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O que esperar dessa Copa?

Essa não será qualquer Copa do Mundo ou apenas mais um Mundial com as principais seleções do planeta, mas sim algo diferente. A primeira diferença já começa pela época a ser disputada, diferentemente das outras edições,

Com esses 26, o hexa é logo ali

Na tarde da segunda-feira, 7, o técnico da Seleção Brasileira, Tite, convocou os 26 jogadores que irão representar o país na Copa do Mundo do Catar, que inicia no dia 20 deste mês. Sem nenhuma grande

Mesmo sem títulos, temporada do Inter é positiva

O que parecia ser um ano conturbado depois de eliminações, acaba sendo uma temporada que o torcedor sai esperançoso para 2023. A derrota para o Grêmio no Campeonato Gaúcho, a eliminação para o Globo na Copa

Obrigação feita, agora é pensar em 2023

Depois de mais uma rodada perfeita para o Grêmio na Série B, onde todos os resultados que o tricolor precisava para depender só de si foram favoráveis, veio o alívio. Com a vitória por 3 a

Dezessete vezes Marta

Enaltecer mulheres e desconstruir o machismo recorrente da sociedade conservadora e com origem do patriarcado é mais do que importante para igualdade de gênero. Marta Vieira da Silva é um dos maiores exemplos de reivindicação por

Por que a praça amanheceu pintada?

Já é triste pensar que a nossa cidade não possui muitos espaços públicos. E os poucos que existem, às vezes, não são adequados para o uso da população. Não estou generalizando, pelo contrário, acredito que as

Famílias, não expulsem seus filhos LGBTs de casa

O título desse texto poderia ser outro, direcionado apenas aos pais, mas sabemos que existem diferentes formações familiares. Por família, entende-se todo e qualquer grupo que conviva entre si sob um mesmo teto. Para além disso,

Não podemos esquecer de criminalizar a LGBTfobia

Observe estes dados: 2014: 329; 2015: 319; 2016: 343; 2017: 445; 2018: 420. Esses são os números, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais assassinados nos últimos cinco anos

Discoteca da Memória: favoritos do autor

Hoje a coluna será diferente, mas nem tanto. Uma recomendação pessoal dos meus três discos favoritos. Afinal, nada é melhor do que falar daquilo que a gente gosta, não é verdade? O favoritismo pode pesar aqui, mas

A maior competição do mundo começou. Com quatro jogos por dia, o amante de futebol está vidrado na televisão o dia inteiro. Se você acredita no hexa ou não, é decisão sua, mas vai ter que concordar que entre as favoritas, foi a Seleção Brasileira que teve o melhor teste até agora.  

O primeiro desafio foi contra a Sérvia, uma seleção organizada e com bons nomes no elenco. Uma defesa muito física que não deu espaço para o Brasil no primeiro tempo. Mesmo com toda a qualidade do meio campo e ataque brasileiro, o jogo e os toques rápidos não apareciam, talvez tenha sido culpa do nervosismo da estreia, já que na segunda etapa, a história foi bem diferente.

Alguém tinha que aparecer, alguém tinha que ser o protagonista e puxar a responsabilidade. Richarlison apareceu. Sem ter feito uma boa primeira etapa, sofreu com a marcação dura dos zagueiros sérvios. Talvez fosse o jogo para o Pedro, mais alto, mais técnico e consegue se virar com menos espaço, mas Richarlison mostrou que não, era o jogo dele.

O camisa 9 aproveitou o rebote e, bem posicionado, marcou o primeiro, trazendo alívio para o torcedor brasileiro que já estava preocupado. Depois, ele de novo, faz o segundo, o que até então é o gol mais bonito da Copa, num voleio no canto do goleiro ele mostra e afirma que aquela vaga é dele e ninguém tira. 2 a 0 e um baile no segundo tempo. A próxima batalha é contra a Suíça, que venceu Camarões na primeira rodada, o jogo vai valer a liderança do grupo. 

O momento do segundo gol. Foto: Goal/Twitter

Mas nem tudo foram flores para os favoritos da Copa, a Argentina foi surpreendida pela Árabia Saudita na primeira zebra do Mundial. Messi e companhia começaram melhor, fizeram 1 a 0 de pênalti e ainda tiveram gols impedidos. Porém, na segunda etapa o jogo virou, literalmente. Os árabes pressionaram em toda bola sem deixar os argentinos respirarem, mesmo jogando com as linhas de marcação muito altas, o time comandado por Scalone não conseguiu aproveitar os espaços. 2 a 1 em poucos minutos na segunda etapa e muita comemoração. Agora os argentinos precisam vencer os próximos dois jogos para passar com tranquilidade ou Argentina e França pode rolar já nas oitavas.

O momento da virada. Foto: B24/Twitter

Outra grande zebra aconteceu no Grupo E, o jovem e promissor time da Alemanha entrou em campo com muita expectativa e acabou esbarrando na qualidade japonesa. Como os argentinos, a Alemanha também saiu vencendo 1 a 0 com um pênalti e tomou a virada no segundo tempo. Com 26% de posse de bola, o Japão surpreendeu com gols na reta final da partida. O próximo jogo será Alemanha e Espanha, praticamente uma final para os alemães que, se perderem, já estão fora.  

Essa não será qualquer Copa do Mundo ou apenas mais um Mundial com as principais seleções do planeta, mas sim algo diferente. A primeira diferença já começa pela época a ser disputada, diferentemente das outras edições, essa será no final do ano, isso faz com que os principais jogadores cheguem em seus auges físicos, já que o calendário europeu está na metade. 

Pode ser esse ano que o torcedor verá a Copa mais parelha de todos os tempos, com muitos favoritos, muitas possíveis surpresas e craques em praticamente todas as seleções. 

O troféu mais desejado de 2022.

