fazia minha comida, quem me levava para passear, quem me ensinava pequenas coisas da vida e quem estava presente em quase todas as minhas lembranças de criança. Cresci segurando na mão dela, acompanhando sua rotina e aprendendo com o exemplo, muito mais do que com palavras. Por isso, quando penso na minha infância, penso nela.
A casa da vó também era um ponto de encontro. Era comum ver as vizinhas chegando sem avisar, cada uma puxando uma cadeira, colocando a cuia para rodar e começando uma boa conversa. Entre um mate e outro, aparecia um café recém-passado e algum bolinho que ela tinha feito, porque visita nenhuma saía dali sem comer alguma coisa. As tardes aconteciam por risadas, histórias da vizinhança e, claro, uma boa fofoca. Eu ficava por perto, ouvindo tudo sem entender muita coisa, mas gostando da sensação de ver a casa sempre cheia de gente.
Talvez seja por isso que até hoje eu associe acolhimento à casa da minha vó. As portas estavam sempre abertas, a chaleira quase sempre no fogo e havia espaço para mais um na mesa. Dona Mariza tinha esse dom de fazer qualquer pessoa se sentir em casa. Ela cuidava dos outros de um jeito tão natural que parecia nem perceber o quanto fazia diferença na vida de quem passava por ali.
Senti isso quando a vó faleceu de câncer de pâncreas. Recém tínhamos perdido meu avô, que passava por momentos difíceis desde que teve um AVC, há oito anos. Ver os dois partindo em tão pouco tempo foi como perder um pedaço da minha infância e da casa onde cresci. Mesmo assim, tanto no velório dela quanto no do vô, eu senti amor, senti gratidão e senti esperança. Parecia que toda a vida que eles construíram estava ali, reunida em forma de abraço, de oração e de lembrança.
Havia muitas pessoas. Vizinhos que eu não via fazia anos, amigos contando histórias antigas, parentes que vieram de longe e pessoas que fizeram parte da minha criação. Apesar de ter sido o momento mais triste da minha vida, também foi um momento cheio de carinho. Entre lágrimas, eu consegui dar risadas lembrando das manias da vó, das piadas do vô e das histórias que cada um tinha para contar. Foi ali que eu percebi o tamanho do amor que eles deixaram pelo caminho. Dona Mariza e seu Hamilton partiram, mas continuam vivos em cada lembrança, em cada receita, em cada conversa na calçada e em cada gesto de cuidado e amor que aprendi com eles.
Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.





