Paleontologia: descobertas através da pesquisa


 

Por Daiane Spiazzi e Rodrigo Lorenzi

 

No Brasil existem amplas formações rochosas sedimentares que guardam importantes testemunhos do passado do nosso planeta ocorridos ao longo de muitos milhões de anos. Nessas rochas formadas por acúmulo de sedimentos estão impressos episódios ligados a mudanças climáticas, movimentos dos blocos continentais e ainda fósseis que nos permitem estudar sobre os seres vivos já extintos.

A ciência responsável por estudar os registros fossilizados é a Paleontologia. Os dinossauros são, sem dúvida, o grupo que mais desperta o interesse do grande público. Mas esta ciência vai muito além do estudo dos dinossauros. Segundo o professor e paleontólogo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Átila da Rosa é preciso explicar “que na Paleontologia se estuda fosseis, e que os dinossauros são um só dos grupos de fósseis”. É uma ciência que compreende o estudo de fósseis de vertebrados, invertebrados e plantas.

A Paleontologia moderna está segmentada em áreas de pesquisas específicas, como a Paleontologia de Vertebrados, a Paleontologia de Invertebrados, a Paleobotânica, a Micropaleontologia, a Tafonomia e a Icnologia ou Paleoicnologia. Tantas áreas exigem formações e conhecimentos específicos. Como os fósseis são encontrados em rochas, a paleontologia depende de outras ciências, tais como: a geologia e a biologia. E é por esse motivo que a maioria dos paleontólogos provém de uma dessas duas áreas, já que no Brasil e em outros países não existem cursos de graduação nesse campo.

Também podem contribuir com a paleontologia outras áreas de formação como a Antropologia, a História, a Museologia, as Ciências da Informação e Tecnológicas e as Artes. Esta por sua vez, tem papel importante na criação de réplicas e ilustrações que torna visível o que está distante o tempo e no espaço. Esta técnica é conhecida como Paleoarte. A réplica de fósseis, a reconstrução digital e a arte cinematográfica também tem um papel fundamental na democratização da informação, preservação e valorização do patrimônio paleontológico, pois tornam o conhecimento compreensível e acessível ao grande público.

 

A socialização e a preservação do patrimônio paleontológico

Diversas cidades do Rio Grande do Sul podem ser consideradas centros de irradiação do conhecimento paleontológico. Devido a isso, assumem o compromisso pela proteção e valorização desse legado cultural. No entanto, é necessário que sua população conheça e reconheça a importância das pesquisas paleontológicas, dos centros de memória e dos projetos que preservam e socializam o conhecimento científico. Segundo Rosa, o conhecimento científico é importante porque ele ajuda a preservar o patrimônio, e a “preservação do patrimônio ajuda a ter mais pesquisas, a pesquisa ajuda a ter mais conhecimento, formando um círculo virtuoso”.

 

A importância da Arte na Paleontologia

A maioria dos fósseis encontrados em exposição nos centros de memória não são fósseis verdadeiros. A maioria são réplicas. Isso ocorre porque os fósseis em sua maioria são peças raras de grande valor e muitas vezes frágeis. Normalmente os originais encontram-se guardados em condições ideais para sua preservação e para novas pesquisas.

Cabe muitas vezes aos artistas plásticos criarem as réplicas por meio de vários materiais, como gesso, borracha, resina, látex entre outros. Esta técnica pode ser visualizada nas fotos 1, 2 e 3 pertencentes a projetos ligados ao  Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia da UFSM.

Processo de réplica de fósseis realizado no Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia da UFSM. Foto: Daiane Spiazzi

Processo de réplica de fósseis realizado no Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia da UFSM. Foto: Daiane Spiazzi

Processo de réplica de fósseis realizado no Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia da UFSM. Foto: Daiane Spiazzi

A paleontologia hoje, também é auxiliada pela tecnologia, que facilita o trabalho dos pesquisadores e ajudam a preservar os fósseis originais, conforme revela o professor Átila. Já é possível replicar um fóssil através de scanner e impressoras 3D. Em casos em que a peça está dentro de um bloco de rocha, é possível realizar uma tomografia computadorizada, identificando as partes fossilizadas e imprimindo-as posteriormente. Isso além de facilitar o trabalho do pesquisador, garante que a peça original não seja danificada durante a limpeza. Átila afirma que a repicagem de fósseis auxiliam os pesquisadores, já que em alguns casos os fósseis estão alocados em outras cidades ou fazem parte de coleções ou ainda de exposições.

