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Geral

A rua que prometeu nunca dormir

Da euforia da Rua 24 Horas ao abandono da Alberto Pasqualini, a história de um projeto que prometia transformar o centro de Santa Maria e acabou se tornando símbolo do esquecimento urbano.

Antiga Rua 24 Horas – Santa Maria
Foto original | Carlos Blaya Pérez
Imagem ajustada a qualidade por IA
@impressionante_santa_maria

Da euforia da Rua 24 Horas ao abandono da Alberto Pasqualini, a história de um projeto que prometia transformar o centro de Santa Maria e acabou se tornando símbolo do esquecimento urbano.

Há ruas que envelhecem com dignidade, como quem vai cedendo ao peso dos anos sem perder a postura. A Alberto Pasqualini, no coração de Santa Maria, envelheceu de outro jeito — com as marcas abertas de quem não teve essa sorte, de quem foi prometido ao brilho e acabou entregue à sombra.

Ela leva o nome de um homem que também conheceu a contradição entre promessa e realidade. Alberto Pasqualini, filho de imigrantes italianos do interior gaúcho, advogado, senador, duas vezes derrotado nas urnas para o governo do estado, defendeu por toda a vida a ideia de que o progresso social só se sustenta quando tem raízes. A rua que leva seu nome, num paradoxo que a cidade talvez não tenha percebido, foi construída sobre areia.

Em março de 1994, ela acordou com um outro nome — Rua 24 Horas — e com a promessa de nunca mais dormir. A cidade acompanhava a onda da capital da moda à época, Curitiba, que havia implementado um projeto semelhante anos antes. Era a época dos planos urbanos ambiciosos, do otimismo dos anos pós-Plano Real, de uma Santa Maria que queria se sentir metrópole mesmo sem o ser. Construída na rua Alberto Pasqualini, espaço central da cidade, próximo ao Calçadão, o projeto teria o diferencial de permanecer aberto durante as noites e as madrugadas, em domingos e feriados.

O local abrigou nos primeiros anos o comércio de jornais e revistas, bomboniére e pizzaria, confecção, presentes, multicoisas e flores, loja de importados, promoção de eventos e loterias, café, sorveteria e tabacaria, artigos esportivos, artesanato e armarinho — e até um módulo com showroom de imóveis. Treze boxes, treze apostas no movimento que a noite prometia trazer. Por um momento, Santa Maria teve uma rua que piscava luzes quando o resto da cidade já havia apagado as suas. Quem passou por ali naqueles primeiros meses guarda a imagem da estrutura metálica em vermelho e amarelo recortando o céu do centro, um clarão de novidade num lugar acostumado ao ritmo lento do interior.

Mas cidades do interior têm seu próprio pulso, e ele não é fácil de dobrar. A publicidade feita em função do lançamento e a ótima localização rendiam aos treze módulos boas vendas durante o dia. À noite, no entanto, a freguesia rareava, ainda que nos primeiros meses houvesse boas condições de policiamento e iluminação. As calçadas, que de dia formigavam com o movimento do centro, ficavam largas demais para o fluxo que aparecia depois das dez da noite. Inicialmente, como constava no regulamento da Rua 24 Horas, era obrigatório manter a loja em funcionamento em tempo integral. Mas regulamento não paga conta de luz, e conta de luz não espera a freguesia aparecer. 

Passados poucos meses da inauguração, já não eram todas as lojas que mantinham as portas abertas durante a noite. Não compensava o investimento e a Rua 24 Horas, ao contrário do que alguns pensaram, não alterou o comportamento dos moradores. Os lojistas foram, um a um, cedendo ao cansaço de manter portas abertas para o vazio. Ainda na mesma década, surgiram os primeiros shoppings da cidade, acirrando a competição entre os lojistas. O que a Rua 24 Horas tinha de novidade foi ficando pequeno diante do que eles ofereciam — estacionamento, segurança, ar-condicionado, a promessa de um mundo completo dentro de quatro paredes. Em outubro de 2003, após meses de indecisões, a armação foi removida, a estrutura inteiramente desmontada e a 24 Horas deixou de fazer parte da Rua Alberto Pasqualini. 

Hoje quase ninguém sabe onde foi parar a estrutura de metal, tampouco o que foi feito dela. Virou história mal contada, uma daquelas memórias coletivas que a cidade guarda sem saber muito bem onde guardar. O engraçado — e talvez o revelador — é que muita gente ainda pensa na rua como “a Rua 24 Horas”, e a imagem da estrutura vermelha com amarelo ainda vem à mente quando o nome Alberto Pasqualini é pronunciado. O apelido durou mais que a promessa. 

O que veio depois é o que o tempo costuma deixar quando ninguém cuida: prédios de fachadas descascadas, paredes cobertas de pichações que são, a seu modo, a única escrita que sobrou do lugar. Onde havia módulos iluminados e vitrines arrumadas, hoje há sombra e concreto partido. Nos últimos anos, a rua chegou a ser interditada por causa de uma marquise que estava prestes a ceder — e cedeu, na noite de um sábado, enquanto engenheiros da Prefeitura monitoravam a situação. O prédio envelheceu mais rápido que a cidade ao redor. Não é o único. Especialistas em urbanismo já apontaram que a omissão administrativa na fiscalização e manutenção, somada à ausência de um planejamento democrático, contribuíram para o abandono de áreas como essa no centro de Santa Maria, abrindo espaço para atos de vandalismo e depredação deflagrados justamente pela falta de identidade e apego da comunidade para com esses espaços. 

Nas frestas desse abandono se instalaram as pessoas que a cidade também abandonou — homens e mulheres em situação de rua que encontraram ali, na carcaça de um projeto que prometia não ter hora para fechar, o único abrigo disponível.

Há uma ironia cruel nisso. A Rua 24 Horas nasceu para nunca dormir. Quem dorme nela agora são os que não têm outro lugar.