OS FAVORITOS

Brasil, Argentina e França podem ser consideradas o TOP 3 para 2022. Uma seleção brasileira organizada, com nove opções para o ataque, uma defesa sólida, jogadores se destacando nos principais clubes da Europa e Neymar em seu melhor início de temporada no PSG com sede do hexa. 

Já a Argentina tem o jogador mais diferenciado do mundo, Lionel Messi comanda um time cheio de experiência e juventude que está há 36 jogos invictos. Olhos abertos também para Julián Álvarez, que com 22 anos já ganha espaço com Pep Guardiola no Manchester City depois de se destacar no River Plate.

E por último, mas não menos favorita, a seleção francesa. A última campeã mundial chega com um time repleto de jovens jogadores com muito futebol a oferecer. Mbappé e Benzema podem fazer o ataque mais letal da Copa. Isso só acontece se a maldição dos campeões não aparecer de novo, desde 2010, os últimos vitoriosos não passam da fase de grupos. Itália (2010), Espanha (2014), Alemanha (2018), todas eliminadas ainda na fase inicial, Didier Deschamps tentará mudar a história em 2022.

AS SURPRESAS

Entre as tantas seleções que podem surpreender na Copa do Mundo, destaco duas: Uruguai e Dinamarca. Além dessas, é claro que os outros elencos podem incomodar, como a poderosa e longeva geração belga, Louis van Gaal e sua renovação holandesa e os inventores do futebol com seus jovens craques. 

A seleção uruguaia é mais uma que mescla experiência com a juventude e chega com seu melhor plantel desde 2010, quando alcançou uma semifinal na África do Sul. Fede Valverde, Darwin Nunez, Arrascaeta, Luiz Suárez e companhia podem chegar longe no Catar. Um possível confronto contra o Brasil pode acontecer já nas oitavas, caso um passe em 1º e outro em 2º em seus grupos. 

A Dinamarca chega com status de realidade para muitos e não mais uma surpresa. Depois de chegar nas semifinais da última Eurocopa e passear nas Eliminatórias, o time comandado por Kasper Hjulmand é um dos favoritos no grupo D junto com a França. Caso passe em segundo, a seleção dinamarquesa já encontra a Argentina, se passar em primeiro, nas oitavas. 

ESTREIAS

Os donos da casa, o Catar abre o Mundial contra o Equador neste próximo domingo (20), às 13h. Já a seleção brasileira entra em campo na quinta-feira (24) e enfrenta a Sérvia, às 16h.

Na tarde da segunda-feira, 7, o técnico da Seleção Brasileira, Tite, convocou os 26 jogadores que irão representar o país na Copa do Mundo do Catar, que inicia no dia 20 deste mês. Sem nenhuma grande surpresa, ficou assim a lista final:

Lista final para a Copa. Foto: Divulgação CBF

Os três goleiros já estavam certos há um bom tempo, com Alisson de titular, a Seleção tem o mesmo goleiro de 4 anos atrás, mas agora bem mais seguro e preparado para um mundial. A primeira e única grande discussão dessa lista é o lateral direito Daniel Alves, que não fez bons jogos pelo Pumas, do México, neste segundo semestre de 2022 e agora treina com o Barcelona B. O jogador entra na cota de confiança de Tite, já que mesmo sem atuar e sem viver um bom momento está entre os 26. Provavelmente, ainda não será titular e terá um papel de liderança no vestiário. Apesar de não concordar com a convocação do lateral, é necessário entender que as outras opções para a direita também não são das melhores. Emerson Royal, do Tottenham, corria por fora, mas criticado pela própria torcida do clube inglês, não foi convocado. 

O quarteto de zagueiros também sem surpresas. Ainda existia uma discussão pela quarta vaga, entre Bremer (convocado), da Juventus, e Gabriel Magalhães, do Arsenal. O defensor do clube italiano ganhou a disputa por ter sido um dos melhores jogadores do Campeonato Italiano 2021 e nessa temporada está construindo uma defesa forte e organizada junto com outros selecionados, Danilo e Alex Sandro, a química entre eles fez a diferença.

Já no meio campo, a ausência de Coutinho, que mesmo sem fazer uma temporada fora de série, estaria na lista de Tite, por também entrar na cota de confiança do treinador. O meia do Aston Villa se lesionou no treinamento dias antes da convocação. Everton Ribeiro, do Flamengo, toma seu lugar, o jogador foi campeão da Copa do Brasil e Libertadores e, por isso, também faz por merecer a convocação.

Tite está levando nove opções para o ataque, três para cada posição. É o maior número de atacantes convocados em todas as copas. Isso resulta em maiores possibilidades para o técnico, que vai variar seu estilo de jogo e formação de acordo com o adversário. A única dúvida que ainda existia era pela 26ª vaga, que ficou com Gabriel Martinelli. Matheus Cunha, do Atlético de Madrid, e Roberto Firmino, do Liverpool, ainda tinham chances.

Eu se fosse o Tite, convocaria o atacante do time inglês, por poder entregar no jogo mais que os outros jogadores. Firmino pode jogar tanto como número 9, como número 10 e ainda como um segundo atacante, e sem a criatividade de Coutinho, o atacante do Liverpool poderia ser a solução. Mas como não sou o Tite e sou apenas mais um torcedor que sentou no sofá nervoso para acompanhar um homem lendo um papel, resta torcer e acreditar, porque com esses 26, o hexa é logo ali.

Lucas Acosta é acadêmico do 6º semestre do curso de Jornalismo da UFN, apresenta o Titular da Rede, Camisa 10 e A Copa & Eu na RádioWeb UFN e escreve, periodicamente, uma coluna sobre esporte na Central Sul Agência de Notícias

O que parecia ser um ano conturbado depois de eliminações, acaba sendo uma temporada que o torcedor sai esperançoso para 2023. A derrota para o Grêmio no Campeonato Gaúcho, a eliminação para o Globo na Copa do Brasil e o vexame contra o Melgar na Sul-Americana pareciam que iriam deixar marcados o ano do Internacional.

