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Santa Maria, RS, Brazil

História

Os 500 anos da revolução marítima

A viagem que comprovou que a terra não é plana

Hoje, 06 de setembro de 2022, marca o quinto centenário da conclusão da expedição de circum-navegação de Fernão de Magalhães. Após quase três anos marcados por fome, medo e doenças em águas desconhecidas, além da morte de cerca de 220 tripulantes, incluindo o capitão-geral da armada, a chegada da nau Victoria ao porto de Sanlúcar de Barrameda comprovou as teorias idealizadas por Aristóteles sobre a circunferência da Terra.

Com o início das Grandes Navegações em 1415, o comércio europeu tornou-se monopólio português. Visando vantagens neste novo “mercado exploratório”, os espanhóis se lançaram aos mares, da forma mais extraordinária possível, no ano de 1492, financiando a controversa proposta de circum-navegação de Cristóvão Colombo. Apesar de ter sido um projeto fracassado, quando se considera que seu intuito era alcançar o comércio de especiarias no oriente, esta expedição abriu novas possibilidades ao introduzir às cortes europeias a existência de novas terras, uma das razões que impulsionaram os europeus a iniciarem as Grandes Navegações.

O Padrão dos Descobrimento é um monumento erguido em Lisboa para homenagear as figuras históricas portuguesas envolvidas nas descobertas. Imagem: Pixabay

A partida da Espanha

Desprezado pela coroa portuguesa, mas munido de sonhos megalomaníacos, Magalhães cometeu uma traição incomensurável ao deixar Portugal e pedir ao rei Carlos I, da Espanha, financiamento para sua expedição. Após longos estudos sobre a teoria da circunferência da Terra e o tamanho dos continentes e oceanos, Magalhães estava certo de que a Ilha Molucas, local onde os portugueses negociavam com o oriente, era território espanhol segundo o Tratado de Tordesilhas. Dia 20 de setembro de 1519, a armada, com 5 embarcações e cerca de 250 tripulantes, parte de Sanlúcar de Barrameda, em uma das mais importantes expedições realizadas pelo homem, comandada por um português, sob financiamento espanhol, em um dos momentos de maior tensão entre reinos da história.

Segundo o professor, escritor e historiador, Pedro Duarte, “o período das Grandes Navegações se assemelha ao período da Guerra Fria, se tratava de duas superpotências mundiais, que não faziam uma corrida espacial, e sim uma corrida marítima. Naturalmente, havia espionagem, havia membros da corte portuguesa na Espanha, assim como havia membros da corte espanhola em Portugal.”

Em dezembro de 1519, a tripulação desembarca na região da Baía de Guanabara, local onde celebrou o natal com os nativos americanos no interior das embarcações. Após a partida da região sudeste do Brasil, a armada partiu rumo ao sul do continente. Em meio a insubordinações e rebeliões iniciadas pela falta de confiança dos tripulantes espanhóis no seu líder português, a expedição fora capaz de desbravar importantes regiões marítimas no sul do continente. Foram os membros da nau Santiago, por exemplo, os primeiros a fazerem registros sobre navegações nas águas do Rio Uruguai.

Com o naufrágio de uma embarcação, seguido da deserção de outra, o sonho de Magalhães, de ser reconhecido como o homem que refutou o modelo da Terra plana, se mostrava cada vez mais distante da realidade. Os três navios restantes se aventuraram no labiríntico Estreito de Magalhães, na região da Patagônia, onde permaneceram por 1 mês procurando uma saída para o Oceano Pacífico. Ainda na região da Patagônia, os tripulantes encontraram resquícios de um “povo gigante com pés enormes”. Explica Duarte que “os navegantes não chegaram a ver os gigantes, eles registraram as pegadas daquilo que eles consideraram gigantes, mas na verdade, nada mais era do que pegadas provindas do uso de raquetes de neve por parte dos patagões”.

