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A rua que prometeu nunca dormir

Da euforia da Rua 24 Horas ao abandono da Alberto Pasqualini, a história de um projeto que prometia transformar o centro de Santa Maria e acabou se tornando símbolo do esquecimento urbano.

Onde as raízes me encontram

Escuto gargalhadas finas e sinceras. Chamam meu nome no portão. Rita Lee dizia: “Tem lugares que me lembram minha vida, por onde andei”.

O futebol ocupa um espaço importante na vida de milhões de pessoas, seja pela paixão por um clube, pela admiração por um jogador ou pela emoção de acompanhar uma competição. Mas a influência do esporte nem sempre termina quando o árbitro apita o fim da partida. Em diferentes momentos da história, jogadores utilizaram a visibilidade conquistada dentro de campo para participar de debates sobre política, desigualdade social, racismo e direitos humanos.

Em uma geração conectada às redes sociais, na qual atletas podem alcançar milhões de seguidores diretamente, suas manifestações também podem despertar o interesse por assuntos que ultrapassam o mundo esportivo. Uma declaração sobre uma eleição, uma campanha contra a desigualdade ou até mesmo a recomendação de um livro pode levar torcedores a pesquisar temas que antes pareciam distantes de sua realidade.

Camping World Stadium lotado para o amistoso entre Estados Unidos e Brasil antes da Copa América de 2024. Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Essa relação, entretanto, levanta uma questão: quando um jovem passa a admirar um jogador pelo que ele faz com a bola, essa admiração também pode despertar nele a vontade de compreender melhor o mundo fora do campo?

A resposta não é necessariamente simples. A admiração por um atleta não significa que o torcedor adotará suas opiniões, mas pode funcionar como um ponto de partida para novas perguntas, pesquisas e conversas. Para compreender como isso acontece, é preciso olhar tanto para a história do futebol quanto para as diferentes formas de influência exercidas pelos jogadores da atualidade.

Sócrates e a política dentro de campo

No Brasil, um dos exemplos mais emblemáticos da relação entre futebol e participação política é Sócrates. No início da década de 1980, o ex-jogador se destacou por sua atuação na Democracia Corinthiana, movimento que defendia a participação coletiva nas decisões do clube em um período marcado pela ditadura militar e pela luta pela redemocratização do país.

Sócrates comemorando gol pela seleção brasileira, em 1985. Foto:  Anibal Philot / Agência O Globo

Além de sua atuação no esporte, Sócrates tornou-se uma figura associada à defesa da democracia e da participação cidadã. Sua trajetória demonstra que o futebol já funcionava como espaço de debate público muito antes do surgimento das redes sociais.

Décadas depois, os meios de comunicação mudaram, mas permanece uma questão semelhante: qual é o papel de um jogador quando sua popularidade permite que ele alcance pessoas que talvez não acompanhem habitualmente o debate político?

Da política francesa à mobilização social: os jogadores de hoje

Em junho de 2024, durante a Eurocopa, os franceses Kylian Mbappé e Marcus Thuram utilizaram sua visibilidade para se manifestar sobre o cenário político do país, às vésperas das eleições legislativas. Ambos demonstraram preocupação com o avanço do Reunião Nacional, partido de direita radical, e incentivaram a participação dos eleitores, principalmente dos jovens.

Marcus Thuram e Kylian Mbappe no treino da seleção Francesa. Foto: AFP

As manifestações evidenciaram como jogadores de futebol podem levar debates políticos a públicos que nem sempre acompanham o noticiário. Mais do que expressar opiniões, atletas com grande alcance nas mídias podem despertar a curiosidade dos torcedores sobre questões que ultrapassam o esporte.

Entretanto, o posicionamento de um ídolo não significa necessariamente uma mudança de opinião entre seus seguidores. O que se evidencia é a busca pelo conhecimento, de ir atrás e pesquisar acerca de assuntos importantes, refletir e construir suas próprias perspectivas e opiniões.

Outra forma de participação aparece na trajetória de Marcus Rashford. Na Inglaterra, o atacante ganhou destaque por sua campanha em defesa de refeições gratuitas para crianças em situação de vulnerabilidade durante as férias escolares. Sua mobilização ajudou a pressionar o governo britânico a rever sua política sobre o tema.

Marcus Rashford recebendo título do Império Britânico em campanha de alimentação para crianças. Foto: Andrew Matthews/Pool via REUTERS

Diferentemente dos posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, a iniciativa de Rashford concentrou-se na defesa de uma questão social e na cobrança por uma resposta das autoridades. Seu exemplo demonstra que a atuação pública de um jogador também pode envolver campanhas de mobilização e a defesa de políticas públicas.

Já Lamine Yamal, jovem estrela da seleção espanhola e do Barcelona, ajuda a ampliar a discussão para questões de identidade, diversidade e pertencimento. Filho de pai marroquino e mãe de origem guinéu-equatorial, o atacante tornou-se uma figura de grande visibilidade para jovens de diferentes origens.

Lamine Yamal durante partida contra Portugal pelas oitavas de final de Copa do Mundo de 2026. Foto: Stefan Koops/NurPhoto via AFP

Sua trajetória ganhou significado social em um contexto no qual o racismo e a xenofobia continuam presentes no futebol e na sociedade europeia. A própria representatividade de um atleta pode, entretanto, estimular conversas sobre preconceito, inclusão e convivência entre diferentes culturas.

Embora atuem de maneiras distintas, esses jogadores mostram como a presença pública de um atleta pode ultrapassar os resultados esportivos. Seja por meio de manifestações eleitorais, campanhas sociais ou questões relacionadas à identidade, suas trajetórias ajudam a compreender como o futebol pode se conectar a debates que fazem parte da vida dos torcedores.

De volta ao Brasil: quando a influência passa pela leitura

No cenário brasileiro, a influência de um jogador sobre o público pode assumir uma forma diferente do ativismo eleitoral ou da mobilização por políticas sociais. O caso de Gustavo Scarpa ajuda a discutir como o interesse de um atleta por atividades extracampo também pode aproximar os torcedores de assuntos que vão além do esporte.

O jogador chamou atenção ao compartilhar seu interesse por literatura e comentar obras em vídeos nas mídias digitais, aproximando livros e discussões literárias de um público que acompanha seu trabalho principalmente dentro de campo. Após a divulgação do livro A morte Ivan Ilitch de Lev Tolstói, a obra alcançou o topo dos livros mais vendidos da Amazon Brasil.

