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Crônicas

O país que ainda espera por Neymar

Uma reflexão sobre a relação entre Neymar e o futebol brasileiro após sua convocação para a Copa de 2026. Entre esperança, desgaste e memória coletiva, o camisa 10 segue sendo um personagem impossível de ignorar.

Quando a simplicidade cala o mundo

O mundo ficou mais barulhento sem a tua calma. E um pouco mais triste, agora que a cadeira do quintal está vazio, mas ainda há passos leves de uma cadelinha ao seu lado. 

Naquela mesa

Já não tenho mais certeza de que dia era aquele. Sexta-feira? Talvez sábado. Não tenho como lembrar, já fazia dias que não saia de casa ou sequer abria as janelas. Minha única obrigação e prazer naqueles

A terra de ninguém

Desde o surgimento de grandes sociedades na história, diversas bases legais foram estabelecidas pelo homem, tendo como exemplo, a Lei de Talião no oriente, a Lei das Doze Tábuas utilizadas no período da soberania romana, a

Saudades de mim

Lembra quando a gente achou que passaríamos 15 dias em casa dividindo os dias entre pães gostosos, livros que estavam há anos esperando uma chance e horas a fio com os olhos pregados em uma série

O futebol, ou simplesmente a minha vida

O gosto por partidas de futebol é algo que desde pequeno, com meus 9 ou 10 anos, de idade, possuo. Quando pequeno fui influenciado por meu pai e meu avô materno a gostar do esporte, os

Superação e Terra Vermelha

De longa data, vejo o passar do tempo como uma elipse de 24h. Só que, ao invés de um dia, refere-se a anos. A paixão pelo esporte, em específico ao tênis, é de tempos distantes. Algo

O depois da tempestade

Tenho notado certa esperança nesses últimos dias. Muito disso se deve pelo fato de que inúmeras pessoas estão sendo vacinadas contra o novo coronavírus. Se você ver o noticiário, vai notar alguns acontecimentos atípicos, como repórteres

À espera do abraço

Neste ano que passou, aprendemos a dar sorrisos com os olhos, a sofrermos com a falta de abraços. A distância foi como ferro em brasa que marca a pele, machuca, incomoda por um tempo, mas, aos

Durante quatro minutos, parecia que tudo finalmente tinha dado certo.

Neymar chorava no gramado após o gol contra a Croácia. O Brasil estava classificado. A semifinal estava perto. E, por alguns instantes, parecia que aquela seria a imagem definitiva da relação entre Neymar e a Seleção: o craque decisivo, carregando o país mais uma vez.

Mas o futebol é imprevisível, tudo muda rápido demais.

Quatro minutos depois, a Croácia empatou. Vieram os pênaltis. Vieram as lágrimas de novo. E junto delas apareceu uma sensação estranha de fim. Como se aquela eliminação também encerrasse um ciclo entre Neymar e o Brasil.

Neymar e Antony lamentam eliminação do Brasil diante da Croácia
Imagem: Jewel SAMAD / AFP

Só que despedidas nunca foram simples quando se trata dele.

A convocação para a Copa de 2026 não ocorre porque Neymar ainda seja o jogador mais rápido, mais físico ou mais decisivo do mundo. Ela acontece porque o futebol brasileiro ainda olha pra ele como alguém capaz de fazer o impossível acontecer por alguns segundos. E talvez isso diga mais sobre o povo brasileiro do que sobre o próprio Neymar.

Porque, no fundo, o torcedor brasileiro ainda procura aquele menino de cabelo diferente que jogava sorrindo. Aquele que fazia parecer fácil. Aquele que carregava a sensação de que qualquer jogo podia virar espetáculo a qualquer momento.

Em 2010, ele era futuro. Em 2014, virou símbolo de um país inteiro que sonhava com o hexa dentro de casa até a joelhada que interrompeu tudo. Em 2018, jogou cercado pela obrigação de provar que ainda era o melhor. Em 2022, parecia cansado. O Brasil parecia cansado dele também.

Mas mesmo assim, quando o nome apareceu na convocação para 2026, o país parou pra olhar.

Porque Neymar nunca foi só futebol. Neymar virou memória de geração. Virou discussão de almoço em família, virou esperança exagerada, virou frustração nacional, virou obsessão coletiva. Todo mundo tem uma opinião sobre ele. E talvez seja exatamente isso que faz dele tão impossível de ignorar.

