O futebol ocupa um espaço importante na vida de milhões de pessoas, seja pela paixão por um clube, pela admiração por um jogador ou pela emoção de acompanhar uma competição. Mas a influência do esporte nem sempre termina quando o árbitro apita o fim da partida. Em diferentes momentos da história, jogadores utilizaram a visibilidade conquistada dentro de campo para participar de debates sobre política, desigualdade social, racismo e direitos humanos.
Em uma geração conectada às redes sociais, na qual atletas podem alcançar milhões de seguidores diretamente, suas manifestações também podem despertar o interesse por assuntos que ultrapassam o mundo esportivo. Uma declaração sobre uma eleição, uma campanha contra a desigualdade ou até mesmo a recomendação de um livro pode levar torcedores a pesquisar temas que antes pareciam distantes de sua realidade.

Essa relação, entretanto, levanta uma questão: quando um jovem passa a admirar um jogador pelo que ele faz com a bola, essa admiração também pode despertar nele a vontade de compreender melhor o mundo fora do campo?
A resposta não é necessariamente simples. A admiração por um atleta não significa que o torcedor adotará suas opiniões, mas pode funcionar como um ponto de partida para novas perguntas, pesquisas e conversas. Para compreender como isso acontece, é preciso olhar tanto para a história do futebol quanto para as diferentes formas de influência exercidas pelos jogadores da atualidade.
Sócrates e a política dentro de campo
No Brasil, um dos exemplos mais emblemáticos da relação entre futebol e participação política é Sócrates. No início da década de 1980, o ex-jogador se destacou por sua atuação na Democracia Corinthiana, movimento que defendia a participação coletiva nas decisões do clube em um período marcado pela ditadura militar e pela luta pela redemocratização do país.

Além de sua atuação no esporte, Sócrates tornou-se uma figura associada à defesa da democracia e da participação cidadã. Sua trajetória demonstra que o futebol já funcionava como espaço de debate público muito antes do surgimento das redes sociais.
Décadas depois, os meios de comunicação mudaram, mas permanece uma questão semelhante: qual é o papel de um jogador quando sua popularidade permite que ele alcance pessoas que talvez não acompanhem habitualmente o debate político?
Da política francesa à mobilização social: os jogadores de hoje
Em junho de 2024, durante a Eurocopa, os franceses Kylian Mbappé e Marcus Thuram utilizaram sua visibilidade para se manifestar sobre o cenário político do país, às vésperas das eleições legislativas. Ambos demonstraram preocupação com o avanço do Reunião Nacional, partido de direita radical, e incentivaram a participação dos eleitores, principalmente dos jovens.

As manifestações evidenciaram como jogadores de futebol podem levar debates políticos a públicos que nem sempre acompanham o noticiário. Mais do que expressar opiniões, atletas com grande alcance nas mídias podem despertar a curiosidade dos torcedores sobre questões que ultrapassam o esporte.
Entretanto, o posicionamento de um ídolo não significa necessariamente uma mudança de opinião entre seus seguidores. O que se evidencia é a busca pelo conhecimento, de ir atrás e pesquisar acerca de assuntos importantes, refletir e construir suas próprias perspectivas e opiniões.
Outra forma de participação aparece na trajetória de Marcus Rashford. Na Inglaterra, o atacante ganhou destaque por sua campanha em defesa de refeições gratuitas para crianças em situação de vulnerabilidade durante as férias escolares. Sua mobilização ajudou a pressionar o governo britânico a rever sua política sobre o tema.

Diferentemente dos posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, a iniciativa de Rashford concentrou-se na defesa de uma questão social e na cobrança por uma resposta das autoridades. Seu exemplo demonstra que a atuação pública de um jogador também pode envolver campanhas de mobilização e a defesa de políticas públicas.
Já Lamine Yamal, jovem estrela da seleção espanhola e do Barcelona, ajuda a ampliar a discussão para questões de identidade, diversidade e pertencimento. Filho de pai marroquino e mãe de origem guinéu-equatorial, o atacante tornou-se uma figura de grande visibilidade para jovens de diferentes origens.

