O dia em que eu suspirei


Por Pedro Correa

 

Ontem, 20 de novembro, foi o dia da consciência negra. Uma data para lembrar da representatividade social, cultural e histórica do povo negro. Durante o dia, vi comentários superficiais e vazios. Pessoas que diziam que não precisa de data, outros disseram não existir mais racismo e, pasmem, ainda teve os que defenderam o “dia da consciência branca”.

Sempre achei que o racismo era coisa de novela. No dia 20 de novembro sempre fazíamos cartazes bonito na escola, ouvíamos palestras (ministradas por brancos) para discorrer a respeito do tema. Com o tempo, eu achava que todos eram tratados da mesma forma. A ideia de igualdade defendida e amparada na constituição, parecia perfeita. Na minha bolha, todos eram iguais.

Passados anos,  fui adquirindo informação e me deparei com uma realidade dura, racista, classista e preconceituosa. Segundo a Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), pretos e   pardos têm mais desafios e dificuldades para se inserirem no mercado de trabalho. E de acordo com a reportagem da Carta Capital, publicada no último dia 19 de novembro, uma pessoa negra tem 79,8% maior de chances de ser vítima de homicídio. Os dados não mentem. Vivemos em uma sociedade racista, que pratica o preconceito (nada) velado.

O dia em que me deparei com essa realidade horrorosa, foi em um restaurante de Santa Maria. Não vou citar nomes para não constranger ninguém. Mas o fato doeu em mim e, com certeza, doeu muito mais na minha amiga e irmã de alma. Sabe aquelas pessoas a quem a gente se apega e tem uma ligação inexplicável? Pois bem, eu e essa amiga somos mais ou menos assim.

Uma vez, cansados com a rotina da faculdade, decidimos fazer um lanche em Santa Maria. O lanche nunca passou na garganta. Foi o pior gosto que eu senti. Ao chegar ao local, fizemos o pedido e ficamos felizes ao ler que estudantes tinham 10% de desconto. Na hora de pagar, eu, branco, simplesmente falei que era universitário. Não havia nada que identificasse que eu era acadêmico, porém, a caixa do estabelecimento me concedeu o desconto. Atrás de mim estava minha amiga. Quando ela falou que era acadêmica de jornalismo, a moça pediu a carteirinha de estudante. Imediatamente nos olhamos. Eu vi a tristeza e a indignação em seus olhos.

Naquele dia eu entendi que o racismo ainda existe, e  está presente em todas as esferas. Que ele não é velado! É escancarado e tapado com panos quentes por uma sociedade hipócrita, que não consegue se entender e acaba extravasando suas frustrações por meio do ódio e do preconceito.

O dia 20 de novembro existe para mostrar para as pessoas a importância do povo negro na construção da sociedade. Que o protagonismo não fique restrito a um banner bonito, com frases de efeito e sem significado algum.

A essa minha amiga e a todos os outros que sofrem com isso, eu desejo firmeza e empoderamento.  Desejo que a voz de vocês ecoe e não seja calada pela ignorância. Desejo que vocês sejam protagonistas da própria história  e do mundo. Quando a ignorância falar, a informação, sensatez e tolerância deve gritar a ponto de sufocá-las.

Pedro Corrêa é jornalista formado pela Unifra em janeiro de 2017

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