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Entrevista: até onde o humor nos leva no trânsito?

Para a especialista Salete Romero,  atrás do volante o motorista se sente mais poderoso. Foto: arquivo.

Em entrevista a Agência Central Sul, a especialista em Psicologia do Trânsito, Salete Romero, fala sobre agressividade no trânsito, os problemas gerados e a falta de respeito com o espaço coletivo.

 

Central Sul: O motorista se sente superior quando está ao volante, por quê?

Sim, uma condição de superioridade é assumida quando de posse de um volante ou de um guidão de um veículo automotor, qualquer que ele seja, porque ele dá uma possibilidade de ascensão, mesmo que momentânea.

Quanto maior ou mais potente é esse veículo, mais poderoso se sente o condutor. E, com essa sensação de superioridade ele se sente como alguém que é “mais que o outro”, e isso implica diretamente na maneira como ele vê o outro no trânsito: como alguém que merece um respeito maior (se o veículo for maior), ou se não merece atenção nenhuma (como alguém que tem veículos mais velhos, ou menores ou ainda que não tem, como o pedestre).

 

CS: Por que as pessoas ficam mais agressivas no trânsito?

Porque o veículo automotor é o bem que mais dá a sensação de poder ao ser humano. No imaginário de muitos, isso fará dele uma pessoa superior a outra. Mas o carro – esse objeto de desejo de muitos, inclusive dos que ocupam o transporte público — são responsáveis por vários problemas no nosso cotidiano, congestionamentos que geram perdas de tempo, de dinheiro, de qualidade de vida e geram inclusive o stress.

 

CS – É cada vez mais comum termos engarrafamentos nas grandes cidades brasileiras. Em que aspectos eles contribuem para a agressividade no trânsito? 

A perda de tempo nos engarrafamentos, cada vez mais comum no dia a dia do brasileiro, vai coibindo aquela sensação de poder, quando da compra de um veículo cada vez mais potente para os condutores. Ao ficar por horas parado em um congestionamento com um veículo projetado para alcançar cada vez mais velocidade, a frustração, a impotência vão se tornando elementos psicologicamente controversos, contribuindo para uma irritabilidade que pode gerar vários outros problemas.


CS: Que tipos de problemas eles geram?

Discussões e brigas com outros participantes do trânsito são um pequeno reflexo de doenças causadas por essa impotência de não conseguir alcançar o seu destino com um veículo em que gastou muito dinheiro ao comprá-lo mas, no dia a dia, não consegue cumprir sua função: o deslocamento.

A irritabilidade individual vai, assim, se acentuando e grande parte das cidades do nosso país já está em estado de alerta com relação ao número de acidentes que ocorrem nesse conflito: a disputa de espaço, não só entre os veículos de passeio, mas todos os tipos de veículos como caminhões, ônibus, motocicletas e bicicletas, somada à convivência com as pessoas fora desses veículos – conhecidos como pedestres, constituem o cenário insano do cotidiano nosso de mobilidade  exaurido.

Sem orientação nenhuma sobre o uso do espaço público e das regras existentes para uma locomoção segura nesse quadro, os índices de acidentes vem aumentado assim como a insegurança nessas relações em função da violência resultado de tanta insatisfação com um direito que deveria ser assegurado a todos: o direito de ir e vir com o mínimo de fluidez e o máximo de segurança.

 

CS – Podemos dizer que as relações no trânsito reproduzem as relações humanas de um modo geral?

O trânsito é uma relação social e a gente se influencia, a gente se contamina com a pressão do outro nessa relação. Muitas vezes, uma reclamação, um gesto, uma buzina, faz com que eu tenha uma reação inesperada e que eu mesmo me surpreenda.

Uma pessoa tranquila, no decorrer de algum tempo em trânsito, não necessariamente em congestionamento, pode ter uma atitude mais grosseira. Hoje podemos perceber que a nossa locomoção está se tornando algo cada vez mais sofrida.

Tudo isso, somado a uma sociedade cada vez mais competitiva, reflete em um comportamento mais desrespeitoso porque, através do veículo as pessoas se mascaram através da massa metálica. As pessoas não furam fila no atendimento de um banco ou do supermercado, mas, com o veículo elas se sentem protegidas de se mostrarem e na agilidade que este veículo apresenta, contribui cada vez mais uma sociedade individualista que é o retrato de nossa sociedade contemporânea.