Só que agora é diferente.

O corpo já não responde igual. As lesões deixaram marcas. O sorriso parece menos leve. Pela primeira vez, Neymar não chega como unanimidade absoluta. Não chega como o herói inevitável. Chega quase como alguém tentando sobreviver ao próprio personagem.

E talvez seja justamente isso que torne tudo mais humano.

O menino virou veterano diante dos olhos de um país inteiro. O jogador que antes parecia representar o futuro agora carrega o peso do passado nas costas. Ainda assim, existe algo quase irracional no fato de que o Brasil continua esperando alguma coisa dele.

Talvez porque o futebol brasileiro também tenha dificuldade em seguir em frente.

Talvez porque seja difícil aceitar que o tempo passou.

Ou talvez porque, no fundo, a gente ainda queira acreditar que existe um último capítulo reservado pra ele.

Um último drible.
Um último gol.
Um último milagre.

Porque algumas relações no futebol não acabam quando deveriam.

E talvez o Brasil ainda não tenha aprendido a se despedir de Neymar.

Carlo Ancelotti convoca Neymar Jr. para a Copa de 2026. Imagens: Reuters

Por que as mulheres estão cada vez mais obcecadas por homens que existem apenas no papel?

Personagens quebram a expectativa do padrão de comportamento masculino. Imagem: Divulgação/Prime Video
Personagens quebram a expectativa do padrão de comportamento masculino.
Imagem: Divulgação/Prime Video

Quem acompanha a cultura pop e acessou as redes sociais nos últimos tempos certamente foi atropelado pelo fenômeno Off Campus. A série, uma adaptação dos livros da autora canadense Elle Kennedy, estreou recentemente no streaming Prime Video e o sucesso foi estrondoso. A história aborda o relacionamento e a vida de Hannah Wells (Ella Bright), uma jovem estudante de música que carrega um grande trauma, e Garrett Graham (Belmont Cameli), o popular capitão do time de hóquei da faculdade Briar. Clichê? Óbvio!

De mundos completamente diferentes, os protagonistas se aproximam a partir de um acordo: Hannah ajuda Garrett a estudar e ele tenta ajudá-la a conquistar Justin Kohl (Joshua Heuston), um músico por quem ela está interessada. Com o desenrolar da história, os dois inevitavelmente se envolvem, o que leva Hannah a mergulhar na vida de Garrett, um universo repleto de esportes, fraternidades e muita testosterona. E é aí que começa a nossa discussão.

Graham divide a casa com três amigos, também jogadores de hóquei. Apesar de carregarem todos os estereótipos possíveis do conhecido “hétero top”, é aí que as semelhanças com a vida real acabam. Mesmo cercados por circunstâncias propícias para agirem de forma abusiva, tóxica, preconceituosa e manipuladora, eles não o fazem. E o motivo é simples: foram escritos e dirigidos por mulheres.

Esse talvez seja o ingrediente principal para o gênero fazer tanto sucesso, especialmente com o público feminino. Encontramos ali personagens masculinos com responsabilidade emocional e afetiva, que não descontam suas frustrações nas parceiras e não perpetuam os comportamentos abusivos que sofreram na infância (como é o caso do próprio protagonista de Off Campus). São homens que levam a sério o consentimento e os limites, e que não têm medo de demonstrar sentimentos. Algo que deveria ser simples na teoria, mas que se tornou escasso ultimamente: homens adultos responsáveis, gentis, funcionais e emocionalmente inteligentes.

Em uma sociedade cada vez mais sufocante para as mulheres, bombardeadas por discursos misóginos, pela infeliz cultura red pill, e onde a solidão é considerada uma epidemia pela Organização Mundial da Saúde, uma realidade onde os homens se mostram frágeis e se permitem sentir parece cada vez mais distante.

Destaco uma das cenas da série em que Hannah, passando por um momento difícil em decorrência de um trauma da adolescência, ignora todas as mensagens e ligações do namorado. Ele também enfrentava um dia complicado, porém, ao encontrá-la, em vez de esbravejar, xingar ou descontar seu descontentamento na garota, Garrett apenas questiona se está tudo bem, e se ELE fez algo errado. Em nenhum momento há comportamentos tóxicos ou controladores. O mínimo? Sim, mas extremamente raro ultimamente. Em um mundo onde 80% das vítimas de feminicídio são assassinadas por parceiros ou ex-parceiros, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, tendo o ciúme possessivo como principal motivação, as mulheres são ensinadas, desde cedo, a sempre esperar pelo pior.