Mas ainda há um lugar que permanece com aparências da época de ouro, uma loja que abriga em seu interior um pouco do velho e do novo, misturados em harmonia. A loja Ônix é uma das mais antigas da rua e que ainda se mantém funcionando, mesmo diante das adversidades:

“Essa loja, hoje, às vezes parece ser o único ponto brilhante da rua. O único lugar que ainda tem algum tipo de vida. O resto tá aqui, jogado ao acaso. As pessoas passam rápido, pois é uma rua deserta e ninguém quer correr perigo, principalmente agora, no inverno, quando escurece mais cedo. Foi preciso se adaptar.”, conta uma pessoa que vive diariamente no sonho que deveria ser a rua 24 horas.

Por anos, o local permaneceu inalterado e nada foi resolvido em relação às queixas da vizinhança. Uma reforma recente melhorou as condições do ponto, que segue utilizado pelo comércio durante o dia, ainda que em menor número e de forma descentralizada. Certeza de modernidade em uma época já distante, a Rua 24 Horas hoje pouco é lembrada pelos habitantes, ainda que o vazio no local possa remeter àqueles tempos.

Hoje, a Rua Alberto Pasqualini é um retrato de uma Santa Maria que nunca mais existiu — e talvez nunca tenha existido de verdade, ao menos não da forma em que foi imaginada. Ela nasceu de um sonho de metrópole numa cidade de interior, e foi perdendo sua chama ao longo dos anos à medida que a realidade foi mostrando seu custo. Assim como vários outros pontos do centro histórico, que abrigam histórias e memórias milenares mas que cedem ao tempo e ao esquecimento de seus tempos áureos, a rua que prometeu nunca dormir tornou-se, ela mesma, um lugar que a cidade prefere não ver de perto.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Foto: Leo Piva

O Grêmio vive uma crise há anos e parece que ninguém consegue encontrar uma solução. Depois dos anos de glória, com a conquista da Copa do Brasil em 2016 e da Libertadores em 2017, o clube nunca mais foi o mesmo.

Em 2021, começou o declínio de uma geração tão vitoriosa. Com um elenco problemático e uma série de erros dentro e fora de campo, o Grêmio foi rebaixado pela terceira vez em sua história e, em 2022, precisou disputar a Série B do Campeonato Brasileiro.

No ano seguinte, em 2023 veio o ano da ilusão. O Tricolor terminou o Brasileirão como vice-campeão, impulsionado pelo desempenho de Luís Suárez, um dos melhores centroavantes do futebol mundial. Mas depois disso o que parecia ser o início de uma retomada acabou se transformando em mais uma sequência de frustrações.

Ano após ano o Grêmio parece repetir os mesmos erros. Muda o treinador, chegam novos jogadores, surgem novas promessas, mas os problemas continuam. São dois anos sem disputar a Libertadores, a principal competição de clubes da América do Sul, e uma dificuldade cada vez maior de voltar a ser protagonista no futebol brasileiro. O torcedor acompanha as mudanças, cria expectativas e no fim nada se concretiza.

A temporada de 2026 começou com uma nova direção e a contratação de um técnico estrangeiro. A expectativa era de mudança, de um novo planejamento e de um Grêmio capaz de recuperar a competitividade. Mas não demorou muito para perceber que o caminho seria difícil. A montagem do elenco gerou questionamentos, as dificuldades de comunicação entre os jogadores estrangeiros chamaram a atenção e dentro de campo, o time não conseguia apresentar um futebol convincente. Foram derrotas frustrantes, empates inexplicáveis e poucas vitórias.

A torcida apoiou, teve paciência, mas também cobrou respostas que nunca chegaram. Nove meses depois, faltando apenas 11 jogos para o fim da temporada, a direção decidiu demitir o treinador e apostar em Renato Portaluppi, um dos maiores ídolos da história do clube, na tentativa de encontrar uma solução para uma crise que já vinha de muito antes. Porém, trocar o treinador não significa resolver todos os problemas. Até agora o Grêmio continua apresentando um futebol difícil de assistir.

O que resta ao Grêmio em 2026 é tentar sobreviver a uma temporada que se tornou muito mais difícil do que deveria. Com poucas partidas pela frente, evitar o rebaixamento é a prioridade. Mas a crise envolve planejamento, escolhas e a falta de um futebol que represente a grandeza do clube. Para uma torcida que já viveu tantas glórias é difícil aceitar que neste momento, a principal preocupação seja simplesmente conseguir terminar o ano na primeira divisão.

Há ruas que apenas conduzem pessoas de um ponto ao outro, a Rua XV de Novembro faz muito mais do que isso, ela conduz histórias. É nela que São Pedro do Sul, no RS, parece respirar com mais intensidade. Cada passo revela um pedaço da identidade do município, como se o tempo tivesse escolhido aquele caminho para guardar as memórias de quem nasceu, cresceu ou simplesmente aprendeu a chamar esta cidade de lar.

A caminhada começa logo após a rotatória da avenida da cidade, ali que a Rua XV de Novembro se apresenta, discreta para quem chega pela primeira vez, mas grandiosa para quem conhece sua importância. Nos primeiros metros está um de seus símbolos mais curiosos e emblemáticos, a Ponte Seca. Hoje, sob ela, já não passa o trem que um dia ajudou a movimentar a região. Restou apenas a estrutura, firme e silenciosa. A velha ponte parece guardar lembranças que apenas ela e moradores antigos testemunharam.

O asfalto segue adiante carregando as marcas do tempo. Em alguns trechos, os buracos denunciam décadas de movimento, como se a própria rua exibisse, sem vergonha, as cicatrizes de quem nunca deixou de cumprir seu papel. Todos os dias, trabalhadores cruzam seu caminho antes mesmo do amanhecer, comerciantes levantam as portas de seus estabelecimentos, estudantes caminham em grupos para a escola e moradores seguem cumprimentando conhecidos, preservando um costume que ainda resiste nas cidades do interior.

Ao longo da caminhada, dois velhos conhecidos dos são-pedrenses dividem a paisagem: o  supermercado Spode e o supermercado Bom Preço, que fazem parte da rotina de praticamente toda a cidade. Mais adiante, a rua encontra outro de seus grandes marcos, a Escola Estadual de Educação Básica Tito Ferrari, a única instituição da cidade que oferece o Ensino Médio. Ali, gerações inteiras descobriram amizades, viveram  e construíram lembranças que atravessaram o tempo. Nos findares das aulas, as calçadas se enchem de risadas, conversas e Coca-Cola dividida entre colegas. E entre os estudantes, permanece viva a antiga lenda de que a escola teria sido construída sobre um cemitério. Verdade ou não, ela faz parte das histórias contadas de turma em turma e ajuda a manter viva a identidade daquele lugar.