Gustavo Scarpa segurando um exemplar da obra A morte de Ivan Ilitch de Lev Tolstói. Foto: Reprodução/Youtube

A iniciativa se diferencia dos posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, assim como da mobilização social de Rashford. Sua relevância para esta discussão está no potencial de uma figura pública despertar curiosidade por atividades que nem sempre estão associadas ao universo esportivo.

A leitura pode ampliar o contato com diferentes perspectivas, estimular o pensamento crítico e incentivar o questionamento de ideias estabelecidas. Nesse sentido, o interesse de um atleta por livros pode contribuir para colocar a literatura em evidência entre seus seguidores, inclusive entre aqueles que não têm o hábito de procurar esse tipo de conteúdo.

Se um jogador pode despertar o interesse por uma obra literária, também pode levar seus seguidores a pesquisar sobre um autor, conhecer um contexto histórico ou entrar em contato com ideias diferentes das que já conheciam. A relação entre futebol e formação cidadã, portanto, não precisa se limitar às manifestações políticas explícitas. Ela também pode passar por iniciativas culturais e pela curiosidade intelectual, desde que não se presuma que a visibilidade de um atleta produza automaticamente mudanças duradouras no comportamento do público.

O que fica para quem assiste?

Entre a atuação democrática de Sócrates, os posicionamentos eleitorais de Mbappé e Thuram, a mobilização social de Rashford, a representatividade de Yamal e o interesse pela literatura associado a Scarpa, existem diferentes formas de um atleta ultrapassar os limites do campo.

Essas trajetórias mostram que o futebol pode se relacionar com questões muito mais amplas do que os resultados de uma partida. Entretanto, compreender o impacto dessa relação exige ouvir também quem está do outro lado: os torcedores, especialmente os jovens que acompanham esses jogadores e constroem suas próprias opiniões em meio a uma grande quantidade de informações.

Será que um jovem que acompanha futebol diariamente passa a prestar mais atenção à política quando seu ídolo se manifesta? Uma declaração pode levá-lo a pesquisar sobre uma eleição, compreender melhor uma questão social ou procurar um livro que nunca havia considerado ler? E até que ponto essa influência estimula a autonomia de pensamento, em vez de simplesmente transferir a opinião de uma celebridade para seu público?

Mais do que defender que jogadores devem ou não se posicionar, essas perguntas convidam a refletir sobre a dimensão social do esporte e sobre a responsabilidade que acompanha a visibilidade pública.

O futebol não precisa se transformar em um palanque partidário para contribuir com a formação cidadã. Quando estimula perguntas, aproxima pessoas de diferentes realidades e desperta o interesse por assuntos que ultrapassam as quatro linhas, ele também pode abrir caminhos para o conhecimento e a participação social.

Afinal, talvez a influência mais importante de um ídolo não esteja em convencer um torcedor a pensar como ele, mas em despertar nesse torcedor a vontade de adquirir um pensamento crítico por conta própria.

Na última sexta-feira, 16 de outubro, a Universidade Franciscana (UFN) promoveu a Mostra das Profissões, no Conjunto III da instituição. O evento reuniu cerca de mil participantes, entre estudantes e professores de mais de 20 escolas públicas e privadas de Santa Maria e região.

Ao longo do dia, os visitantes conheceram os estandes dos cursos de graduação e participaram de oficinas, atividades práticas, visitas e dinâmicas organizadas por acadêmicos e professores da UFN. A proposta foi proporcionar aos estudantes uma experiência mais próxima das áreas profissionais em que desejam atuar.

A programação também apresentou as opções de formação disponíveis na UFN para 2027, que incluem mais de 30 cursos presenciais, quatro semipresenciais e um na modalidade de Educação a Distância (EaD).

Durante a cobertura do evento para a Rádio Web UFN, a acadêmica de Jornalismo Luiza Fantinel conversou com a pró-reitora acadêmica, professora Vanilde Bisognin, que destacou a importância da ampliação das modalidades de ensino oferecidas pela instituição. “A instituição oferece três modalidades para a realização dos cursos de graduação: presencial, semipresencial e a distância. Ressaltando que, independentemente da opção que escolher, a qualidade será a mesma. As diferentes modalidades possuem os mesmos materiais, os mesmos professores, o mesmo acolhimento, pois não negligenciamos uma graduação acessível, flexível e de qualidade”, compartilhou a pró-reitora.

Cápsula da Nave de Histórias.
Foto: Emanuelle Rosa

Durante a Mostra, os cursos de graduação promoveram diferentes atividades para apresentar aos visitantes suas áreas de atuação. A Enfermagem, por exemplo, realizou demonstrações práticas de punção venosa e curativos, além de apresentar procedimentos de atendimento em ambulância em situações de urgência e emergência. Já o curso de Direito promoveu um júri simulado no salão de júri da UFN. A Odontologia organizou experiências imersivas, com tour guiado, circuito prático e apresentação da clínica, além de um espaço lúdico.

O curso de Jornalismo também abriu as portas de seus espaços de aprendizagem, com visitas aos Laboratório de Audiovisual (Labseis), à Agência Central Sul de Notícias e ao Laboratório de Fotografia e Memória (Labfem).

Além disso, o projeto do curso de Jornalismo Nave de Histórias, esteve presente com sua cápsula em que uma experiência imersiva de audição de histórias gravadas por alunos do curso e por crianças da escola municipal Castro Alves estava disponível.

Pela primeira vez, o Labfem montou um mini estúdio fotográfico no hall do prédio 17. O espaço contou com exposição de fotografias produzidas por acadêmicos, câmeras fotográficas, livros sobre a história da fotografia e atividades de captação de imagens.

Labfem na Mostra com seu mini estúdio fotográfico. Foto: Emanuelle Rosa

A professora de Fotografia Laura Fabrício destacou a importância de aproximar o público das práticas desenvolvidas no curso. “Convido o público a conhecer os cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda, que trabalham diretamente com a disciplina de Fotografia. Mas independentemente do teu curso, tu tens acesso à eletiva de Fotografia Digital. Trazer, pela primeira vez, o estúdio para um espaço de maior circulação de público aproxima ainda mais nosso trabalho na Mostra e destaca a importância dessa disciplina para o Jornalismo”, ressaltou.

O curso de Jornalismo também participa sempre da cobertura do evento. Acadêmicos realizaram a transmissão ao vivo da Mostra das Profissões por meio da Rádio Universitária. A experiência permitiu que os estudantes colocassem em prática conhecimentos relacionados à comunicação com o público e à realização de entrevistas com professores e visitantes.

