
Foto original | Carlos Blaya Pérez
Imagem ajustada a qualidade por IA
@impressionante_santa_maria
Da euforia da Rua 24 Horas ao abandono da Alberto Pasqualini, a história de um projeto que prometia transformar o centro de Santa Maria e acabou se tornando símbolo do esquecimento urbano.
Há ruas que envelhecem com dignidade, como quem vai cedendo ao peso dos anos sem perder a postura. A Alberto Pasqualini, no coração de Santa Maria, envelheceu de outro jeito — com as marcas abertas de quem não teve essa sorte, de quem foi prometido ao brilho e acabou entregue à sombra.
Ela leva o nome de um homem que também conheceu a contradição entre promessa e realidade. Alberto Pasqualini, filho de imigrantes italianos do interior gaúcho, advogado, senador, duas vezes derrotado nas urnas para o governo do estado, defendeu por toda a vida a ideia de que o progresso social só se sustenta quando tem raízes. A rua que leva seu nome, num paradoxo que a cidade talvez não tenha percebido, foi construída sobre areia.
Em março de 1994, ela acordou com um outro nome — Rua 24 Horas — e com a promessa de nunca mais dormir. A cidade acompanhava a onda da capital da moda à época, Curitiba, que havia implementado um projeto semelhante anos antes. Era a época dos planos urbanos ambiciosos, do otimismo dos anos pós-Plano Real, de uma Santa Maria que queria se sentir metrópole mesmo sem o ser. Construída na rua Alberto Pasqualini, espaço central da cidade, próximo ao Calçadão, o projeto teria o diferencial de permanecer aberto durante as noites e as madrugadas, em domingos e feriados.
O local abrigou nos primeiros anos o comércio de jornais e revistas, bomboniére e pizzaria, confecção, presentes, multicoisas e flores, loja de importados, promoção de eventos e loterias, café, sorveteria e tabacaria, artigos esportivos, artesanato e armarinho — e até um módulo com showroom de imóveis. Treze boxes, treze apostas no movimento que a noite prometia trazer. Por um momento, Santa Maria teve uma rua que piscava luzes quando o resto da cidade já havia apagado as suas. Quem passou por ali naqueles primeiros meses guarda a imagem da estrutura metálica em vermelho e amarelo recortando o céu do centro, um clarão de novidade num lugar acostumado ao ritmo lento do interior.
Mas cidades do interior têm seu próprio pulso, e ele não é fácil de dobrar. A publicidade feita em função do lançamento e a ótima localização rendiam aos treze módulos boas vendas durante o dia. À noite, no entanto, a freguesia rareava, ainda que nos primeiros meses houvesse boas condições de policiamento e iluminação. As calçadas, que de dia formigavam com o movimento do centro, ficavam largas demais para o fluxo que aparecia depois das dez da noite. Inicialmente, como constava no regulamento da Rua 24 Horas, era obrigatório manter a loja em funcionamento em tempo integral. Mas regulamento não paga conta de luz, e conta de luz não espera a freguesia aparecer.
Passados poucos meses da inauguração, já não eram todas as lojas que mantinham as portas abertas durante a noite. Não compensava o investimento e a Rua 24 Horas, ao contrário do que alguns pensaram, não alterou o comportamento dos moradores. Os lojistas foram, um a um, cedendo ao cansaço de manter portas abertas para o vazio. Ainda na mesma década, surgiram os primeiros shoppings da cidade, acirrando a competição entre os lojistas. O que a Rua 24 Horas tinha de novidade foi ficando pequeno diante do que eles ofereciam — estacionamento, segurança, ar-condicionado, a promessa de um mundo completo dentro de quatro paredes. Em outubro de 2003, após meses de indecisões, a armação foi removida, a estrutura inteiramente desmontada e a 24 Horas deixou de fazer parte da Rua Alberto Pasqualini.
Hoje quase ninguém sabe onde foi parar a estrutura de metal, tampouco o que foi feito dela. Virou história mal contada, uma daquelas memórias coletivas que a cidade guarda sem saber muito bem onde guardar. O engraçado — e talvez o revelador — é que muita gente ainda pensa na rua como “a Rua 24 Horas”, e a imagem da estrutura vermelha com amarelo ainda vem à mente quando o nome Alberto Pasqualini é pronunciado. O apelido durou mais que a promessa.
O que veio depois é o que o tempo costuma deixar quando ninguém cuida: prédios de fachadas descascadas, paredes cobertas de pichações que são, a seu modo, a única escrita que sobrou do lugar. Onde havia módulos iluminados e vitrines arrumadas, hoje há sombra e concreto partido. Nos últimos anos, a rua chegou a ser interditada por causa de uma marquise que estava prestes a ceder — e cedeu, na noite de um sábado, enquanto engenheiros da Prefeitura monitoravam a situação. O prédio envelheceu mais rápido que a cidade ao redor. Não é o único. Especialistas em urbanismo já apontaram que a omissão administrativa na fiscalização e manutenção, somada à ausência de um planejamento democrático, contribuíram para o abandono de áreas como essa no centro de Santa Maria, abrindo espaço para atos de vandalismo e depredação deflagrados justamente pela falta de identidade e apego da comunidade para com esses espaços.
Nas frestas desse abandono se instalaram as pessoas que a cidade também abandonou — homens e mulheres em situação de rua que encontraram ali, na carcaça de um projeto que prometia não ter hora para fechar, o único abrigo disponível.
Há uma ironia cruel nisso. A Rua 24 Horas nasceu para nunca dormir. Quem dorme nela agora são os que não têm outro lugar.
Mas ainda há um lugar que permanece com aparências da época de ouro, uma loja que abriga em seu interior um pouco do velho e do novo, misturados em harmonia. A loja Ônix é uma das mais antigas da rua e que ainda se mantém funcionando, mesmo diante das adversidades:
“Essa loja, hoje, às vezes parece ser o único ponto brilhante da rua. O único lugar que ainda tem algum tipo de vida. O resto tá aqui, jogado ao acaso. As pessoas passam rápido, pois é uma rua deserta e ninguém quer correr perigo, principalmente agora, no inverno, quando escurece mais cedo. Foi preciso se adaptar.”, conta uma pessoa que vive diariamente no sonho que deveria ser a rua 24 horas.
Por anos, o local permaneceu inalterado e nada foi resolvido em relação às queixas da vizinhança. Uma reforma recente melhorou as condições do ponto, que segue utilizado pelo comércio durante o dia, ainda que em menor número e de forma descentralizada. Certeza de modernidade em uma época já distante, a Rua 24 Horas hoje pouco é lembrada pelos habitantes, ainda que o vazio no local possa remeter àqueles tempos.
Hoje, a Rua Alberto Pasqualini é um retrato de uma Santa Maria que nunca mais existiu — e talvez nunca tenha existido de verdade, ao menos não da forma em que foi imaginada. Ela nasceu de um sonho de metrópole numa cidade de interior, e foi perdendo sua chama ao longo dos anos à medida que a realidade foi mostrando seu custo. Assim como vários outros pontos do centro histórico, que abrigam histórias e memórias milenares mas que cedem ao tempo e ao esquecimento de seus tempos áureos, a rua que prometeu nunca dormir tornou-se, ela mesma, um lugar que a cidade prefere não ver de perto.
Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.