Seguindo, o caminho leva naturalmente à Praça Crescêncio Pereira, um dos espaços que ajudam a explicar a importância da própria rua. Foi a partir da doação daquele terreno que o centro de São Pedro do Sul começou a ganhar forma. Hoje, a praça continua dando vida à rua. O riso das crianças nos brinquedos mistura-se às conversas de famílias reunidas em torno de uma cuia de chimarrão. Jovens passam de bicicleta, moradores caminham com seus cachorros e idosos observam o movimento com a tranquilidade de quem já viu muitas gerações passarem por ali. 

Ponto de encontro

F

Bem em frente está outro detalhe que, para quem mora em São Pedro do Sul, é quase um símbolo. A única sinaleira da cidade também está na Rua XV de Novembro. Para quem vem de fora, ela pode parecer apenas um semáforo. Para os moradores, tornou-se ponto de referência, local de encontros e parte da memória cotidiana. Basta combinar um horário “na sinaleira” para que todos saibam exatamente onde ir.

Mas é quando chegam as datas mais importantes do calendário que a Rua XV de Novembro revela toda a sua grandeza. Ao longo do ano, ela deixa de ser apenas uma via para transformar-se no principal palco da cidade. No desfile de Sete de Setembro, estudantes, escolas e instituições ocupam seu espaço celebrando o civismo. E no tradicional desfile do Dia do Gaúcho, o asfalto recebe prendas, peões, cavalarianos e entidades tradicionalistas. As calçadas ficam repletas de famílias. Os avós apontam para os netos, pais revivem lembranças da infância e crianças assistem encantadas, construindo memórias que um dia também farão parte da história da cidade.

Além dos desfiles, é na Rua XV de Novembro que acontecem muitas das principais solenidades e celebrações do município. Sempre que São Pedro do Sul precisa se reunir para comemorar, homenagear e celebrar um momento importante, é para essa rua que os olhares se voltam. Mais do que um espaço de passagem, ela transforma-se em um lugar de convivência, onde a cidade demonstra seu verdadeiro espírito comunitário.

Talvez seja justamente isso que torna a Rua XV de Novembro tão especial, ela não é a mais importante de São Pedro do Sul apenas porque concentra escolas, comércio, serviços e espaços públicos. Sua importância está nas pessoas que passam por ela todos os dias. Crianças dão ali os primeiros passos rumo à escola, jovens constroem amizades, adultos seguem sua rotina de trabalho e idosos encontram lembranças a cada caminhada.

No fim das contas, ela não é apenas a principal via de São Pedro do Sul, ela é o lugar onde diferentes gerações se cruzam diariamente. Entre a velha Ponte Seca, os mercados, a Escola Tito Ferrari, a Praça Crescente Pereira e a única sinaleira da cidade, ela reúne lembranças, encontros e histórias que ajudam a explicar o porquê, para tantos são-pedrenses, falar da XV de Novembro é, inevitavelmente, falar de casa.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Imagens: Cristhian Braga

A primavera de 2026 começa oficialmente nesta terça-feira, dia 22 de setembro, às 21h05, pelo horário de Brasília, e segue até 21 de dezembro, quando tem início o verão. A estação marca a transição entre o inverno e o verão e é caracterizada, no Rio Grande do Sul, por mudanças graduais nas temperaturas, aumento da luminosidade e maior ocorrência de tempestades.

Neste ano, o comportamento do clima deve exigir atenção dos gaúchos. Previsões de órgãos meteorológicos indicam chuvas acima da média para a Região Sul, enquanto o fenômeno El Niño se intensifica.

Gráfico probabilístico do El Ninõ para a primavera 2026. Fonte: CPC/NOAA – INPE, INMET, Funceme e Censipam.

Segundo o Painel El Niño 2026-2027, divulgado por órgãos meteorológicos e de monitoramento brasileiros, há uma alta probabilidade de ocorrência de um El Niño de forte intensidade durante a primavera. As projeções indicam que o fenômeno deve persistir pelo menos até o início de 2027.

O Cemaden destaca a necessidade de monitoramento diante da possibilidade de eventos como chuvas intensas, inundações e enxurradas em áreas vulneráveis.

No Rio Grande do Sul, o histórico recente de eventos extremos torna o acompanhamento das previsões especialmente importante. A ocorrência de chuva intensa em curto período pode provocar alagamentos, elevação rápida do nível de rios e transtornos em áreas urbanas e rurais.

Temperaturas podem ficar acima da média

A tendência para o segundo semestre de 2026 é de temperaturas acima da média em boa parte do país. Porém, a chegada da primavera, entretanto, não elimina a possibilidade de entradas de massas de ar frio. Esses sistemas ainda podem provocar quedas bruscas de temperatura, principalmente nas primeiras semanas da estação.

Dessa forma, o clima deve continuar apresentando grande variação. Dias quentes podem ser sucedidos por períodos de temperaturas mais baixas.

Alterações na natureza

A chegada da primavera também provoca transformações na natureza. Com o aumento gradual da luminosidade, da temperatura e da umidade, diferentes espécies de plantas entram em período de maior atividade, aumentando a floração.

Flores emolduram o Lago Negro, em Gramado, durante o período de floração na primavera. Foto: Getty Images

As alterações na natureza também interfere no comportamento de animais. Abelhas, borboletas e outros polinizadores apresentam maior atividade durante períodos de floração, contribuindo para a reprodução das plantas.

As transformações também podem ser percebidas na duração dos dias. Após o equinócio de primavera, os dias passam gradualmente a ficar mais longos e as noites mais curtas no Hemisfério Sul, até a chegada do verão.

Mudanças na rotina

A mudança de estação também é percebida diretamente pela população. A elevação gradual das temperaturas e o aumento da luminosidade influenciam atividades ao ar livre, escolha de roupas e hábitos cotidianos.