Maria Eduarda Castro e Nicolas Pacheco são alunos de Jornalismo e atuaram na Rádio Web UFN. Foto: Vinicius Gomes/Labfem

A programação também contou com a participação de representantes da Escola Estadual Irmão José Otão, que compartilharam a experiência do clube de mídias desenvolvido na instituição. Segundo a professora Dominique, o projeto é dividido em três áreas: redes sociais, programação do site e locução na rádio. “Temos um compromisso com o clube todas as quintas-feiras e, aos poucos, o espaço cresce. Com isso, podemos aproximar os alunos dessas atividades”, contou.

A oportunidade de conhecer diferentes cursos e vivenciar atividades práticas também despertou o interesse dos visitantes por áreas específicas de formação. Dessa forma, a Mostra das Profissões se consolidou como um espaço de aproximação entre a universidade e a comunidade escolar, permitindo que os estudantes conhecessem as possibilidades de graduação oferecidas pela UFN e tivessem um primeiro contato com as experiências que fazem parte da vida acadêmica e profissional.

Fotos: Thine Feistauer/Labfem

Antiga Rua 24 Horas – Santa Maria
Foto original | Carlos Blaya Pérez
Imagem ajustada a qualidade por IA
@impressionante_santa_maria

Da euforia da Rua 24 Horas ao abandono da Alberto Pasqualini, a história de um projeto que prometia transformar o centro de Santa Maria e acabou se tornando símbolo do esquecimento urbano.

Há ruas que envelhecem com dignidade, como quem vai cedendo ao peso dos anos sem perder a postura. A Alberto Pasqualini, no coração de Santa Maria, envelheceu de outro jeito — com as marcas abertas de quem não teve essa sorte, de quem foi prometido ao brilho e acabou entregue à sombra.

Ela leva o nome de um homem que também conheceu a contradição entre promessa e realidade. Alberto Pasqualini, filho de imigrantes italianos do interior gaúcho, advogado, senador, duas vezes derrotado nas urnas para o governo do estado, defendeu por toda a vida a ideia de que o progresso social só se sustenta quando tem raízes. A rua que leva seu nome, num paradoxo que a cidade talvez não tenha percebido, foi construída sobre areia.

Em março de 1994, ela acordou com um outro nome — Rua 24 Horas — e com a promessa de nunca mais dormir. A cidade acompanhava a onda da capital da moda à época, Curitiba, que havia implementado um projeto semelhante anos antes. Era a época dos planos urbanos ambiciosos, do otimismo dos anos pós-Plano Real, de uma Santa Maria que queria se sentir metrópole mesmo sem o ser. Construída na rua Alberto Pasqualini, espaço central da cidade, próximo ao Calçadão, o projeto teria o diferencial de permanecer aberto durante as noites e as madrugadas, em domingos e feriados.

O local abrigou nos primeiros anos o comércio de jornais e revistas, bomboniére e pizzaria, confecção, presentes, multicoisas e flores, loja de importados, promoção de eventos e loterias, café, sorveteria e tabacaria, artigos esportivos, artesanato e armarinho — e até um módulo com showroom de imóveis. Treze boxes, treze apostas no movimento que a noite prometia trazer. Por um momento, Santa Maria teve uma rua que piscava luzes quando o resto da cidade já havia apagado as suas. Quem passou por ali naqueles primeiros meses guarda a imagem da estrutura metálica em vermelho e amarelo recortando o céu do centro, um clarão de novidade num lugar acostumado ao ritmo lento do interior.

Mas cidades do interior têm seu próprio pulso, e ele não é fácil de dobrar. A publicidade feita em função do lançamento e a ótima localização rendiam aos treze módulos boas vendas durante o dia. À noite, no entanto, a freguesia rareava, ainda que nos primeiros meses houvesse boas condições de policiamento e iluminação. As calçadas, que de dia formigavam com o movimento do centro, ficavam largas demais para o fluxo que aparecia depois das dez da noite. Inicialmente, como constava no regulamento da Rua 24 Horas, era obrigatório manter a loja em funcionamento em tempo integral. Mas regulamento não paga conta de luz, e conta de luz não espera a freguesia aparecer. 

Passados poucos meses da inauguração, já não eram todas as lojas que mantinham as portas abertas durante a noite. Não compensava o investimento e a Rua 24 Horas, ao contrário do que alguns pensaram, não alterou o comportamento dos moradores. Os lojistas foram, um a um, cedendo ao cansaço de manter portas abertas para o vazio. Ainda na mesma década, surgiram os primeiros shoppings da cidade, acirrando a competição entre os lojistas. O que a Rua 24 Horas tinha de novidade foi ficando pequeno diante do que eles ofereciam — estacionamento, segurança, ar-condicionado, a promessa de um mundo completo dentro de quatro paredes. Em outubro de 2003, após meses de indecisões, a armação foi removida, a estrutura inteiramente desmontada e a 24 Horas deixou de fazer parte da Rua Alberto Pasqualini. 

Hoje quase ninguém sabe onde foi parar a estrutura de metal, tampouco o que foi feito dela. Virou história mal contada, uma daquelas memórias coletivas que a cidade guarda sem saber muito bem onde guardar. O engraçado — e talvez o revelador — é que muita gente ainda pensa na rua como “a Rua 24 Horas”, e a imagem da estrutura vermelha com amarelo ainda vem à mente quando o nome Alberto Pasqualini é pronunciado. O apelido durou mais que a promessa. 

O que veio depois é o que o tempo costuma deixar quando ninguém cuida: prédios de fachadas descascadas, paredes cobertas de pichações que são, a seu modo, a única escrita que sobrou do lugar. Onde havia módulos iluminados e vitrines arrumadas, hoje há sombra e concreto partido. Nos últimos anos, a rua chegou a ser interditada por causa de uma marquise que estava prestes a ceder — e cedeu, na noite de um sábado, enquanto engenheiros da Prefeitura monitoravam a situação. O prédio envelheceu mais rápido que a cidade ao redor. Não é o único. Especialistas em urbanismo já apontaram que a omissão administrativa na fiscalização e manutenção, somada à ausência de um planejamento democrático, contribuíram para o abandono de áreas como essa no centro de Santa Maria, abrindo espaço para atos de vandalismo e depredação deflagrados justamente pela falta de identidade e apego da comunidade para com esses espaços. 

Nas frestas desse abandono se instalaram as pessoas que a cidade também abandonou — homens e mulheres em situação de rua que encontraram ali, na carcaça de um projeto que prometia não ter hora para fechar, o único abrigo disponível.

Há uma ironia cruel nisso. A Rua 24 Horas nasceu para nunca dormir. Quem dorme nela agora são os que não têm outro lugar.