Outro sucesso recente, a série canadense Heated Rivalry (Rivalidade Ardente), adaptação dos livros de Rachel Reid, também acertou em cheio ao abordar homens com emoções fortes e sem medo de expressá-las. A trama, também ambientada no brutal e hipermasculino mundo do hóquei, traz uma grande diferença: gira em torno de um casal homossexual. Os personagens Shane Hollander (Hudson Williams) e o russo Ilya Rozanov (Connor Storrie) se apaixonam e, apesar de tentarem esconder o relacionamento devido à pressão da carreira e da sociedade, não têm medo de demonstrar o afeto que sentem um pelo outro. Homens sendo carinhosos com outros homens: o mínimo que o público feminino ama ver.

Série canadense explora o romance entre dois jogadores rivais. Imagem: Reprodução

Historicamente, a própria indústria cinematográfica hollywoodiana foi construída sob o conceito do “Male Gaze” (o olhar masculino), produções feitas por homens e para homens. Nelas, as figuras femininas são retratadas como o “sexo frágil”, servindo apenas como um rosto bonito ou objeto sexual, enquanto a figura masculina é sempre o pilar forte, frio e incapaz de demonstrar sentimentos. Em contrapartida, a atualidade consagra o “Female Gaze” (o olhar feminino): homens escritos por mulheres, voltados para o público feminino. São personagens mais sensíveis, humanizados e expressivos, como vemos em produções recentes como Off Campus, Heated Rivalry e The Summer I Turned Pretty.

Diante deste cenário, surge um questionamento comum: “Se os homens reais também são criados por mulheres (mães, tias, avós, professoras), por que eles não se comportam como nos livros?”. Bom, por mais que as mulheres façam um trabalho excepcional na criação desses meninos, eles não são educados em uma microesfera. Em casa, a figura feminina pode ensinar sobre amor, respeito e criar um lugar acolhedor para expor sentimentos, mas ao pisar na rua, no entanto, esse jovem é engolido por uma sociedade patriarcal, pelo machismo estrutural e por movimentos misóginos da internet que validam a agressão, a manipulação e o preconceito. Eventualmente, a engrenagem social engole o que foi ensinado no lar. Nesse viés, é impossível não citar, também, como a demonstração de sentimentos é estritamente associada ao feminino de forma pejorativa. Homem não pode chorar ou falar sobre o que sente porque isso seria “coisa de mulher” — como se o feminino fosse um sinônimo de fraqueza ou algo ruim.

Por conta disso, o escapismo do público feminino para essas produções é frequentemente taxado como bobo, alienado ou mera fantasia infantil. Conteúdos que têm as mulheres como alvo principal são constantemente diminuídos pela crítica e pelo senso comum (Taylor Swift e seu público são a prova viva disso). Mas o fenômeno vai muito além do entretenimento. Essa obsessão literária e cinematográfica é, na verdade, um sintoma social; um grito de que as mulheres não estão satisfeitas com a realidade.

The Eras Tour da cantora norte-americana Taylor Swift se tornou a maior turnê em bilheteria de todos os tempos. Imagem: Reprodução/Casey Flanigan

Aquela antiga história do príncipe encantado no cavalo branco mudou. As mulheres não procuram a perfeição inalcançável, e a masculinidade em si não é rejeitada. A busca real é por um refúgio, a garantia de segurança e afeto sem o medo da violência. O sucesso estrondoso dessas histórias é a prova de que o comportamento padrão masculino da atualidade já não é mais aceitável.

No fim das contas, a grande diferença de Garrett Graham, ou de qualquer outro homem literário, é a sua humanidade, o que chega a ser cômico para um personagem fictício. Os “homens escritos por mulheres” fazem sucesso porque não representam uma ameaça à nossa existência. Enquanto vivermos em uma sociedade onde as telas e as páginas dos livros são os únicos lugares onde o consentimento é sexy, a vulnerabilidade é vista como algo bonito e o amor não é sinônimo de medo, o público feminino continuará buscando abrigo na ficção. Em uma realidade que nos mata, infelizmente, as páginas escritas por mulheres tornaram-se o único lugar seguro para amar um homem.

