Um olhar sobre a greve que parou o Brasil


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Na região central houve diversas manifestações e desabastecimento

Durante a greve, caminhões ficaram parados nas rodovias (Foto: Arquivo/Agência Brasil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mês de maio é conhecido por uma campanha que dá cor ao período: o amarelo. Faz parte de um ato de conscientização no trânsito, que se repete nos últimos anos. Só que, desta vez, outras duas cores ganharam destaque: o azul e o verde, formando a bandeira do Brasil. Isto porque o movimento nas rodovias federais e estaduais cresceu, mas não de veículos e, sim, de pessoas.

É que, entre os dias 21 de maio e 02 de junho, a greve dos caminhoneiros repercutiu na mídia e sensibilizou ou revoltou a sociedade. Diante de sucessivos aumentos no preço dos combustíveis, a categoria passou a reivindicar a baixa do diesel e a baixa na tributação dos fretes, além de outras pautas da classe.

“Estamos fazendo nossa parte como brasileiros. Protestamos de forma pacífica e pedimos a todos para aderirem ao movimento”, disse Lizandro Silva, que é caminhoneiro e considera que a profissão vem sendo desvalorizada. O pedido feito por Lizandro foi o mesmo feito pela categoria e coincidiu também com as demandas de outras classes trabalhadoras, que passaram a exigir menor carga tributária, principalmente nos combustíveis.

Para Cristiano Pimentel, que foi um dos líderes das manifestações em Caçapava do Sul, o caminhoneiro é um “verdadeiro herói”: “Transportamos cargas, geralmente de alto valor, e lidamos com a insegurança nas cidades e rodovias. Além disso, na questão financeira, se tornou inviável fazer os transportes pelo alto preço do frete e do diesel. É por isso que fizemos o País parar. Este resultado será para outras gerações. É a possibilidade de mostrar o Brasil que a gente quer”.

Carreatas e caminhadas foram realizadas e viraram notícia. Santa Maria, São Sepé e Caçapava do Sul foram alguns dos municípios em evidência naquele período.

A aposentada Ligia Oliveira – ao centro – carregou a bandeira do Brasil durante caminhada em Caçapava do Sul (Foto: Eduardo Schneider)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A aposentada Ligia Maria de Oliveira, de 72 anos, é uma das cidadãs que foram às ruas. Ela, que também tem um filho caminhoneiro, contou por que decidiu aderir à manifestação: “Vivemos no caos. Na área da saúde, falta infraestrutura nos hospitais, faltam médicos e remédios. Vivemos sem um olhar para o futuro. O que assistimos é os políticos ganharem salários absurdos. Está na hora de mudar. É por isso que decidi apoiar a greve”.

Na BR 392, rodovia que dá acesso a diversos municípios da região central do Estado, houve pelo menos quatro pontos com manifestações: Santa Maria, Vila Block, São Sepé e Caçapava do Sul. Algumas delas, com faixas exibindo o pedido de intervenção militar. Essa mistura  de pautas reforçou o apoio ou os ataques sofridos pelos caminhoneiros durante a paralização, mas sobretudo deixa evidente que, muitas vezes, não houve coesão de ideias e foco da parte da classe.

Fora do foco: Pedido de intervenção militar em uma manifestação dos caminhoneiros na região central (Foto: Eduardo Schneider)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos portões das refinarias, manifestantes não arredaram o pé durante vários dias, impedindo que caminhões carregados com combustíveis saíssem. Nos portos, também houve bloqueios. O efeito imediato foi o desabastecimento nas capitais e municípios do interior. Primeiro, faltaram combustíveis; depois, gás de cozinha; por fim, alimentos de hortifruti. Sem matéria prima, a exportação de combustíveis e alimentos, praticamente parou.

Para o dono de um posto de combustíveis em Caçapava do Sul, que não quis se identificar, a manifestação foi legítima. Em relação ao desabastecimento, dedicou uma palavra-chave aos motoristas: compreensão. “Fomos solidários às reivindicações dos motoristas, mas tivemos o dever de atender a população, em primeiro lugar, em suas necessidades básicas, abastecendo os veículos oficiais e de emergência”.

Em Caçapava do Sul, o desabastecimento nos postos durou cerca de cinco dias. Cenário semelhante ao de outras cidades da região. A resposta do Governo veio em rede nacional: redução de R$ 0,46 no litro do diesel por 60 dias, estabelecimento de uma tabela mínima dos fretes, isenção da cobrança de pedágio para eixo suspenso de caminhões vazios, contratação de autônomos pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a suspensão de multas.