Mas ainda há um lugar que permanece com aparências da época de ouro, uma loja que abriga em seu interior um pouco do velho e do novo, misturados em harmonia. A loja Ônix é uma das mais antigas da rua e que ainda se mantém funcionando, mesmo diante das adversidades:

“Essa loja, hoje, às vezes parece ser o único ponto brilhante da rua. O único lugar que ainda tem algum tipo de vida. O resto tá aqui, jogado ao acaso. As pessoas passam rápido, pois é uma rua deserta e ninguém quer correr perigo, principalmente agora, no inverno, quando escurece mais cedo. Foi preciso se adaptar.”, conta uma pessoa que vive diariamente no sonho que deveria ser a rua 24 horas.

Por anos, o local permaneceu inalterado e nada foi resolvido em relação às queixas da vizinhança. Uma reforma recente melhorou as condições do ponto, que segue utilizado pelo comércio durante o dia, ainda que em menor número e de forma descentralizada. Certeza de modernidade em uma época já distante, a Rua 24 Horas hoje pouco é lembrada pelos habitantes, ainda que o vazio no local possa remeter àqueles tempos.

Hoje, a Rua Alberto Pasqualini é um retrato de uma Santa Maria que nunca mais existiu — e talvez nunca tenha existido de verdade, ao menos não da forma em que foi imaginada. Ela nasceu de um sonho de metrópole numa cidade de interior, e foi perdendo sua chama ao longo dos anos à medida que a realidade foi mostrando seu custo. Assim como vários outros pontos do centro histórico, que abrigam histórias e memórias milenares mas que cedem ao tempo e ao esquecimento de seus tempos áureos, a rua que prometeu nunca dormir tornou-se, ela mesma, um lugar que a cidade prefere não ver de perto.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Foto: Leo Piva

O Grêmio vive uma crise há anos e parece que ninguém consegue encontrar uma solução. Depois dos anos de glória, com a conquista da Copa do Brasil em 2016 e da Libertadores em 2017, o clube nunca mais foi o mesmo.

Em 2021, começou o declínio de uma geração tão vitoriosa. Com um elenco problemático e uma série de erros dentro e fora de campo, o Grêmio foi rebaixado pela terceira vez em sua história e, em 2022, precisou disputar a Série B do Campeonato Brasileiro.

No ano seguinte, em 2023 veio o ano da ilusão. O Tricolor terminou o Brasileirão como vice-campeão, impulsionado pelo desempenho de Luís Suárez, um dos melhores centroavantes do futebol mundial. Mas depois disso o que parecia ser o início de uma retomada acabou se transformando em mais uma sequência de frustrações.

Ano após ano o Grêmio parece repetir os mesmos erros. Muda o treinador, chegam novos jogadores, surgem novas promessas, mas os problemas continuam. São dois anos sem disputar a Libertadores, a principal competição de clubes da América do Sul, e uma dificuldade cada vez maior de voltar a ser protagonista no futebol brasileiro. O torcedor acompanha as mudanças, cria expectativas e no fim nada se concretiza.

A temporada de 2026 começou com uma nova direção e a contratação de um técnico estrangeiro. A expectativa era de mudança, de um novo planejamento e de um Grêmio capaz de recuperar a competitividade. Mas não demorou muito para perceber que o caminho seria difícil. A montagem do elenco gerou questionamentos, as dificuldades de comunicação entre os jogadores estrangeiros chamaram a atenção e dentro de campo, o time não conseguia apresentar um futebol convincente. Foram derrotas frustrantes, empates inexplicáveis e poucas vitórias.

A torcida apoiou, teve paciência, mas também cobrou respostas que nunca chegaram. Nove meses depois, faltando apenas 11 jogos para o fim da temporada, a direção decidiu demitir o treinador e apostar em Renato Portaluppi, um dos maiores ídolos da história do clube, na tentativa de encontrar uma solução para uma crise que já vinha de muito antes. Porém, trocar o treinador não significa resolver todos os problemas. Até agora o Grêmio continua apresentando um futebol difícil de assistir.

O que resta ao Grêmio em 2026 é tentar sobreviver a uma temporada que se tornou muito mais difícil do que deveria. Com poucas partidas pela frente, evitar o rebaixamento é a prioridade. Mas a crise envolve planejamento, escolhas e a falta de um futebol que represente a grandeza do clube. Para uma torcida que já viveu tantas glórias é difícil aceitar que neste momento, a principal preocupação seja simplesmente conseguir terminar o ano na primeira divisão.

Alunos do curso de Jornalismo da Universidade Franciscana estão produzindo o curta-metragem Frequência Anômala, na disciplina Produção em Cinema, sob a supervisão da professora Neli Mombelli. A obra conta a história do universitário Lucas exausto pelo trabalho que está editando um podcast. Durante a edição ele começa a escutar sons estranhos e se questiona se são apenas ruídos da gravação ou se ele está alucinando. O curta conta com três diárias e terá duração de aproximadamente 6 minutos e está sendo gravado nas dependências da UFN. A produção envolve todo o semestre, se intensificando no mês de setembro, após o roteiro ser escolhido.

Produção do curta junto com o cinegrafista Alexsandro Pedrollo. Foto: Thine Feistauer/ Labfem

O curta conta com duas pessoas no elenco. Tarso Pimentel, bacharel em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Santa Maria, como Lucas e Karina Fontes, estudante de Jornalismo na Universidade Franciscana, como Clara. O diretor e roteirista é o estudante de Jornalismo Gabriel Deõn. A produção conta com os alunos de Jornalismo da UFN: Enzo Martins como assistente de direção, Andressa Rodrigues na direção de arte, Felipe Perosa como assistente de direção de arte, João Henrique Machado na produção, Tales Trindade e Thomás Ortiz como assistente de produção, Thiago Bochi como foto still, Ygor Vasquez como continuista. Na direção de fotografia o cinegrafista Alexsandro Pedrollo.

Elenco e produção do curta no set de gravação. Foto: Thine Feistauer/ Labfem

O diretor Gabriel Deõn contou como surgiu a ideia do curta. “Tudo surgiu de uma matéria que eu escrevi para a agência, onde fiz algumas entrevistas com alunos da instituição e percebemos como os alunos se sentem sobrecarregados, com atividades da faculdade, trabalho, vida pessoal e afins. Com essa ideia me despertou a vontade de escrever meu curta baseado nisso, como os estudantes se sentem sobrecarregados nesse período da vida”. Ele também destacou que o maior desafio foi conseguir unir essa “problemática” com a arte. “Eu nunca tinha escrito algo para o audiovisual, senti muita dificuldade em levar essa ideia para o papel, mas com ajuda dos colegas, conseguimos desenvolver a história e colocamos em prática agora nesses dias de gravação”.