Morre um homem que não tinha nada, mas carregava tudo. 

José Mujica ou apenas Pepe, como o mundo o conhecia, não deixou fortunas, palácios, nem herdeiros políticos ambiciosos. Deixou uma cadeira de madeira na varanda de sua chácara, um fusca azul envelhecido pelo tempo e um silêncio que grita nas esquinas do Uruguai (e da América Latina).

Não usava palavras difíceis, mas fazia a verdade parecer simples. Talvez por isso a sua morte doa tanto, porque nos lembra que é possível ser honesto em voz alta. E agora essa voz se calou. Pepe viveu com os pés no barro e o coração na utopia. Lutou, apanhou, foi preso, resistiu. E mesmo depois de tudo, não falou com rancor. Falou com esperança. Uma esperança que hoje parece sentar sozinha na cadeira vazia do quintal, à sombra da sequoia onde Manuela descansa. 

Imagem: divulgação

Manuela, sua cadelinha de três patas, atropelada por um trator que o próprio Mujica dirigia em um acidente que só aumentou o elo entre os dois.

A cachorrinha acompanhou o ex-presidente por mais de duas décadas, em atos oficiais, entrevistas, manhãs de trabalho na chácara e tardes de silêncio. Dormia ao lado da cama dele, sentia quando ele ia viajar e festejava sua volta com uma alegria que só os animais conhecem. Foi, nas palavras de Pepe, “a integrante mais fiel” do seu governo. E agora, segundo o próprio desejo do ex-presidente, será com ela que ele descansará, com suas cinzas espalhadas sob a mesma árvore onde ela foi enterrada. 

Mujica sabia há meses que o fim estava próximo. Em janeiro, anunciou que não seguiria com o tratamento contra o câncer que havia se espalhado pelo fígado. Pediu aos médicos que não o fizessem sofrer em vão. Pediu à vida apenas o tempo suficiente para se despedir da terra, das ideias, e talvez também da utopia. 

Sua morte, no dia 13 de maio de 2025, aos 89 anos, não é apenas o adeus de um ex-presidente. É o fim simbólico de uma era em que ainda se acreditava que política podia rimar com ética, que revolução podia calçar alpargatas, e que a coragem podia andar de mãos dadas com a ternura. 

Milhares foram às ruas de Montevidéu para se despedir. Não apenas de um líder, mas de um modo de estar no mundo, com menos vaidade, menos ruído, menos pressa. 

Imagem: Mariana Mendez/AFP

O que nos resta é continuar, talvez com menos romantismo, mas com mais urgência. Porque se Pepe ensinou algo, é que não há tempo a perder com ódio, consumo desgovernado ou ambição vazia. 

O mundo ficou mais barulhento sem a tua calma. 
E um pouco mais triste, agora que a cadeira do quintal está vazio, mas ainda há passos leves de uma cadelinha ao seu lado. 

Hasta siempre, Pepe.

Já não tenho mais certeza de que dia era aquele. Sexta-feira? Talvez sábado. Não tenho como lembrar, já fazia dias que não saia de casa ou sequer abria as janelas. Minha única obrigação e prazer naqueles dias era pesquisar e escrever sobre qualquer tema que eu fosse capaz de pensar. Eu lembro que entre um texto e outro, começou a tocar a música “Naquela Mesa” na rádio, a eterna representação de uma perda tão dolorosa e, ao mesmo tempo, tão natural. Comecei então a pesquisar sobre a música, ia ser meu novo tema pelos próximos dias.

Minha primeira descoberta já foi uma desilusão, a canção não foi escrita por Nelson Gonçalves. Na minha ignorância musical, que vezes se apresenta como uma dádiva, vezes como uma maldição, eu sempre imaginei o cantor sentado sozinho em uma mesa de um bar lotado, acompanhado apenas de um copo de whisky onde os gelos já derreteram, vestindo um casaco que não saia do armário há décadas e uma calça muito comprida. Ele mexia impaciente em um velho relógio de pulso, que a esta altura não funcionava mais, o que não era um problema, afinal, o tempo já não importava, enquanto ajustava os óculos que compensavam a falta de visão, consequência dos anos passados, e escrevia suas lástimas em um guardanapo sujo.