Para a jovem Maria Eduarda Pires, estudante, a primavera é uma das épocas preferidas do ano justamente por representar a aproximação do verão. “Eu gosto da primavera, gosto desse clima pré-verão. Com toda certeza, a mudança do clima afeta diretamente o humor. Como eu prefiro o calor, me sinto muito melhor nessa época do ano”, relata. Apesar de gostar das temperaturas mais elevadas, Eduarda aponta um aspecto negativo da estação: o aumento da presença de pólen, que pode incomodar pessoas que sofrem com rinite e outras alergias respiratórias.

A percepção não é isolada. A Fiocruz destaca que rinite, crises de asma e conjuntivite alérgica estão entre os problemas mais frequentes durante a primavera, período em que fatores ambientais como o polén podem favorecer o surgimento ou a piora de sintomas em pessoas alérgicas.

Impactos no campo

A primavera marca uma etapa importante para a agricultura gaúcha. O período representa a transição entre algumas culturas de inverno e o início do preparo e da implantação das lavouras de verão.

Plantio de trigo em lavoura do Rio Grande do Sul. Foto: José Schafer/Emater/RS-Ascar Santa Rosa

O cenário de chuva acima da média pode dificultar o trabalho no campo. De acordo com o INMET, o excesso de chuva na Região Sul pode provocar encharcamento do solo, dificultar o plantio e os tratos culturais, aumentar a incidência de doenças fúngicas e interferir na qualidade e na colheita.

Por isso, os períodos de menor precipitação devem ser aproveitados pelos produtores para realizar as atividades agrícolas dentro das janelas recomendadas para cada cultura.

Assim, a primavera de 2026 chega ao Rio Grande do Sul marcada por mudanças no clima, na natureza e na rotina da população. Entre períodos de calor, possíveis massas de ar frio e chuvas intensas, o monitoramento das condições meteorológicas será importante para reduzir riscos de alagamentos e transtornos. Enquanto a natureza ganha vida e as alergias podem se intensificar, o campo também exige planejamento diante da possibilidade de excesso de chuva. Até a chegada do verão, a estação deve ser marcada por transformação e atenção dos gaúchos.

(Foto: Lucas Uebel / Grêmio)

A temporada de 2026 do Grêmio vem sendo marcada por muitas decepções dentro e fora do campo. A equipe conta com dificuldades na construção de um bom futebol sob o comando do técnico Luís Castro. Após 9 meses de trabalho, o técnico português deixa o comando do time gaúcho, para a chegada do maior ídolo do clube, Renato Portaluppi. A escolha representa uma tentativa do Tricolor de reagir no Campeonato Brasileiro e mudar o cenário vivido pelo time. Conhecido pela forte identificação com o clube, Renato terá pela frente a missão de reorganizar a equipe e recuperar os resultados. O desafio já inicia na quarta feira, 16 de setembro, quando o Botafogo recebe o Grêmio no estádio Nilton Santos, Rio de Janeiro.

Esta será a quinta passagem de Renato como treinador do Grêmio. A primeira ocorreu em 2010, quando o clube também atravessava uma situação complicada. Naquele momento, o Tricolor ocupava a 18ª colocação do Campeonato Brasileiro, dentro da zona de rebaixamento. A estreia foi no dia 12 de agosto, com um empate em 0 a 0 contra o Goiás, no Estádio Olímpico.

Em 2013, o Grêmio ocupava a quinta posição do Brasileirão quando Portaluppi voltou ao comando da equipe. Na reestreia, empatou em 1 a 1 com o Atlético-PR, em Curitiba.

Três anos depois, em 2016, ele retornou ao clube em meio a um período de instabilidade. O clube vinha de uma sequência de sete partidas sem vencer no Campeonato Brasileiro. A estreia foi pela Copa do Brasil, contra o Atlético-PR e, apesar da derrota por 1 a 0, o Tricolor conseguiu avançar após vencer a disputa nos pênaltis por 4 a 3.

Em 2022, Renato voltou ao Grêmio pela quarta vez. O clube disputava a Série B e estava na terceira colocação, na briga pelo acesso. A estreia foi uma vitória por 2 a 1 sobre o Vasco, na Arena.

Agora, em 2026, Renato reencontra o Grêmio em mais um momento de pressão. Se nas passagens anteriores o treinador chegou para outros desafios, desta vez a missão é ajudar o clube a reagir e afastar a equipe da zona de rebaixamento no Campeonato Brasileiro.

A história entre Renato e Grêmio ganha mais um capítulo. Desta vez, com o treinador retornando não apenas como ídolo, mas como uma das principais apostas do clube para tentar mudar o rumo da temporada.

(Fotos: Cesar Greco/Palmeiras, Matheus Lima/Vasco, Pedro Souza/Atlético-MG e Lucas Uebel/Grêmio)

Quatro clubes em que torcidas fazem parte dessas alianças estão entre os semifinalistas da Copa do Brasil 2026: Grêmio, Atlético-MG, Palmeiras e Vasco. Mas, afinal, o que é a União Sinistra e qual é a sua importância para as torcidas organizadas?

A história do futebol ncional é marcada por uma série de rivalidades, clássicos históricos, provocações e disputas dentro e fora de campo. Tudo isso intensifica ainda mais a paixão dos brasileiros pelo futebol. A fim de deixar um pouco de lado essas rivalidades, torcidas organizadas começaram a criar laços com outros grupos, com o objetivo de conectar torcedores de diferentes estados, criar amizades dentro das arquibancadas e compartilhar símbolos, gestos característicos e histórias que marcam gerações.

Apesar de os clubes, em si, não terem relação direta com essas alianças, as torcidas iniciaram esse movimento a partir da década de 1970, em razão do aumento do número de jogos disputados por todo o território brasileiro. À medida que passaram a viajar mais para acompanhar seus times, começaram também a criar vínculos de amizade com grupos de outras cidades. Dessa forma, quando viajavam para assistir a um jogo fora de casa, podiam contar com o apoio da torcida local.

Esse apoio ia muito além das arquibancadas. Quem chegava a outra cidade podia ser recebido pelos grupos locais, acompanhar a partida ao lado deles e ainda receber ajuda com questões relacionadas à viagem. Aos poucos, essas relações deixaram de envolver apenas duas torcidas e passaram a reunir diferentes grupos, formando alianças que se espalharam pelo país.

