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Literatura clássica: os jovens ainda leem sobre Capitu?

As obras literárias estão aí para serem apreciadas. São diferentes nichos, autores e edições. Algumas fazem tanto sucesso, que, com o passar o tempo, tornam-se clássicas. Dom Casmurro, escrito por Machado de Assis, por exemplo, é de 1899. O criador de Capitu e seus olhos de ressaca fez tanto sucesso, que a obra se tornou um dos grandes ícones da literatura brasileira. Além dele, Orgulho e Preconceito (1813), O Morro dos Ventos Uivantes (1847) e Lolita (1955) são alguns dos muitos exemplos que existem pelo mundo literário. Autores como Shakespeare, Allan Poe, Clarice Lispector e George Orwell também são grandes nomes da literatura clássica.

As crianças são instigadas a ler livros desde que começam a se alfabetizar e, no ensino médio, a literatura entra na vida dos jovens não apenas por meio das obras, mas de conceitos, como o dos movimentos literários – de origem barroca, moderna e parnasiana – que também são cobrados. Na lista de leituras obrigatórias para vestibulares ou Enem, a literatura clássica está sempre presente. Alguns gostam mais e vão a fundo nas leituras, outros apreciam menos e buscam outras alternativas, como resumos.

A professora de literatura, Ione Acosta, usa vídeos, filmes e documentários como forma de cativar a atenção do aluno. Segundo ela, cada um tem o dever de observar e procurar formas para despertar o gosto pela literatura. Ione, que já leciona há 15 anos, afirma que gostaria de ter mais tempo em sala de aula para de poder realizar projetos com alunos do ensino médio, mas há um conteúdo obrigatório a ser cumprido. Para a professora, “a literatura é o melhor remédio para combater a hipocrisia e derrubar barreiras. Ela supera nossas dores, aviva sentimentos e faz nos sentirmos humanos e conhecedores.”
Ione também conta que, na sua percepção, Machado de Assis e Eça de Queiróz são autores que costumam chamar mais a atenção dos alunos. Ela acredita que isso acontece pela análise da sociedade que esses escritores trazem, como contexto histórico entre presente e passado, alma humana, preconceitos, posição da igreja e relacionamentos.

Os clássicos estão sempre presentes nas bibliotecas. (Foto: Ana Carolina Dias/Laboratório de Fotografia e Memória – LABFEM)

Livros clássicos inspiram outros autores, inserem pessoas no mundo literário, dão ideias a adaptações de cinema. Ler um livro clássico, pode ser tanto um dever como um direito, conforme o ponto de vista. Essas obras, na maioria das vezes, são livros pesados, ou seja, difíceis. Talvez por sua linguagem ser antiga e até mesmo escrita em regras ortográficas não atualizadas, dependendo da edição. O que é preciso para os jovens terem mais interesse a literatura clássica? Hoje em dia, as obras são “atualizadas” e, com isso, edições bilíngues, de capa dura, e-books e até mesmo livros ilustrativos são lançados.

Para Matheus Loroña, 20 anos, estudante de Produção Editorial na UFSM, os livros sempre teceram o plano de fundo da sua vida, mas a literatura clássica apareceu para ele no ensino médio, junto às listas de leitura para vestibular. Em uma visita à biblioteca, um livro o chamou a atenção: O Lobo da Estepe (1927), de Herman Hesse. Segundo ele, foi uma leitura bastante pesada, mas que o fez refletir e o marcou profundamente: “Ali, percebi o poder de um clássico”, afirma. A partir desse momento, Loroña passou a dar preferência para as grandes obras, como Crime e castigo (1866), de Dostoiéviski, Ana Karenina (1877), de Tolstói, e Cem Anos de Solidão (1967), de Gabriel García Márquez. Além dessas grandes obras, ele costuma apreciar atualmente as poesias de Fernando Pessoa. Na opinião do estudante, os jovens não costumam ler os livros clássicos porque tendem a aderir às modas determinadas por editoras e livrarias. Na percepção de Loroña, essas mesmas só visam ao lucro e não têm o cuidado necessário com o conteúdo que oferecem. Mesmo assim, ele considera que há uma aproximação gradual entre os jovens e a literatura, inclusive clássica. Por fim, o estudante afirma que, se pudesse, mudaria o processo de aproximação dos livros com os alunos de ensino médio. A ideia de o aluno trazer um livro de sua preferência para discutir em sala de aula, é um exemplo citado pelo estudante.