Eu nunca me aprofundei muito nesse assunto, mas tenho certeza que se eu me envolvesse um pouco mais, só poderia chegar a uma conclusão daquela noite. Conhecendo a grandiosidade de Nelson Gonçalves, imagino que após abraçar o luto, o cantor provavelmente acenderia um cigarro, pegaria um violão e exporia os seus pesares para todos os presentes, interpretando a mais bela canção que os brasileiros tiveram o privilégio de escutar. Por consequência, não haveria homem, mulher ou criança no recinto que fosse capaz de contemplar tamanha obra e não se encontrar em prantos.

Mas não. Minha imaginação me enganou por todos estes anos. Na verdade o compositor é Sérgio Bittencourt, uma homenagem feita no dia do falecimento do seu pai, em um guardanapo; ao menos essa parte eu acertei. Por um breve momento, eu lembro de esboçar um sorriso, chegava a ser engraçado pensar como um sentimento tão terno, que sempre existiu e sempre existirá, foi retratado de forma tão simples, capaz de transcender gerações; afinal, a autoria pode ser de Bittencourt, mas o sentimento é universal.

Desde o surgimento de grandes sociedades na história, diversas bases legais foram estabelecidas pelo homem, tendo como exemplo, a Lei de Talião no oriente, a Lei das Doze Tábuas utilizadas no período da soberania romana, a lei divina que regeu a Idade Média e os complexos sistemas jurídicos projetados na Idade Moderna.

Com a chegada da Idade Contemporânea, a humanidade finalmente se depara com a morte da justiça. Mesmo esta intricada esquematização de direitos e deveres, que regeu o homem por milênios, acabou encontrando seu fim frente a uma sociedade que se vangloria pelo seu acesso às informações, capaz de fornecer conhecimento de forma nunca antes visto, enquanto exibe uma ignorância sem precedentes.

Imagem: Emanuelle Rosa

No século XXI, a justiça se tornou moldável, capaz de ser adaptada a diferentes situações. Nós abandonamos a justiça coletiva e aderimos à justiça individual, onde as punições vem antes do julgamento, onde todos obtiveram a voz que tanto queriam e acabaram sufocando de tanto falar.

A internet, principal meio de propagação da nova “justiça virtual”, tornou-se um campo de batalha, talvez o único modo de combate que o ser humano virá a conhecer no futuro. O conflito físico se tornou crime capital, afinal, a violência é tida como algo muito grave, exceto quando praticada por meio de um desconhecido na internet, que apesar de sua covardia, tornou-se capaz de se colocar em uma condição quase tirânica; tudo pode, nada deve.

Como pode haver respeito em ambientes virtuais onde as pessoas gozam de sua “liberdade de expressão” e, simultaneamente, não estão dispostas a enfrentar os resultados de suas ações? Não ironicamente, estas redes sociais se apresentam como um retrato digno dos valores morais adotados na atualidade. Que justiça pode haver em um julgamento onde o acusado já fora previamente declarado culpado e punido, sem direito a defesa? Bem-vindos a Idade Pós-contemporânea, onde é proibida a prática de hostilidades físicas, entretanto, discussões na internet, com direitos a ofensas e ameaças, são tidas como recreação e o termo ‘consequências’ nada mais é que um conto de fadas que outrora fora respeitado pela humanidade.

Imagem: pexels

Lembra quando a gente achou que passaríamos 15 dias em casa dividindo os dias entre pães gostosos, livros que estavam há anos esperando uma chance e horas a fio com os olhos pregados em uma série qualquer? Lembra quando achamos que seria incrível trabalhar de casa, sem precisar acordar tão cedo para enfrentar o trânsito e livres para usar calças de pijama durante reuniões? 

Mas aquela ilusão de duas semanas se aproxima da marca de 500 mil mortos e  500 dias de isolamento (sem previsão de acabar) e estamos longe de conhecer todos os impactos que essa história terá em nosso futuro, além da óbvia saudade dos que partiram e de quem éramos.

Isolamento social parecia uma experiência que nos levaria de volta a nós mesmos, conectados ao que realmente gostávamos de fazer quando acompanhados de apenas nós mesmo ou das pessoas que vivem conosco. Parecia que seria possível isolar o enfrentamento a pandemia, as máscaras, o álcool em gel e “todos os protocolos de segurança” do lado de fora de casa. Aqui dentro ficaríamos acompanhados das calças de pijama, café quente, pão novo feito em casa, animais de estimação, plantas e pequenos ritos de autocuidado que salvaguardam a sanidade. Não que as expectativas de enfrentar 15 dias de pandemia (ô dó) fossem leves e positivas, havia muito medo e receio do que estava por vir,  mas nós éramos nós mesmos e usamos a memória do que conhecemos como um apoio para aguentar. E agora que quase não nos reconhecemos mais? 