Chegou Mano Menezes, sem 100% da confiança da torcida, também chegaram reforços pontuais para o elenco e a temporada mudou completamente. Mesmo longe do Palmeiras no número de pontos, o Colorado ainda teve chance de conquistar o Campeonato Brasileiro mais uma vez. Com a derrota por 1 a 0, contra o América-MG, nesta última quarta-feira, o clube paulista conquistou mais um Brasileirão ainda na concentração para o jogo contra o Fortaleza. Mas para completar a festa, o time comandado por Abel Ferreira fez 4 a 0, com direito a gol da joia Endrick, de apenas 16 anos.

Apesar da vice-colocação, o torcedor deve ficar esperançoso para um ano de 2023 ainda melhor. Com uma base sólida montada nesta temporada, um goleiro confiante que tomou a posição na reta final, um quarteto defensivo seguro com destaques como Bustos e Vitão, um meio campo que ainda com dúvidas é muito promissor e um achado como centroavante que luta por cada bola como se fosse a última. Tudo isso graças a uma janela de transferências arriscada, mas muito bem pensada.

Elenco colorado em treinamento. Foto Twiiter Internacional

A base está pronta para a temporada que vem, reservas imediatos e um número 9 devem ser prioridade para 2023. Mano Menezes quer trabalhar com um grupo menor que esse ano, por isso jogadores ainda devem sair. A maior dúvida é Edenílson, que tem o aval do técnico para ficar, mas boa parte da torcida acredita não ter clima mais para o jogador. O ano de 2023 promete muito para o torcedor colorado, as chances reais de título existem em todas as competições a serem disputadas.

Lucas Acosta é acadêmico do 6º semestre do curso de Jornalismo da UFN, apresenta o Titular da Rede, Camisa 10 e A Copa & Eu na RádioWeb UFN e escreve, periodicamente, uma coluna sobre esporte na Central Sul Agência de Notícias

Depois de mais uma rodada perfeita para o Grêmio na Série B, onde todos os resultados que o tricolor precisava para depender só de si foram favoráveis, veio o alívio. Com a vitória por 3 a 0 contra o já rebaixado e último colocado Náutico, o acesso foi garantido e o Grêmio volta para o lugar onde os gigantes devem ficar, a Série A do Campeonato Brasileiro.

SOBRE O JOGO

Apesar do alívio no apito final, o início não parecia tranquilo. O Grêmio começou nervoso, errando passes fáceis, por conta disso praticamente não passava do meio campo. Já o Náutico, sem obrigação nenhuma e apenas cumprindo tabela, ensaiava uma pressão que parava nas próprias limitações do time.

Ainda no primeiro tempo, Bitello, um dos destaques do tricolor na temporada, abriu o placar no rebote do goleiro, deixando a torcida tranquila. O segundo tempo começou com Geuvânio, atacante do Timbu expulso, após forte entrada em Kannemann, o que deixou o time ainda mais vulnerável. Repetindo a história de 2005, o único remanescente da Batalha dos Aflitos, Lucas Leiva fez o segundo. Bitello em mais um rebote fez o terceiro para completar o marcador e colocar o Grêmio na elite novamente.

AGORA É TUDO 2023

Logo após o apito do árbitro, o pensamento já era no próximo ano. As entrevistas do técnico Renato Portaluppi e do atacante Diego Souza foram grandes exemplos disso. O comandante do tricolor fez fortes críticas direcionadas à direção do clube, afirmando que amadores não poderiam trabalhar mais no Grêmio. Já o atacante, ressaltou: “Com todo respeito ao elenco, mas precisamos se reforçar muito para 2023”.

A consciência de que foi um ano fraco existe, isso é fundamental. Uma temporada de sofrimento para o torcedor, que não conseguiu ver jogos tranquilos, já que era difícil confiar em uma boa performance do time. Com Roger foi assim, com Renato também, o Grêmio vencia, mas não convencia. Os jogadores e a direção devem muito à torcida, que mesmo com o desempenho medíocre não deixou de apoiar e acompanhar, colocando mais de 40 mil pessoas em cinco jogos na Arena.

Torcida tricolor presente no Estádio dos Aflitos.

Os reforços precisam chegar e não podem ser poucos, pelo menos dez jogadores devem ser contratados para a temporada que vem. Laterais, zagueiros, meias e atacantes, praticamente todas as posições necessitam ser contempladas para 2023. Agora é essa a obrigação.    

Imagens: reprodução Twitter

Lucas Acosta é acadêmico do 6º semestre do curso de Jornalismo da UFN, apresenta o Titular da Rede, Camisa 10 e A Copa & Eu na RádioWeb UFN e escreve, a partir de hoje, periodicamente uma coluna sobre esporte na Central Sul Agência de Notícias

Enaltecer mulheres e desconstruir o machismo recorrente da sociedade conservadora e com origem do patriarcado é mais do que importante para igualdade de gênero. Marta Vieira da Silva é um dos maiores exemplos de reivindicação por direitos iguais no esporte mundial. A brasileira eleita seis vezes melhor jogadora do mundo tem usado a cobertura midiática da Copa do Mundo Feminina 2019 – uma cobertura histórica para o futebol feminino por sinal – a favor das mulheres e da igualdade salarial e de gênero.

No dia 18 de junho de 2019, Marta escreveu, mais uma vez, o seu nome na história do futebol mundial. A atacante se tornou a maior artilheira de Copas do Mundo, marcando seu décimo sétimo gol em uma copa, ultrapassando o alemão Miroslav Klose. Quem já leu meus outros textos aqui da coluna deve saber o quanto as coisas mudaram no esporte feminino desde o século passado, mas o reconhecimento tardio e a desigualdade de gênero ainda se fazem presente.

Se pararmos para pensar e construirmos uma linha histórica de principais acontecimentos do esporte no Brasil, relembramos aqui que, durante o governo de Getúlio Vargas, as mulheres eram proibidas por lei de qualquer prática esportiva. O decreto de 14 de abril de 1941 expunha regras no artigo 54 que impediam o público feminino de praticar qualquer esporte no país. Lei que caiu no final dos anos 1970.