De acordo com pesquisadores do tema, essas aproximações nem sempre aconteciam apenas por afinidade entre as torcidas. Em muitos casos, elas também eram motivadas pela existência de adversários em comum. É daí que surge a ideia popular de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Ao longo dos anos, essas relações entre torcidas passaram a se estruturar em grandes blocos de alianças, reunindo grupos de diferentes clubes e estados brasileiros. Entre as principais estão a União Punho Cruzado, União Dedo Pro Alto, União Punho Colado, Lado A e Lado B.

Juntas, essas alianças envolvem diversas torcidas organizadas de diferentes regiões do país e ajudam a formar uma ampla rede de relações entre grupos das arquibancadas brasileiras.

Além das torcidas que fazem parte de cada bloco, as alianças também possuem símbolos próprios de identificação. Em muitos casos, os gestos feitos com as mãos são utilizados pelos integrantes para demonstrar a qual grupo ou aliança pertencem.

Outro bloco importante dentro desse sistema de alianças é a União Dedo Pro Alto, que reúne algumas das torcidas mais conhecidas do futebol brasileiro. Entre os grupos associados à aliança estão Mancha Verde (Palmeiras), Força Jovem do Vasco, Galoucura (Atlético-MG), Geral do Grêmio e Torcida Jovem do Botafogo, entre outras.

Dentro desse contexto, também ganhou destaque a chamada “União Sinistra”, nome utilizado por torcedores para identificar a relação histórica entre Mancha Verde, Força Jovem do Vasco, Geral do Grêmio e Galoucura. A aproximação entre os grupos começou ainda na década de 1980 e mantém uma relação de amizade até os dias atuais.

A força dessas alianças também aparece em um momento marcante do futebol brasileiro em 2026. Grêmio, Palmeiras, Vasco e Atlético-MG estão entre os quatro semifinalistas da Copa do Brasil. Os confrontos definidos são Palmeiras x Vasco e Atlético-MG x Grêmio, colocando clubes ligados a torcidas que fazem parte dessas alianças na reta decisiva da competição.

Da teocracia de Gilead ao discurso contra o voto feminino em 2026: a tática silenciosa do extremismo. 

Aias na ficcional Gilead. Imagem: Reprodução

É estranho e profundamente assustador pensar que, em pleno século XXI, 2026, os direitos fundamentais das mulheres continuem sendo abertamente questionados. Nos Estados Unidos, influenciadores de comunidades focadas em masculinidade e antifeminismo e pastores de correntes ultraconservadoras passaram a defender abertamente que a concessão do voto às mulheres prejudicou a estrutura familiar e os valores “tradicionais”. O argumento recorrente é o de que homens e mulheres possuem papéis divinos distintos e que a tomada de decisão política caberia ao “chefe da família”.

No Brasil, esse tipo de discurso também ganha força, impulsionado pelo apoio de influenciadores e lideranças religiosas com falas de que escolhas femininas seriam pautadas “pela emoção e não pela razão”. Conforme analisam cientistas políticos e historiadores, tais falas, mesmo parecendo absurdas para a maioria, funcionam como teste de limites. Ao pautar o tema nas redes, o extremismo busca normalizar a dúvida sobre direitos que antes eram considerados intocáveis.

Em entrevista ao portal Brasil de Fato, a historiadora Joana Maria Pedro, professora emérita da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), adverte que a maior ameaça ao voto e à autonomia feminina não virá necessariamente de uma canetada autoritária repentina, mas de um processo de convencimento moral por meio do fundamentalismo religioso:

“O risco seria através da religião. Eu acho que é a coisa mais eficiente que existe. Se eles conseguirem, de fato, convencer a maioria das pessoas de que o voto das mulheres é uma coisa imoral perante Deus, que isso destrói a família sagrada, a gente perde o direito ao voto, assim como perde outros direitos.”

Isso parece familiar?

Em Gilead, a república totalitária e teocrática retratada na série ficcional The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), conhecemos a história de uma democracia que ruiu, a taxa de natalidade lá em baixo, bebês não nascem mais devido a crise global de fertilidade causada pela poluição e radiação do país. Uma das primeiras medidas do novo regime foi a retirada sistemática de todos os direitos femininos. Mas não se enganem, não foi algo que aconteceu do dia para a noite. Foi um plano pensado, arquitetado e executado em etapas para não levantar suspeitas imediatas.

Primeiro veio a demissão em massa, obviamente apenas das mulheres. Em seguida, o bloqueio das contas bancárias, transferindo a gestão financeira exclusivamente para os homens da família. Uma sucessão de medidas calculadas até que as mulheres fossem reduzidas a meros “úteros férteis”. Sem direitos, sem voz e sem opiniões, obrigadas apenas a obedecer, procriar e demonstrar submissão aos Comandantes.

Aquelas que quebram as regras são brutalmente mutiladas: olhos arrancados, dedos cortados, corpos queimados, bocas seladas. O “destino biológico” passa a ser o único objetivo de vida aceitável. Durante a “Cerimônia”, o ritual de estupro ocorrido no período fértil da mulher, o Comandante após orar abusa da Aia sob o pretexto de cumprir os planos divinos, tudo com a Esposa assistindo e sendo conivente com a violência.

Uma das cenas mais marcantes da série reflete com precisão o absurdo desse fanatismo: quando um dos poucos bebês saudáveis de Gilead adoece, nenhum dos médicos presentes (todos homens, obviamente) sabe como salvá-lo. Preocupada, Serena Joy, esposa do importante Comandante Fred Waterford, lembra que uma das maiores especialistas em neonatologia do país está ali, mas que é uma mulher que foi rebaixada ao posto de empregada. Diante disso, ele recusa o atendimento e decreta que, se o bebê morrer, “será a vontade de Deus”. Preferindo a morte de um recém-nascido a permitir que uma mulher exerça sua profissão e conhecimento.

