Uma resistência nacional chamada Cinema


Por Emanuely Guterres

 

Foto: Ancine

O cinema, que durante o atual governo  se envolveu com polêmicas como as mudanças na Ancine e o corte de verbas para produções com temáticas LGBT+, esteve presente no tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2019, que  tratou sobre a “Democratização do acesso ao cinema no Brasil” e dividiu opiniões entre os jovens que realizaram a prova. Falar sobre o acesso ao cinema no Brasil, abriu espaço para uma discussão que engloba as políticas públicas aplicadas atualmente para os setores da comunicação e da cultura, afinal, ano passado,  o audiovisual brasileiro sofreu com censuras, ameaças e o corte de verbas. Por conta disso, a proposta de discussão sobre o assunto não mostrou, apenas, a centralidade do fato, mas também sua importância no cotidiano da população brasileira.

A questão que o tema da redação abordou ultrapassa a existência de cinemas nas cidades, embora ela traduza um cenário desolador: conforme dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), em 1975 existiam no Brasil cerca de 3.156 salas de cinema, já em 1997 havia apenas 1.075 salas. Esse número teve um crescimento em 1998, chegando a 3.337 salas em 2018. Porém, o que essa pesquisa revela é o crescimento de salas de cinema concentrada em áreas de renda mais alta dos grandes centros urbanos, principalmente em shopping centers.

Desse contexto, se percebem consequências:  a queda da produção e  exibição de filmes nacionais  e a extinção da Empresa Brasileira de Filmes Sociedade Anônima, conhecida como Embrafilme, em 1990. A Embrafilme foi uma empresa de economia mista estatal brasileira produtora e distribuidora de filmes cinematográficos, vinculada ao Ministério da Educação e Cultura e como braço do Instituto Nacional do Cinema (INC). A Embrafilme funcionava com um orçamento médio anual e chegou a lançar anualmente cerca de 25 filmes, assim, ajudando a colocar no mercado mais de 200 filmes brasileiros entre 1969 e 1990. Também no final da década de 80, a campanha da oposição acusando a empresa de clientelismo, teve intuito de convencer a opinião pública de que o cinema não devia ser matéria de Estado. Assim, em 16 de março de 1990 a Embrafilme foi extinta sem a abertura de qualquer processo administrativo que pudesse orientar sua missão, pelo Programa Nacional de Desestatização (PND), do governo de Fernando Collor de Melo. Esse ambiente foi determinante para a  produção de cinema no Brasil passar por dificuldades, sem apoio ou sequer auxílio do Estado, além do fechamento dos cinemas das cidades do interior.

Esse conjunto de dados históricos sobre o cinema no País foi referência para que a redação do Enem fosse elaborada bem como a reflexão sobre o acesso de quem tem condição de frequentar uma sala de cinema atualmente. Afinal,  também as questões que envolvem os valores que são cobrados para uma pessoa assistir  um filme numa sala de cinema em um shopping center excluiu, de alguma foram, os mais desfavorecidos economicamente. A partir desses fatores, o cinema nacional tomou atitudes para não perder sua essência, dentre elas: exibições itinerantes,  projetos pensados na valorização da produção nacional e ingresso acessível, pois democratizar é  filmes brasileiros acessíveis ao grande público e prestigiados pela nação.

Em Santa Maria

Foto ilustrativa do SMVC. Foto: divulgação

Em Santa Maria, a realização de atividades que envolvem o audiovisual são frequentes, porém carentes de público. Um dos grandes precursores da iniciativa de valorizar e expor obras cinematográficas de maneira itinerante e aberta ao público foi o Santa Maria Vídeo e Cinema (SMVC), um festival que acontece por muitos anos na cidade. Luciano do Monte Ribas e Luiz Alberto Cassol são alguns dos organizadores do SMVC e são dois profissionais  ligados ao cinema de Santa Maria e região. Eles relatam que o Festival teve sua primeira edição em 2002 e foi organizado pela Prefeitura Municipal de Santa Maria, durante a gestão do ex-prefeito Valdeci Oliveira.

O SMVC envolve mostras competitivas e não-competitivas de filmes nacionais, realiza oficinas, promove debates e demais atividades relacionadas ao cinema. Um projeto que tem como objetivo, acima de tudo, a democratização do acesso ao audiovisual, bandeira incorporada ao discurso e as ações desde a primeira edição.

O Festival, que já existe há 17 anos e realizou 13 edições, busca reconhecer e incentivar a produção brasileira de curtas-metragens, especialmente de Santa Maria e do Rio Grande do Sul. “Santa Maria é o segundo polo audiovisual do RS e um dos principais do sul do país. Produz mais de 20 curtas-metragens por ano, além de formar, exportar e oferecer mercado para dezenas de profissionais que atuam tanto em produções artísticas quanto em comerciais”, comenta Luciano.

Foto: arquivo ACS

Desse modo, eles ressaltam a necessidade do  audiovisual ser visto pelo poder público e pelos detentores do poder econômico como um caminho para ajudar no desenvolvimento da cidade e  sua promoção, como percebeu-se  nas diferentes atividades realizadas nas 13 edições do festival. Herdeiro da tradição cineclubista de Santa Maria, a partir do exemplo do CineClube Lanterninha Aurélio, da Cesma, o SMVC tem desde seus primeiros passos, a missão de defender o acesso de toda as pessoas à produção de cinema e ao audiovisual como um todo.

Em 2020, o SMVC realizará suas atividades em torno do tema “memória”, em diálogo com grupos, coletivos, instituições e pessoas da cidade e do país que se preocupam com o resgate e a preservação dos nossos patrimônios e das nossas histórias. O festival irá acontecer de 24 a 29 de novembro de 2020.

Foto: divulgação

A cidade conta, ainda, com o  Cineclube da Boca,  outro  projeto que apresenta os mesmos interesses do SMVC.  Trata-se de  um projeto de extensão universitária vinculado ao curso de Gestão de Turismo da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), com o apoio da Pró Reitoria de Extensão, TV OVO e a Cesma. O Cineclube é voltado aos espaços de sociabilidade e de formação cultural viabilizados pela experiência cineclubista.

Tendo início em 2016, ocupando o auditório do prédio 67 do campus da UFSM, já exibiu mais de 70 sessões e mais de 200 filmes através de mostras, ciclos, festivais, nacional e local. A equipe é composta por universitários, servidores da universidade e voluntários. A organização do Cineclube da Boca permite que o publico ligado ao cinema possa participar  das sessões e na própria proposição dos conteúdos a serem exibidos.

Gilvan Veiga Dockhorn, coordenador do Cineclube, relata que há uma vasta produção de cinema e audiovisual de qualidade em vários gêneros, formatos, estilos e narrativas no país, mas que não encontra vazão na estrutura de distribuição e, sobretudo, nos mecanismos de acesso à circuitos de exibição. Sem o incentivo a criação de espaços para acesso da maioria da população, não há cinema nacional que represente adequadamente a diversa e vasta produção que surge a cada ano. Desse modo, espaços como o Cineclube da Boca se tornam representantes culturais nesse  momento  precário de apoio. O Cineclube da Boca mantêm exibições semanais, todas às quintas, 19h, de forma gratuita, mantendo o  intuito de promover momentos  igualitários e de valorização do cinema nacional.

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