Mas não parou por aí, o presidente Michel Temer autorizou o uso de tropas federais para conter os manifestantes. O tom ameaçador e o uso da força, no entanto, não surtiu o efeito esperado. Em nota, a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), informou que fechou acordo com o governo, mas deixou a critério de cada integrante escolher se queria seguir ou não com os protestos. Como boa parte do grupo também foi constituída por outras categorias, a greve continuou. Diante do cenário de paralisação, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) defendeu a suspensão dos bloqueios, mas afirmou que o tabelamento dos preços do frete foi um “retrocesso”.

A greve também afetou a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), que divulgou uma estimativa das perdas no setor. Conforme os dados, o prejuízo ultrapassou R$ 1,6 bilhão às indústrias no Estado. Gabinetes de crise foram instalados nos governos estaduais. O abastecimento passou a ser prioritário, especialmente para as áreas de segurança pública e saúde. Entre as medidas: liberação de combustível para viaturas oficiais e ambulâncias. Com esta ação espalhada por diversos estados, aos poucos, a situação foi sendo normalizada e o transporte de carga retomado.

 

Segundo a Agência Brasil, veja o que foi negociado entre governo e caminhoneiros:

– Redução do preço diesel em R$ 0,46 nas bombas pelo período de 60 dias. Depois desse prazo, o preço do diesel será ajustado mensalmente;

–  Preço do diesel será reduzido em 10% nas refinarias e ficará fixo por 30 dias. Nesse período, o valor referência será de R$ 2,10 nas refinarias. Os custos da primeira quinzena com a redução, estimados em R$ 350 milhões, ficarão a cargo da Petrobras. As despesas dos 15 dias restantes ficarão com a União como compensação à petrolífera.  A cada 30 dias, o valor será reajustado conforme a política de preços da Petrobras e fixado por mais um mês;

– Isenção da cobrança de pedágio dos caminhões que trafegarem com eixo suspenso. A medida vale para todas as rodovias (federais, estaduais e municipais);

– A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) vai contratar caminhoneiros autônomos para atender até 30% da demanda de frete. O governo editará uma medida provisória no prazo de 15 dias;

– Não haverá reoneração da folha de pagamento do setor de transporte rodoviário de cargas;

– Será estabelecido frete mínimo rodoviário. A tabela de frete, reeditada em 1º de junho, será ajustada a cada três meses pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT);

– Alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) será zerada em 2018 sobre o diesel;

– Isenção do pedágio para caminhões que circulam vazios (eixo suspenso);

– Ações judiciais contrárias ao movimento serão extintas;

– Multas aplicadas aos caminhoneiros em decorrência da paralisação serão negociadas com órgãos de trânsito;

– Entidades e governo terão reuniões periódicas a cada 15 dias;

– Petrobras irá incentivar que empresas contratadas para transporte deem oportunidade aos caminhoneiros autônomos, como terceirizados, nas operações de transporte de carga;

– Solicitar à Petrobras que seja observada resolução da ANTT 420, de 2004, sobre renovação da frota nas contratações de transporte rodoviário de carga.

 

E a gasolina?

Uma das reivindicações da parte da população que aderiu às manifestações dos caminhoneiros foi a baixa do preço da gasolina. Para se ter ideia, na primeira quinzena do mês de junho, em alguns postos de Caçapava do Sul, o preço do litro da gasolina comum chegou a custar R$ 4,95. Em um posto de São Sepé, o preço do gasolina era de R$ 4,78 e, em Santa Maria, os consumidores pagam entre R$ 4,66 e R$ 4,96 pelo litro.

Os protestos fizeram com que governo e Petrobras levassem para a mesa de negociação a política de reajuste diário do preço da gasolina. Hoje, esta política leva em consideração a cotação internacional – em dólar – que serve como referência para o mercado interno. No entanto, não há ainda uma decisão sobre como o governo vai resolver a oscilação do preço. O que se veem são notícias publicadas diariamente na mídia sobre aumento e redução do preço da gasolina nas refinarias, o que não muda o cenário anterior à greve dos caminhoneiros para este combustível em específico.

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Reportagem produzida pelo acadêmico Eduardo Schneider para a disciplina de Jornalismo Investigativo do Curso de Jornalismo da UFN, durante o 1º semestre de 2018, sob orientação da profª Carla Torres.

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