Personagem Serena Joy, interpretada pela atriz Yvonne Strahovski / Imagem: Reprodução

As Esposas de Gilead e a Ilusão da Proteção

Falando em Serena Joy, ela protagoniza o núcleo das Esposas dos Comandantes. Bonita, obediente e devota, Serena era uma escritora de sucesso antes do colapso da democracia, famosa por defender publicamente a submissão e o papel doméstico da mulher. Ela ajudou a erguer as bases ideológicas de Gilead e ajudou a redigir as próprias leis que proíbem as mulheres de ler e escrever, as mesmas leis que mais tarde a puniriam. Em determinado momento da história, Serena tem um dedo amputado a mando do próprio marido apenas por ler um trecho da Bíblia em público.

As Esposas dos Comandantes são figuras extremamente complexas. São mulheres que fecham os olhos para as atrocidades cometidas contra as Aias, mas que acabam caindo nas engrenagens da própria armadilha que ajudaram a criar. Serena agride e tortura a protagonista June Osborn/Offred, mas simultaneamente tenta se impor em um sistema que não a reconhece mais como cidadã. É uma dinâmica que nos desperta raiva e julgamento, mas também uma inevitável empatia.

Essa dinâmica não é exclusiva da ficção. Vemos hoje influenciadoras e figuras públicas femininas utilizando a liberdade de expressão e a tecnologia moderna para pregar o desmantelamento dos direitos de seu próprio gênero. Elas ignoram a lição mais básica da história: regimes extremistas nunca fazem exceções para as mulheres que ajudaram a construí-los. Como canta Olivia Rodrigo na faixa inspirada na personagem Serena Joy: “Se eles fazem isso com elas, eles vão fazer com você”.

O Corpo Feminino como Propriedade

A crise de fertilidade mundial foi a desculpa perfeita em Gilead para assumir o controle total sobre o corpo feminino, e isso não está longe da nossa realidade. A obsessão pelo controle reprodutivo continua sendo o pilar central de qualquer projeto autoritário. Além das restrições severas ao aborto em diversos estados norte-americanos, grupos conservadores avançam em propostas e ações judiciais para restringir o acesso a métodos contraceptivos, classificando pílulas e métodos de emergência como “destrutivos para a natalidade”. A isso somam-se a demonização da educação sexual nas escolas, os retrocessos no direito ao aborto legal — mesmo em casos de estupro —, o avanço do movimento red pill e a imposição de padrões inalcançáveis para que a mulher sirva unicamente ao desejo alheio. 

Não podemos nos esquecer de que os direitos femininos podem ser revogados com uma facilidade assustadora. No Afeganistão, Irã e Paquistão, mulheres sofrem diariamente por não possuírem direito à voz, à educação ou ao livre arbítrio, esse cenário de apagamento é o modelo ideal para certos grupos fundamentalistas.

Nada do que foi escrito por Margaret Atwood no livro original foi tirado do zero. As torturas, as vestimentas, as leis e as opressões retratadas em Gilead já aconteceram em algum momento da história humana.

Se falarem em momentos que não são permitidos, as Aias de Gilead podem sofrer consequênciaa. Imagem: Reprodução

Gilead não é um pesadelo distante, é um alerta sobre a fragilidade das nossas conquistas. Nenhum direito é permanente, a vigilância precisa ser constante e o voto consciente.

Vale ressaltar, por fim, a fala atemporal da poeta Audre Lorde:

“Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas.”

Foto: Reprodução / A Bola via F1

O último fim de semana foi muito aguardado pelo público italiano, que desde o início do esporte sente a Fórmula 1 nas veias. No domingo, dia 6 de stembro, o piloto Andrea Kimi Antonelli (Mercedes) que vem sendo um grande fenômeno na Fórmula1, fez uma vitória histórica no Grande Prêmio de Monza. 

O jovem piloto, de 20 anos, largou em 19° lugar, posição desfavorável para qualquer um. Mas isso não impediu Kimi de escalar o grid. Na primeira largada conquistou posições, depois, usou a relargada ao seu favor com estratégia e em menos de 20 voltas já estava liderando a corrida. 

Os feitos de Antonelli, tal como a liderança do campeonato mundial, a maneira de pilotar, as habilidades na pista e o carisma jovial trazem muito orgulho para os fãs e principalmente para a Itália. O piloto italiano disputou intensamente a primeira posição com seu colega de equipe George Russel (Mercedes) nas últimas 3 voltas da corrida, levando a torcida do mundo todo ao máximo de adrenalina.  

Apesar do pequeno incidente com a tentativa de ultrapassagem Kimi garantiu sua vitória, após 60 anos sem um piloto italiano vencer em Monza. Além do jovem em ascensão, é comum ouvir dizer que na Itália existem duas religiões: A Igreja Católica e a Ferrari. Em Monza tivemos uma torcida construída em maior parte por italianos, torcendo para Charles Leclerc e Lewis Hamilton (ambos da Ferrari). 

Porém, Charles sofreu um acidente na terceira volta, perdendo o controle do carro e batendo na curva Parabólica. O impacto foi forte, o piloto foi examinado e demonstrou preocupações com sua visão após o acidente, mas não ficou ferido. O Safety car foi acionado e a corrida interrompida por cerca de 33 minutos. Após isso, houve a relargada novamente. Lewis alcançou a 6° posição ao final da prova, garantindo sua pontuação. 

 O brasileiro do grid, Gabriel Bortoleto (Audi) largou na 11° posição e chegou na 13°, não conseguindo pontuar desta vez.  

O pódio ficou constituído por: 

  1. Kimi Antonelli (Mercedes) 
  1. George Russell (Mercedes)  
  1. Max Verstappen (Red Bull) 

Em meio aos avanços da tecnologia, os influenciadores digitais não geram em seus seguidores apenas reações engraçadas, mas também, com os seus conteúdos, trazem reflexões sobre temáticas pertinentes à sociedade. Nesse cenário, em agosto de 2025, um vídeo sobre adultização infantil movimentou as redes sociais no Brasil. O influenciador digital e youtuber Felipe Bressamin Pereira, conhecido como Felca, gerou, a partir do vídeo, um intenso debate sobre os limites de privacidade de crianças e adolescentes nas redes sociais e trouxe à tona um tema já previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, mas que pouco era discutido até então.