Seguindo a linha de fatos históricos para o esporte feminino, é praticamente impossível falar de esporte e resistência no Brasil sem citar Aída dos Santos. Pulando obstáculos, literalmente, por ser uma atleta da  modalidade salto com vara, e quebrando barreiras, a brasileira foi a primeira mulher representante do país a disputar uma final olímpica, única atleta da equipe de atletismo nacional e única mulher da delegação brasileira nos Jogos de Tóquio, em 1964. Ela chegou à Olimpíada sem apoio algum, sem patrocínio, sem técnico e muito menos com uniforme próprio, precisando adaptar e ajustar a roupa de outra modalidade e competição. E mesmo com todas as dificuldades, Aída ficou em quarto lugar naquela olimpíada. Muitas mulheres mudaram a história do esporte no país e colaboraram para a desconstrução da ideia de que mulheres não podem praticar esportes.

O ano tem sido marcado por momentos importantes para o esporte feminino. A Copa do Mundo da França 2019 está sendo transmitida em dois canais na TV aberta, Rede Globo e Rede Bandeirantes, além do canal fechado SporTV. Com os holofotes do mundo inteiro virados para elas, finalmente, as atletas tem ocupado seus espaços de fala, além de usar a seu favor a mídia.

A atacante brasileira Marta não chamou a atenção somente pelo grande futebol nessa copa, mas a atleta tem reivindicado direitos de patrocínio iguais, usando uma chuteira sem marca alguma, mas com a bandeira de igualdade de gênero estampada. Marta não aceitou nenhuma proposta das grandes marcas esportivas por um simples motivo: elas ofereceram a ela um valor muito abaixo do pago aos homens, o que é um absurdo.

A expectativa é grande e o apoio às brasileiras tem batido recordes nessa copa, empresas têm parado o expediente durante os jogos da seleção feminina, pela primeira vez, para que os funcionários assistam às partidas. Neste domingo, 23, a seleção brasileira entra em campo contra a França, às 16h, pelas oitavas de final. O apoio e o incentivo dado às atletas, principalmente, nas redes sociais durante a fase de grupos deve continuar nos próximos jogos e permanecer após essa histórica Copa do Mundo Feminina. Poste, compartilhe e use as hashtags #GuerreirasdoBrasil #CopadoMundoFeminina e #SeleçãoFeminina para aumentar cada vez mais a circulação e a visibilidade do esporte feminino.

Uma das grandes lutas das mulheres é por espaço, espaço de fala, espaço de visibilidade, espaço e direito de ir e vir sem ser assediada, espaço pra ser quem quiser e fazer o que bem entender e não ser julgada. Ser mulher no esporte é resistir para poder existir, é treinar sem apoio, é trabalhar enquanto eles descansam. Ser mulher no esporte é ser resistência e acreditar que eu posso, que ela pode, que você pode e que todas nós podemos juntas.

 

Agnes Barriles é jornalista egressa da UFN. Foi monitora e repórter da Agência Central Sul durante a graduação e atuou no MULTIJOR. Tem o jornalismo esportivo como referência em pesquisas e reportagens desenvolvidas. É engajada com causas sociais e busca dar espaço e visibilidade às minorias.

Praça do Mallet foi repaginada nesta semana após longo período de abandono. Foto: Julia Trombini

Já é triste pensar que a nossa cidade não possui muitos espaços públicos. E os poucos que existem, às vezes, não são adequados para o uso da população. Não estou generalizando, pelo contrário, acredito que as pessoas podem e devem utilizar os locais para lazer, esporte ou qualquer atividade ao ar livre. Afinal, o espaço público é considerado como aquele que é de uso comum e posse de todas as pessoas. Ao entender a cidade como um local de encontros, o espaço público, geralmente representado pelas praças, tem um papel muito importante para os cidadãos.

Moro no bairro Passo D’Areia há alguns anos e foram poucas as vezes que vi algum trabalho de melhoria feito pelo poder público nesse aspecto. O bairro tem uma praça que é conhecida pela quantidade de assaltos e violência na cidade, mesmo estando em frente a um lugar de segurança, que tem guardas 24 horas. Aos domingos, essa mesma praça reúne a comunidade de Santa Maria. As crianças brincam na pracinha, alguns idosos fazem atividades, as pessoas caminham, correm, jogam, outras levam seus animais de estimação para passear.  Todas essas atividades realizadas com atenção para não cair em um buraco. Mas eu não to querendo só falar do lado ruim de morar perto de uma praça e saber que muitas pessoas deixam de utilizar o seu espaço por medo de assaltos, ou porque não está adequada, que às vezes parece um matagal ou  que, quando chove, mesmo que pouco, a quadra parece uma piscina, ou então, que os brinquedos são quebrados ou somem. Ou, ainda porque já ficou muito conhecida e estereotipada como um um ponto da cidade que mostra a violência a luz do sol do meio-dia.

 A praça General Osório, conhecida como Praça do Mallet, amanheceu totalmente revitalizada  nesta semana. A grama foi cortada. Os brinquedos estão em boa condição de uso. A pintura da praça, realizada pela Sulclean, terceirizada pela Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos, é notada rapidamente por qualquer pessoa que passa pelo local. Para um morador é ainda mais evidente, tendo em vista que é uma praça marcada pelo abandono. O branco das calçadas clareou esse trecho da Avenida Liberdade e eu não questiono o feito, mas me pergunto por qual motivo ela simplesmente amanheceu assim? Até que lembrei que o atual presidente do Brasil chega amanhã na cidade, em sua primeira visita ao Estado após a posse, para prestigiar a Festa Nacional da Artilharia no 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado, o Regimento Mallet, que fica em frente à praça.