Para interpretar Lucas, Tarso Pimentel buscou inspiração em situações que observa na sociedade. Segundo o ator, o personagem representa a busca pela alta performance, frequentemente associada ao sucesso, mas que pode levar ao esgotamento. “Vi no Lucas um exemplo do que tenho visto na sociedade ultimamente, essa busca pela alta performance vendida como sucesso que leva as pessoas ao esgotamento. Tentei incorporar sentimentos que me remetessem a esse esgotamento e cansaço”, relata.

Tarso Pimentel nos bastidores. Foto: Labfem

Sobre a participação na produção, Tarso destaca o ambiente de trabalho e a relação com a equipe. “Muito legal, a equipe toda é muito divertida e ótima de trabalhar. Apesar das diárias serem longas a gente passa muito tempo dando risada, gosto bastante de trabalhar com as turmas de Jornalismo da UFN”, conta.

Karina Fontes, que interpreta Clara, também destaca como sua formação em Jornalismo contribui para a experiência de atuação. Para ela, as duas áreas, apesar das diferenças, oferecem aprendizados que se complementam. “Por mais que o jornalismo e a atuação sejam completamente opostas eu consigo enxergar benefícios que ajudaram nesses dois lados da minha vida. Sem dúvidas o jornalismo melhorou muito a minha comunicação, que é bastante necessária dentro do set como atriz”, afirma.

Karina Fontes nos bastidores do curta. Foto: Labfem

A estudante também ressalta a experiência de participar da produção ao lado de colegas que conhece há anos e a familiaridade com a disciplina de cinema. “Fazer parte do curta da disciplina de cinema do curso foi uma experiência muito divertida e enriquecedora. Poder estar com colegas que conheço há anos deixou tudo muito mais agradável. E também por eu já ter feito essa disciplina, consigo compreender muito bem como funciona, estando dos dois lados, na frente e atrás das câmeras”, conclui

O curta será lançado na Mostra de Produção Audiovisual que ocorre dia 2 de dezembro, quarta-feira.

Foto: Reprodução

Escuto gargalhadas finas e sinceras. Chamam meu nome no portão. Rita Lee dizia: “Tem lugares que me lembram minha vida, por onde andei”. Sabe-se lá em que ela estava pensando naquele momento, mas das minhas raízes, eu sei. Talvez nem tão minhas, mas as adotei com o tempo. A palavra árvore, segundo o dicionário, significa planta lenhosa com tronco fixo no solo, raízes, despida na base e carregada de galhos e folhas na parte superior. Lembro-me assim, da minha infância.

O bairro Voluntários da Pátria, em Rosário do Sul, sempre foi um dos mais extensos da cidade, recheado de casas, pessoas, praças e lojas. Na verdade, quem percebia tudo isso eram os adultos. Para mim, o brilho nos olhos era outro. Bem no meio de todos aqueles arredores, entre os canteiros, permanecia o João. Quero dizer, o João Bolão.

Sei que, de cara, parece engraçado e simpático, mas explicarei melhor. Minha infância foi marcada pela inocência de uma gigante árvore que ficava em frente à casa de minha tia, a menos de uma quadra da minha. O tronco surgia com raízes fortes e firmes, de um marrom-escuro intenso, muito bem fixadas no chão gramado do canteiro. Contava-se, naquela época, que ela havia sido plantada com cola branca e, por isso, era tão resistente. Se você não acredita, eu e meus amigos, aos seis anos de idade, achávamos que era a mais pura verdade. Afinal, por que não seria?

Na música chamada “Minha vida”, canta-se também a parte: “As histórias, os caminhos, os destinos, que eu mudei”. Ela era exatamente assim. Essa planta tinha a maior sorte (ou azar) de presenciar as maiores brincadeiras já vistas na terra onde foi plantada. As folhas grandes, majestosas, no verde mais chamativo e escuro que já vi, balançavam de um lado para o outro como se acompanhassem o ritmo lento de uma dança. A título de curiosidade, a casa de minha tia também era verde, o que chegava a ser irônico. Eram tantas folhas que nos perdíamos olhando para cima. O bairro era, de fato, grandioso, mas o João (que agora vocês estão conhecendo) era mil vezes maior.

Assim como na canção, Rita Lee canta: “Cenas no meu filme branco e preto, que o vento levou e o tempo trás”. Esse arvoredo teria inúmeras histórias para contar enquanto o vento o enriquecia de vida. Mas, antes de contar tudo o que ele presenciava, preciso falar de mais uma característica que chamava atenção.

Roxo sempre foi uma das minhas cores favoritas na infância e, talvez agora, pensando bem, o João tenha culpa nisso. O nome “João”, que tantas vezes mencionei, vem do fruto que pesava entre suas folhagens. Pode-se até confundi-lo com uvas, de tão parecido. Quando maduros, os frutos ficam de um roxo quase preto e se enchem de uma polpa suculenta. Porém, não se enganem com a primeira impressão. Na época da safra, eles caem do pé e forram o chão, tingindo tudo o que tocam: mãos, roupas, calçadas e até os carros estacionados sob sua sombra no verão.

Essas frutas presenciavam tudo o que se pode imaginar. Mas era durante as tardes que pareciam mais felizes ao ver as crianças brincarem. O ponto de encontro era sempre ali. Talvez você me pergunte: “Mas e quando chovia?” E eu respondo: também. Afinal, ela protegia qualquer coisa que estivesse embaixo. A altura do João varia entre 13 e 22 metros, mas isso nunca nos assustou. Pelo contrário, nos encorajava. Acredito que, se hoje sou uma pessoa corajosa e forte, foi porque, aos seis anos, escalava todo aquele arvoredo até o topo. Ali, naquele lugar, eu realmente me sentia no topo do mundo.

“Tem pessoas, que a gente não esquece, nem se esquecer”, canta Rita. Muito provavelmente eu e meus amigos éramos assim para o João, e vou contar mais a fundo o porquê. Naquela época, dizia-se que a árvore seria cortada e levada embora. Eu chorava por não querer perder um dos meus melhores amigos. Já minha tia lamentava a possível perda da sombra para o chimarrão. O medo era tanto que, sempre que apareciam para podar a árvore, ficávamos de olho, como guarda-costas de alguém muito famoso (E para nós, ele realmente era).

Pior ainda era quando nós, baixinhos e com nossas bicicletas, chegávamos lá e ela já estava podada. Indignação era a palavra que descrevia aquele momento. Mas nem assim deixávamos o João se abalar. As milhares  (sem drama, eram milhares ) de folhas espalhadas pelo chão chegavam a nos encobrir de tão altas. Tudo bem, também não era tão difícil naquela época. Os galhos e folhas cortados formavam um monte que alcançava quase a metade do tronco da árvore. E essa era a parte mais divertida.