A repercussão trouxe visibilidade ao ECA DIGITAL e levou à aprovação e sanção de uma atualização do Estatuto em menos de 2 meses, em setembro de 2025. No documentário, o influenciador denunciou uma espécie de “reality show” transmitido nas redes sociais do casal de influenciadores Hytalo Santos e Israel Vicente. Com a repercussão do vídeo, as investigações da Polícia Federal, que já estavam em andamento, avançaram e levaram à prisão  de Hytalo e Israel. Em fevereiro de 2026, os dois foram condenados após o trâmite do processo.

Segundo uma pesquisa divulgada em 2024 pela agência We Are Social Media, o Brasil ocupa o 3º lugar no ranking dos países que utilizam redes sociais no mundo. A professora do Curso de Direito da Universidade Franciscana, Rosane Leal da Silva, lembra que crianças e adolescentes são uma parcela significativa da sociedade brasileira, sendo em torno de 24 milhões de adolescentes e de 40,1 milhões de crianças em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

O ECA DIGITAL trouxe novas formas de cuidado e segurança para as crianças. Imagem: Isadora Rodrigues/LABFEM

Entre as atualizações apresentadas pelo Estatuto Digital, foi estabelecido o controle parental obrigatório para menores de 16 anos, antes ignorado pelas big techs (como o Google e a Meta), que são consideradas as maiores empresas de tecnologia e inovação do mundo. Agora, o acesso às redes sociais precisa ser gerenciado por pais ou responsáveis. 

“Talvez a exigência de vincular a conta do adolescente ou da criança à conta do responsável legal minimize esses efeitos e também responsabilize mais os pais, que possuem dever de supervisão e orientação parental. Muitas vezes, os próprios pais não cumprem adequadamente esses deveres, o que gera consequências negativas para os usuários que são menores de idade”, frisa a professora Rosane. 

Em entrevista para uma matéria da Câmara de Deputados, o especialista em cibercultura André Lemos aponta que o Brasil ,como país, no âmbito digital, teve uma transição de uma rede que incentiva a troca de informações e ideias de forma livre para um ambiente dominado pelos algoritmos das big techs, que têm por principal objetivo o conteúdo chocante e, por vezes, sensacionalista para gerar engajamento.

Na visão de Rosane, o posicionamento de Felca em seu vídeo reacendeu o debate sobre a pauta da criança e do adolescente em relação a uma lei de 2022 que já existia no Congresso Nacional, mas que estava parada no Brasil. O projeto de lei proposto pelo senador Alexandre Vieira (MDB – SE) sofreu modificações em agosto de 2025. Em setembro de 2025, o Presidente Lula sancionou a lei, que foi promulgada em março de 2026 com as novas atualizações de segurança no âmbito das redes sociais, jogos online e plataformas em geral. 

Rosane Leal da Silva, professora do curso de Direito da UFN, frisa o papel do ECA DIGITAL na segurança de crianças e adolescentes. Foto: Nelson Bofill/ LABFEM 

Leis de proteção às crianças vêm evoluindo 

A professora relata que, em 2021, o Comentário Geral de número 25 do Comitê de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) tornou mais rígido o acesso a certos tipos de conteúdos para crianças e adolescentes, bem como uma punição mais severa para casos de crimes cibernéticos. No Brasil, em 2024, foi promulgada a resolução número 245/2024, um mecanismo social e político que regulamenta os direitos de menores de 18 anos a partir do trabalho em conjunto de pais, educadores, do Estado e, principalmente, de empresas que atuam no ramo digital. A resolução indica que todas as crianças e adolescentes devem ter garantido o direito ao acesso ao ambiente digital, assegurando-se de que os conteúdos e serviços acessados sejam compatíveis com seus direitos e seu superior interesse.

Para Rosane Leal, “existem  riscos de conteúdo, riscos de contato e riscos de conduta. Ou seja, crianças e adolescentes podem entrar em contato com conteúdos prejudiciais, com pessoas que os influenciam negativamente e isso pode repercutir no comportamento deles, inclusive em práticas de violência contra terceiros. Muitas vezes encontramos casos de perseguição, bullying e cyberbullying praticados por adolescentes que também sofreram influência de outros ou ficaram expostos reiteradamente a conteúdos violentos”. 

O ECA DIGITAL apresenta o artigo nº 6,que responsabiliza os fornecedores (sites, empresas, redes sociais), pais ou responsáveis ,com o objetivo de diminuir os riscos de acesso a práticas e conteúdos ilícitos. Entre eles estão a violência física, a violência virtual sistemática ou o assédio, seja na operação das suas aplicações, como exposição, recomendação ou um fácil acesso de contato com tais práticas. Por ser um conteúdo altamente sensível, ele é impróprio para menores de 18 anos e, principalmente, crianças e adolescentes entre 2 e 15 anos, que estão em fase de desenvolvimento. 

Suane Pastoriza Faraj, psicóloga escolar, destaca a necessidade do cuidado e da atenção que os pais precisam ter com os filhos. A psicóloga desenvolve um projeto na escola onde trabalha sobre o uso consciente da tecnologia,  em que promove rodas de conversa com os estudantes e pais, promovendo uma reflexão sobre os cuidados em relação ao conteúdo digital.  

Ao longo dos últimos anos, os famosos “desafios” da internet como Baleia Azul, Momo, entre outros, foram percebidos no contato de Suane com adolescentes. Nesse sentido, ela destaca a necessidade do controle parental e alerta que temas, jogos e “brincadeiras” que estão presentes na sociedade, colocando a vida de crianças, pré-adolescentes e adolescentes em risco, também fazem parte do ambiente escolar. “Em um dos anos em que trabalhei com eles, surgiram inúmeros riscos de exposição à Internet. As crianças falavam onde moravam, quando estavam sozinhas e mostravam objetos que tinham dentro de casa, e isso era muito grave porque elas faziam esta exposição sem prever o perigo”, ressalta Suane. 

Devido a estas demandas e questionamentos trazidos à sala de aula, desde 2023 ela realiza na escola um projeto sobre o uso consciente da tecnologia, que ocorre conforme o desenvolvimento de cada nível de ensino (educação infantil, anos iniciais, anos finais e ensino médio). O objetivo é discutir os riscos, os benefícios, o uso consciente da tecnologia,e também mostrar as possibilidades que a infância e a adolescência têm para além da tecnologia. 

