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1984 – a atualidade do filme de Orwell

 O filme 1984 é uma adaptação do livro homônimo escrito por Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu pseudônimo, George Orwell. O longa-metragem foi realizado no mesmo ano do título da ficção, dirigido por Michael Radford, o elenco conta com a presença do ator John Hurt e Suzanna Hamilton, que interpretam o casal que se envolve romanticamente em um mundo onde o sexo e outros prazeres são considerados crime para o Estado que governa o mundo.

A imagem de poder no filme é representada pelo ditador onipresente chamado de Grande Irmão, que, através de câmeras em vários pontos escondidos da cidade, observa a tudo e a todos, sempre na tentativa de manter a ordem.

Muitas pessoas defendem que uma boa ficção-científica deve ser um retrato filosófico sobre a sociedade de sua época. Neste caso, tanto o livro quanto o filme conseguem estabelecer um questionamento rico e engajado sobre a sociedade em que o autor se encontrava. O livro foi escrito em 1948, numa Inglaterra pós-Segunda Guerra Mundial.

Não precisa muito para perceber as relações do mundo criado por Orwell com a realidade em que ele vivia, pois a sua obra representava um reflexo cruel de uma época em que a inocência havia sido perdida, o país estava numa miséria, o que refletia em seu povo. Não é a toa que os crimes da história sejam coisas simples, como tráfico de chocolate, geleia, comidas, necessidades humanas, que muitas vezes eram luxo para várias pessoas desse contexto histórico.

A ciência do filme é usada exclusivamente para dominar a sociedade. Qualquer avanço científico é usado pelo Estado para estabelecer mais e mais o contexto totalitário da obra, câmeras são usadas para observar o povo, as pessoas trabalham em fábricas que constroem bombas, toda forma de conhecimento é usada para manipular e condicionar a população. É o Totalitarismo em sua forma mais cruel.

Até o alfabeto é encarado como um problema no filme. Dentro do universo criado pelo autor, existem profissionais que estudam um método de diminuir o número de letras apenas para vogais, para que as pessoas não possam se entender, e se elas não se entendem, não podem planejar, conversar, e principalmente, conspirar.

Em um determinado momento no filme, o casal de protagonistas se encontram secretamente em uma sala onde eles fazem planos, discutem suas necessidades,  encontram livros antigos, proibidos, uma série de materiais que eles aprendem a usar e a ler. Materiais que trazem o maior de todos os crimes, o conhecimento.

Tanto o autor como  o diretor criaram algo muito ousado em termos científicos. Toda a ciência é referida de maneira mais caricata do que realista, mas nunca soa falsa, sempre aparece de maneira orgânico. O universo diegético do filme convence graças à forma com que o diretor explora os conceitos do livro.

Talvez o conceito mais interessante criado por Orwell (e explorado com muita eficácia no filme) seja o do Grande Irmão. Ele surge praticamente como uma entidade, com um rosto humano dentro de uma tela de televisão. Talvez essa seja a crítica mais assustadora e genial que ele tenha pensado, principalmente devido ao contexto em que ele se encontrava.

Não é difícil pensar em metáforas para o Grande Irmão. Ele pode ser visto como um aviso do autor sobre a nossa atual mídia, pois ao longo dos anos um dos crimes da obra de Orwell se tornou uma das moedas de troca mais importantes no nosso mundo globalizado, a informação.

Eu acreditava que o programa mais irônico da Rede Globo era justamente o Big Brother Brasil, mas eis que surge Na Moral, onde o ex-apresentador do “BBB”, Pedro Bial, comanda todas as semanas uma discussão sobre assuntos polêmicos. No segundo episódio do programa, Bial discute (ou pelo menos finge discutir) a invasão de privacidade que algumas pessoas “comuns” e “celebridades” sofrem – desde uma professora que instala câmeras de vigilância numa escola particular até atores globais que sofrem perseguições constantes de paparazzi. Mas a todo instante em que o programa parecia se dirigir para uma discussão calcada na razão e nas argumentações, o apresentador fazia questão de manter a polêmica e se desviar de questionamentos que realmente poderiam fazer alguma diferença para este assunto. Assim, o Grande Irmão existe, não da maneira caricata e totalitária que Orwell imaginava (pelo menos por enquanto), mas de uma maneira “idiocrata”.

A televisão que poderia nos ensinar a criticar com argumentos os nossos governantes, acaba por nos confundir e nos desinformar. Em tempos de “BBB” e Na Moral, as pessoas deveriam ler ou olhar o filme 1984 para, pelo menos, terem uma noção de onde vieram as origens de algumas ideias e títulos da nossa programação de TV aberta.

Matheus C. do Prado é acadêmico do curso de Jornalismo da Unifra.

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Uma resposta

  1. Nunca me senti tão ameaçado por um sistema totalitário como nos dias atuais (eu vivi o período da ditadura militar).
    É tudo muito sutil e alienante. As pessoas estão perdendo o direito e a capacidade de pensar… de buscar novas explicações e alternativas.
    Minha única esperança real é de que os dirigentes deste processo briguem entre si e aí as pessoas despertem.