Os piores momentos

No dia 28 de novembro de 1520, os navegantes chegam ao Oceano Pacífico, nomeado por Magalhães, local onde viriam a encontrar a maior dificuldade de sua viagem. Os cálculos realizados antes de partirem da Espanha, se provaram errados em relação ao tamanho do oceano. Nos mais de três meses que se seguiram, a tripulação se encontrou à deriva e teve que conviver com a morte constante provinda da fome, sede e fadiga. Segundo registros, os tripulantes precisaram recorrer ao consumo de couro dos mastros e farelos de biscoitos misturados com serradura das madeiras, poeira, minhocas e urina de rato. Os navegantes enfrentaram também diversas mortes causadas pela doença escorbuto, proveniente da falta de vitamina C e que, segundo Duarte, “só viria a ser combatida pelos ingleses na transição entre o século XVII e XVIII, ao obrigarem o constante consumo de laranjas por parte de seus marinheiros”.

No dia 6 de março de 1521, após mais de 100 dias sem ser capaz de atracar em lugar algum, a tripulação consegue fazer uma breve parada nas Ilhas Marianas antes de seguir sua viagem às Filipinas, novo destino estabelecido por Magalhães após este perceber que havia subestimado o tamanho do Oceano Pacífico e que não havia a menor possibilidade de a Ilha das Especiarias ser território sob influência castelhana.

A chegada dos tripulantes nas ilhas das Filipinas se mostra muito bem recebida pelo povo. Quando levados a ilha de Cebu, principal centro comercial da região, o rajá Humabon, assim como sua família e centenas de nativos, pediram para serem batizados após os europeus apresentarem a fé cristã a eles. Magalhães acreditava que a propagação da Igreja Católica poderia compensar o seu fracasso com o comércio das Molucas. Entretanto, o líder da ilha de Mactán, Lapu-Lapu, se recusava a prestar vassalagem ao rei da ilha de Cebu, que já havia sido batizado e se tornado um súdito de Carlos I. Magalhães então reúne cerca de 50 homens sob o seu comando e invade a ilha de Mactán, onde é derrotado pelos 1.500 guerreiros de Lapu-Lapu e morre em combate no dia 27 de abril de 1521.

Coube então ao espanhol Juan Sebastian Elcano comandar os homens restantes em uma parada ilegal nas Ilhas das Especiarias, no território português, antes de retornar à Espanha. Depois de terminada a batalha em Mactán, os tripulantes optaram por queimar uma das três embarcações restantes devido à falta de homens. Na saída das Ilhas Molucas, a nau Trinidad optou por retornar pelo Oceano Pacífico, mas acabou sendo capturada e queimada por uma armada portuguesa. A nau Victoria, por sua vez, retornou a Espanha contornando a África, sofrendo novamente de fome, sede e fadiga e chegando à Europa com apenas 18 tripulantes, mas com especiarias o suficiente para cobrir todo o custo da expedição e provando que a Terra não era plana.

Conclui Duarte: “A expedição ao redor do mundo, realizada pelo português Fernão de Magalhães, foi um evento histórico que representou profundas e irreversíveis mudanças no cenário do comércio mundial. Atualmente, segundo a Organização Mundial do Comércio(OMC), cerca de 9 bilhões de toneladas de mercadorias são transportadas por ano de um continente à outro pelo oceanos. Além de provar que o mundo inteiro estava ligado, que os mares não eram obstáculos intransponíveis e sim a maior rede de comércios que o mundo tinha até então, Magalhães, sem saber, entregou a própria vida para realizar uma nova Pangeia (conglomerado de terra, que abrangia todos os continentes, existente na era Paleozoica), ao buscar aproximar os continentes, suas sociedades e suas culturas. Por isso, se a conquista de Ceuta em 1415, foi a faísca que acendeu o pavio da globalização, a circum-navegação de Magalhães foi a explosão”

Antonio Pigafetta, um escritor que fazia parte dos 18 sobreviventes, assim como Francisco Albo, contramestre da nau Victoria durante a chegada à Espanha, mantiveram relatos sobre a expedição, que se tornaram a maior fonte de informação sobre os eventos. As escrituras de Pigafetta, no ano de 1925, foram transformadas no livro “A primeira viagem ao redor do mundo”. No ano de 2022, a expedição foi retratada na série “Sem Limites”, disponível no serviço de streaming Amazon Prime Vídeo. Com 6 episódios, a produção aborda diversos detalhes da viagem e, com algumas exceções, se mantém fiel a veracidade dos fatos.