Já ouviram falar em piscina ecológica? Pois lhes apresento esse termo.

Quando as folhagens ficavam amontoadas junto ao tronco, escalávamos o João até o mais alto que conseguíamos e, de lá, com toda a coragem do mundo, nos atirávamos sobre elas. Era a nossa forma de não deixar a natureza triste por perder algumas folhas. Também elogiávamos o arvoredo e dizíamos que ele tinha ficado bonito de cabelo cortado. Realmente éramos “personagens do filme de memórias” do João.

“Desenhos que a vida vai fazendo, desbotam alguns, uns ficam iguais”. Sabe aquela frase que ouvimos quando crescemos: “Um dia você brincou pela última vez e não sabia”? Talvez essa parte tenha doído para o João. Ele foi envelhecendo e perdendo o brilho das folhas, assim como nós.

Em algum dia qualquer daquela rua, fizemos comida de mentira com aquelas frutinhas, nos escondemos atrás do arvoredo, sujamos as mãos de roxo, brincamos de casinha e gargalhamos ao subir no topo do mundo, pela última vez.

“Entre todos os amores e amigos, de você, me lembro mais”. Há mais uma coisa que quero contar sobre o João. Existiam outras duas árvores ao seu lado. Porém, com todo respeito a elas, João Bolão era o protagonista. Eram menores, tinham troncos mais finos, menos galhos e menos folhas. Ocupavam menos espaço e pareciam estar ali para lhe fazer companhia quando nós não aparecíamos — o que era raro. Ainda assim, achei importante incluí-las nesta escrita. Elas também têm suas histórias. Mas isso fica para outro dia.

Inclusive, escrevendo este perfil, descobri pela primeira vez que o nome correto é “Jambolão” ou “Jamelão” e que sua origem é indiana. Com todo respeito, João é muito mais criativo e bonito do que qualquer outro nome que poderíamos ter dado.

E, se isso também puder servir de inspiração, essa árvore foi plantada pelo meu pai, em 1991, um ano depois de conhecer minha mãe.

Ou seja, quem me conhece e me vê, de alguma forma também convive com a natureza dessa árvore. Provavelmente, em algum momento, já me ouviu elogiar alguma árvore. E, se ainda não ouviu, há de se esperar. Talvez porque, toda vez que paro para admirar uma delas, eu enxergue um pouco do João. Ou talvez porque, sem perceber, eu tenha aprendido com ele a encontrar beleza até nas raízes e folhas que precisam cair. No fim das contas, quem conhece um pouco de mim, conhece um pouco dele também.

É, João… Rita Lee estava certa: “De você, não esqueço jamais”.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

A imagem é meramente ilustrativa pois a árvore a que a autora se refere não existe mais.

Há ruas que apenas conduzem pessoas de um ponto ao outro, a Rua XV de Novembro faz muito mais do que isso, ela conduz histórias. É nela que São Pedro do Sul, no RS, parece respirar com mais intensidade. Cada passo revela um pedaço da identidade do município, como se o tempo tivesse escolhido aquele caminho para guardar as memórias de quem nasceu, cresceu ou simplesmente aprendeu a chamar esta cidade de lar.

A caminhada começa logo após a rotatória da avenida da cidade, ali que a Rua XV de Novembro se apresenta, discreta para quem chega pela primeira vez, mas grandiosa para quem conhece sua importância. Nos primeiros metros está um de seus símbolos mais curiosos e emblemáticos, a Ponte Seca. Hoje, sob ela, já não passa o trem que um dia ajudou a movimentar a região. Restou apenas a estrutura, firme e silenciosa. A velha ponte parece guardar lembranças que apenas ela e moradores antigos testemunharam.

O asfalto segue adiante carregando as marcas do tempo. Em alguns trechos, os buracos denunciam décadas de movimento, como se a própria rua exibisse, sem vergonha, as cicatrizes de quem nunca deixou de cumprir seu papel. Todos os dias, trabalhadores cruzam seu caminho antes mesmo do amanhecer, comerciantes levantam as portas de seus estabelecimentos, estudantes caminham em grupos para a escola e moradores seguem cumprimentando conhecidos, preservando um costume que ainda resiste nas cidades do interior.

Ao longo da caminhada, dois velhos conhecidos dos são-pedrenses dividem a paisagem: o  supermercado Spode e o supermercado Bom Preço, que fazem parte da rotina de praticamente toda a cidade. Mais adiante, a rua encontra outro de seus grandes marcos, a Escola Estadual de Educação Básica Tito Ferrari, a única instituição da cidade que oferece o Ensino Médio. Ali, gerações inteiras descobriram amizades, viveram  e construíram lembranças que atravessaram o tempo. Nos findares das aulas, as calçadas se enchem de risadas, conversas e Coca-Cola dividida entre colegas. E entre os estudantes, permanece viva a antiga lenda de que a escola teria sido construída sobre um cemitério. Verdade ou não, ela faz parte das histórias contadas de turma em turma e ajuda a manter viva a identidade daquele lugar.

Seguindo, o caminho leva naturalmente à Praça Crescêncio Pereira, um dos espaços que ajudam a explicar a importância da própria rua. Foi a partir da doação daquele terreno que o centro de São Pedro do Sul começou a ganhar forma. Hoje, a praça continua dando vida à rua. O riso das crianças nos brinquedos mistura-se às conversas de famílias reunidas em torno de uma cuia de chimarrão. Jovens passam de bicicleta, moradores caminham com seus cachorros e idosos observam o movimento com a tranquilidade de quem já viu muitas gerações passarem por ali. 

Ponto de encontro

F

Bem em frente está outro detalhe que, para quem mora em São Pedro do Sul, é quase um símbolo. A única sinaleira da cidade também está na Rua XV de Novembro. Para quem vem de fora, ela pode parecer apenas um semáforo. Para os moradores, tornou-se ponto de referência, local de encontros e parte da memória cotidiana. Basta combinar um horário “na sinaleira” para que todos saibam exatamente onde ir.

Mas é quando chegam as datas mais importantes do calendário que a Rua XV de Novembro revela toda a sua grandeza. Ao longo do ano, ela deixa de ser apenas uma via para transformar-se no principal palco da cidade. No desfile de Sete de Setembro, estudantes, escolas e instituições ocupam seu espaço celebrando o civismo. E no tradicional desfile do Dia do Gaúcho, o asfalto recebe prendas, peões, cavalarianos e entidades tradicionalistas. As calçadas ficam repletas de famílias. Os avós apontam para os netos, pais revivem lembranças da infância e crianças assistem encantadas, construindo memórias que um dia também farão parte da história da cidade.

