Da teocracia de Gilead ao discurso contra o voto feminino em 2026: a tática silenciosa do extremismo.

É estranho e profundamente assustador pensar que, em pleno século XXI, 2026, os direitos fundamentais das mulheres continuem sendo abertamente questionados. Nos Estados Unidos, influenciadores de comunidades focadas em masculinidade e antifeminismo e pastores de correntes ultraconservadoras passaram a defender abertamente que a concessão do voto às mulheres prejudicou a estrutura familiar e os valores “tradicionais”. O argumento recorrente é o de que homens e mulheres possuem papéis divinos distintos e que a tomada de decisão política caberia ao “chefe da família”.
No Brasil, esse tipo de discurso também ganha força, impulsionado pelo apoio de influenciadores e lideranças religiosas com falas de que escolhas femininas seriam pautadas “pela emoção e não pela razão”. Conforme analisam cientistas políticos e historiadores, tais falas, mesmo parecendo absurdas para a maioria, funcionam como teste de limites. Ao pautar o tema nas redes, o extremismo busca normalizar a dúvida sobre direitos que antes eram considerados intocáveis.
Em entrevista ao portal Brasil de Fato, a historiadora Joana Maria Pedro, professora emérita da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), adverte que a maior ameaça ao voto e à autonomia feminina não virá necessariamente de uma canetada autoritária repentina, mas de um processo de convencimento moral por meio do fundamentalismo religioso:
“O risco seria através da religião. Eu acho que é a coisa mais eficiente que existe. Se eles conseguirem, de fato, convencer a maioria das pessoas de que o voto das mulheres é uma coisa imoral perante Deus, que isso destrói a família sagrada, a gente perde o direito ao voto, assim como perde outros direitos.”
Isso parece familiar?
Em Gilead, a república totalitária e teocrática retratada na série ficcional The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), conhecemos a história de uma democracia que ruiu, a taxa de natalidade lá em baixo, bebês não nascem mais devido a crise global de fertilidade causada pela poluição e radiação do país. Uma das primeiras medidas do novo regime foi a retirada sistemática de todos os direitos femininos. Mas não se enganem, não foi algo que aconteceu do dia para a noite. Foi um plano pensado, arquitetado e executado em etapas para não levantar suspeitas imediatas.
Primeiro veio a demissão em massa, obviamente apenas das mulheres. Em seguida, o bloqueio das contas bancárias, transferindo a gestão financeira exclusivamente para os homens da família. Uma sucessão de medidas calculadas até que as mulheres fossem reduzidas a meros “úteros férteis”. Sem direitos, sem voz e sem opiniões, obrigadas apenas a obedecer, procriar e demonstrar submissão aos Comandantes.
Aquelas que quebram as regras são brutalmente mutiladas: olhos arrancados, dedos cortados, corpos queimados, bocas seladas. O “destino biológico” passa a ser o único objetivo de vida aceitável. Durante a “Cerimônia”, o ritual de estupro ocorrido no período fértil da mulher, o Comandante após orar abusa da Aia sob o pretexto de cumprir os planos divinos, tudo com a Esposa assistindo e sendo conivente com a violência.
Uma das cenas mais marcantes da série reflete com precisão o absurdo desse fanatismo: quando um dos poucos bebês saudáveis de Gilead adoece, nenhum dos médicos presentes (todos homens, obviamente) sabe como salvá-lo. Preocupada, Serena Joy, esposa do importante Comandante Fred Waterford, lembra que uma das maiores especialistas em neonatologia do país está ali, mas que é uma mulher que foi rebaixada ao posto de empregada. Diante disso, ele recusa o atendimento e decreta que, se o bebê morrer, “será a vontade de Deus”. Preferindo a morte de um recém-nascido a permitir que uma mulher exerça sua profissão e conhecimento.

As Esposas de Gilead e a Ilusão da Proteção
Falando em Serena Joy, ela protagoniza o núcleo das Esposas dos Comandantes. Bonita, obediente e devota, Serena era uma escritora de sucesso antes do colapso da democracia, famosa por defender publicamente a submissão e o papel doméstico da mulher. Ela ajudou a erguer as bases ideológicas de Gilead e ajudou a redigir as próprias leis que proíbem as mulheres de ler e escrever, as mesmas leis que mais tarde a puniriam. Em determinado momento da história, Serena tem um dedo amputado a mando do próprio marido apenas por ler um trecho da Bíblia em público.
As Esposas dos Comandantes são figuras extremamente complexas. São mulheres que fecham os olhos para as atrocidades cometidas contra as Aias, mas que acabam caindo nas engrenagens da própria armadilha que ajudaram a criar. Serena agride e tortura a protagonista June Osborn/Offred, mas simultaneamente tenta se impor em um sistema que não a reconhece mais como cidadã. É uma dinâmica que nos desperta raiva e julgamento, mas também uma inevitável empatia.
Essa dinâmica não é exclusiva da ficção. Vemos hoje influenciadoras e figuras públicas femininas utilizando a liberdade de expressão e a tecnologia moderna para pregar o desmantelamento dos direitos de seu próprio gênero. Elas ignoram a lição mais básica da história: regimes extremistas nunca fazem exceções para as mulheres que ajudaram a construí-los. Como canta Olivia Rodrigo na faixa inspirada na personagem Serena Joy: “Se eles fazem isso com elas, eles vão fazer com você”.
O Corpo Feminino como Propriedade
A crise de fertilidade mundial foi a desculpa perfeita em Gilead para assumir o controle total sobre o corpo feminino, e isso não está longe da nossa realidade. A obsessão pelo controle reprodutivo continua sendo o pilar central de qualquer projeto autoritário. Além das restrições severas ao aborto em diversos estados norte-americanos, grupos conservadores avançam em propostas e ações judiciais para restringir o acesso a métodos contraceptivos, classificando pílulas e métodos de emergência como “destrutivos para a natalidade”. A isso somam-se a demonização da educação sexual nas escolas, os retrocessos no direito ao aborto legal — mesmo em casos de estupro —, o avanço do movimento red pill e a imposição de padrões inalcançáveis para que a mulher sirva unicamente ao desejo alheio.
Não podemos nos esquecer de que os direitos femininos podem ser revogados com uma facilidade assustadora. No Afeganistão, Irã e Paquistão, mulheres sofrem diariamente por não possuírem direito à voz, à educação ou ao livre arbítrio, esse cenário de apagamento é o modelo ideal para certos grupos fundamentalistas.
Nada do que foi escrito por Margaret Atwood no livro original foi tirado do zero. As torturas, as vestimentas, as leis e as opressões retratadas em Gilead já aconteceram em algum momento da história humana.

Gilead não é um pesadelo distante, é um alerta sobre a fragilidade das nossas conquistas. Nenhum direito é permanente, a vigilância precisa ser constante e o voto consciente.
Vale ressaltar, por fim, a fala atemporal da poeta Audre Lorde:
“Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas.”





