“Não é o batom vermelho. Tem outras coisas além disso”


Por Eduardo Biscayno

 

 

Jacqueline Adams. Fotos: Juliana Brittes/LABFEM

O título da matéria é a frase da empresária Jaqueline Adams. Ela ilustra bem a dimensão que o bate-papo Mulheres e Mercado de trabalho: muito mais que poder, protagonismo tomou na última quinta-feira, 8 de março, dia internacional da mulher. A discussão promovida pela Gema (Agência Experimental do Curso de Publicidade e Propaganda), teve como questão central promover um debate sobre questões que cercam a mulher no mundo profissional.

Além da fundadora da J. Adams Propaganda, atuante em Santa Maria há mais de 20 anos, participaram da discussão Shaiana Antonello, atendimento na agência MP&C Comunica, Raquel Martins, sócia-fundadora da Agência Advertência, e Julie Jarosczniski, sócia proprietária do Mercato Amorino, mediadas pela estudante de Publicidade e Propaganda, também freelancer Débora Lemos.

Tudo começou com apresentações das participantes e uma breve trajetória de cada uma no mercado de trabalho. “Peguei um período histórico de formação tradicional. O assédio moral, aquela cantada fora de hora sempre existiu”, relatou Jaqueline. Raquel, que começou como diretora de arte diz ter sofrido no início da carreira profissional devido a inexperiência. Um sentimento compartilhado por Shaiana: “já sofri preconceito por ter pouca idade e ser novata no mundo profissional”.

Já Julie relatou que seu maior problema como empresária é lidar com as atitudes de alguns clientes. “Sofremos assédio de alguns deles. Dizem frases como: sou solteiro. Eu dou liberdade para as minhas funcionárias reagirem da forma que quiserem. Não posso permitir que algo dessa natureza aconteça apenas para manter um cliente”, revela. Ela ainda relata que alguns vizinhos homens agem de forma machista: eles são estudantes e tem aproximadamente a minha idade. Ficam na sacada dando nota para as funcionárias e clientes do mercado. Gritam coisas como: Cinco, essa é muito feia”.

De preto e branco, combinação favorita da estilista feminista Coco Chanel, mediadora e participantes mostram seu protagonismo. Foto: Juliana Brittes.

Entretanto, percebe atitudes dessa natureza também ao lidar com os fornecedores: “eles geralmente preferem falar com o Maurício, meu sócio, do que comigo”. É algo também relatado por Débora, que já passou por esse tipo de situação. “Trabalho com o meu namorado e os homens que ligam preferem tratar com ele do que comigo. Como nós dois atuamos em todas as áreas, nunca demos muita importância para isso”. A questão de uma profissional multitarefa nas agências também por Raquel, que ressaltou já ter trabalhado um pouco em todas as funções. “Nas agências do interior é assim”, explica.

Shaiana ressalta isso como um ponto positivo, relatando não ver tanto machismo em consequência dos funcionários atuarem em diversas áreas. Algo diferente em grandes centros: “quando fui para Porto Alegre, senti a diferença entre homens e mulheres através dos setores da empresa onde trabalhei. Na área da criação, por exemplo, a maior parte eram homens”.

Esse tipo de dominância acaba por refletir em questões do dia a dia, como destaca Raquel: “Se tratando de competência, nunca senti preconceito por ser mulher, mas sim em questões rotineiras da agência, como na hora de lavar a louça do café”. A sócia da Agência Advertência destaca que esse tipo de situação vem, muitas vezes, de berço. “O machismo vem da educação, mesmo da própria mãe. O homem não é cobrado a fazer faxina, por exemplo”.

Outro ponto tratado neste sentido é o fator da vestimenta de trabalho. “Duvido que alguma mulher aqui nunca tenha tido medo de usar alguma roupa e ser assediada”, relatou Shaiana. Raquel ressaltou ainda que não se deve temer o que vestir: “meninas, vistam as roupas que vocês quiserem. O que importa são as atitudes, a competência e a experiência de vocês”. Ao entrar nesse ponto de discussão, uma das mulheres que assistia ao debate desabafou já ter sofrido com questões ligada a vestimenta e aparência. “A empresa em que trabalho já me avisou. Se eu tomar alguma atitude como colorir o meu cabelo, vou para a rua”.

A estudante de Direito e Ciências Contábeis Marcela Denardi, de 21 anos,  participando do bate-papo, declarou para todos ter gostado muito da experiência: “é muito importante esse tipo de discussão. Ambos os cursos que faço tem uma aura machista. Em um deles, falamos sobre mercado de trabalho todos os dias, mas nunca foi abordado o ponto de vista das mulheres”.

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