Perspectivas literárias de resistência: o espaço das mulheres escritoras


Por Laura Antunes Gomes

 

Um romance. Em três partes. Escrito por uma dama. Foi com essa assinatura que Jane Austen publicou Orgulho e Preconceito na Inglaterra, no século XIX. Nessa época, os pseudônimos e as assinaturas anônimas deveriam ser adotados pelas escritoras que publicavam livros. Porém, não somente na Europa essa prática era comum. O primeiro romance abolicionista da literatura brasileira foi escrito por uma mulher. Maria Firmina dos Reis identificava-se como uma maranhense, e publicou Úrsula em 1859. O romance recebeu uma segunda edição, com o nome da autora, apenas em 1975. 

Livros escritos por mulheres. Foto: Denzel Valiente/LABFEM

“As mulheres entram na literatura com nomes masculinos para depois se revelarem. A sociedade não enxergava com bons olhos, pensava que eram mulheres muito avançadas, e, na verdade, eram!”, comenta Haydée Hostin Lima, poeta. Apesar da resistência e da presença das mulheres no ramo literário diminuir a adoção de pseudônimos e assinaturas anônimas, hoje ainda é possível perceber resquícios dessa prática. “Muitas mulheres assinam com pseudônimos masculinos para obterem mais aprovação do público e editoras. Ou seja, não é tão fácil ser mulher e fazer literatura, porque é como se não quisessem nos ouvir, mas a nossa voz é forte e poderosa”, relata Luciana Minuzzi, produtora editorial. 

Um exemplo é a autora de Harry Potter, Joanne Rowling, que foi orientada a identificar-se como J.K. para evitar que sua saga fosse restringida apenas a meninas. “Não há uma literatura própria deste ou daquele. Penso que uma das coisas que nos mostrou isso foi Harry Potter, pois meninos e meninas leram e se identificaram”, conta Nikelen Witter, escritora.

O espaço da mulher na literatura 

A identificação das autoras com seus respectivos nomes é apenas uma das formas de resistência das mulheres na literatura. A busca por espaço e voz em um ambiente predominantemente masculino ainda encontra diversos obstáculos. 

Segundo dados da Universidade de Brasília (UNB), mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras foram escritos por homens. A pesquisa compreende o período de 1965 a 2014 e foi realizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea. Além disso, cerca de 90% dos livros publicados foram escritos por pessoas brancas. Outros dados que o levantamento apurou foram acerca do protagonismo das personagens, que são na maioria homens, brancos e heterossexuais. 

As mulheres ainda não são maioria também nos espaços dedicados à literatura. No Brasil, apenas oito mulheres compõem a Academia Brasileira de Letras. Até os anos 70, uma prerrogativa do estatuto da academia impedia que mulheres fossem aceitas, pois exigia membros apenas do sexo masculino. Duas escritoras, Amélia Beviláqua e Dinah Silveira Queiroz foram rejeitadas com base nesse artigo. 

Rachel de Queiroz, primeira integrante da Academia Brasileira de Letras. Foto: Acervo Instituto Moreira Salles

A primeira mulher aceita foi Rachel de Queiroz, em 1977, precedida por Dinah Silveira de Queiroz, em 1980; Lygia Fagundes Telles, em 1985; Nélida Piñon, em 1989; Zélia Gattai, em 2001; Ana Maria Machado, em 2013; Cleonice Berardinelli, em 2009; e, por fim, Rosiska Darcy, em 2013. 

Do mesmo modo, nas premiações as mulheres são ofuscadas. O Prêmio Nobel de Literatura, existente desde 1901, contemplou apenas quatorze mulheres. A última premiada, em 2013, foi a escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, autora de A guerra não tem rosto de mulher, Vozes de Tchernóbil, O fim do homem soviético, entre outros livros. 

Diante do espaço reduzido das mulheres na literatura, em 2014, a escritora e ilustradora britânica Joanna Walsh criou a hashtag #readwomen2014. A iniciativa tinha o objetivo de fomentar a leitura de livros escritos por mulheres e tornou-se um movimento global. No Brasil, a ideia de Joanna foi adaptada para uma versão presencial em livrarias e espaços culturais. Assim, surgiu um dos maiores clubes de leitura do país, o Leia Mulheres, que visa a leitura de obras escritas por mulheres, das clássicas às contemporâneas. 

Escritoras santa-marienses: quantas você já leu? 

Em Santa Maria, mulheres escritoras estão conquistando cada vez mais espaço no universo literário. Luciana Minuzzi considera que para as mulheres, ocupar um espaço na literatura é um ato político. “Acredito que tenham mulheres escrevendo nos mais diversos ramos da literatura. Vemos desde as formas mais tradicionais de publicação até nos slams de poesia na rua. Nos eventos literários, também vejo muitas mulheres na organização e no público. Ou seja, estamos aí e estamos criando”, expõe a escritora.

Luciana, que já publicou contos com temática de terror e suspense em antologias, ressalta ainda que  é preciso incentivar que mais mulheres escrevam. Contudo, entende que ainda é um processo complicado: “para que escrevam, precisam de tempo e é algo que muitas mulheres não têm em razão das jornadas triplas de trabalho”. 