Contudo, para uma pessoa leiga conseguir compreender a paleontologia, não basta observar apenas os fósseis. Na maioria das vezes é necessário visualizar como seria o animal quando estava vivo em seu ambiente natural. Para facilitar a compreensão é necessário acrescentar ao esqueleto alguma forma de carne, musculatura e pele. É através da Paleoarte que os artistas conseguem ilustrar os seres do passado. Para que o trabalho seja fidedigno deve haver uma parceria entre o paleontólogo, que possui as informações técnicas, como os ilustradores e/ou escultores.

Réplica do Staurikosaurus pricei. Foto: Daiane Spiazzi

Reconstituição artística do habitat natural do período Triássico. Foto: Daiane Spiazzi

Outra técnica importante na reconstituição visual dos seres estudados pela paleontologia é a reconstrução digital. Em Porto Alegre, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) foi criado o grupo de trabalho que agrega desenhistas, escultores, paleontólogo e outros profissionais que se empenharam na reconstrução digital da fauna de répteis fósseis gaúchos. O resultado pode ser visto no site: http://www.ufrgs.br/paleovert/paleo/projeto/ que integra o projeto “O Rio Grande do Sul no tempo dos dinossauros”.

 

Centros de Memória e o Patrimônio Paleontológico
Na região Sul do Brasil vinte e oito museus possuem salas especializadas ou exposições destinadas à paleontologia. Destes 25% fazem parte de instituições de ensino ou pesquisa de natureza pública, federal ou estadual; 25% estão sob administração municipal, mas a maior parte, 50%, é de natureza privada.

 

Muitas das exposições chamam mais a atenção de pesquisadores especializados do que do público leigo, relata a diretora do Museu Vicente Pallotti, Daniela Venturini. Isso se deve a alguns fatores como a utilização nas exposições de fósseis originais; a falta de recursos para investir em reproduções, réplicas ou infográficos que tornem as exposições mais atrativas e compreensíveis; a falta de informações complementares junto ao acervo e a disposição dos visitantes e, ainda, pela falta de pessoal qualificado trabalhando nos museus e as parcas verbas destinados à eles.

Para quem tem interesse em conhecer ou visitar uma exposição paleontológica, em Santa Maria, podem ser mencionadas a Sala de Paleontologia Prof. Mário Barberena, do Museu Gama D’Eça (UFSM), aberto em horário comercial. Nele são expostos alguns fósseis do Triássico da região central do Estado, e mamíferos do Pleistoceno da planície costeira do RS. Na Sala de Paleontologia do Museu Vicente Pallotti, diversos fósseis animais e vegetais coletados pelo Padre Daniel Cargnin podem ser visualizados, sob agendamento.

Recentemente, foi organizada uma Mostra Permanente de Paleontologia do Núcleo Ciência Viva (UFSM), onde fósseis animais e vegetais, do Triássico e Pleistoceno, estão expostos sob agendamento. Neste mesmo local, uma Praça Geopaleontológica do Núcleo Ciência Viva está em construção. É possível ainda encontrar exposições de fósseis, conhecer e acompanhar pesquisas nessas áreas no Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia da UFSM.

A região Sul do Brasil é berço de fósseis da Era Mesozoica

Em muitas áreas do território nacional e América do Sul há pouco mais de 10.000 anos atrás, mastodontes (elefantes primitivos) dividiam espaço com preguiças gigantes de 4 metros de altura, gliptodontes (tatus gigantes) e tigres de dentes de sabre. Na região central do Rio Grande do Sul e no nordeste da Argentina foram encontrados os mais antigos fósseis, animais que datam de mais de 200 milhões de anos. Santa Maria está localizada numa importante faixa geológica pertencente ao período Triássico, o primeiro da Era Mesozóica, também conhecida com a “Era dos grandes Répteis” ou “Era dos Dinissauros”.