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Hoje, 06 de setembro de 2022, marca o quinto centenário da conclusão da expedição de circum-navegação de Fernão de Magalhães. Após quase três anos marcados por fome, medo e doenças em águas desconhecidas, além da morte de cerca de 220 tripulantes, incluindo o capitão-geral da armada, a chegada da nau Victoria ao porto de Sanlúcar de Barrameda comprovou as teorias idealizadas por Aristóteles sobre a circunferência da Terra.

Com o início das Grandes Navegações em 1415, o comércio europeu tornou-se monopólio português. Visando vantagens neste novo “mercado exploratório”, os espanhóis se lançaram aos mares, da forma mais extraordinária possível, no ano de 1492, financiando a controversa proposta de circum-navegação de Cristóvão Colombo. Apesar de ter sido um projeto fracassado, quando se considera que seu intuito era alcançar o comércio de especiarias no oriente, esta expedição abriu novas possibilidades ao introduzir às cortes europeias a existência de novas terras, uma das razões que impulsionaram os europeus a iniciarem as Grandes Navegações.

O Padrão dos Descobrimento é um monumento erguido em Lisboa para homenagear as figuras históricas portuguesas envolvidas nas descobertas. Imagem: Pixabay

A partida da Espanha

Desprezado pela coroa portuguesa, mas munido de sonhos megalomaníacos, Magalhães cometeu uma traição incomensurável ao deixar Portugal e pedir ao rei Carlos I, da Espanha, financiamento para sua expedição. Após longos estudos sobre a teoria da circunferência da Terra e o tamanho dos continentes e oceanos, Magalhães estava certo de que a Ilha Molucas, local onde os portugueses negociavam com o oriente, era território espanhol segundo o Tratado de Tordesilhas. Dia 20 de setembro de 1519, a armada, com 5 embarcações e cerca de 250 tripulantes, parte de Sanlúcar de Barrameda, em uma das mais importantes expedições realizadas pelo homem, comandada por um português, sob financiamento espanhol, em um dos momentos de maior tensão entre reinos da história.

Segundo o professor, escritor e historiador, Pedro Duarte, “o período das Grandes Navegações se assemelha ao período da Guerra Fria, se tratava de duas superpotências mundiais, que não faziam uma corrida espacial, e sim uma corrida marítima. Naturalmente, havia espionagem, havia membros da corte portuguesa na Espanha, assim como havia membros da corte espanhola em Portugal.”

Em dezembro de 1519, a tripulação desembarca na região da Baía de Guanabara, local onde celebrou o natal com os nativos americanos no interior das embarcações. Após a partida da região sudeste do Brasil, a armada partiu rumo ao sul do continente. Em meio a insubordinações e rebeliões iniciadas pela falta de confiança dos tripulantes espanhóis no seu líder português, a expedição fora capaz de desbravar importantes regiões marítimas no sul do continente. Foram os membros da nau Santiago, por exemplo, os primeiros a fazerem registros sobre navegações nas águas do Rio Uruguai.

Com o naufrágio de uma embarcação, seguido da deserção de outra, o sonho de Magalhães, de ser reconhecido como o homem que refutou o modelo da Terra plana, se mostrava cada vez mais distante da realidade. Os três navios restantes se aventuraram no labiríntico Estreito de Magalhães, na região da Patagônia, onde permaneceram por 1 mês procurando uma saída para o Oceano Pacífico. Ainda na região da Patagônia, os tripulantes encontraram resquícios de um “povo gigante com pés enormes”. Explica Duarte que “os navegantes não chegaram a ver os gigantes, eles registraram as pegadas daquilo que eles consideraram gigantes, mas na verdade, nada mais era do que pegadas provindas do uso de raquetes de neve por parte dos patagões”.

