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Santa Maria, RS, Brazil

Narciso acha feio o que não é espelho

Observatório da mídia CS-02Os Jogos Paraolímpicos não estão envoltos pelo “glamour” que a grande mídia destinou aos Jogos Olímpicos, ainda que ocorram desde 1960, ano da sua primeira realização em Roma, na Itália. Longe disso! O esquema de transmissão das Paraolimpíadas 2016 na TV e na internet se mostra muito menor do que o realizado durante as Olimpíadas,  apesar do Brasil ter se destacado de modo ascendente nas últimas edições destes jogos.

Em 2004, em Atenas, o país levou 98 paratletas que ganharam 33 medalhas, enquanto os 247 atletas olímpicos voltaram 20 dias antes, com apenas 10 medalhas e foram recebidos por uma mídia efusiva e barulhenta.  Na edição seguinte dos jogos, em 2008, na cidade de Pequim, o Brasil ficou em nono lugar e entre os primeiros dez colocados no quadro de medalhas com 47 vitórias  e, em 2012, em Londres, obteve 43 medalhas e o sétimo lugar no ranking mundial. Nesta edição dos Jogos Paraolímpicos Rio2016  a TV aberta recuou na transmissão. Apenas o canal da Tv Brasil está acompanhando integralmente os jogos. A Tv Globo vem fazendo flashes em alguns dos seus programas e exibiu um compacto da abertura, enquanto a Record, o SBT e a Bandeirantes limitaram-se à cobertura jornalística. Quem tem Tv a cabo, canal pago, acessa pela Sportv que faz a transmissão em seus diferentes canais.  Um conjunto de ações que se mostra em nada, se comparado à divulgação exaustiva das Olimpíadas.

O por quê disso? Para além do marketing e do reconhecimento do paraesporte – o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), tem trabalhado fortemente a busca de patrocínio -, há a questão da cultura e das produções de sentido que as estratégias midiáticas acionam.

Ao se observar o contexto desigual das transmissões é possível pensar que a mídia estabelece um paradoxo entre os dois tipos de jogos: as Olímpiadas representam a sociedade idealizada, do gozo, da perfeição dos corpos, do alto rendimento, da disputa e do sucesso; já as Paraolimpíadas exigem que se olhe a deficiência,  o limite,  a exclusão,  a fragmentação,  a necessidade de superação como condição de sobrevivência.

Quem assistiu a abertura dos Jogos Paraolímpicos, belíssima, não deixou de se ver defrontado com o Outro, com o diferente habitualmente oculto. Eles entraram e eram muito mais heterogêneos do que as suas nacionalidades e etnias. Eram muitas corporeidades a manifestar a sua singularidade não camuflável. Não mais as equipes de corpos perfeitos de poucos dias atrás, mas aquelas cujos corpos foram mutilados, desfigurados  que, de repente, surgem muito mais  numerosos ( e poderosos) do que se imagina.

Se a imagem do paratleta perturba, é porque ela devolve, em espelho, a imagem da deficiência, da fragilidade da existência vivida por cada um, testemunhada nas marcas do corpo.  O deficiente é a própria encarnação da assimetria, do desequilíbrio, da disfunção. Revela-se como o oposto da perfeição tão cultuada no mundo ocidental, representada pelo atleta olímpico e propagada pela mídia.  O atleta com deficiência é o sobrevivente que traz as marcas da catástrofe. Pior, representa, de modo explícito, a fatalidade que acena, ameaça, ronda enquanto perigo potencial capaz de romper as bases de uma existência que está comodamente assentada.

A visibilidade midiática pode ser entendida como espaço de negociação de sentidos da sociedade. Sabe-se que suas representações interferem nas percepções individuais e coletivas do mundo, ainda que o ato de “olhar” nunca seja linear, porque multidimensional. No entanto, é possível perguntar em que medida a lógica midiática tem desviado, e se desviado, de temas nevrálgicos, capazes de levar à reflexão e à mudança social.

A mídia expõe e oculta, classifica e ignora, eleva e oculta, permanentemente, em diferentes níveis e contextos.  O fez durante os Jogos Olímpicos, elegendo os seus prediletos, esportes e atletas. Ocultou muitos outros. Volta a fazer novamente, de modo mais pernicioso porque quando não oculta, minimiza a condição da diferença. O modo como representa os paratletas envolve a compaixão, na medida em que os tornam símbolos de “superação”.  Sujeitos sobreviventes, readaptados numa sociedade pautada pela ideia de “normalidade”, em defesa da ordem vigente.

Ora, não se trata de solidariedade e sim, de confiança e respeito pelo diferente. Envolve uma questão ética que no campo do jornalismo, em particular, exige que se vá além do apelo emocional e se desdobre numa cobertura efetiva e equânime. Afinal, com exceção desta parca cobertura das Paraolimpíadas, a transmissão do paraesporte em competições importantes para o país praticamente não existe. Paratletas não são pautados. Será porque Narciso acha feio o que não é espelho, como diz a música do Caetano Veloso?

eu

Rosana C. Zucolo  é jornalista e mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Maria e doutora em Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Atualmente é  professora adjunta no Centro Universitário Franciscano e uma das editoras da ACS.