Formações Geológicas do Rio Grande do Sul

 

Os afloramentos triássicos fossilíferos ocorrem por toda região da Depressão Central do Estado. Os fósseis de répteis aí encontrados estão relacionados principalmente a procolofonídeos e esfenodontes, arcossauros (tecodontes), rincossauros, dicinodontes, cinodontes e dinossauros basais. Essa região faz parte da Rota Paleontológica e é a principal área de geoturismo do estado. Ao todo, são listados vinte e um sítios fossilíferos na área urbana de Santa Maria.

Localização dos sítios fossilíferos cadastrados em levantamento de campo, em 2000, na área urbana de Santa Maria

 

Acesse o folder do projeto Rota Paleontológica

A depredação contínua desses sítios existentes na cidade alerta para a necessidade de que, cada vez mais, se conheça (e preserve) o patrimônio histórico e cultural da região. Segundo o professor Atila da Rosa, uma grande aliada neste processo é a própria população que, para tanto, deve ser conscientizada para o valor deste legado e assim, tornar-se sua guardiã.

Outra forma de despertar o interesse para sua preservação tem sido a proposta de realização de rotas turísticas.  Diante disso a prefeitura de Santa Maria desenvolveu o projeto Rota Paleontológica Santa Maria, São Pedro e Mata.

 

A Paleontologia no Sul do Brasil

A paleontologia no Rio Grande do Sul teve início com as descobertas do santa-mariense João Guilherme Fischer (1876-1952). Foi em sua cidade natal, em 1902 que Fischer coletou as primeiras ossadas fósseis na localidade de Sanga da Alemoa. E foi o paleontólogo do Museu Britânico, Arthur Smith Woodward quem identificou o fóssil. Era um rincossauro que ganhou o nome de Scaphonix fischeri, em homenagem ao descobridor. Foi este o primeiro réptil permo-triássico sul-americano a ser identificado.

E foi outro santa-mariense, considerado precursor da paleontologia de vertebrados no Brasil, que em 1936, encontrou o primeiro dinossauro descoberto no território nacional. O animal que recebeu o nome de Staurikosaurus pricei também foi coletado nos arredores de Santa Maria.

A partir do final dos anos 1960, a equipe formada pelo paleontólogo Mário Costa Barberena, da UFRGS, pelos padres e irmãos Abrahão Cargnin (1930-2004), Daniel Cargnin (1930-2002) e Valdo Ochagavia da Costa (1936-1991) que realizava a tarefa de limpeza e preparação dos achados, deram continuidade aos trabalhos nos afloramentos Triássico gaúchos. Eles realizaram importantes descobertas, como o crâneo de tecodonte encontrado em Candelária, em 1973.

O Padre Daniel Cargnin foi um dos idealizadores do Museu Vicente Pallotti de Santa Maria. Na década de 1960 deu início a um museu no Patronato para armazenar suas coletas paleontológicas. Assim, a sala de paleontologia do Museu foi criada e guarda em seu acervo a coleção de fósseis frutos de anos de trabalho de coleta de campo dos Padres Daniel e Abrahão Cargnin.

Hoje as pesquisas paleontológicas realizadas em Santa Maria estão a cargo do  Laboratório de Estratigrafia e Paleobiologia da UFSM. Além de contar com a participação de acadêmicos que realizam seus estudos com auxilio de bolsas de iniciação científica, o laboratório conta com três paleontólogos que coordenam os projetos de pesquisas e extensão na área.

 

Pesquisa em Paleontologia

A Paleontologia Brasileira perdeu no mês de setembro, um dos seus grandes nomes na área da pesquisa. Trata-se do Professor Cândido Ferreira, o Candinho como era conhecido. Dentre seus principais feitos está a participação na Academia Brasileira de Ciências e a Fundação da Sociedade Brasileira de Paleontologia.  Na comunidade científica seu nome ficará imortalizado com o crocodiliano Candidodon itapecuruense.

Confira abaixo a reportagem radiofônica com alguns dos nomes da Paleontologia em Santa Maria e região. Na reportagem você confere como estão as pesquisas na área, alguns dilemas enfrentados, as bolsas para estudo e o que o governo tem colaborado com as descobertas.