Julia Trombini é jornalista escorpiana egressa da UFN. Fez parte da equipe do LabFem (Laboratório de Fotografia e Memória) como repórter fotográfica. Trabalhou também com diagramação, assessoria de imprensa e produção de conteúdo. Tem interesse em fotografia, audiovisual e temas de resistência política.

O título desse texto poderia ser outro, direcionado apenas aos pais, mas sabemos que existem diferentes formações familiares. Por família, entende-se todo e qualquer grupo que conviva entre si sob um mesmo teto. Para além disso, a família é uma instituição que educa, orienta e influencia o comportamento social de cada indivíduo. Esse texto não aborda estruturas familiares, mas a importância do apoio familiar na vida de um LGBT+ e os reflexos de quando esses filhos são expulsos de casa.

O processo de descoberta de um LGBT+ é muito individual, mas um ponto em comum, é que desde pequenos a sociedade nos diz que pertencer a alguma dessas “letras” é errado. Se perceber LGBT+ é o primeiro passo para infinitas lutas que travamos dentro de nós. Um dos primeiros embates é o momento de “revelar” a sexualidade e/ou identidade de gênero à família. O medo da não aceitação aparece, cobranças são feitas e tudo parece desmoronar. Enquanto a vida nos ensina a sobreviver, a sociedade não faz o mesmo.

Medo. Essa é uma palavra muito presente na vida de um LGBT+. A rejeição familiar é uma das problemáticas que mais geram transtornos psicológicos nessas pessoas. Prova disso é o alto índice de suicídio na população LGBT+. Um estudo realizado na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, com jovens entre 13 e 17 anos, concluiu que adolescentes lésbicas, gays e bissexuais são cinco vezes mais propensos a tentar suicídio do que heterossexuais. No Brasil, em 2018, o Grupo Gay da Bahia (GGB) registrou 100 suicídios de LGBT+. Os números foram coletados através de uma pesquisa feita pelo GGB, ainda assim, faltam dados oficiais para entendermos melhor a profundidade do problema.

Além de transtornos psicológicos, expulsar um filho LGBT+ de casa, muitas vezes, os coloca no mundo das drogas, na prostituição, na rua, provocando uma fragilidade gigante frente a uma sociedade que aponta o dedo a todo instante. Mas destaco os problemas emocionais, por ter sofrido isso durante a adolescência. O receio da rejeição familiar me fez, muitas vezes, rezar para que eu não fosse gay. Entre meus 12 e 15 anos, repetia essa conversa todas as noites antes de dormir. “Não quero que meu pais tenham vergonha de mim”. Meu maior medo era ser expulso de casa e não ter para onde ir; que as pessoas que eu mais amo deixassem de me amar.

Meus pais não me expulsaram de casa. Meu receio foi em vão até os 18 anos, quando eles souberam da minha sexualidade. Conto essa experiência, para conseguir expor um pouco do que é o medo da rejeição familiar enfrentado por um LGBT+. Minha história se torna pequena comparada a inúmeros casos de rejeição familiar que realmente acontecem. Mas ela poderia ter um final diferente, infeliz, devido aos problemas emocionais que me acompanharam no período da adolescência.

Esse medo não é só meu, mas também de outros LGBT+: receio da reação dos pais ao saberem que a filha é lésbica; incerteza sobre o que os avós pensarão sobre a bissexualidade de sua neta; medo que o pai nunca mais fale com o filho ao descobrir que ele é gay. Enquanto famílias rejeitam e expulsam seus filhos, outras criam uma rede de apoio. Há 10 anos, a ONG Mães Pela Diversidade, conscientiza pais e mães sobre a importância do apoio da família para com seus filhos. Presente em 23 estados brasileiros e formada por mães e pais de LGBT+, o grupo alerta sobre a LGBTfobia: “Meu filho não será estatística”.

A família é o nosso primeiro vínculo afetivo. Algumas pessoas dizem que é nosso “porto seguro”, mas o que fazer quando esse porto não está aberto para nós? Para onde vamos correr depois de uma tempestade provocada pela sociedade? A família não pode intimidar. Além de educar, ela tem o dever de acolher e dar amor. A sociedade já é muito cruel com a gente. Não precisamos de mais um mar tempestuoso que nos expulsa para fora dele.

Famílias, não expulsem seus filhos LGBT+ de casa. Ame-nos e nos respeite do jeito que somos. Não crie expectativas e nem projete um futuro para seus filhos. Tenham orgulho. Nós só queremos o seu amor.

 

Deivid Pazatto é jornalista egresso da UFN. Foi repórter da Agência Central Sul e monitor do Laboratório de Produção Audiovisual (Laproa) durante a graduação. É militante do movimento LGBTQ+, aborda questões pertinentes sobre essa temática em seus textos.

Foto: Mariana Olhaberriet

Observe estes dados:
2014: 329;
2015: 319;
2016: 343;
2017: 445;
2018: 420.

Esses são os números, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais assassinados nos últimos cinco anos no Brasil. 1.856 vítimas de uma violência estrutural. Em 2018, a cada 20 horas, um LGBT+ foi morto de forma brutal no país. Em um contexto de ascensão de um governo conservador, que estimula a violência, os números de agressões contra esse grupo vulnerável não dão indícios de que estejam próximo do fim.

Há pouco mais de um mês, o Supremo Tribunal Federal (STF) deu início ao julgamento da criminalização da LGBTfobia, uma reivindicação histórica do movimento LGBT+ no país. As duas ações julgadas, uma proposta pela Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) e a outra pelo Partido Popular Socialista (PPS), pautam a omissão do Legislativo no que confere a crimes relacionados contra a população LGBT+.