Os piores momentos

No dia 28 de novembro de 1520, os navegantes chegam ao Oceano Pacífico, nomeado por Magalhães, local onde viriam a encontrar a maior dificuldade de sua viagem. Os cálculos realizados antes de partirem da Espanha, se provaram errados em relação ao tamanho do oceano. Nos mais de três meses que se seguiram, a tripulação se encontrou à deriva e teve que conviver com a morte constante provinda da fome, sede e fadiga. Segundo registros, os tripulantes precisaram recorrer ao consumo de couro dos mastros e farelos de biscoitos misturados com serradura das madeiras, poeira, minhocas e urina de rato. Os navegantes enfrentaram também diversas mortes causadas pela doença escorbuto, proveniente da falta de vitamina C e que, segundo Duarte, “só viria a ser combatida pelos ingleses na transição entre o século XVII e XVIII, ao obrigarem o constante consumo de laranjas por parte de seus marinheiros”.

No dia 6 de março de 1521, após mais de 100 dias sem ser capaz de atracar em lugar algum, a tripulação consegue fazer uma breve parada nas Ilhas Marianas antes de seguir sua viagem às Filipinas, novo destino estabelecido por Magalhães após este perceber que havia subestimado o tamanho do Oceano Pacífico e que não havia a menor possibilidade de a Ilha das Especiarias ser território sob influência castelhana.

A chegada dos tripulantes nas ilhas das Filipinas se mostra muito bem recebida pelo povo. Quando levados a ilha de Cebu, principal centro comercial da região, o rajá Humabon, assim como sua família e centenas de nativos, pediram para serem batizados após os europeus apresentarem a fé cristã a eles. Magalhães acreditava que a propagação da Igreja Católica poderia compensar o seu fracasso com o comércio das Molucas. Entretanto, o líder da ilha de Mactán, Lapu-Lapu, se recusava a prestar vassalagem ao rei da ilha de Cebu, que já havia sido batizado e se tornado um súdito de Carlos I. Magalhães então reúne cerca de 50 homens sob o seu comando e invade a ilha de Mactán, onde é derrotado pelos 1.500 guerreiros de Lapu-Lapu e morre em combate no dia 27 de abril de 1521.

Coube então ao espanhol Juan Sebastian Elcano comandar os homens restantes em uma parada ilegal nas Ilhas das Especiarias, no território português, antes de retornar à Espanha. Depois de terminada a batalha em Mactán, os tripulantes optaram por queimar uma das três embarcações restantes devido à falta de homens. Na saída das Ilhas Molucas, a nau Trinidad optou por retornar pelo Oceano Pacífico, mas acabou sendo capturada e queimada por uma armada portuguesa. A nau Victoria, por sua vez, retornou a Espanha contornando a África, sofrendo novamente de fome, sede e fadiga e chegando à Europa com apenas 18 tripulantes, mas com especiarias o suficiente para cobrir todo o custo da expedição e provando que a Terra não era plana.

Conclui Duarte: “A expedição ao redor do mundo, realizada pelo português Fernão de Magalhães, foi um evento histórico que representou profundas e irreversíveis mudanças no cenário do comércio mundial. Atualmente, segundo a Organização Mundial do Comércio(OMC), cerca de 9 bilhões de toneladas de mercadorias são transportadas por ano de um continente à outro pelo oceanos. Além de provar que o mundo inteiro estava ligado, que os mares não eram obstáculos intransponíveis e sim a maior rede de comércios que o mundo tinha até então, Magalhães, sem saber, entregou a própria vida para realizar uma nova Pangeia (conglomerado de terra, que abrangia todos os continentes, existente na era Paleozoica), ao buscar aproximar os continentes, suas sociedades e suas culturas. Por isso, se a conquista de Ceuta em 1415, foi a faísca que acendeu o pavio da globalização, a circum-navegação de Magalhães foi a explosão”

Antonio Pigafetta, um escritor que fazia parte dos 18 sobreviventes, assim como Francisco Albo, contramestre da nau Victoria durante a chegada à Espanha, mantiveram relatos sobre a expedição, que se tornaram a maior fonte de informação sobre os eventos. As escrituras de Pigafetta, no ano de 1925, foram transformadas no livro “A primeira viagem ao redor do mundo”. No ano de 2022, a expedição foi retratada na série “Sem Limites”, disponível no serviço de streaming Amazon Prime Vídeo. Com 6 episódios, a produção aborda diversos detalhes da viagem e, com algumas exceções, se mantém fiel a veracidade dos fatos.