 

Para saber mais:

DA-ROSA, Átila Augusto Stock. Sítios Fossilíferos de Santa Maria, Rs, Brasil. Programa de Pós-Graduação em Geologia. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2004.

MANZIG, Paulo; WEINSCHÜTZ, Luiz Carlos. Museus e fósseis da Região Sul do Brasil. Marechal Candido Rondon: Germânica, 2012.

SECRETARIA DE MUNICÍPIO DE TURISMO. Proposta Analítica de Viabilidade: Projeto de Estruturação do Turismo Paleontológico da Região Central – RS. Santa Maria, 2011.

Museu Educativo Gama D’Eça (UFSM)

Criado em 1968 como um museu educativo, comporta em seu acervo objetos de artes, ciências (animais taxidermizados), objetos de uso pessoal, maquinaria, equipamentos, utensílios domésticos e de trabalho, paleontologia e arqueologia.

Contato

Fone: (055) 3220-9306
E-mail: museuedu@yahoo.com.br
Endereço: Rua do Acampamento, 81, centro de Santa Maria.
Horário de Funcionamento: de segunda a sexta-feira das 8:00 – 12:00 hs e das 13:00 – 17:00 hs.

Museu Vicente Pallotti

O museu pertence e é mantido pela Sociedade Vicente Pallotti. Ocupa uma área de 2.000m². A maior parte dessa área é ocupada pela exposição de longa duração. Em suas nove salas são apresentadas peças de mineralogia, história natural, paleontologia, arqueologia, material bélico e arte sacra. A sala de paleontologia do Museu conta com animais e vegetais fossilizados, na sua maioria compreendem o período Triássico com cerca de 220 milhões de anos. O Museu não dispõe em sua exposição paleontológica replicas ou reconstituição do acervo.

Contato

Fone: (055) 3220-4565
E-mail: museu_pallotti@terra.com.br
Site: www.pallotti.com.br/museu
Horário de Funcionamento: Visitas mediante agendamento, com antecedência de 48 horas.

Fóssil

A palavra fóssil vem do latim fossilis, que significa tudo aquilo que se extrai da terra. O significado do termo designa os restos ou marcas de seres vivos que foram fossilizados. São evidências remanescentes de animais e plantas que viveram no passado pré-histórico, contado em milhares ou milhões de anos. Podem variar desde grandes esqueletos de dinossauros até delicadas impressões de folhas, ou mesmo restos de pequenos animais e plantas visualizados somente em microscópio. Podem ser também marcas deixadas por seres vivos como pegadas, excrementos, rastros ou outras estruturas de origem biogênica.

Paleontologia de Vertebrados

É a principal vertente e a que mais desperta o interesse da mídia e do público. Estuda fósseis de peixes, anfíbios, répteis, aves, dinossauros e mamíferos.

Paleontologia de Invertebrados

Trabalha no reconhecimento de ecossistemas antigos, tanto marinhos quanto terrestres.

Paleobotânica

Estuda as plantas fósseis. Um dos seus ramos de estudo especializado é a Paleopalinologia que analisa os pólens e esporos fossilizados.

Micropaleontologia

Se dedica ao estudo de microrganismos fósseis, somente visto por meio de microscópio.

Tafonomia

Investiga todos os processos envolvidos na fossilização desde a morte do indivíduo.

Icnologia ou Paleoicnologia

Aborda o estudo dos fósseis pelas marcas deixadas pelas suas atividades vitais, tais como pegadas, fezes, rastros, bioturbações, ovos, etc.

Sobre o autor:

Agência CentralSul de Notícias

Um Comentário

  • rafael egidio ruviaro
    11 mar 2014 | Permalink | Responder

    Olá
    Parabens pela matéria. Sou da Secretaria de Turismo de Santa Maria e gostaria de enviar para vocês o folder atualizado da Rota Paleontológica entre Santa Maria-São Pedro-Mata. Este que vocês colocaram é um protótipo que passou por várias qualificações, e deve ter sido enviado pelo professor Átila. Poderiam me responder o email para que eu envie o original à vocês?
    Grato!

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