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Observatório da mídia CS-02Os Jogos Paraolímpicos não estão envoltos pelo “glamour” que a grande mídia destinou aos Jogos Olímpicos, ainda que ocorram desde 1960, ano da sua primeira realização em Roma, na Itália. Longe disso! O esquema de transmissão das Paraolimpíadas 2016 na TV e na internet se mostra muito menor do que o realizado durante as Olimpíadas,  apesar do Brasil ter se destacado de modo ascendente nas últimas edições destes jogos.

Em 2004, em Atenas, o país levou 98 paratletas que ganharam 33 medalhas, enquanto os 247 atletas olímpicos voltaram 20 dias antes, com apenas 10 medalhas e foram recebidos por uma mídia efusiva e barulhenta.  Na edição seguinte dos jogos, em 2008, na cidade de Pequim, o Brasil ficou em nono lugar e entre os primeiros dez colocados no quadro de medalhas com 47 vitórias  e, em 2012, em Londres, obteve 43 medalhas e o sétimo lugar no ranking mundial. Nesta edição dos Jogos Paraolímpicos Rio2016  a TV aberta recuou na transmissão. Apenas o canal da Tv Brasil está acompanhando integralmente os jogos. A Tv Globo vem fazendo flashes em alguns dos seus programas e exibiu um compacto da abertura, enquanto a Record, o SBT e a Bandeirantes limitaram-se à cobertura jornalística. Quem tem Tv a cabo, canal pago, acessa pela Sportv que faz a transmissão em seus diferentes canais.  Um conjunto de ações que se mostra em nada, se comparado à divulgação exaustiva das Olimpíadas.

O por quê disso? Para além do marketing e do reconhecimento do paraesporte – o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), tem trabalhado fortemente a busca de patrocínio -, há a questão da cultura e das produções de sentido que as estratégias midiáticas acionam.

Ao se observar o contexto desigual das transmissões é possível pensar que a mídia estabelece um paradoxo entre os dois tipos de jogos: as Olímpiadas representam a sociedade idealizada, do gozo, da perfeição dos corpos, do alto rendimento, da disputa e do sucesso; já as Paraolimpíadas exigem que se olhe a deficiência,  o limite,  a exclusão,  a fragmentação,  a necessidade de superação como condição de sobrevivência.

Quem assistiu a abertura dos Jogos Paraolímpicos, belíssima, não deixou de se ver defrontado com o Outro, com o diferente habitualmente oculto. Eles entraram e eram muito mais heterogêneos do que as suas nacionalidades e etnias. Eram muitas corporeidades a manifestar a sua singularidade não camuflável. Não mais as equipes de corpos perfeitos de poucos dias atrás, mas aquelas cujos corpos foram mutilados, desfigurados  que, de repente, surgem muito mais  numerosos ( e poderosos) do que se imagina.

Se a imagem do paratleta perturba, é porque ela devolve, em espelho, a imagem da deficiência, da fragilidade da existência vivida por cada um, testemunhada nas marcas do corpo.  O deficiente é a própria encarnação da assimetria, do desequilíbrio, da disfunção. Revela-se como o oposto da perfeição tão cultuada no mundo ocidental, representada pelo atleta olímpico e propagada pela mídia.  O atleta com deficiência é o sobrevivente que traz as marcas da catástrofe. Pior, representa, de modo explícito, a fatalidade que acena, ameaça, ronda enquanto perigo potencial capaz de romper as bases de uma existência que está comodamente assentada.

A visibilidade midiática pode ser entendida como espaço de negociação de sentidos da sociedade. Sabe-se que suas representações interferem nas percepções individuais e coletivas do mundo, ainda que o ato de “olhar” nunca seja linear, porque multidimensional. No entanto, é possível perguntar em que medida a lógica midiática tem desviado, e se desviado, de temas nevrálgicos, capazes de levar à reflexão e à mudança social.

A mídia expõe e oculta, classifica e ignora, eleva e oculta, permanentemente, em diferentes níveis e contextos.  O fez durante os Jogos Olímpicos, elegendo os seus prediletos, esportes e atletas. Ocultou muitos outros. Volta a fazer novamente, de modo mais pernicioso porque quando não oculta, minimiza a condição da diferença. O modo como representa os paratletas envolve a compaixão, na medida em que os tornam símbolos de “superação”.  Sujeitos sobreviventes, readaptados numa sociedade pautada pela ideia de “normalidade”, em defesa da ordem vigente.

Ora, não se trata de solidariedade e sim, de confiança e respeito pelo diferente. Envolve uma questão ética que no campo do jornalismo, em particular, exige que se vá além do apelo emocional e se desdobre numa cobertura efetiva e equânime. Afinal, com exceção desta parca cobertura das Paraolimpíadas, a transmissão do paraesporte em competições importantes para o país praticamente não existe. Paratletas não são pautados. Será porque Narciso acha feio o que não é espelho, como diz a música do Caetano Veloso?

eu

Rosana C. Zucolo  é jornalista e mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Maria e doutora em Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Atualmente é  professora adjunta no Centro Universitário Franciscano e uma das editoras da ACS.