A primeira sessão iniciada no dia 13 de fevereiro, foi retomada pela última vez no dia 21 de fevereiro. Durante quatro sessões, dos 11 ministros, apenas quatro declararam seus votos favoráveis à criminalização da LGBTfobia, que equipara a violência e a discriminação contra LGBTs ao crime de racismo. Mesmo com duas ações enfatizando a omissão do Congresso, novamente a votação no STF foi suspensa, sem uma data prevista para o retorno do julgamento. Nesse caso, não só o Legislativo foi e é omisso, mas também a Corte, por suspender uma pauta urgente da comunidade LGBT+, já que estava em debate um tema que retrata a realidade do país que mais assassina essa população no mundo. A omissão do Legislativo em levar pautas LGBTs adiante tem uma grande contribuição de forças conservadoras. Com grande empenho, a bancada fundamentalista religiosa, que só cresce a cada eleição, é uma das maiores barreiras para que a violência contra LGBTs se torne crime e que ações afirmativas em prol dessa população sigam adiante para votações.

A pauta de criminalização da LGBTfobia se torna tão polêmica devido ao entrave entre conservadores e defensores dos direitos humanos. De um lado, a grande mobilização de setores conservadores, sobretudo religiosos, defendem que a criminalização da LGBTfobia implicaria na restrição da liberdade religiosa – disfarçada, muitas vezes, de discurso de ódio e intolerância. Do outro, grupos de ativistas e a própria comunidade LGBT+, que reivindica uma pauta antiga em favor da liberdade e da vida.

Criminalizar a LGBTfobia se torna urgente diante da atual conjuntura de conservadorismo estabelecida pelo atual governo. Mas não basta apenas a criminalização, se esse mesmo governo nos tira outras alternativas que militam em busca da educação em respeito à diversidade. Ações como a retirada, nos planos de educação, de diretrizes  que contribuem para o enfrentamento à discriminação de gênero e orientação sexual enfraquecem uma luta que não é de hoje e nos levam a invisibilização. Uma invisibilidade que é reforçada por programas como o Escola Sem Partido, que proíbe a discussão de gênero na educação de crianças e adolescentes nas escolas.

Levar essas pautas para as escolas é o início para a desconstrução de uma cultura preconceituosa e da violência estrutural, que ficam evidentes através dos números de crimes contra a população LGBT+ citados aqui. Números esses que só são obtidos através de manchetes ou relatos, graças ao empenho do GGB, a mais antiga associação do Brasil que luta pelos direitos LGBT+. Já que, devido ao despreparo policial e  uma certa resistência desses órgãos em reconhecer o motivo específico desses crimes, muitos casos são subnotificados ou não são resolvidos.

E aponto esse despreparo com convicção. Em 2016, após receber ameaças motivadas pela homofobia, compareci a uma delegacia de Santa Maria para registrar um boletim de ocorrência. Após relatar as ameaças e apresentar provas, o policial deu risada e disse que eu não poderia fazer um registro alegando ser vítima de homofobia. “Não tem lei pra isso!”

Mas porque criminalizar a LGBTfobia? Principalmente, para que mais vidas não sejam perdidas. Para que não tenham mais casos como o da travesti Dandara, espancada e executada em praça pública, em 2017, na cidade de Fortaleza. Para que famílias não façam mais vítimas, como Itaberly, morto pela mãe e padrasto, também em 2017, no estado de São Paulo. Para que LGBTs possam sair na ruas de mãos dadas sem sofrer insultos ou ter a cabeça atingida por uma lâmpada. Mas esses casos são apenas a ponta do iceberg em uma imensidão de atrocidades que não chegam ao nosso conhecimento.

Por esses e por outros motivos é que não podemos esquecer de criminalizar a LGBTfobia. Hashtags como a #CriminalizaSTF, que ganharam força nas redes sociais próximo ao dia da votação, mostraram o grande apoio para que isso se torne realidade. Mas não podemos lembrar da criminalização da LGBTfobia apenas na semana da votação, em datas comemorativas ou na Parada LGBT+. Devemos reivindicar todos os dias, para não cair no esquecimento, não só do STF ou do Congresso, mas de toda a população.

A LGBTfobia bate em nossa porta todo dia. Amanhã pode ser eu, você, sua irmã, seu tio, algum de seus amigos, sua colega de trabalho, seu professor. Tornar essas agressões e insultos em crime é uma urgência social e que não podemos deixar para amanhã. Se em outros governos já havia dificuldades para que esses temas, não só nas escolas, mas em diversos setores fossem discutidos, o que nos reserva um governo conservador, de um presidente que diz: “Seria incapaz de amar um filho homossexual. […] prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí” ?

Criminalizar a LGBTfobia é um grito de socorro. Parem de nos matar!

 

Deivid Pazatto é jornalista egresso da UFN. Foi repórter da Agência Central Sul e monitor do Laboratório de Produção Audiovisual (Laproa) durante a graduação. É militante do movimento LGBTQ+, aborda questões pertinentes sobre essa temática em seus textos.

Hoje a coluna será diferente, mas nem tanto. Uma recomendação pessoal dos meus três discos favoritos. Afinal, nada é melhor do que falar daquilo que a gente gosta, não é verdade? O favoritismo pode pesar aqui, mas é impossível não demonstrar afeto por nossos crushs e mozões.

The Stooges – Fun House (1970)

