Uma janela e muitas surpresas


Por Agência CentralSul de Notícias

 

  Quando pensamos na busca do desconhecido, superar nossos medos, angústias, imaginamos algo grandioso como as diversas, descobertas feitas pelo o Homem, a conquista do espaço, a exploração das profundezas do oceano, a evolução da genética, o uso de novos aparelhos tecnológicos. Mas, às vezes, esses desafios estão nas coisas mais simples e tão mais próximas do que imaginamos, como o relato surpreendente de Franciel Schimidt, 18 anos, conhecido como Alemão, meu vizinho de janela.

Aos poucos, no passar dos meses, o prédio que era abandonado ao lado do meu começou a receber cores novas e reformas. Logo despertou certa curiosidade naquelas melhoras que ali estavam sendo feitas. Quem começaria ocupar aquele novo espaço? Quem seriam os vizinhos novos? Sempre que passava pela frente, eu observava com um olhar inquieto e distinto. Percebia apenas alguns movimentos, um entra e sai de pessoas.

As horas que eu tinha em casa eram silenciosas, pois o apartamento costumava estar vazio. Isto não impedia que eu ouvisse vozes com uma entonação diferente do meu cotidiano corriqueiro. Aquele tom e som da letra R  eram carregados, fez com que eu sentisse certa irritação e uma tremenda vontade de descobrir de onde seria essa pessoa. O que ela faz aqui? Santa Maria está ganhando mais um morador ou mais um universitário? Enfim, vários questões foram sendo construídas durante dias diante das conversas que ecoavam na janela do meu quarto.  Outros dias passaram e eu ainda insistia na descoberta  daquele R chiado, do dialeto que eu achava que fosse alemão e nos acordes do violão que  escutava. Confesso que até me sentia um pouco entediada. Todos os dias aquele mesmo ruído, aquele discurso em uma língua que eu não compreendia. Foi então que comecei analisar as possíveis razões  dessa pessoa que parece ser de uma cidade distante estar aqui.

Por que não aqui? Afinal, eu moro numa cidade em que a população é flutuante por receber gente de todos os cantos do mundo. Uma cidade universitária, talvez seja isso, um vizinho, universitário e só. E eu que me acostume com os novos hábitos desse novo morador que eu mais escuto e pouco enxergo da minha janela. Às vezes, ao sair cedo ou na minha chegada corriqueira no final do dia, acabava esbarrando com o dono da voz.

Descubro que do outro lado da minha janela, na janela de onde vinham  aqueles ruídos, o som de uma viola, ali existia um menino que se intitula como um “colono” por ter vindo de uma cidade chamada São Paulo das Missões, região noroeste do estado.  Lá foi onde passou seus dezoito anos de vida junto de seus pais e sua irmã mais nova.  O menino que sempre ralou pesado na roça na meia colônia de terra que a família possui, desde pequeno era acostumado com o trabalho braçal, com a vida no campo.  Nas lembranças de sua pré-escola, dizia encontrar dificuldades, pois não falava o português da cidade. Foi um processo que teve que aprender com os colegas.

Quando adolescente foi levado para concluir o ensino médio na cidade de Cerro Largo, no Seminário Diocesano São José. Ficou um ano estudando para ser padre, mas logo o seminário foi vendido e  ele voltou para casa.  “No seminário, tinha vida, poder deixar o interior e ir morar na cidade, foi onde adquiri novas experiências”.  E hoje pode dizer que já fez coisas que pessoas de 20 anos, nunca fizeram ou sabem fazer.

A mudança,para cidade grande, Santa Maria, é como se os dezoito anos vividos em sua cidade natal, tivessem sido apenas férias, com eternas lembranças e memórias.  Aqui sabe que pode projetar o futuro melhor do que os pais  tiveram, pois não tinha quem os incentivassem a sair de lá. Embora encontre algumas dificuldades nessa nova empreitada que é de estudos acadêmicos, desistir seria o mesmo que voltar para roça. Estudando sabe que vai realizar os  objetivos. Formar-se em Ciências Sociais e obter êxito com a profissão.

Por  Tiéle Abreu, estudante no curso de Jornalismo da Unifra.

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