É curioso visitar as memórias das primeiras semanas de isolamento e não conseguir se reconhecer naquilo que esperamos (re)encontrar quando o mundo puder ver a covid-19 como uma crise superada. As rotinas mudaram, as relações não são mais as mesmas, adaptamos o jeito de trabalhar e estudar e inventamos outras formas de celebrar os dias felizes. Diariamente chegam as notificações das redes sociais, “neste dia há 2 anos”, e tanta coisa mudou que é recorrente pensar “que saudades de mim”. 

Que saudades da energia que a gente tinha. Que saudades de mim num bar, que saudades de mim batendo perna por aí, que saudades de mim quando usava maquiagem de festa, que saudades de mim abraçando tanta gente. Que saudades da gente saudável na rua, na praia, nas salas de aula, dançando nas festas e na vida. 

Arcéli Ramos é jornalista, egressa do curso de Jornalismo da UFN e colaboradora da CentralSul.

O gosto por partidas de futebol é algo que desde pequeno, com meus 9 ou 10 anos, de idade, possuo. Quando pequeno fui influenciado por meu pai e meu avô materno a gostar do esporte, os dois fanáticos gremistas que acompanhavam quase todos os jogos do Grêmio.

Em minha casa, meu pai assistia aos jogos do Grêmio e também de várias equipes do interior do Rio Grande do Sul como, por exemplo, o Juventude de Caxias do Sul. Este que, desde aquela época, é meu segundo time do coração.

Ao redor de meu pai, eu ficava de olhos deslumbrados pelas jogadas, passes e gols que aconteciam nas partidas de futebol. A narração da partida e os gols com emoção fizeram com que eu, cada vez mais, gostasse desse esporte fantástico e sensacional.

Foto de Mike no Pexels

Não só de partidas de futebol eu gostava de assistir, gostava também de jogar, tanto em gramado, quadra, ou simples chão batido. O que eu mais queria era jogar, porque jogando futebol me sentia mais feliz e tudo era tão divertido.

O gosto pelo esporte também se passava no meu quadro e times de futebol de botão que ganhei de meu pai e que, muitas vezes, joguei com ele, meu irmão, primos ou, simplesmente, sozinho.

Foi no quadro de jogo de botão que aprendi a narrar partidas e a comentar os gols, e num simples quadro me imaginava em uma partida de verdade, onde eu era o narrador e o comentarista. A cada gol que saia, eu narrava com a emoção de como fosse uma partida real e eu estivesse narrando uma grande final. Quando saia um time de botão campeão, me sentia quase que um Galvão narrando para a televisão.

Com o passar dos anos troquei o quadro de botão por um videogame onde eu, na sala, na frente da televisão, continuei a narrar e comentar as partidas ainda com mais emoção. Mesmo gostando de narrar, meu sonho inicial era ser atleta profissional mas, como minha família não tinha condições,  foi por água abaixo meu plano de ser jogador e passei a pensar em outras profissões.

Ainda no ensino médio decidi fazer jornalismo e seguir meu sonho de trabalhar com esporte, só que de maneira diferente, não seria mais jogador e sim tentaria virar um narrador. Narrador que já era desde pequeno nos quadros de futebol de botão e no videogame em frente à televisão.

No ano de 2018 me inscrevi para o curso de Jornalismo na Universidade Franciscana, com a intenção de trabalhar com futebol e ser um dia um narrador ou comentarista profissional. Ao longo do curso tomei gosto por outras áreas do jornalismo, até pensei em mudar, porém meu gosto pelo esporte, especialmente o futebol, parece não acabar.

Cada vez mais gosto dessa modalidade esportiva. Com um convite de estágio, hoje eu atuo na área, trabalhando como produtor do programa de esportes JoGa Junto, da Rádio Medianeira 102.7, e tenho certeza que esse trabalho é o meu grande teste.

No ano de 2022 vou me formar e espero que, como narrador, comentarista ou repórter, a minha vida ganhar. Quem sabe algum dia serei como minhas inspirações, Glauco Pasa, Fernando Becker, Tino Marcos, Gustavo Berton, Paulo Brito, Galvão Bueno, Marco de Vargas ou um Pedro Ernesto Denardim e trazer muitas informações e fazer narrações.