Foto ilustrativa. (Foto: Ana Carolina Dias/Laboratório de Fotografia e Memória – LABFEM)

Atualmente, existem muitos jovens apreciadores da literatura e que falam sobre isso na Internet. Basta uma busca no google, para que vários blogs literários e canais no youtube apareçam. São jovens adultos que fazem resenhas de livros, possuem estantes colossais e são apaixonados pelas letras. Geralmente buscam a literatura contemporânea e acabam motivando-se a ler os clássicos exatamente pelo trabalho que fazem.

Eduarda Henker, 24 anos, estudante de publicidade e propaganda, fala que suas maiores referências em literatura clássica são Jane Austen, Machado de Assis, José de Alencar e Joaquim Manoel Macedo. Todas elas, segundo a estudante, foram lidas no ensino médio e que, desde então, não retorna à leitura de clássicos. Eduarda pretende voltar a eles, mas como a leitura é densa e demorada, necessita de dedicação. Ela possui um blog chamado “queria estar lendo”. Por justamente ter livros como tema, ela precisa ler as obras rapidamente para poder contar aos seus leitores como foi a sua experiência. Na opinião da estudante, há best-sellers da literatura contemporânea que despertam o interesse pela leitura em geral, o que posteriormente leva à leitura dos clássicos. Para Eduarda, uma das razões para que os jovens não leiam é o fato de, na escola, o primeiro contato com os livros já ser com literatura densa: “Não é que Machado de Assis não é necessário, mas outros livros podem ser apresentados antes” – afirma.

 

Esta publicação é resultado de trabalho desenvolvido na disciplina Jornalismo Especializado I, do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano, durante o primeiro semestre de 2017.

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As obras literárias estão aí para serem apreciadas. São diferentes nichos, autores e edições. Algumas fazem tanto sucesso, que, com o passar o tempo, tornam-se clássicas. Dom Casmurro, escrito por Machado de Assis, por exemplo, é de 1899. O criador de Capitu e seus olhos de ressaca fez tanto sucesso, que a obra se tornou um dos grandes ícones da literatura brasileira. Além dele, Orgulho e Preconceito (1813), O Morro dos Ventos Uivantes (1847) e Lolita (1955) são alguns dos muitos exemplos que existem pelo mundo literário. Autores como Shakespeare, Allan Poe, Clarice Lispector e George Orwell também são grandes nomes da literatura clássica.

As crianças são instigadas a ler livros desde que começam a se alfabetizar e, no ensino médio, a literatura entra na vida dos jovens não apenas por meio das obras, mas de conceitos, como o dos movimentos literários – de origem barroca, moderna e parnasiana – que também são cobrados. Na lista de leituras obrigatórias para vestibulares ou Enem, a literatura clássica está sempre presente. Alguns gostam mais e vão a fundo nas leituras, outros apreciam menos e buscam outras alternativas, como resumos.

A professora de literatura, Ione Acosta, usa vídeos, filmes e documentários como forma de cativar a atenção do aluno. Segundo ela, cada um tem o dever de observar e procurar formas para despertar o gosto pela literatura. Ione, que já leciona há 15 anos, afirma que gostaria de ter mais tempo em sala de aula para de poder realizar projetos com alunos do ensino médio, mas há um conteúdo obrigatório a ser cumprido. Para a professora, “a literatura é o melhor remédio para combater a hipocrisia e derrubar barreiras. Ela supera nossas dores, aviva sentimentos e faz nos sentirmos humanos e conhecedores.”
Ione também conta que, na sua percepção, Machado de Assis e Eça de Queiróz são autores que costumam chamar mais a atenção dos alunos. Ela acredita que isso acontece pela análise da sociedade que esses escritores trazem, como contexto histórico entre presente e passado, alma humana, preconceitos, posição da igreja e relacionamentos.