Além dos desfiles, é na Rua XV de Novembro que acontecem muitas das principais solenidades e celebrações do município. Sempre que São Pedro do Sul precisa se reunir para comemorar, homenagear e celebrar um momento importante, é para essa rua que os olhares se voltam. Mais do que um espaço de passagem, ela transforma-se em um lugar de convivência, onde a cidade demonstra seu verdadeiro espírito comunitário.

Talvez seja justamente isso que torna a Rua XV de Novembro tão especial, ela não é a mais importante de São Pedro do Sul apenas porque concentra escolas, comércio, serviços e espaços públicos. Sua importância está nas pessoas que passam por ela todos os dias. Crianças dão ali os primeiros passos rumo à escola, jovens constroem amizades, adultos seguem sua rotina de trabalho e idosos encontram lembranças a cada caminhada.

No fim das contas, ela não é apenas a principal via de São Pedro do Sul, ela é o lugar onde diferentes gerações se cruzam diariamente. Entre a velha Ponte Seca, os mercados, a Escola Tito Ferrari, a Praça Crescente Pereira e a única sinaleira da cidade, ela reúne lembranças, encontros e histórias que ajudam a explicar o porquê, para tantos são-pedrenses, falar da XV de Novembro é, inevitavelmente, falar de casa.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Imagens: Cristhian Braga

Fotos: Thine Feistauer/LABFEM

Os estudantes de Jornalismo participaram de um bate-papo com a equipe de Assessoria de Comunicação (Assecom) da Universidade Franciscana (UFN) na última semana. O encontro, promovido pelo DAJOR, teve como objetivo apresentar o funcionamento da assessoria, suas principais atividades e as diferentes possibilidades de atuação profissional na área da comunicação

A conversa contou com a participação de Carine Bohnert, diretora-geral da Assecom; Renata Teixeira, responsável pelo marketing digital e pelo site da assessoria; Gabriela de Flores, jornalista científica; e Laura Gomes, jornalista da instituição. Durante o encontro, as profissionais compartilharam aspectos da rotina de trabalho e explicaram como a comunicação institucional se desenvolve no ambiente universitário.

A Assessoria de Comunicação é responsável por mediar e produzir informações sobre a Universidade Franciscana, seus cursos e trabalhos acadêmicos, além de manter o atendimento à comunidade. Entre suas atribuições, também estão o cuidado com a imagem institucional, a identidade da mídia e o desenvolvimento de atividades relacionadas ao jornalismo, à publicidade e ao marketing. O trabalho exige integração entre diferentes áreas da comunicação, buscando aproximar a universidade da comunidade e divulgar as atividades desenvolvidas pela instituição.

A jornalista Renata Teixeira destacou a importância de os profissionais que desejam ingressar na área desenvolverem diferentes habilidades e estarem dispostos a buscar novos conhecimentos. Para ela, o trabalho na assessoria vai além da produção de notícias e envolve diferentes formas de linguagens. “Eu acredito que o jornalista que quer ir para a área da assessoria de comunicação tem que ter sempre em mente essa multivariedade e buscar áreas diferentes. Muitas vezes, a gente vai estar escrevendo a notícia, mas também vai estar fazendo marketing digital, trabalhando com fotografia e vídeo”, explicou Renata.

A jornalista também ressaltou que o assessor de comunicação assume um papel de representatividade da instituição ou do cliente para o qual trabalha. Nesse sentido, considera a disposição para estudar e ampliar os conhecimentos uma característica importante para quem está começando na profissão.

Para as estudantes que participaram do encontro, a conversa também possibilitou conhecer a área de atuação. Luísa Miranda, estudante do 1º semestre de Jornalismo, destacou que o bate-papo apresentou novas perspectivas sobre as possibilidades profissionais dentro do jornalismo. “Deu uma nova visão para a gente, porque é uma nova área dentro da comunicação, dentro do jornalismo, que tem novas ideias, uma outra visão do que a área do jornalismo permite”, relatou Luísa. A estudante também destacou a forma como as profissionais conduziam a conversa, avaliando o encontro como uma experiência positiva e de aproximação com a rotina da assessoria.

Isadora Teixeira, também do 1º semestre de Jornalismo, também avaliou positivamente o encontro e destacou a importância de conhecer as possibilidades de atuação profissional durante e após a graduação. “Eu achei o bate-papo maravilhoso. Nos dá uma visão de como podemos colocar as nossas habilidades em prática durante e após a faculdade, como monitores e profissionais”, afirmou. Para a caloura, o encontro também foi esclarecedor para quem ainda não definiu qual área pretende seguir após a formação. Segundo Isadora, a conversa permitiu compreender melhor como funciona o trabalho de um jornalista em uma assessoria de comunicação.

A atividade permitiu aos estudantes conhecer de forma mais próxima o trabalho desenvolvido pela Assecom e compreender como diferentes áreas da comunicação podem estar integradas à atuação do jornalista. Além de apresentar a rotina profissional das integrantes e da equipe, o encontro reforçou a importância da versatilidade e da busca constante por conhecimento na formação de novos profissionais da área.

Fotos: Thine Feistauer/LABFEM


Foto: Banco free de imagem Magnific

Quando trocou o Paraná pelo Rio Grande do Sul, Admilson Lorbiete, 34 anos, percebeu rapidamente que o novo endereço exigiria mais do seu sistema imunológico. Acostumado a conviver com condições alérgicas, ele notou uma piora no próprio quadro clínico logo após se estabelecer em Santa Maria. A experiência do morador ilustra uma realidade atestada pela ciência e vivenciada por quem enfrenta o inverno na Região Central. A resposta para o aumento expressivo de crises respiratórias na cidade está na combinação de três fatores principais apontados por meteorologistas ouvidos pela reportagem.

Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pesquisas da Faculdade de Meteorologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a junção de uma atmosfera com mais de 80% de umidade, oscilações térmicas bruscas e o fenômeno da inversão térmica ditado pelo relevo local atua como um facilitador para vírus e alergias. Esse cenário pode impedir a rápida adaptação do organismo e reter poluentes próximos ao solo, refletindo diretamente na rotina diária da população.

O impacto é sentido no corpo por quem chega de fora. “Eu sempre tive rinite e alguns problemas respiratórios, mas sinto que depois que eu vim morar para cá eles aumentaram. Comecei a ter mais crise de rinite do que o comum, comecei a ter sinusite e a sofrer bastante com essa questão. Eu acredito que um pouco do fator que agravou isso é devido ao clima, que é bem severo aqui”, relata Admilson.