 

Por Maurício Lavarda

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Uma resposta

  1. Muito boa essa reportagem. Quem sabe conhecendo os fatores que desencadeiam toda essa situação caótica, possamos nos prevenir de desgastes desnecessários.

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Para a especialista Salete Romero,  atrás do volante o motorista se sente mais poderoso. Foto: arquivo.

Em entrevista a Agência Central Sul, a especialista em Psicologia do Trânsito, Salete Romero, fala sobre agressividade no trânsito, os problemas gerados e a falta de respeito com o espaço coletivo.

 

Central Sul: O motorista se sente superior quando está ao volante, por quê?

Sim, uma condição de superioridade é assumida quando de posse de um volante ou de um guidão de um veículo automotor, qualquer que ele seja, porque ele dá uma possibilidade de ascensão, mesmo que momentânea.

Quanto maior ou mais potente é esse veículo, mais poderoso se sente o condutor. E, com essa sensação de superioridade ele se sente como alguém que é “mais que o outro”, e isso implica diretamente na maneira como ele vê o outro no trânsito: como alguém que merece um respeito maior (se o veículo for maior), ou se não merece atenção nenhuma (como alguém que tem veículos mais velhos, ou menores ou ainda que não tem, como o pedestre).

 

CS: Por que as pessoas ficam mais agressivas no trânsito?

Porque o veículo automotor é o bem que mais dá a sensação de poder ao ser humano. No imaginário de muitos, isso fará dele uma pessoa superior a outra. Mas o carro – esse objeto de desejo de muitos, inclusive dos que ocupam o transporte público — são responsáveis por vários problemas no nosso cotidiano, congestionamentos que geram perdas de tempo, de dinheiro, de qualidade de vida e geram inclusive o stress.

 

CS – É cada vez mais comum termos engarrafamentos nas grandes cidades brasileiras. Em que aspectos eles contribuem para a agressividade no trânsito? 

A perda de tempo nos engarrafamentos, cada vez mais comum no dia a dia do brasileiro, vai coibindo aquela sensação de poder, quando da compra de um veículo cada vez mais potente para os condutores. Ao ficar por horas parado em um congestionamento com um veículo projetado para alcançar cada vez mais velocidade, a frustração, a impotência vão se tornando elementos psicologicamente controversos, contribuindo para uma irritabilidade que pode gerar vários outros problemas.


CS: Que tipos de problemas eles geram?

Discussões e brigas com outros participantes do trânsito são um pequeno reflexo de doenças causadas por essa impotência de não conseguir alcançar o seu destino com um veículo em que gastou muito dinheiro ao comprá-lo mas, no dia a dia, não consegue cumprir sua função: o deslocamento.

A irritabilidade individual vai, assim, se acentuando e grande parte das cidades do nosso país já está em estado de alerta com relação ao número de acidentes que ocorrem nesse conflito: a disputa de espaço, não só entre os veículos de passeio, mas todos os tipos de veículos como caminhões, ônibus, motocicletas e bicicletas, somada à convivência com as pessoas fora desses veículos – conhecidos como pedestres, constituem o cenário insano do cotidiano nosso de mobilidade  exaurido.

Sem orientação nenhuma sobre o uso do espaço público e das regras existentes para uma locomoção segura nesse quadro, os índices de acidentes vem aumentado assim como a insegurança nessas relações em função da violência resultado de tanta insatisfação com um direito que deveria ser assegurado a todos: o direito de ir e vir com o mínimo de fluidez e o máximo de segurança.

 

CS – Podemos dizer que as relações no trânsito reproduzem as relações humanas de um modo geral?

O trânsito é uma relação social e a gente se influencia, a gente se contamina com a pressão do outro nessa relação. Muitas vezes, uma reclamação, um gesto, uma buzina, faz com que eu tenha uma reação inesperada e que eu mesmo me surpreenda.

Uma pessoa tranquila, no decorrer de algum tempo em trânsito, não necessariamente em congestionamento, pode ter uma atitude mais grosseira. Hoje podemos perceber que a nossa locomoção está se tornando algo cada vez mais sofrida.

Tudo isso, somado a uma sociedade cada vez mais competitiva, reflete em um comportamento mais desrespeitoso porque, através do veículo as pessoas se mascaram através da massa metálica. As pessoas não furam fila no atendimento de um banco ou do supermercado, mas, com o veículo elas se sentem protegidas de se mostrarem e na agilidade que este veículo apresenta, contribui cada vez mais uma sociedade individualista que é o retrato de nossa sociedade contemporânea.

 

Por Maurício Lavarda