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 O filme 1984 é uma adaptação do livro homônimo escrito por Eric Arthur Blair, mais conhecido pelo seu pseudônimo, George Orwell. O longa-metragem foi realizado no mesmo ano do título da ficção, dirigido por Michael Radford, o elenco conta com a presença do ator John Hurt e Suzanna Hamilton, que interpretam o casal que se envolve romanticamente em um mundo onde o sexo e outros prazeres são considerados crime para o Estado que governa o mundo.

A imagem de poder no filme é representada pelo ditador onipresente chamado de Grande Irmão, que, através de câmeras em vários pontos escondidos da cidade, observa a tudo e a todos, sempre na tentativa de manter a ordem.

Muitas pessoas defendem que uma boa ficção-científica deve ser um retrato filosófico sobre a sociedade de sua época. Neste caso, tanto o livro quanto o filme conseguem estabelecer um questionamento rico e engajado sobre a sociedade em que o autor se encontrava. O livro foi escrito em 1948, numa Inglaterra pós-Segunda Guerra Mundial.

Não precisa muito para perceber as relações do mundo criado por Orwell com a realidade em que ele vivia, pois a sua obra representava um reflexo cruel de uma época em que a inocência havia sido perdida, o país estava numa miséria, o que refletia em seu povo. Não é a toa que os crimes da história sejam coisas simples, como tráfico de chocolate, geleia, comidas, necessidades humanas, que muitas vezes eram luxo para várias pessoas desse contexto histórico.

A ciência do filme é usada exclusivamente para dominar a sociedade. Qualquer avanço científico é usado pelo Estado para estabelecer mais e mais o contexto totalitário da obra, câmeras são usadas para observar o povo, as pessoas trabalham em fábricas que constroem bombas, toda forma de conhecimento é usada para manipular e condicionar a população. É o Totalitarismo em sua forma mais cruel.

Até o alfabeto é encarado como um problema no filme. Dentro do universo criado pelo autor, existem profissionais que estudam um método de diminuir o número de letras apenas para vogais, para que as pessoas não possam se entender, e se elas não se entendem, não podem planejar, conversar, e principalmente, conspirar.

Em um determinado momento no filme, o casal de protagonistas se encontram secretamente em uma sala onde eles fazem planos, discutem suas necessidades,  encontram livros antigos, proibidos, uma série de materiais que eles aprendem a usar e a ler. Materiais que trazem o maior de todos os crimes, o conhecimento.

Tanto o autor como  o diretor criaram algo muito ousado em termos científicos. Toda a ciência é referida de maneira mais caricata do que realista, mas nunca soa falsa, sempre aparece de maneira orgânico. O universo diegético do filme convence graças à forma com que o diretor explora os conceitos do livro.

Talvez o conceito mais interessante criado por Orwell (e explorado com muita eficácia no filme) seja o do Grande Irmão. Ele surge praticamente como uma entidade, com um rosto humano dentro de uma tela de televisão. Talvez essa seja a crítica mais assustadora e genial que ele tenha pensado, principalmente devido ao contexto em que ele se encontrava.

Não é difícil pensar em metáforas para o Grande Irmão. Ele pode ser visto como um aviso do autor sobre a nossa atual mídia, pois ao longo dos anos um dos crimes da obra de Orwell se tornou uma das moedas de troca mais importantes no nosso mundo globalizado, a informação.

Eu acreditava que o programa mais irônico da Rede Globo era justamente o Big Brother Brasil, mas eis que surge Na Moral, onde o ex-apresentador do “BBB”, Pedro Bial, comanda todas as semanas uma discussão sobre assuntos polêmicos. No segundo episódio do programa, Bial discute (ou pelo menos finge discutir) a invasão de privacidade que algumas pessoas “comuns” e “celebridades” sofrem – desde uma professora que instala câmeras de vigilância numa escola particular até atores globais que sofrem perseguições constantes de paparazzi. Mas a todo instante em que o programa parecia se dirigir para uma discussão calcada na razão e nas argumentações, o apresentador fazia questão de manter a polêmica e se desviar de questionamentos que realmente poderiam fazer alguma diferença para este assunto. Assim, o Grande Irmão existe, não da maneira caricata e totalitária que Orwell imaginava (pelo menos por enquanto), mas de uma maneira “idiocrata”.

A televisão que poderia nos ensinar a criticar com argumentos os nossos governantes, acaba por nos confundir e nos desinformar. Em tempos de “BBB” e Na Moral, as pessoas deveriam ler ou olhar o filme 1984 para, pelo menos, terem uma noção de onde vieram as origens de algumas ideias e títulos da nossa programação de TV aberta.

Matheus C. do Prado é acadêmico do curso de Jornalismo da Unifra.