Por que as mulheres estão cada vez mais obcecadas por homens que existem apenas no papel?

Imagem: Divulgação/Prime Video
Quem acompanha a cultura pop e acessou as redes sociais nos últimos tempos certamente foi atropelado pelo fenômeno Off Campus. A série, uma adaptação dos livros da autora canadense Elle Kennedy, estreou recentemente no streaming Prime Video e o sucesso foi estrondoso. A história aborda o relacionamento e a vida de Hannah Wells (Ella Bright), uma jovem estudante de música que carrega um grande trauma, e Garrett Graham (Belmont Cameli), o popular capitão do time de hóquei da faculdade Briar. Clichê? Óbvio!
De mundos completamente diferentes, os protagonistas se aproximam a partir de um acordo: Hannah ajuda Garrett a estudar e ele tenta ajudá-la a conquistar Justin Kohl (Joshua Heuston), um músico por quem ela está interessada. Com o desenrolar da história, os dois inevitavelmente se envolvem, o que leva Hannah a mergulhar na vida de Garrett, um universo repleto de esportes, fraternidades e muita testosterona. E é aí que começa a nossa discussão.
Graham divide a casa com três amigos, também jogadores de hóquei. Apesar de carregarem todos os estereótipos possíveis do conhecido “hétero top”, é aí que as semelhanças com a vida real acabam. Mesmo cercados por circunstâncias propícias para agirem de forma abusiva, tóxica, preconceituosa e manipuladora, eles não o fazem. E o motivo é simples: foram escritos e dirigidos por mulheres.
Esse talvez seja o ingrediente principal para o gênero fazer tanto sucesso, especialmente com o público feminino. Encontramos ali personagens masculinos com responsabilidade emocional e afetiva, que não descontam suas frustrações nas parceiras e não perpetuam os comportamentos abusivos que sofreram na infância (como é o caso do próprio protagonista de Off Campus). São homens que levam a sério o consentimento e os limites, e que não têm medo de demonstrar sentimentos. Algo que deveria ser simples na teoria, mas que se tornou escasso ultimamente: homens adultos responsáveis, gentis, funcionais e emocionalmente inteligentes.
Em uma sociedade cada vez mais sufocante para as mulheres, bombardeadas por discursos misóginos, pela infeliz cultura red pill, e onde a solidão é considerada uma epidemia pela Organização Mundial da Saúde, uma realidade onde os homens se mostram frágeis e se permitem sentir parece cada vez mais distante.
Destaco uma das cenas da série em que Hannah, passando por um momento difícil em decorrência de um trauma da adolescência, ignora todas as mensagens e ligações do namorado. Ele também enfrentava um dia complicado, porém, ao encontrá-la, em vez de esbravejar, xingar ou descontar seu descontentamento na garota, Garrett apenas questiona se está tudo bem, e se ELE fez algo errado. Em nenhum momento há comportamentos tóxicos ou controladores. O mínimo? Sim, mas extremamente raro ultimamente. Em um mundo onde 80% das vítimas de feminicídio são assassinadas por parceiros ou ex-parceiros, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, tendo o ciúme possessivo como principal motivação, as mulheres são ensinadas, desde cedo, a sempre esperar pelo pior.
Outro sucesso recente, a série canadense Heated Rivalry (Rivalidade Ardente), adaptação dos livros de Rachel Reid, também acertou em cheio ao abordar homens com emoções fortes e sem medo de expressá-las. A trama, também ambientada no brutal e hipermasculino mundo do hóquei, traz uma grande diferença: gira em torno de um casal homossexual. Os personagens Shane Hollander (Hudson Williams) e o russo Ilya Rozanov (Connor Storrie) se apaixonam e, apesar de tentarem esconder o relacionamento devido à pressão da carreira e da sociedade, não têm medo de demonstrar o afeto que sentem um pelo outro. Homens sendo carinhosos com outros homens: o mínimo que o público feminino ama ver.

Historicamente, a própria indústria cinematográfica hollywoodiana foi construída sob o conceito do “Male Gaze” (o olhar masculino), produções feitas por homens e para homens. Nelas, as figuras femininas são retratadas como o “sexo frágil”, servindo apenas como um rosto bonito ou objeto sexual, enquanto a figura masculina é sempre o pilar forte, frio e incapaz de demonstrar sentimentos. Em contrapartida, a atualidade consagra o “Female Gaze” (o olhar feminino): homens escritos por mulheres, voltados para o público feminino. São personagens mais sensíveis, humanizados e expressivos, como vemos em produções recentes como Off Campus, Heated Rivalry e The Summer I Turned Pretty.
Diante deste cenário, surge um questionamento comum: “Se os homens reais também são criados por mulheres (mães, tias, avós, professoras), por que eles não se comportam como nos livros?”. Bom, por mais que as mulheres façam um trabalho excepcional na criação desses meninos, eles não são educados em uma microesfera. Em casa, a figura feminina pode ensinar sobre amor, respeito e criar um lugar acolhedor para expor sentimentos, mas ao pisar na rua, no entanto, esse jovem é engolido por uma sociedade patriarcal, pelo machismo estrutural e por movimentos misóginos da internet que validam a agressão, a manipulação e o preconceito. Eventualmente, a engrenagem social engole o que foi ensinado no lar. Nesse viés, é impossível não citar, também, como a demonstração de sentimentos é estritamente associada ao feminino de forma pejorativa. Homem não pode chorar ou falar sobre o que sente porque isso seria “coisa de mulher” — como se o feminino fosse um sinônimo de fraqueza ou algo ruim.
Por conta disso, o escapismo do público feminino para essas produções é frequentemente taxado como bobo, alienado ou mera fantasia infantil. Conteúdos que têm as mulheres como alvo principal são constantemente diminuídos pela crítica e pelo senso comum (Taylor Swift e seu público são a prova viva disso). Mas o fenômeno vai muito além do entretenimento. Essa obsessão literária e cinematográfica é, na verdade, um sintoma social; um grito de que as mulheres não estão satisfeitas com a realidade.

Aquela antiga história do príncipe encantado no cavalo branco mudou. As mulheres não procuram a perfeição inalcançável, e a masculinidade em si não é rejeitada. A busca real é por um refúgio, a garantia de segurança e afeto sem o medo da violência. O sucesso estrondoso dessas histórias é a prova de que o comportamento padrão masculino da atualidade já não é mais aceitável.
No fim das contas, a grande diferença de Garrett Graham, ou de qualquer outro homem literário, é a sua humanidade, o que chega a ser cômico para um personagem fictício. Os “homens escritos por mulheres” fazem sucesso porque não representam uma ameaça à nossa existência. Enquanto vivermos em uma sociedade onde as telas e as páginas dos livros são os únicos lugares onde o consentimento é sexy, a vulnerabilidade é vista como algo bonito e o amor não é sinônimo de medo, o público feminino continuará buscando abrigo na ficção. Em uma realidade que nos mata, infelizmente, as páginas escritas por mulheres tornaram-se o único lugar seguro para amar um homem.