Resposta do organismo à umidade

Daniel Caetano, meteorologista, explica que as doenças respiratórias possuem forte ligação com a umidade, sendo desencadeadas tanto em cenários de ar muito seco quanto naqueles de ar excessivamente úmido. Conforme o profissional, o inverno em Santa Maria traz uma atmosfera mais úmida do que em outras regiões do Estado devido a uma cobertura persistente de nuvens. O resultado, pontua o especialista, é que o corpo não consegue se adaptar de forma rápida a esse excesso de umidade somado ao frio constante, respondendo com crises respiratórias.

De acordo com Rose Freitas, professora e doutora da UFPel, as condições atmosféricas preparam o terreno no organismo. “Ele pode favorecer a circulação de vírus ou agravar sintomas em indivíduos mais suscetíveis, como crianças, idosos e pessoas com asma e rinite”, esclarece a especialista.

Fator pode ser geográfico

Além dos altos índices registrados pelos pluviômetros, a topografia de Santa Maria age como um elemento determinante na saúde pública local. Conforme a pesquisadora da UFPel, a cidade está localizada em uma área de transição entre a Depressão Central, que é a parte mais baixa e plana do Estado, e o Rebordo do Planalto, que forma a região serrana.

Segundo Rose, essa espécie de “degrau” natural afeta a circulação dos ventos e facilita a formação de microclimas e das chamadas inversões térmicas. Durante esse fenômeno, o ar frio e pesado desce e atua como uma tampa sobre a cidade, prendendo os poluentes e os vírus muito perto do chão. De acordo com a professora, estudos já associam a ocorrência desse bloqueio atmosférico, aliado à queda das temperaturas, ao aumento das internações hospitalares no município, afetando os santa-marienses que ainda não se acostumaram ao clima.

Reflexos na rotina

Para quem convive com o problema desde a infância, as meias-estações e as mudanças rápidas nos termômetros são os principais obstáculos diários. Maria Eduarda de Vargas dos Santos, 21 anos, estudante, explica que a variação térmica afeta a sua imunidade e desencadeia crises inevitáveis. “Sinto que acabo me atacando muito mais quando tem essas alterações de temperatura muito grandes, por exemplo, quando uma hora do nada está 27 graus e outra hora está 10 graus. É certeza que eu vou ficar atacada de rinite, da asma e também com gripe”, relata Maria Eduarda.

O reflexo dessas oscilações também é sentido em espaços de convivência prolongada. Jhonath Bertusso Castro, 31 anos, funcionário de escola, mudou-se de Ourinhos (SP) há um ano e observa o impacto do clima na saúde dos alunos. “Acho que é bem propenso a doenças. Eu vejo isso nas crianças quando tem essas oscilações. Teve um surto de influenza no início do inverno que pegou bastante gente, inclusive eu. Por oscilar muito de temperatura e ser muito úmido, tem um favorecimento de doenças gripais e respiratórias”, avalia Jhonath.

Diante de um ambiente favorável ao adoecimento, a população busca saídas na precaução. Viviane Nunes Rodrigues, 25 anos, estudante, conta que as características do inverno impõem um estado de alerta contínuo. “Santa Maria tem mudanças bruscas de temperatura durante todo o ano, e o inverno sempre é muito rigoroso. Como aqui faz muito frio, todo mundo fica sempre na iminência de ficar gripado, e a gente vive com essa preocupação constante”, finaliza Viviane.

Reportagem produzida na disciplina Jornalismo Especializado, pelos acadêmicos Rian Lacerda e Karina Fontes, no 1º semestre de 2026, sob coordenação da professora Glaíse Bohrer Palma.

Quando a Gente Menina Cresce chega ao cinema de Santa Maria na próxima quinta-feira, 24 de setembro, após sucesso no 53º Festival de Cinema de Gramado, na categoria Melhor Longa-Metragem Gaúcho. O longa dirigido pela professora do curso de Jornalismo da UFN Neli Mombelli e produzido pela TV OVO, aborda o cotidiano de Alana Matias, Ana Julia Freitas, Emilly Quevedo, Isadora de Freitas, Taiane da Rosa e Thaila Matias, alunas da Escola Municipal de Ensino Fundamental Sergio Lopes. A obra relata a transição da infância para a pré-adolescência, marcada principalmente pela primeira menstruação. Além de vencer na categoria Melhor Longa, a produção levou para casa a categoria Júri Popular e recebeu uma Menção Honrosa para as meninas que protagonizaram o filme.

Elenco de Quando a Gente Menina Cresce no Festival de Gramado. Foto: Arquivo Neli Mombelli

O longa está previsto para estrear dia 24 de setembro, no shopping Praça Nova, com duas semanas confirmadas em cartaz. Em outubro, o filme terá circulação em várias cidades do estado, pelo circuito do Panorama Gaúcho da 9ª Mostra Sesc de Cinema. A narrativa será exibida em: Porto Alegre, Canoas, Frederico Westphalen, Gravataí, Lajeado, Pelotas, Rio Grande, Santa Cruz do Sul, Santa Rosa, Uruguaiana, Venâncio Aires e Viamão.

A escolha de Santa Maria para iniciar a circulação do filme tem um significado especial para a equipe. Segundo a diretora Neli Mombelli, havia o desejo de trazer a produção para a cidade antes de iniciar a circulação em outros municípios. Para dar oportunidade para os estudantes assistirem o longa, a produção conseguiu 750 ingressos destinados a escolas. A iniciativa faz parte de um edital de distribuição de impacto, que prevê levar estudantes ao cinema para assistir ao filme, em vez de levar a obra diretamente para dentro das escolas.

Produção de Quando a Gente Menina Cresce com o prêmio. Foto: Arquivo Neli Mombelli

Mais do que apresentar a experiência da primeira menstruação, a narrativa busca criar um espaço de conversa sobre um assunto que ainda é cercado por tabus. Para Neli, a expectativa é que a produção desperte identificação e memórias no público, especialmente entre quem já passou pela menarca. “Eu acho que o que eu mais espero é essa troca, de como o filme chega pras pessoas e o que ele faz pensar”, afirma a diretora.

Com a estreia em Santa Maria, “Quando a Gente Menina Cresce” inicia uma trajetória que pretende ampliar o diálogo sobre a primeira menstruação e as mudanças vivenciadas durante a passagem da infância para a adolescência. Depois da cidade, o filme segue para outros municípios gaúchos, levando consigo histórias que buscam aproximar o público de um tema ainda cercado por tabus.