 

Produção feita na disciplina de Jornalismo Esportivo, durante o primeiro semestre de 2021, sob coordenação da professora Glaíse Bohrer Palma.

Foto de cottonbro no Pexels

De longa data, vejo o passar do tempo como uma elipse de 24h. Só que, ao invés de um dia, refere-se a anos. A paixão pelo esporte, em específico ao tênis, é de tempos distantes. Algo que perpassava o deslumbrar dos jogos de Roland Garros e levava-me a entrar dentro de quadra, a ponto de me sentir um Nadal da vida, deslizando sobre o saibro. Difícil um jovem que já foi atleta não ter tido um ídolo para se inspirar. Nadal sempre foi mais que um jogador… um herói, dono de batalhas dentro e fora de quadra, contra adversários físicos e psicológicos. Superação… acredito que possa definir a admiração e o deslumbre acerca do atleta, não só pelo seu jogo, mas por me espelhar nele.

Recordo-me, como se fosse hoje, eu entrando em quadra, fardado de Babolat com a mesma Aero do espanhol, só que na mão direita. Batida no tênis antes do saque e dedos contorcidos antes do disparo. Calos nas mãos e a superstição em quadra, de frente com os passos, posicionamento e o pique da bola. Porém, assim como Nadal, meu adversário não era meu único obstáculo no momento do jogo. Uma das coisas mais complicadas que vivi para aprender a controlar, foram as enxurradas de pensamentos e auto menosprezo, independente de quem estivesse do outro lado da rede. Uma crença que me colocava abaixo, fazia sentir compaixão pelo adversário ao vê-lo triste, o que consequentemente me fazia entregar pontos de graça, para sua felicidade e que, posteriormente, me fariam perder o jogo. É claro que não queria entregar a partida, mas quando o adversário volta pro jogo, ele não terá o mesmo dó de você, eu garanto. Só sabia me sentir mal… com o público esperando algo diferente e a seriedade no rosto de meus pais. Não pela derrota, mas por saber o que passava na minha cabeça. Talvez me faltasse um pouco de ambição… espírito competitivo e autoconfiança, e saber que inimigos só existem dentro da quadra.

Ahh aquele cheiro de terra molhada, chão batido. As canelas e joelhos ardiam, e a terra voava com o vento, a qual fazia jus ao nome de “pé-vermelho”, remetendo ao lugar de onde vim. Sentia-me em casa. Pena que a mente ainda não era 100% minha. Por mais que a concentração existisse, um pensamento levava ao outro. Era um dominó. Além da compaixão pelo oponente, por melhor que eu pudesse ser, por mais torneios vencidos, eu estava por baixo, para mim é claro. Custou trabalhar esta maneira de ver as coisas, pois era uma crença individual, nada que fosse realidade para as outras pessoas. Para quem ouve, pode parecer tranquilo, mas só quem sentiu sabe o quão massacrante a fila de obsessões e falsas crenças perturbam nos momentos mais importantes da vida, seja no esporte, jornada profissional ou pessoal. Ainda não me sentia um Nadal… por mais que o TOC e as superstições viessem à tona, carregadas de um perfeccionismo sem limites ao colocar e tirar os pés do saibro, me faltava a seriedade em tentar me enxergar como o melhor naquele esporte, ao menos, uma vez na vida. Valorizar cada saque e procurar ver os pontos bons que eu fazia. É lógico que hoje sou outro. A superação falou mais alto e o sofrimento se transformou em aprendizado. Sim, aquele garoto da Aero amarela, de 9 anos, conseguiu se moldar dentro das quadras. Aprendizado que o tênis me proporcionou, e a quem sou extremamente grato por me ter levado ao autoconhecimento.

 

Produção feita na disciplina de Jornalismo Esportivo, durante o primeiro semestre de 2021, sob coordenação da professora Glaíse Bohrer Palma.

Em direção ao pós pandemia. Foto: Lavignea Witt.

Tenho notado certa esperança nesses últimos dias. Muito disso se deve pelo fato de que inúmeras pessoas estão sendo vacinadas contra o novo coronavírus. Se você ver o noticiário, vai notar alguns acontecimentos atípicos, como repórteres de outros países que agora não precisam mais usar máscaras em determinados lugares públicos. É difícil não criar expectativa de melhora da pandemia com realidades como essa. Já estamos todos ansiosos pelo dia em que essas restrições terão fim. E como será o depois? 