Suane Pastoriza Faraj, psicóloga escolar, conta que o projeto incentiva o diálogo entre pais e filhos sobre o conteúdo das redes. Imagem: Nelson Bofill/LABFEM

A psicóloga conta que, em 2024, com os anos iniciais, foi trabalhada a conscientização sobre o conteúdo das redes sociais através da construção de um bingo com imagens. Já a partir da adolescência, o bingo é utilizado para a compreensão de aprendizagem. “Muitas questões que chegam ao setor de psicologia estão relacionadas ao uso da tecnologia e das redes sociais na adolescência. Então aparecem relatos de conflitos, comparações, exclusões e de cyberbullying”, destaca Faraj. 

Suane também acredita que muitos adolescentes, mesmo com as novas restrições feitas pelo Estatuto Digital, buscam burlar o sistema de proteção das redes sociais mentindo sobre a idade, dados ou acessando de outras maneiras. Ela comenta que os alunos em sala de aula apresentam uma certa noção dos perigos e dos conteúdos compartilhados de maneira indevida.

As consequências no desenvolvimento infantojuvenil no excesso das telas 

Para a psicopedagoga Fernanda Torres, a problemática do uso de telas surge no contexto do uso precoce, pois, no período entre 6 e 12 anos, o indivíduo está com o cérebro em fase de amadurecimento. Devido a isso, as telas se tornam um obstáculo ao desenvolvimento das crianças e dos pré-adolescentes. Entre os obstáculos encontrados estão a dificuldade no desenvolvimento do controle inibitório, que é a capacidade de controlar os impulsos ,e a baixa tolerância à frustração, com o uso de telas de forma exagerada.

“ Quando a criança desliga a tela do celular, o cortisol fica elevado e isso faz com que a criança fique estressada, e ela não consegue lidar com a frustração e no fim isso vai prejudicar a evolução dela como indivíduo”, destaca Fernanda. 

As telas podem ser um obstáculo ao desenvolvimento das crianças e dos pré-adolescentes Imagem: Isadora Rodrigues/LABFEM 

“Eu tenho inúmeras experiências com pacientes que mostram que a mudança de rotina com horário para desligar a televisão e o telefone, por exemplo, em até duas semanas, a criança já começa a ficar menos irritada e que irá, por exemplo, desenvolver melhor a fala”, destaca a psicopedagoga.  Em casos graves, pode haver necessidade da internação do adolescente. 

Fernanda Torres, psicopedagoga, aponta para o cuidado com as telas no desenvolvimento da criança e do adolescente. Imagem: Vinicius Gomes/LABFEM

Fernanda comenta que quando há o apoio dos pais e/ou responsáveis na construção de novas rotinas e diálogos na dosagem dos prejuízos das telas dentro de casa após as consultas, tudo fica mais fácil de ser trabalhado com a própria criança. O ECA Digital veio para proporcionar aos pais, crianças e adolescentes segurança para o uso das redes sociais, mas é necessário que haja, de forma cada vez mais prática, uma atuação ativa neste processo junto às famílias.

Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado, sob orientação da professora Glaíse Palma, no 1º semestre de 2026.

Imagem: Pixabay

Você já ouviu falar em ecoansiedade? O termo surgiu nos estudos científicos no começo dos anos 2010 e, segundo a Associação Americana de Psicologia (APA), se refere ao medo crônico da destruição ambiental. Com o aumento dos desastres climáticos extremos no estado do Rio Grande do Sul, novas discussões estão ocorrendo sobre o impacto na saúde mental. 

A preocupação com crises climáticas não está isolada, a exemplo disto a ONU (Organização das Nações Unidas) destaca em seu Plano de Desenvolvimento Sustentável: Agenda 2030 um conjunto de 17 objetivos com 169 metas. Essas metas são parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) a serem atingidos até o ano de 2030 de forma global. Entre estes objetivos está o ODS número 3, que visa assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. 

Pesquisas recentes demonstram que em casos de desastres climáticos de longo porte, como enchentes e incêndios florestais, há impactos na saúde mental. Em entrevista ao G1, a psicóloga Jaqueline Assis destaca que se o clima e o território não forem considerados nas discussões sobre território não há como garantir uma qualidade de vida aos moradores. 

Carina Boeck, professora de bioquímica da Universidade Franciscana (UFN), destaca que a ecoansiedade está relacionada a crises climáticas e ecológicas. Segundo a professora, a ecoansiedade é caracterizada por sintomas negativos em razão do clima, do meio ambiente e de pensamentos repetitivos associados ao medo do futuro de forma direta. Conforme as pesquisas indicam, estes fenômenos se tornam mais comuns entre os jovens adultos, caracterizados pelo início da carreira profissional, por exemplo. “As preocupações com as mudanças climáticas devem ser motivo de atenção caso gerem pânico. Os medos são importantes para nós e nos colocam para nos preparar para algo. Mas, há descontroles quando existe o excesso.”, destaca a professora. 

Partes do Infográfico postado pelo G1 em 2025 quando as enchentes no Rio Grande do Sul completaram um ano. Fonte: G1 RS

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu uma das maiores catástrofes naturais da sua história. As enchentes foram causadas por diversos fatores, como chuva abundante, falta de tratamento dos esgotos e falta de área permeável para absorver a água. Para Carina, em casos como este observa-se alguns impactos psicológicos. “Nós conseguimos enxergar que durante o período destas catástrofes as pessoas mais atingidas pelas chuvas foram, naturalmente, as que tiveram mais problemas de saúde mental. Em casos de agricultores que perderam suas plantações e famílias que perderam suas casas, pode haver o transtorno pós-traumático, que vai além da ecoansiedade.” Segundo a professora é necessário entender a individualidade de cada um, seus sentimentos e as experiências de vida. 

De todo modo, cabe a todos ter o autocuidado assim como cuidar do meio ambiente. Atividades práticas podem ser aplicadas no dia a dia, como fazer a separação correta dos resíduos domésticos e consumo de produtos sustentáveis, ajudando a não poluir mais o meio ambiente, e também atenção consigo próprio com atitudes como manter-se hidratado, ter  uma boa alimentação, duração e qualidade adequadas de sono e atividades físicas de formas regulares. 

Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado no 1º semestre de 2026 do curso de Jornalismo, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.