  Ah, os Stooges. Eu amo os Stooges. Iggy (ainda sem o Pop), os irmãos Asheton, Ron e Scott, e Dave Alexander. Descobertos por Danny Fields, na época uma espécie de caça-talentos da Elektra, moldaram os padrões do que se tornaria o punk rock oito anos depois. Simplicidade, agressividade, luxúria e tédio. Os Stooges começaram a carreira no experimentalismo. Tocavam longas músicas em suas apresentações, com muita cacofonia e Scott Asheton batucando latas de lixo e gasolina. Tudo caótico e nada comercial. Em seu contrato com a Elektra, tiveram que comercializar seu som. Nenhum problema nisso. O primeiro disco, homônimo, lançado em 1969, exalando o tédio atemporal da adolescência, causou uma revolução musical. Três acordes e um niilismo ingênuo. Nasce o punk rock, mesmo ele já tendo seus primórdios uns quatro anos atrás, na Inglaterra, no riff de You Really Got Me, dos Kinks. O timbre lisérgico e os wah-wahs da guitarra de Ron Asheton tumultuando nossos ouvidos num caos controlado, produzido por John Cale, aquele mesmo do Velvet Underground, o lado vanguarda da banda. Ironicamente, ele adocicou o som dos Stooges. Eles não gostaram nada. O disco muito menos. Vendeu mixaria. E nele encontramos hinos punkadélicos do quilate de I Wanna Be Your Dog (a luxúria e submissão), 1969 e No Fun (o tédio e niilismo). Um ano depois, tomam um passo adiante em seu som. O tédio ingênuo dá lugar à pura farra niilista. Fun House serve como uma extensão do disco anterior, apenas mais completo, e diferente também. É metálico, tal qual Detroit, a cidade industrial palco e berço de bandas revolucionárias e agressivas. Produzido por Don Gallucci, tecladista do Kingsmen, e responsável pelo riff de teclado mais famoso da história, o de Louie Louie, o disco é seco, autêntico e vivo. As músicas são construídas na base do improviso. A banda soa profissional, centrada. Ron Asheton abandona seus timbres ácidos e os substitui por cortes e socos a queima-roupa na cara. O contrabaixo de Dave Alexander ainda mais pulsante. A batida instável de Scott Asheton. O tilintar das caixas é orgânico e seco. Uma autêntica bateria. E Iggy cada vez mais enlouquecido. Berrando, gemendo e urrando tal qual uma pantera caçando sua presa numa selva infernal. Iggy nunca soou tão primal na vida. Sua voz ecoa das cavernas mais profundas da humanidade. Na última faixa do álbum, L.A. Blues, os Stooges liberam o caos na terra, direto das entranhas do inferno e drogas. Cacofonia, ritmos dispersos e dissonantes, e o Iggy, claro, na maior selvageria. Altamente coeso em sua forma, a melhor descrição de Fun House se encontra no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer: ”O lado A é a festa, o B a ressaca”. Nada mais resumido. Composto por sete faixas, o lado A apresenta canções mais curtas e diretas. Empolgantes em sua essência. Para dançar. Uma farra completa. Termina com Dirt, uma pausa no dinamismo e o início do declínio da noite. Iggy se sente sujo e não se importa com isso. Abrindo espaço para o lado B, outra história. Canções mais longas, repetitivas, tão diretas e caóticas quanto e com o acréscimo do saxofone de Steve Mackay, martelando a ressaca em nossas cabeças. Tudo lindo e cheirando a liberdade e decadência. O disco também não vendeu nada, e os Stooges se separaram, para voltar dois anos depois, agora com outro guitarrista, James Williamson, tão agressivo quanto o próprio som dos Stooges, e Ron Asheton migrando para o contrabaixo, e, sob a produção de David Bowie, lançarem Raw Power, seu disco mais cultuado. Mas meu coração permanece em Fun House, por todo o sempre. Sendo sincero, não sei exatamente o que falar do disco. É o meu favorito. Aquele que eu levaria para uma ilha deserta sem pensar duas vezes. Palavras são desnecessárias nesses momentos. Basta sentirmos. E esse é também o melhor disco da história. Ponto final.

Destaque: Down on the Street – A abertura espetacular desse disco maravilhoso. Talvez o melhor riff da história. Cheio de groove e sensualidade. Empolga até defunto. É só isso que você precisa saber. Ritmo dançante, contrabaixo e bateria se relacionando e refrão explosivo e gritado. Depois um solo improvisado, monossilábico e fantasmagórico de Ron Asheton. Na letra, nada mais nada menos que Iggy caminhando rua abaixo, pensando em alguém e vendo coisas bonitas. É, o forte dos Stooges não eram as letras. Não que isso importe.

Serge Gainsbourg – Histoire de Melody Nelson (1971)

 Apenas Gainsbourg para tornar um assunto tão polêmico, delicado e repulsivo em algo belo, melancólico e sonhador. Aqui temos uma ópera-rock sacana sobre uma paixão proibida. E ilegal. O alter-ego de Gainsbourg, ou talvez o próprio, dirige seu Rolls Royce pelas ruas solitárias de uma noite escura quando atropela uma garota numa bicicleta. A imagem virginal de Melody Nelson o fascina. Começa aí um conto de obsessão e paixão que termina em tragédia. É isso mesmo. Melody Nelson é menor de idade. Gainsbourg não revela exatamente as primaveras da personagem título, mas suas descrições de lolita nos remetem uma ideia. Gainsbourg atravessa as profundezas mais sinistras do homem. A história é narrada em detalhes e tons poéticos pelo vocal sussurrado e falado de Gainsbourg, a subsequente sedução até o ato carnal. Gainsbourg está apaixonado pela sua musa virginal. Ele a deseja. Não a vê como uma mera presa de suas perversões e delírios carnais. É uma paixão autêntica. Mas não se preocupe, não há palavras ofensivas aqui. Detalhes das núpcias do casal são deixados de lado. Tudo muito galanteador e francês. Gainsbourg era malandro, mas nada burro. É exatamente isso que torna esta obra tão bela. A tragédia e luxúria de uma paixão proibida sob o ponto de vista delicadamente romântico e recíproco. É um obra feita para chocar, mas sem a apelação tão comum nesse tipo de abordagem. Não espere um Lolita da vida. A mera perversão e medo de um Humbert Humbert não existem aqui. E nada de romantização e glamourização de um tema desagradável. O que talvez faça esta obra soar tão sinistra e até ingênua em seu conceito. Na verdade, até que há uma certa moral da história. O disco fecha com a morte de Melody Nelson, em um acidente de avião, e Gainsbourg lamentando o eterno fim de sua paixão proibida, como se fosse viver o resto de sua vida no maior sofrimento, pagando pelo seu pecado. Maior deprê. Mas o verdadeiro primor aqui é a música, é claro. Com 27 minutos de duração e dividido em sete faixas, Melody Nelson é um exercício de delicadeza e produção esmerada, luxuosa e muito, mas muito simples. Tudo nesse disco é perfeito. Produção, execução, interpretação. Foi feito para ser ouvido do início ao fim, sem pular faixas. Afinal, é um álbum conceitual. Cada faixa expandindo a outra. A base do disco se encontra num funk sombrio e levemente safado que só Gainsbourg sabia fazer, com três curtos interlúdios acústicos para acalmar os ânimos. As músicas seguem uma linha repetitiva e tranquila, e vão aumentando e progredindo ao mesmo tempo em que o enredo é desenvolvido. Tudo muito sombrio e melódico. A calmaria antecipando a tempestade. Cada instrumento bem executado e em harmonia com o clima das canções. Nenhum instrumento se sobrepõe a outro. Um autêntico trabalho em equipe. De primeira temos toques de guitarra aqui, baixo marcando a melodia, bateria o ritmo, mais toques de guitarra ali, uma leve passagem de cordas, terminando numa explosão conjunta. Sem pompa, sem complexidades. Apenas simplicidade em seu estado mais bruto. Esse desenvolvimento em conjunto entre enredo e música é perfeito para nos envolver na história. Um filme em nossa mente. Não é preciso ter domínio da língua francesa para entender a história. Música e letra já fazem todo o trabalho. Além disso, a mixagem dos instrumentos é tão seca e genuína quanto a mais fria das almas. Há belíssimos dedilhados de violão e contrabaixo sustentando as melodias e pintando tons de alegria no disco. Sonoridade ideal para o ambiente melancólico e de tensão sexual. Os arranjos de cordas de Jean-Claude Vannier banham o disco em magia e sonho. Etéreo. Um coro de anjos sem o coro. Em resumo, Melody Nelson é a maior definição de perfeição. Uma obra-prima indispensável na coleção de qualquer amante da música.