Sua trajetória ganhou significado social em um contexto no qual o racismo e a xenofobia continuam presentes no futebol e na sociedade europeia. A própria representatividade de um atleta pode, entretanto, estimular conversas sobre preconceito, inclusão e convivência entre diferentes culturas.
Embora atuem de maneiras distintas, esses jogadores mostram como a presença pública de um atleta pode ultrapassar os resultados esportivos. Seja por meio de manifestações eleitorais, campanhas sociais ou questões relacionadas à identidade, suas trajetórias ajudam a compreender como o futebol pode se conectar a debates que fazem parte da vida dos torcedores.
De volta ao Brasil: quando a influência passa pela leitura
No cenário brasileiro, a influência de um jogador sobre o público pode assumir uma forma diferente do ativismo eleitoral ou da mobilização por políticas sociais. O caso de Gustavo Scarpa ajuda a discutir como o interesse de um atleta por atividades extracampo também pode aproximar os torcedores de assuntos que vão além do esporte.
O jogador chamou atenção ao compartilhar seu interesse por literatura e comentar obras em vídeos nas mídias digitais, aproximando livros e discussões literárias de um público que acompanha seu trabalho principalmente dentro de campo. Após a divulgação do livro A morte Ivan Ilitch de Lev Tolstói, a obra alcançou o topo dos livros mais vendidos da Amazon Brasil.

A iniciativa se diferencia dos posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, assim como da mobilização social de Rashford. Sua relevância para esta discussão está no potencial de uma figura pública despertar curiosidade por atividades que nem sempre estão associadas ao universo esportivo.
A leitura pode ampliar o contato com diferentes perspectivas, estimular o pensamento crítico e incentivar o questionamento de ideias estabelecidas. Nesse sentido, o interesse de um atleta por livros pode contribuir para colocar a literatura em evidência entre seus seguidores, inclusive entre aqueles que não têm o hábito de procurar esse tipo de conteúdo.
Se um jogador pode despertar o interesse por uma obra literária, também pode levar seus seguidores a pesquisar sobre um autor, conhecer um contexto histórico ou entrar em contato com ideias diferentes das que já conheciam. A relação entre futebol e formação cidadã, portanto, não precisa se limitar às manifestações políticas explícitas. Ela também pode passar por iniciativas culturais e pela curiosidade intelectual, desde que não se presuma que a visibilidade de um atleta produza automaticamente mudanças duradouras no comportamento do público.
O que fica para quem assiste?
Entre a atuação democrática de Sócrates, os posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, a mobilização social de Rashford, a representatividade de Yamal e o interesse pela literatura associado a Scarpa, existem diferentes formas de um atleta ultrapassar os limites do campo.
Essas trajetórias mostram que o futebol pode se relacionar com questões muito mais amplas do que os resultados de uma partida. Entretanto, compreender o impacto dessa relação exige ouvir também quem está do outro lado: os torcedores, especialmente os jovens que acompanham esses jogadores e constroem suas próprias opiniões em meio a uma grande quantidade de informações.
Será que um jovem que acompanha futebol diariamente passa a prestar mais atenção à política quando seu ídolo se manifesta? Uma declaração pode levá-lo a pesquisar sobre uma eleição, compreender melhor uma questão social ou procurar um livro que nunca havia considerado ler? E até que ponto essa influência estimula a autonomia de pensamento, em vez de simplesmente transferir a opinião de uma celebridade para seu público?
Mais do que defender que jogadores devem ou não se posicionar, essas perguntas convidam a refletir sobre a dimensão social do esporte e sobre a responsabilidade que acompanha a visibilidade pública.
O futebol não precisa se transformar em um palanque partidário para contribuir com a formação cidadã. Quando estimula perguntas, aproxima pessoas de diferentes realidades e desperta o interesse por assuntos que ultrapassam as quatro linhas, ele também pode abrir caminhos para o conhecimento e a participação social.
Afinal, talvez a influência mais importante de um ídolo não esteja em convencer um torcedor a pensar como ele, mas em despertar nesse torcedor a vontade de adquirir um pensamento crítico por conta própria.