Escritora, historiada e professora Nikelen Witter. Foto: Denzel Valiente/LABFEM

A ficção científica e o fantástico fazem parte da escrita de Nikelen Witter, autora de três romances: Territórios Invisíveis, Guanabara Real e a Alcova da Morte, e Viajantes do Abismo. A professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) acredita que o maior papel da mulher na literatura hoje “é romper com filtros que contam a história da literatura, que marcam o que é cânone, e os que dizem que o leitor homem não vai se identificar com uma protagonista mulher”. 

A historiadora, que tem como inspiração Ursula Le Guin, Octavia Butler e Margaret Atwood, reforça que é necessário incentivar a escrita das mulheres. Segundo ela, “historicamente, as mulheres sempre leram mais. Penso que é um momento para se apoderar desse espaço. Não estou dizendo que as mulheres escreviam menos, pelo contrário, as mulheres sempre escreveram muito, mas nós nunca chegamos ao cânone porque temos uma tradição de apagar, silenciar e esquecer as mulheres”. 

A literatura produzida por Tania Lopes é diversificada e envolve livros infantis, romances, contos e crônicas gaúchas. A escritora e artista plástica conta que desde criança escrevia pequenos versos. Natural de Itaqui, publicou o primeiro livro quando se mudou para Santa Maria. Integrante da Academia Santa-Mariense de Letras, acredita que existe uma representação forte das mulheres escritoras na cidade, tanto na universidade, quanto na parte criativa, de romances. 

Escritora e artista plástica Tania Lopes. Foto: Denzel Valiente/LABFEM

Tania, que foi patronesse da Feira do Livro de Santa Maria em 2004, relata que sempre escreveu em conjunto com homens: “Fui convidada a escrever um livro sobre os dez mandamentos, no qual era a única mulher. O livro era coletivo, um começava e passava para o outro. Quando recebi, os protagonistas, até então, eram advogado e professor de universidade. Pensei que estava muito elitista, então coloquei uma faxineira de protagonista”. 

Além disso, a artista plástica revela que o papel da mulher é essencial na literatura. “Ninguém escreve isenta de alguma coisa que viveu. Então, é necessário que as mulheres escrevam. A mulher cria, sofre, ama, desama, porque não colocar essas realidades na literatura?”, questiona a escritora. 

A poeta Haydée Hostin Lima é representante da Academia Santa Mariense de Letras e da Casa do Poeta. Autora de quatro livros, Coração Guepardo, O Telhado de Vidro, Tatuagem, Birds e diversas antologias, em 2015 foi patronesse da Feira do Livro de Santa Maria. Sobre as entidades, Haydée relata que ambas realizam encontros mensais (Academia) e semanais (Casa do Poeta). Enquanto todo o anos a Academia organiza o livro Prosa em Verso, na Casa do Poeta é estruturado o Elas por Elas, livro exclusivo com poesias das mulheres que fazem parte da Casa.

Livros de Tania Lopes. Foto: Denzel Valiente/LABFEM

Outras perspectivas sendo lidas em conjunto 

Aliando a prática da leitura e a representatividade da mulher na literatura, Monalisa Dias e Débora Leitão criaram o clube de leitura Bem Ditas. A diversidade de autoras, temas e estilos literários permeia a política de escolha dos livros do clube, que promove encontros desde 2017, no terceiro sábado do mês, no Salu’s Casa e Café. Até o momento, foram lidas 29 escritoras. Os encontros são organizados pelo grupo no Facebook (Bem Ditas – Clube de Leitura) e são abertos ao público que tem interesse. 

29º encontro do Bem Ditas sobre o livro Mamãe & Eu & Mamãe, de Maya Angelou. Foto: Bem Ditas Clube de Leitura.

Monalisa acredita que o papel da mulher na literatura é trazer outras perspectivas. “Tivemos durante tantos anos uma história que é contatada por homens brancos e europeus. Penso que mulheres de diferentes lugares do mundo têm contado suas histórias a partir de outros pontos de vista. Então, é importante que tenhamos outras escritas e outras histórias contadas, e que as mulheres consigam espaço na sociedade para escrever, publicar e serem lidas”, esclarece a antropóloga. 

A pesquisadora e professora da UFSM ainda relata que o principal benefício do clube é conseguir incluir um tempo de leitura de literatura na rotina e conhecer mulheres que escrevem de diversos lugares do mundo. “O clube é uma motivação, porque é muito bacana você ler um livro e querer falar sobre ele, e chegar em um lugar e encontrar vinte, trinta pessoas que leram, e trocar uma ideia. As pessoas podem conhecer mais mulheres e verem toda a potencialidade que a gente tem para escrever. E também criar mais um espaço de sociabilidade em Santa Maria”, alegra-se Monalisa. 

Se você tem interesse em ler mais livros escritos por mulheres pode começar pela  Coleção Folha Mulheres na Literatura. Renomadas escritoras compõem a coleção, como Clarice Lispector, Lya Luft, Mary Shelly, entre outras do Brasil e do mundo. Também pode acessar a Livraria Africanidades, especializada em literatura afro-brasileira, e encontrar títulos de Alice Walker, Angela Davis, Bell Hooks, entre outras. 

Texto produzido na disciplina de Jornalismo III, no 2º semestre de 2019, e supervisionado pela professora Glaíse Palma.

Sobre o autor:

Laura Antunes Gomes

Acadêmica de Jornalismo na Universidade Franciscana (UFN).

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