Destaque: O álbum inteiro, é óbvio!

Dennis Wilson – Pacific Ocean Blue (1977)

   Dennis Wilson, o beach boy errático, rebelde e de espírito livre. Mas também um ser de natureza gentil e doce. E uma alma atormentada. Espíritos livres com frequência são atormentados. A liberdade é perturbadora. Dennis era o patinho feio dos garotos da praia. Tinha uma voz fraca e grave, um contraponto perfeito aos seus colegas de banda, todos muito bem afinados. Isso não impediu Dennis de interpretar majestosamente belas canções do cancioneiro praieiro. Sua fragilidade é envolvente em canções como The Back of My Mind, por exemplo. De uma extrema ternura. Também foi um hábil compositor. Não tão genioso quanto seu irmão, Brian, mas igualmente brilhante. Dennis não teve treinamento musical algum. Escrevia suas melodias de coração mesmo. Ou talvez tocasse apenas notas agradáveis até formar uma sequência coesa, quem sabe. Não importa. Sua canção mais famosa nos Beach Boys, Forever, é um exemplo desse seu brilhantismo. Melodismo em seu mais alto nível. E seu único disco solo segue essa linha. Apenas um pouco menos comercial. Desprovido de enfeites, Pacific Ocean Blue é um trabalho melancólico, reflexivo, cru e repleto de sentimento de um ser atormentado. Clima de fim de noite e solidão. Levemente depressivo e desesperador, mas com traços de esperança. Letras sobre amores saudosos, despedidas tristes, reflexões e leve otimismo em relação a vida. Sua voz mais rouca e fraca, devido a idade e sua forma física desgastada. Ele era o galã dos Beach Boys, o garoto-problema, e em 1977 se encontrava fora de forma. Mas sua voz atormentada por pesadelos, num timbre áspero, combina perfeitamente com a atmosfera desoladora de suas canções. Wilson as interpreta com a sonolência e ausência de personalidade, mas com muita personalidade, de quem só quer desabafar sobre seu cansaço mental e físico. Tudo envolto em névoas e água salgada. Podemos imaginar a paisagem tranquila e deprimida de uma manhã solitária e cinzenta nas areias de uma praia. A princípio o disco pode soar um tanto tedioso para ouvidos menos acostumados com um som nada progressivo e padronizado, com poucas mudanças e tudo arrastado, que segue os padrões de um rock mais adulto, orientado para as rádios, da costa oeste dos Estados Unidos, também conhecido como AOR, mas sem o raiar do sol. É um anti-AOR. Nenhuma faixa apresenta um apelo comercial. Apenas beleza em sua essência. É um disco para ser ouvido na íntegra, em sua totalidade. Maçante, mas nada maçante. Os ganchos estão ali, tímidos em meio ao clima levemente desesperado do disco. Por isso exige repetidas audições até entendermos seu conceito, sua musicalidade peculiar. E aí é que ele nos envolve cada vez mais. No fim, Pacific soa por vezes perturbador. Um mergulho nas reflexões de um espírito atormentado pela sua natureza rebelde e errática. Wilson morreria seis anos depois de lançar seu  primeiro e último disco, afogado após pular bêbado na água. Um fim trágico para uma alma trágica.

Destaque: Thoughts of You – A mais perturbadora do disco. Acompanhado apenas de uma melodia lindíssima e depressiva ao piano, e pequenos toques de um arranjo de cordas, Dennis está saudoso, pensamentos rodeando sua cabeça. Ele reflete sobre solidão e amor passageiro. Seu único conforto está em suas lembranças e pensamentos, que lhe trazem alegria. Tudo mais do que melancólico e sinistro. As coisas ficam mais macabras quando a melodia muda, aumentando a tensão da música, e camadas de vozes surgem ao lado de Dennis, que  parecem tentar escapar de um limbo infernal. ”All things that live one day must die” (Todas as coisas que vivem um dia devem morrer), canta na maior tranquilidade sombria de uma vida ofegante chegando ao seu fim. Angustiante. Não recomendável para ouvidos facilmente impressionáveis.