É muito comum ouvir a expressão “antes da pandemia” em conversas sobre atividades que anteriormente eram consideradas normais. Ela confirma que, embora as limitações terminem com o tempo, nada será como antes. É provável que não tenhamos mais tanta liberdade e que as marcas deixadas por esse momento irão mudar as relações pessoais, profissionais, financeiras e etc. Tudo o que éramos e tudo o que vivíamos foi modificado. 

Lembro-me de quando tudo começou. Estava em uma rotina exaustiva. Era uma correria o dia inteiro, vivia no automático. Aí tudo parou! Deixamos um pouco de lado a vida acelerada. A maioria das pessoas começou a dar importância para coisas que consideravam banais. O “tudo bem?” virou o “como está se sentindo?”. Acabamos nos conectando de formas diferentes, sem que fosse algo corriqueiro e instintivo. Entretanto, aprendemos a acelerar novamente. Além disso, estamos tendo — exceto aqueles que nunca pararam de trabalhar de modo presencial — que lidar com o fato de que nossa vida gira em torno da nossa casa, indo e voltando entre cômodos. Muitas pessoas se encontraram no home office enquanto outras vão demorar para superar os transtornos causados por essa mudança. 

Em relação ao vínculo pessoal, ativamos nosso espírito comunitário. No início da pandemia, muitas pessoas ajudaram e foram ajudadas. Mesmo em uma situação ruim, muitos estenderam a mão aos outros. Porém, com o tempo, as coisas foram se modificando. As mesmas ações já não são mais tão comuns e outras que vão na contramão do que se recomenda estão se tornando constância, como as aglomerações, por exemplo. Algumas pessoas deixaram o momento ser tomado pelo egoísmo. Mas, esperamos que colaborações comunitárias continuem ocorrendo, porque sempre existe alguém que precisa de uma ajuda. 

Harper Lee, em seu livro “O sol é para todos”, afirmou: “Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela.” Se colocar no lugar do outro, que sempre foi algo difícil, se tornou fundamental durante a pandemia. Não vivemos as mesmas coisas e não temos os mesmos problemas. Ainda assim, muitas pessoas se mostraram empáticas com as realidades alheias, aspecto que espero adiante depois da pandemia. É mais fácil sobreviver à tempestade se temos alguém com quem contar nas horas difíceis. 

E como será o pós pandemia? Apesar das muitas teorias e tendências para o que vem depois, acredito que, pelo menos, alguns aprendizados devem ser levados para essa nova realidade. Um momento atípico e cheio de dificuldades que nos deu a oportunidade de revermos hábitos e desejos da nossa vida. Qualquer oportunidade, seja boa ou ruim, deve ser refletida e apropriada como experiência para as vivências que virão. O depois da pandemia está quase aí. Vivamos! 

Este texto faz parte do Projeto Experimental em Jornalismo, do curso de Jornalismo da Universidade Franciscana, realizado pela acadêmica Lavignea Witt durante o primeiro semestre de 2021, com orientação da professora Neli Mombelli. 

Neste ano que passou, aprendemos a dar sorrisos com os olhos, a sofrermos com a falta de abraços. A distância foi como ferro em brasa que marca a pele, machuca, incomoda por um tempo, mas, aos pouco se torna como parte do nosso ser.

Se olharmos para cima, conseguimos enxergar nosso verdadeiro tamanho. Somos pequenos, ao mesmo tempo complexos, uma galáxia que orbita dentro do nosso universo particular.

Isso é viver, é não saber o que nos espera na próxima esquina, é dormir sem saber se vamos acordar, é acreditar que estamos aqui por um propósito. O ano mais difícil da nossa existência acabou. O Ano Novo chegou como um quarto escuro que adentramos com a luz apagada, sem saber o que vamos encontrar quando a luz se acender.

A única certeza que temos, é que seguiremos em frente, na espera de um abraço de quem se ama e contando os dias para sairmos por aí, livres, felizes, cantando e dançando, eternizando momentos. Como a vida tem que ser, como assim um dia foi, como logo ali voltará a ser.

 

Por Fabian Lisboa, acadêmico da UFN, formando em Jornalismo.