Os clássicos estão sempre presentes nas bibliotecas. (Foto: Ana Carolina Dias/Laboratório de Fotografia e Memória – LABFEM)

Livros clássicos inspiram outros autores, inserem pessoas no mundo literário, dão ideias a adaptações de cinema. Ler um livro clássico, pode ser tanto um dever como um direito, conforme o ponto de vista. Essas obras, na maioria das vezes, são livros pesados, ou seja, difíceis. Talvez por sua linguagem ser antiga e até mesmo escrita em regras ortográficas não atualizadas, dependendo da edição. O que é preciso para os jovens terem mais interesse a literatura clássica? Hoje em dia, as obras são “atualizadas” e, com isso, edições bilíngues, de capa dura, e-books e até mesmo livros ilustrativos são lançados.

Para Matheus Loroña, 20 anos, estudante de Produção Editorial na UFSM, os livros sempre teceram o plano de fundo da sua vida, mas a literatura clássica apareceu para ele no ensino médio, junto às listas de leitura para vestibular. Em uma visita à biblioteca, um livro o chamou a atenção: O Lobo da Estepe (1927), de Herman Hesse. Segundo ele, foi uma leitura bastante pesada, mas que o fez refletir e o marcou profundamente: “Ali, percebi o poder de um clássico”, afirma. A partir desse momento, Loroña passou a dar preferência para as grandes obras, como Crime e castigo (1866), de Dostoiéviski, Ana Karenina (1877), de Tolstói, e Cem Anos de Solidão (1967), de Gabriel García Márquez. Além dessas grandes obras, ele costuma apreciar atualmente as poesias de Fernando Pessoa. Na opinião do estudante, os jovens não costumam ler os livros clássicos porque tendem a aderir às modas determinadas por editoras e livrarias. Na percepção de Loroña, essas mesmas só visam ao lucro e não têm o cuidado necessário com o conteúdo que oferecem. Mesmo assim, ele considera que há uma aproximação gradual entre os jovens e a literatura, inclusive clássica. Por fim, o estudante afirma que, se pudesse, mudaria o processo de aproximação dos livros com os alunos de ensino médio. A ideia de o aluno trazer um livro de sua preferência para discutir em sala de aula, é um exemplo citado pelo estudante.

Foto ilustrativa. (Foto: Ana Carolina Dias/Laboratório de Fotografia e Memória – LABFEM)

Atualmente, existem muitos jovens apreciadores da literatura e que falam sobre isso na Internet. Basta uma busca no google, para que vários blogs literários e canais no youtube apareçam. São jovens adultos que fazem resenhas de livros, possuem estantes colossais e são apaixonados pelas letras. Geralmente buscam a literatura contemporânea e acabam motivando-se a ler os clássicos exatamente pelo trabalho que fazem.

Eduarda Henker, 24 anos, estudante de publicidade e propaganda, fala que suas maiores referências em literatura clássica são Jane Austen, Machado de Assis, José de Alencar e Joaquim Manoel Macedo. Todas elas, segundo a estudante, foram lidas no ensino médio e que, desde então, não retorna à leitura de clássicos. Eduarda pretende voltar a eles, mas como a leitura é densa e demorada, necessita de dedicação. Ela possui um blog chamado “queria estar lendo”. Por justamente ter livros como tema, ela precisa ler as obras rapidamente para poder contar aos seus leitores como foi a sua experiência. Na opinião da estudante, há best-sellers da literatura contemporânea que despertam o interesse pela leitura em geral, o que posteriormente leva à leitura dos clássicos. Para Eduarda, uma das razões para que os jovens não leiam é o fato de, na escola, o primeiro contato com os livros já ser com literatura densa: “Não é que Machado de Assis não é necessário, mas outros livros podem ser apresentados antes” – afirma.

 

Esta publicação é resultado de trabalho desenvolvido na disciplina Jornalismo Especializado I, do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Franciscano, durante o primeiro semestre de 2017.